{"id":572720,"date":"2026-07-21T22:06:45","date_gmt":"2026-07-22T02:06:45","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=572720"},"modified":"2026-07-21T22:06:45","modified_gmt":"2026-07-22T02:06:45","slug":"a-constituicao-nao-estava-valendo-advogado-lanca-livro-com-relatos-do-8-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=572720","title":{"rendered":"\u201cA Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava valendo\u201d: advogado lan\u00e7a livro com relatos do 8 de janeiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Tr\u00eas anos e meio depois dos atos de 8 de janeiro de 2023, o advogado Cl\u00e1udio Caivano afirma que as viola\u00e7\u00f5es de direitos que marcaram as pris\u00f5es realizadas nos dias seguintes \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es continuam presentes nos processos em andamento. A conclus\u00e3o \u00e9 o eixo da segunda edi\u00e7\u00e3o de <em>8 de Janeiro \u2013 A Hist\u00f3ria N\u00e3o Contada<\/em>, livro em que re\u00fane relatos de sua atua\u00e7\u00e3o na defesa de cerca de 20 acusados, epis\u00f3dios vividos nos primeiros dias em Bras\u00edlia e uma an\u00e1lise das decis\u00f5es judiciais relacionadas ao caso.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 coluna <em><strong>Entrelinhas <\/strong><\/em>e ao programa<strong> <em>Sem Rodeios<\/em><\/strong>, da <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, Caivano diz que decidiu atualizar a obra ap\u00f3s acompanhar a tramita\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es penais e acrescentar o que considera novas irregularidades identificadas ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas anos. &#8220;A gente n\u00e3o s\u00f3 estava vivendo um estado de exce\u00e7\u00e3o naquele momento, como continua vivenciando esse estado de exce\u00e7\u00e3o&#8221;, garante.<\/p>\n<p>Segundo o advogado, a primeira edi\u00e7\u00e3o foi escrita ainda em abril de 2023, poucas semanas ap\u00f3s os acontecimentos. Na \u00e9poca, ele decidiu registrar a experi\u00eancia de quem acompanhou as pris\u00f5es desde os primeiros dias. Caivano afirma ter sido o primeiro advogado de fora do Distrito Federal a chegar a Bras\u00edlia para prestar assist\u00eancia aos detidos e diz que a atua\u00e7\u00e3o ao lado de cerca de 20 investigados moldou sua percep\u00e7\u00e3o sobre o caso.<\/p>\n<p>&#8220;Tive acesso imediato ao que estava acontecendo, no sentido de perceber que a gente j\u00e1 estava vivendo um estado de exce\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, &#8220;a Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava valendo mais absolutamente nada&#8221;.<\/p>\n<p>Agora, na segunda edi\u00e7\u00e3o, o advogado conta ter acrescentado mais de 60 p\u00e1ginas ao livro, reunindo o que considera nulidades processuais verificadas durante a tramita\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es penais.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3rias dos primeiros dias em Bras\u00edlia<\/h2>\n<p>Ao longo da entrevista, Caivano relembrou epis\u00f3dios que vivenciou nos dias 9 e 10 de janeiro de 2023, quando passou a prestar assist\u00eancia jur\u00eddica aos presos. Segundo ele, o contato direto com os detidos refor\u00e7ou a percep\u00e7\u00e3o de que a maioria acreditava estar exercendo um direito garantido pela Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O advogado detalha que chegou ao local convencido de que encontraria um cen\u00e1rio de tens\u00e3o, mas diz ter se surpreendido com o perfil das pessoas que conheceu. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, elas foram privadas de liberdade sem que lhes fossem asseguradas garantias b\u00e1sicas previstas na legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas foram presas sem voz de pris\u00e3o, sem um motivo justo, sem que lhes fosse declarado o destino de onde elas estavam indo. Ao contr\u00e1rio, elas foram enganadas&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Caivano conta que um dos epis\u00f3dios que mais o marcaram envolveu um jovem com transtorno do espectro autista. O rapaz, segundo ele, estava desacompanhado da fam\u00edlia e aparentava estar desorientado. Ap\u00f3s conseguir contato com a m\u00e3e, que morava em Goi\u00e1s, reuniu a documenta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e levou o caso \u00e0 Pol\u00edcia Federal. &#8220;Eu consegui, conversando com um delegado federal, liberar esse menino&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Mais do que o desfecho do caso, diz o advogado, o epis\u00f3dio alterou sua percep\u00e7\u00e3o sobre quem estava entre os presos. &#8220;Aquilo, para mim, marcou profundamente para a gente entender o tipo de pessoas que estavam l\u00e1. Pessoas comuns, pessoas como n\u00f3s, pessoas que acreditavam que o direito de manifesta\u00e7\u00e3o ainda valia&#8221;, revela.<\/p>\n<p>Outro atendimento acabou se tornando, segundo Caivano, um dos momentos mais emblem\u00e1ticos daqueles primeiros dias. Um homem que sofria de uma doen\u00e7a degenerativa procurou o advogado e explicou que dependia de um medicamento para evitar o enrijecimento da musculatura. Mesmo depois de receber os laudos enviados pela fam\u00edlia, a autoridade policial continuava preenchendo o auto de pris\u00e3o em flagrante.<\/p>\n<p>Caivano afirma que interrompeu o procedimento para alertar sobre o risco de agravamento do quadro cl\u00ednico do preso. A rea\u00e7\u00e3o da delegada, segundo ele, foi inesperada. &#8220;&#8216;Se ele tem essa doen\u00e7a, o que ele estava fazendo l\u00e1?&#8217;, ela me perguntou&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>O advogado diz que respondeu imediatamente, argumentando que a condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade n\u00e3o retirava do homem o direito de participar de uma manifesta\u00e7\u00e3o. &#8220;&#8216;A senhora j\u00e1 ouviu falar de uma palavra chamada liberdade?'&#8221;, recorda ter respondido. Em seguida, passou a questionar os fundamentos da pris\u00e3o. &#8220;A senhora encontrou ele com alguma coisa? Ele estava armado? Estava praticando um crime?&#8221;, afirma ter perguntado. Poucos minutos depois, conta, a delegada retornou e encaminhou o homem para a fila das pessoas que seriam liberadas.<\/p>\n<p>Para o advogado, epis\u00f3dios como esses refor\u00e7aram a convic\u00e7\u00e3o de que o Estado deixou de observar princ\u00edpios constitucionais b\u00e1sicos. Ao comparar a situa\u00e7\u00e3o com per\u00edodos autorit\u00e1rios da hist\u00f3ria, ele afirma que governos passam a reduzir o espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o quando o poder estatal deixa de encontrar limites.<\/p>\n<h2>A cr\u00edtica ao Judici\u00e1rio e o conceito de &#8220;juristocracia&#8221;<\/h2>\n<p>Ao analisar a atua\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o 8 de Janeiro, Caivano afirma que o problema n\u00e3o estaria restrito a decis\u00f5es espec\u00edficas de ministros ou tribunais, mas faria parte de um processo mais amplo de concentra\u00e7\u00e3o de poder no Judici\u00e1rio. Para explicar sua vis\u00e3o, o advogado recorre ao conceito de &#8220;juristocracia&#8221;, desenvolvido pelo professor Ran Hirschl, segundo ele, em estudos sobre o avan\u00e7o do protagonismo judicial em diferentes pa\u00edses.<\/p>\n<p>Segundo Caivano, o fen\u00f4meno ocorre quando temas originalmente ligados ao debate pol\u00edtico passam a ser decididos cada vez mais pelo Judici\u00e1rio, ampliando o poder das cortes constitucionais.<\/p>\n<p>Ele afirma que esse processo cria uma estrutura em que integrantes do sistema passam a enxergar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es como naturalmente corretas, reduzindo os mecanismos externos de controle. &#8220;\u00c9 uma elite, uma casta da sociedade, que acabou sendo blindada&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do advogado, a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, ao concentrar uma s\u00e9rie de direitos e ampliar o papel do Supremo Tribunal Federal como int\u00e9rprete final dessas normas, acabou fortalecendo a influ\u00eancia do Judici\u00e1rio sobre a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Para ele, esse ambiente teria contribu\u00eddo para o que considera uma normaliza\u00e7\u00e3o de medidas excepcionais. &#8220;Basta ver tudo o que tem feito Alexandre de Moraes e est\u00e1 todo mundo calado&#8221;, aponta.<\/p>\n<h2>O papel da OAB e da imprensa<\/h2>\n<p>Ao comentar a aus\u00eancia de rea\u00e7\u00f5es institucionais que considera necess\u00e1rias, Caivano direcionou cr\u00edticas tamb\u00e9m \u00e0 advocacia e \u00e0 imprensa. Segundo ele, a falta de posicionamento mais firme de setores organizados da sociedade teria permitido que decis\u00f5es consideradas controversas se tornassem parte da rotina.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o advogado opina que a entidade deixou de cumprir o papel hist\u00f3rico de defesa das garantias individuais. &#8220;A OAB silencia porque os advogados est\u00e3o concordando com todos esses desmandos, com essas ilegalidades&#8221;, declara.<\/p>\n<p>Caivano atribui essa postura, em parte, ao sistema de indica\u00e7\u00e3o de advogados para vagas em tribunais por meio do chamado quinto constitucional. Na vis\u00e3o dele, a possibilidade de integrantes da advocacia chegarem a posi\u00e7\u00f5es na magistratura criaria uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e cautela. &#8220;A OAB fica esperando, grosseiramente, por um quinto constitucional&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>O advogado tamb\u00e9m critica o comportamento da imprensa diante dos acontecimentos recentes. Segundo ele, a cobertura jornal\u00edstica teria contribu\u00eddo para tornar aceit\u00e1veis medidas que, em sua avalia\u00e7\u00e3o, deveriam gerar maior debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;A imprensa trata tudo como se fosse normal&#8221;, opina. Para Caivano, esse processo de aceita\u00e7\u00e3o gradual de decis\u00f5es excepcionais \u00e9 um dos elementos que explicam a perman\u00eancia do cen\u00e1rio atual.<\/p>\n<h2>A possibilidade de revis\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Questionado sobre a possibilidade de anula\u00e7\u00e3o dos processos relacionados ao 8 de Janeiro, Caivano afirma que existem precedentes internacionais de revis\u00e3o de condena\u00e7\u00f5es consideradas injustas, mas avalia que esse caminho seria dif\u00edcil no Brasil.<\/p>\n<p>O advogado cita casos de pa\u00edses como Alemanha, Argentina, Espanha e Portugal, onde, segundo ele, houve reconhecimento posterior de excessos cometidos pelo Estado. &#8220;A anula\u00e7\u00e3o de processos por reconhecimento de que o Judici\u00e1rio cometeu excessos aconteceu em poucos pa\u00edses no mundo&#8221;, observa.<\/p>\n<p>No entanto, ele diz n\u00e3o acreditar que o Brasil esteja pr\u00f3ximo de adotar uma medida semelhante. Para Caivano, uma eventual mudan\u00e7a dependeria de press\u00e3o social e de uma transforma\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre o tema.<\/p>\n<p>Segundo ele, seria necess\u00e1rio que diferentes setores da sociedade reconhecessem a exist\u00eancia de problemas nos processos para que o Judici\u00e1rio revisasse sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o. &#8220;O convencimento da opini\u00e3o p\u00fablica passa por esses entes: pela classe dos advogados, pela imprensa, pela pr\u00f3pria elite&#8221;, avalia.<\/p>\n<h2>O debate sobre a anistia<\/h2>\n<p>Apesar das dificuldades apontadas, Caivano considera que a anistia continua sendo a alternativa mais adequada para solucionar a situa\u00e7\u00e3o dos condenados pelos atos de 8 de Janeiro. Ele afirma que estudou o hist\u00f3rico das anistias brasileiras antes de elaborar uma proposta legislativa sobre o tema.<\/p>\n<p>Segundo o advogado, o Brasil tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de medidas desse tipo em momentos de forte conflito pol\u00edtico.&#8221; O Brasil sempre teve anistias. Foram 48, contando com a \u00faltima de 1979&#8243;, lembra.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, essas medidas foram utilizadas em diferentes momentos para encerrar ciclos de confronto. &#8220;Toda vez que uma polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 exacerbada, existe um evento em que h\u00e1 necessidade de algum tipo de interven\u00e7\u00e3o. Essa interven\u00e7\u00e3o acontece atrav\u00e9s da anistia&#8221;, .destaca.<\/p>\n<p>Caivano afirma que come\u00e7ou a defender a proposta ap\u00f3s participar da CPMI do 8 de Janeiro e concluir que, em sua vis\u00e3o, havia necessidade de uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e jur\u00eddica para o caso.<\/p>\n<p>Segundo ele, o texto foi estruturado com base na compet\u00eancia constitucional do Congresso Nacional para conceder anistia e chegou a avan\u00e7ar na C\u00e2mara dos Deputados, mas acabou perdendo espa\u00e7o durante a tramita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele critica a substitui\u00e7\u00e3o do debate sobre anistia por uma proposta relacionada \u00e0 dosimetria das penas, afirmando que isso alterou o objetivo inicial da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 possibilidade, sim, de haver a rediscuss\u00e3o&#8221;, diz. &#8220;Durante um eventual processo de transi\u00e7\u00e3o, abre-se uma oportunidade para voltar a essa discuss\u00e3o e, quem sabe, aprovar ainda em 2026&#8221;, ponderou. De acordo com o advogado, a anistia seria uma forma de encerrar um per\u00edodo de conflito institucional. &#8220;Era a \u00fanica sa\u00edda existente para o Brasil&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos e meio depois dos atos de 8 de janeiro de 2023, o advogado Cl\u00e1udio Caivano afirma que as&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":572721,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-572720","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/572720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=572720"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/572720\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/572721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=572720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=572720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=572720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}