{"id":566754,"date":"2026-07-19T19:18:45","date_gmt":"2026-07-19T23:18:45","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=566754"},"modified":"2026-07-19T19:18:45","modified_gmt":"2026-07-19T23:18:45","slug":"como-trump-esta-recriando-a-arquitetura-de-washington-a-sua-imagem-e-semelhanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=566754","title":{"rendered":"Como Trump est\u00e1 recriando a arquitetura de Washington \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Shaun Byrnes sempre planejou ser enterrado no Cemit\u00e9rio Nacional de Arlington. Veterano da Guerra do Vietn\u00e3, ele tinha esse direito garantido havia anos. Agora, hesita. &#8220;Estou reconsiderando, e meus colegas tamb\u00e9m&#8221;, disse \u00e0 CBS News. O motivo \u00e9 um arco. Um arco de 76 metros, mais alto do que a maioria dos pr\u00e9dios de Washington, que o governo de Donald Trump planeja erguer bem em frente \u00e0 entrada do cemit\u00e9rio, na margem do rio Potomac. Byrnes \u00e9 um dos tr\u00eas veteranos que processam a Casa Branca para impedir a obra. Ele resume a indigna\u00e7\u00e3o numa frase: &#8220;\u00c9 desrespeitoso.&#8221;<\/p>\n<p>O monumento, batizado informalmente pelos cr\u00edticos de &#8220;Arco de Trump&#8221;, \u00e9 s\u00f3 a ponta mais vis\u00edvel de um projeto bem maior. Desde que voltou ao poder, o republicano tem remodelado o cora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico dos Estados Unidos com uma intensidade que poucos presidentes adotaram. Anunciou reformas no campo de golfe p\u00fablico \u00e0s margens do Potomac. Prop\u00f4s um &#8220;Jardim dos Her\u00f3is&#8221; com 250 esculturas. Demoliu, sem aviso pr\u00e9vio, a ala leste da Casa Branca (constru\u00edda em 1902 e ampliada ao longo do s\u00e9culo 20)\u00a0 para erguer em seu lugar um sal\u00e3o de festas de 8.360 metros quadrados. E colocou o pr\u00f3prio nome no Kennedy Center, decis\u00e3o depois revertida por um juiz.<\/p>\n<p>O gosto por dourado, que j\u00e1 era conhecido do p\u00fablico desde os tempos da Trump Tower em Nova York, migrou para dentro do Sal\u00e3o Oval, hoje coberto de moldura sobre moldura em folha de ouro. Para os cr\u00edticos, \u00e9 cafonice pura. Para os apoiadores do presidente, \u00e9 grandiosidade recuperada. A quest\u00e3o, no fundo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre gosto: \u00e9 sobre o que uma capital deve representar e a quem cabe decidir isso.<\/p>\n<h2>Do neocl\u00e1ssico ao concreto cru<\/h2>\n<p>Washington nasceu, no fim do s\u00e9culo 18, como um projeto neocl\u00e1ssico. O arquiteto franc\u00eas Pierre L&#8217;Enfant desenhou a cidade em torno de eixos monumentais, c\u00fapulas e colunas que citavam Roma e a Gr\u00e9cia antiga, um vocabul\u00e1rio deliberadamente escolhido para sugerir que a jovem rep\u00fablica americana era herdeira das grandes civiliza\u00e7\u00f5es ocidentais. O Capit\u00f3lio, a Casa Branca e o Lincoln Memorial seguem essa l\u00f3gica at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo 20, entrou em cena o brutalismo. Pr\u00e9dios federais como o FBI Building e o Departamento de Habita\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Urbano trocaram o m\u00e1rmore claro por concreto aparente, em blocos maci\u00e7os que a cr\u00edtica especializada elogiava como &#8220;ousados&#8221; e &#8220;democr\u00e1ticos&#8221;. D\u00e9cadas depois, tamb\u00e9m passaram a ser defendidos tamb\u00e9m sob a bandeira da sustentabilidade. Para boa parte do p\u00fablico, por\u00e9m, nunca deixaram de parecer o que muitos veem \u00e0 primeira vista: bunkers cinzentos.<\/p>\n<p>\u00c9 contra esse pano de fundo que a reforma de Trump ganha sentido. N\u00e3o \u00e9 neocl\u00e1ssica nem brutalista. Beira o rococ\u00f3, tem tiques de kitsch, e ainda n\u00e3o encontrou um nome que a defina com precis\u00e3o.<\/p>\n<h2>&#8220;Uma fase merov\u00edngia&#8221;<\/h2>\n<p>Num post na rede social X que circulou nos \u00faltimos dias, o pesquisador americano Jacob A. Shell prop\u00f4s uma leitura pouco \u00f3bvia para o fen\u00f4meno. Shell diz n\u00e3o gostar, ele mesmo, de arquitetura dourada e espalhafatosa. No entando, defende que Washington merece essa fase, como uma esp\u00e9cie de &#8220;castigo k\u00e1rmico&#8221; pela falsa seriedade da &#8220;Washington modernista&#8221;, em que qualquer \u00e2ngulo aleat\u00f3rio sobre um concreto sisudo era celebrado pela cr\u00edtica como &#8220;corajoso&#8221;.<\/p>\n<p>Para ele, a arquitetura contempor\u00e2nea se tornou vazia e espiritualmente falida, e precisa de um recome\u00e7o. Fazendo refer\u00eancia ao fil\u00f3sofo alem\u00e3o Oswald Spengler, que via civiliza\u00e7\u00f5es como organismos com ciclos de nascimento, apogeu e decad\u00eancia, Shell aponta que esse recome\u00e7o passaria por uma &#8220;fase merov\u00edngia&#8221;: uma esp\u00e9cie de inf\u00e2ncia barulhenta, de cores berrantes, antes de qualquer maturidade est\u00e9tica. A \u00fanica sa\u00edda, escreveu o pesquisadpr, \u00e9 atravessar essa fase. Por isso ela seria, \u00e0 sua maneira, bem-vinda.<\/p>\n<p>\u00c9 uma leitura generosa, e longe de consensual. Mas capta algo real: o inc\u00f4modo de Trump com d\u00e9cadas de arquitetura oficial que ele considera fria e sem alma, e a disposi\u00e7\u00e3o de substitu\u00ed-la por algo visceralmente diferente \u2014 ainda que o pre\u00e7o est\u00e9tico, para muitos, seja alto.<\/p>\n<h2>Um arco, seis processos e uma comiss\u00e3o s\u00f3 de indicados<\/h2>\n<p>O caso do arco ilustra bem o m\u00e9todo. A ideia n\u00e3o \u00e9 nova: o arquiteto Rodney Mims Cook Jr., hoje presidente da Comiss\u00e3o de Belas Artes dos Estados Unidos (o \u00f3rg\u00e3o federal respons\u00e1vel por aprovar projetos de grande porte na capital), j\u00e1 a propunha como cidad\u00e3o comum havia 26 anos. Sua justificativa \u00e9 urban\u00edstica: o cruzamento onde o monumento ficaria seria hoje um acesso &#8220;insuficiente&#8221; ao Cemit\u00e9rio de Arlington, e o espa\u00e7o aberto do entorno comportaria, segundo ele, &#8220;um arco propriamente dimensionado&#8221; \u2014 dois metros mais alto que o Arco do Triunfo de Paris, mas cercado de parque, n\u00e3o de cidade.<\/p>\n<p>Os cr\u00edticos discordam. Charles Birnbaum, presidente da Cultural Landscape Foundation e estudioso do desenho urbano de Washington, compara a capital a uma colcha de retalhos, montada ao longo de gera\u00e7\u00f5es para preservar linhas de vis\u00e3o entre monumentos carregados de significado hist\u00f3rico. Um arco de 76 metros na base de Arlington, argumenta, romperia justamente o eixo visual entre o cemit\u00e9rio, erguido durante a Guerra Civil, e o memorial a Abraham Lincoln, o presidente que a encerrou.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o de Belas Artes, hoje formada inteiramente por indicados de Trump, aprovou o projeto do arco em maio, em menos de dois meses de an\u00e1lise; muito menos tempo do que costuma levar um empreendimento dessa escala. A mesma comiss\u00e3o tamb\u00e9m deu sinal verde, com rapidez semelhante, ao sal\u00e3o de festas que substituir\u00e1 a ala leste. Rebecca Miller, diretora-executiva da D.C. Preservation League, entidade que j\u00e1 move seis a\u00e7\u00f5es judiciais contra o governo por causa dessas obras, credita a pressa \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de Trump com o pr\u00f3prio legado. &#8220;Mas a cidade n\u00e3o \u00e9 o portf\u00f3lio pessoal dele&#8221;, disse \u00e0 CBS News.<\/p>\n<p>A pressa tamb\u00e9m tem cobrado seu pre\u00e7o t\u00e9cnico. A reforma do espelho d&#8217;\u00e1gua do National Mall, por exemplo, j\u00e1 apresenta problemas de veda\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o de algas, segundo Miller. E parte do material retirado na demoli\u00e7\u00e3o da ala leste, descrito pelo governo apenas como resultado de &#8220;manuten\u00e7\u00e3o adiada&#8221;, com presen\u00e7a de amianto e tinta de chumbo, acabou despejado num parque pr\u00f3ximo, sem que os laudos t\u00e9cnicos citados pela administra\u00e7\u00e3o tivessem sido tornados p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O custo do conjunto de obras j\u00e1 soma mais de US$ 100 milh\u00f5es e deve chegar perto de US$ 1 bilh\u00e3o, somando recursos p\u00fablicos e privados \u2014 pelo menos US$ 80 milh\u00f5es vieram de verbas remanejadas dos parques nacionais. Em nota \u00e0 CBS News, o Departamento do Interior defendeu o investimento: &#8220;Grandes na\u00e7\u00f5es constroem estruturas e obras de arte que cultivam orgulho nacional e amor \u00e0 p\u00e1tria.&#8221;<\/p>\n<h2>Monumento em vida<\/h2>\n<p>O que separa o caso do arco de outros marcos da capital, como o Washington Monument, o Lincoln Memorial e o Jefferson Memorial, \u00e9 justamente a cronologia. Nenhum dos tr\u00eas presidentes homenageados encomendou o pr\u00f3prio monumento; todos foram erguidos depois da morte. Byrnes lembra o detalhe, e n\u00e3o hesita em concluir: quando perguntado se acha que Trump quer um monumento para si mesmo enquanto ainda governa, ele apenas ri: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o acha?&#8221;<\/p>\n<p>Trump nega qualquer vaidade no projeto e defende, publicamente, que as obras deixar\u00e3o Washington &#8220;mais bonita&#8221;. Rodney Mims Cook Jr. vai no mesmo sentido e evoca um paralelo elogioso: para ele, o pa\u00eds tem a sorte de contar, agora, com &#8220;um presidente construtor&#8221;, capaz de apreciar o estilo de Thomas Jefferson e devolver \u00e0 capital algo da &#8220;cidade brilhante numa colina&#8221; prometida por Ronald Reagan.<\/p>\n<p>Fica em aberto se o julgamento da hist\u00f3ria vai se aproximar mais da leitura otimista de Cook e Shell ou da alarmada por Birnbaum, Miller e Byrnes, que veem um patrim\u00f4nio simb\u00f3lico sendo reescrito por decreto e sem consulta. Entre um arco dourado e um mausol\u00e9u de concreto, Washington descobre que tamb\u00e9m o bom gosto \u00e9, em boa medida, uma quest\u00e3o de poder.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Shaun Byrnes sempre planejou ser enterrado no Cemit\u00e9rio Nacional de Arlington. 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