{"id":563098,"date":"2026-07-18T05:02:00","date_gmt":"2026-07-18T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=563098"},"modified":"2026-07-18T05:02:00","modified_gmt":"2026-07-18T09:02:00","slug":"argentina-de-messi-ou-a-espanha-de-yamal-economia-explica-qual-selecao-e-a-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=563098","title":{"rendered":"Argentina de Messi ou a Espanha de Yamal? Economia explica qual sele\u00e7\u00e3o \u00e9 a melhor"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Neste domingo, quando Argentina e Espanha entrarem em campo para disputar a final da Copa do Mundo, milh\u00f5es de pessoas esperar\u00e3o que um craque decida o t\u00edtulo. Na segunda-feira, as manchetes provavelmente ter\u00e3o um \u00fanico protagonista: o autor do gol da vit\u00f3ria. Mas a Economia voltaria os olhos para outra coisa.<\/p>\n<p>A maioria acompanhar\u00e1 a disputa esperando que um craque decida o t\u00edtulo. Talvez Lionel Messi encontre um passe imposs\u00edvel. Talvez Lamine Yamal invente um drible inesperado. Talvez Juli\u00e1n \u00c1lvarez ou Nico Williams apare\u00e7am no momento decisivo. Na segunda-feira, muito provavelmente, as manchetes ter\u00e3o um \u00fanico protagonista: o autor do gol da vit\u00f3ria. A Economia, por\u00e9m, contaria outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Antes de perguntar quem marcou o gol, ela faz uma pergunta mais interessante: quem realmente o produziu? O \u00faltimo toque costuma monopolizar os aplausos. Mas, antes dele, algu\u00e9m recuperou a posse de bola, outro ocupou o espa\u00e7o certo, um terceiro atraiu a marca\u00e7\u00e3o e um passe tornou poss\u00edvel o seguinte. O gol \u00e9 apenas a parte vis\u00edvel de uma sequ\u00eancia de decis\u00f5es coordenadas. \u00c9 justamente a\u00ed que come\u00e7a a explica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do futebol.<\/p>\n<p>Os olhos da torcida costumam enxergar um her\u00f3i. A Economia procura revelar algo menos vis\u00edvel: a rede de intera\u00e7\u00f5es que tornou aquele momento poss\u00edvel. Gols podem ter um autor, mas quase nunca s\u00e3o obra de uma \u00fanica pessoa.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva ajuda a compreender uma das ideias mais elegantes da teoria econ\u00f4mica: um time n\u00e3o \u00e9 apenas a soma de onze jogadores talentosos. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o na qual o desempenho de cada atleta depende, em grande medida, daquilo que seus companheiros conseguem produzir. Em Economia, essa abordagem ficou conhecida como <em>Economics of Teams<\/em>. Embora tenha sido desenvolvida para compreender empresas, hospitais, centros de pesquisa e organiza\u00e7\u00f5es militares, poucos ambientes ilustram seus princ\u00edpios com tanta clareza quanto um campo de futebol.<\/p>\n<p>A teoria come\u00e7ou a ganhar forma quando os economistas Jacob Marschak e Roy Radner procuraram responder a uma pergunta que continua extremamente atual: como pessoas que possuem apenas informa\u00e7\u00f5es parciais conseguem agir como se fossem uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o? O futebol oferece uma resposta quase perfeita.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Grandes equipes n\u00e3o s\u00e3o formadas pelos onze melhores jogadores. S\u00e3o formadas pelos onze jogadores que melhor funcionam juntos. Essa conclus\u00e3o ultrapassa o futebol<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nenhum jogador consegue enxergar todo o campo. Cada atleta observa apenas uma pequena parte do jogo, interpreta informa\u00e7\u00f5es incompletas e precisa decidir em poucos segundos. Ainda assim, onze jogadores conseguem coordenar centenas de decis\u00f5es durante uma partida, ajustando continuamente seus movimentos \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos companheiros e dos advers\u00e1rios. \u00c9 justamente dessa coordena\u00e7\u00e3o que nasce aquilo que o torcedor costuma chamar simplesmente de &#8220;entrosamento&#8221;.<\/p>\n<p>Para a Economia, por\u00e9m, o fen\u00f4meno \u00e9 mais profundo. Quando uma equipe funciona bem, ela passa a produzir algo que nenhum jogador conseguiria gerar sozinho. Foi essa percep\u00e7\u00e3o que levou Armen Alchian e Harold Demsetz, no in\u00edcio dos anos 1970, a ampliar a teoria das equipes por meio do conceito de produ\u00e7\u00e3o conjunta. Em muitas atividades econ\u00f4micas, argumentaram, n\u00e3o faz sentido tentar medir exatamente quanto cada indiv\u00edduo contribuiu para o resultado final, porque o produto simplesmente n\u00e3o existiria sem o esfor\u00e7o combinado de todos.<\/p>\n<p>Poucos exemplos ilustram essa ideia t\u00e3o bem quanto um gol. Quem realmente o produziu? O atacante que finalizou? O meia que deu o passe? O volante que recuperou a bola? O lateral que abriu espa\u00e7o? O zagueiro que iniciou a constru\u00e7\u00e3o? Ou o goleiro que come\u00e7ou toda a jogada com uma reposi\u00e7\u00e3o precisa? A resposta da Economia \u00e9 surpreendentemente simples: todos produziram o gol.<\/p>\n<p>Quanto maior a complementaridade entre os jogadores, menor a import\u00e2ncia de atribuir o resultado a um \u00fanico atleta. O verdadeiro protagonista passa a ser a equipe. O valor de um jogador n\u00e3o est\u00e1 apenas no que ele faz, mas naquilo que permite que os demais fa\u00e7am. Essa forma de enxergar o jogo muda completamente a maneira de avaliar um atleta.<\/p>\n<p>No futebol, costuma-se medir o desempenho por gols, assist\u00eancias, desarmes ou defesas. S\u00e3o estat\u00edsticas importantes, mas insuficientes. Elas registram o resultado final da jogada, n\u00e3o a qualidade das conex\u00f5es que a tornaram poss\u00edvel. \u00c9 por isso que dois jogadores com n\u00fameros muito semelhantes podem produzir impactos completamente diferentes quando atuam em equipes distintas.<\/p>\n<p>Um volante que protege a defesa permite que os laterais avancem com mais liberdade. Um centroavante que prende os zagueiros abre espa\u00e7os para os pontas. Um meia acelera a circula\u00e7\u00e3o da bola e faz com que todos recebam a bola em melhores condi\u00e7\u00f5es. Grande parte dessa contribui\u00e7\u00e3o nunca aparece na s\u00famula da partida, mas aparece no desempenho coletivo. \u00c9 justamente a\u00ed que a Economia oferece uma forma diferente de medir valor.<\/p>\n<p>Edward Lazear, um dos criadores da <em>Personnel Economics<\/em>, mostrou que a produtividade raramente depende apenas das habilidades individuais. Ela resulta da intera\u00e7\u00e3o entre pessoas, dos incentivos existentes e da forma como diferentes compet\u00eancias se complementam dentro de uma organiza\u00e7\u00e3o. No futebol acontece exatamente o mesmo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Campe\u00f5es raramente s\u00e3o constru\u00eddos pelo brilho isolado de um craque. Eles surgem quando talentos individuais conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Um excelente lan\u00e7ador produz mais quando encontra um atacante capaz de atacar os espa\u00e7os. Um lateral ofensivo torna-se mais eficiente quando conta com um volante disciplinado para proteger seu setor. Um goleiro com boa sa\u00edda de bola vale ainda mais quando atua ao lado de zagueiros capazes de iniciar a constru\u00e7\u00e3o das jogadas. A produtividade deixa de ser uma caracter\u00edstica exclusivamente individual. Ela passa a ser uma propriedade da equipe. Contratar talentos \u00e9 importante. Combinar talentos \u00e9 decisivo. Essa talvez seja uma das ideias mais \u00fateis que a Economia pode oferecer aos dirigentes esportivos.<\/p>\n<p>O verdadeiro desafio de um clube ou sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em reunir os melhores jogadores dispon\u00edveis. Consiste em formar combina\u00e7\u00f5es capazes de produzir complementaridades. \u00c9 justamente por isso que treinadores conseguem, com frequ\u00eancia, transformar elencos modestos em equipes altamente competitivas. Eles raramente tornam seus jogadores mais talentosos. O que fazem \u00e9 aumentar a qualidade das intera\u00e7\u00f5es entre eles.<\/p>\n<p>Em linguagem econ\u00f4mica, elevam a produtividade da produ\u00e7\u00e3o conjunta. Sob essa perspectiva, o treinador deixa de ser apenas um estrategista ou motivador. Torna-se o arquiteto das complementaridades, respons\u00e1vel por construir um sistema em que o desempenho de cada atleta potencializa o dos demais. Talvez seja essa a raz\u00e3o pela qual os grandes t\u00e9cnicos estejam hoje entre os profissionais mais valorizados do futebol mundial.<\/p>\n<p>A mesma l\u00f3gica tamb\u00e9m explica um fen\u00f4meno aparentemente contradit\u00f3rio: por que tantas equipes repletas de estrelas fracassam. Mais talento nem sempre significa melhor desempenho coletivo. Quando v\u00e1rios jogadores ocupam os mesmos espa\u00e7os, executam fun\u00e7\u00f5es semelhantes ou disputam o protagonismo da mesma forma, surgem redund\u00e2ncias. O resultado pode ser uma equipe menos eficiente justamente porque seus talentos deixam de ser complementares. A Economia desafia, assim, uma das cren\u00e7as mais difundidas do esporte.<\/p>\n<p>Grandes equipes n\u00e3o s\u00e3o formadas pelos onze melhores jogadores. S\u00e3o formadas pelos onze jogadores que melhor funcionam juntos. Essa conclus\u00e3o ultrapassa o futebol.<\/p>\n<p>Ela ajuda a explicar por que algumas empresas inovam mais do que outras, por que determinados hospitais obt\u00eam melhores resultados, por que certos laborat\u00f3rios produzem mais descobertas cient\u00edficas e por que algumas organiza\u00e7\u00f5es conseguem transformar recursos semelhantes em desempenhos extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A vantagem competitiva raramente nasce apenas do talento individual. Ela nasce da qualidade das rela\u00e7\u00f5es constru\u00eddas entre pessoas. Essa forma de pensar muda n\u00e3o apenas a maneira de analisar partidas de futebol, mas tamb\u00e9m a forma como clubes s\u00e3o administrados.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a estrat\u00e9gia dominante consistiu em reunir os melhores jogadores dispon\u00edveis. A Economia sugere uma pergunta diferente: esses jogadores conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados? Essa mudan\u00e7a de perspectiva altera praticamente todas as decis\u00f5es de um clube. Ela influencia a contrata\u00e7\u00e3o de atletas, a montagem do elenco, a forma\u00e7\u00e3o nas categorias de base, a escolha do treinador, o desenho dos sistemas t\u00e1ticos, os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o de desempenho e, cada vez mais, o desenvolvimento de modelos de intelig\u00eancia artificial capazes de identificar combina\u00e7\u00f5es de jogadores com maior potencial de complementaridade.<\/p>\n<p>A tecnologia tornou-se sofisticada para medir velocidade, dist\u00e2ncia percorrida, precis\u00e3o dos passes e dezenas de outros indicadores individuais. O desafio mais dif\u00edcil continua sendo outro: medir a qualidade das intera\u00e7\u00f5es entre pessoas. \u00c9 justamente nesse ponto que a Economia das Equipes permanece surpreendentemente atual.<\/p>\n<p>Seu principal argumento \u00e9 simples: organiza\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o aquelas que re\u00fanem apenas indiv\u00edduos extraordin\u00e1rios. S\u00e3o aquelas capazes de transformar talentos individuais em desempenho coletivo. Essa talvez seja a maior vantagem competitiva de um grande clube. Mas a mesma l\u00f3gica vale para empresas, hospitais, escrit\u00f3rios de advocacia, universidades, laborat\u00f3rios de pesquisa e praticamente qualquer organiza\u00e7\u00e3o baseada em trabalho em equipe.<\/p>\n<p>O desempenho raramente depende apenas da qualidade de cada profissional isoladamente. Depende da maneira como conhecimentos, habilidades e incentivos se combinam para produzir resultados que nenhum indiv\u00edduo conseguiria alcan\u00e7ar sozinho. \u00c9 por isso que organiza\u00e7\u00f5es semelhantes, com recursos parecidos e profissionais igualmente qualificados, frequentemente apresentam desempenhos muito diferentes. A diferen\u00e7a costuma estar menos no talento dispon\u00edvel do que na capacidade de coorden\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Quando a Economia olha para um time de futebol, ela v\u00ea muito mais do que um espet\u00e1culo esportivo. V\u00ea um laborat\u00f3rio extraordin\u00e1rio para compreender como pessoas transformam informa\u00e7\u00e3o dispersa, habilidades diferentes e objetivos comuns em resultados coletivos.<\/p>\n<p>Neste domingo, milh\u00f5es de pessoas assistir\u00e3o \u00e0 final entre Argentina e Espanha esperando descobrir quem decidir\u00e1 a Copa do Mundo. Na segunda-feira, as manchetes provavelmente destacar\u00e3o o autor do gol do t\u00edtulo. A Economia lembrar\u00e1 algo diferente: campe\u00f5es raramente s\u00e3o constru\u00eddos pelo brilho isolado de um craque. Eles surgem quando talentos individuais conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a principal li\u00e7\u00e3o da final entre Argentina e Espanha \u2013 e tamb\u00e9m uma das mais importantes para empresas, hospitais, universidades e qualquer organiza\u00e7\u00e3o que dependa de pessoas trabalhando em equipe. Porque a vantagem competitiva raramente est\u00e1 no melhor jogador. Est\u00e1 na melhor equipe.<\/p>\n<p><em><strong>Giacomo Balbinotto Neto<\/strong> \u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia (PPGE\/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na \u00e1rea de crescimento econ\u00f4mico. Atualmente \u00e9 professor de Macroeconomia II da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS e revisor t\u00e9cnico de livros de economia.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, quando Argentina e Espanha entrarem em campo para disputar a final da Copa do Mundo, milh\u00f5es de pessoas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":563099,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-563098","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/563098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=563098"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/563098\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/563099"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=563098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=563098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=563098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}