{"id":555833,"date":"2026-07-15T13:26:31","date_gmt":"2026-07-15T17:26:31","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=555833"},"modified":"2026-07-15T13:26:31","modified_gmt":"2026-07-15T17:26:31","slug":"a-etica-protestante-e-o-espirito-do-drible","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=555833","title":{"rendered":"A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do drible"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/15141729\/neymar-evangelicos-futebol.jpg.webp\" \/><span>Neymar reza ajoelhado no gramado ap\u00f3s a derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo. (Foto: Will Oliver\/EFE\/EPA)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Esperei da elimina\u00e7\u00e3o o luto de sempre: o p\u00f3s-jogo com cara de vel\u00f3rio, a promessa de reformar as categorias de base. Veio isso, minha filha chorou um monte. E veio tamb\u00e9m a metaf\u00edsica. Nos dias seguintes \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o, uma outra choradeira inundou \u00e0s redes. N\u00e3o bastasse, chegou \u00e0 imprensa estrangeira: a sele\u00e7\u00e3o brasileira teria perdido por excesso de teologia <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/evangelicos\/\">evang\u00e9lica<\/a>, n\u00e3o por t\u00e1tica ou incompet\u00eancia. Um jornal brit\u00e2nico ouviu um historiador brasileiro dizer que o pa\u00eds perde o senso de comunidade na mesma medida em que ganha igrejas evang\u00e9licas, e da\u00ed ao gramado foi um passo. O futebol-arte teria nascido de um mundo cat\u00f3lico \u2013 coletivo, de rua \u2013 e estaria morrendo pelo avan\u00e7o de uma f\u00e9 que fabrica outro tipo de homem: individualista, voltado para a salva\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n<p>Antes da discord\u00e2ncia, vamos dar o cr\u00e9dito. O fen\u00f4meno que a tese aponta existe, e \u00e9 enorme. A transforma\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religiosa <\/a>do futebol brasileiro \u00e9 um dos fatos sociol\u00f3gicos mais vis\u00edveis das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas: capelania em clube grande, culto em hotel de concentra\u00e7\u00e3o, d\u00edzimo de craque, jogador que pendura a chuteira e abre igreja. Quem nega isso n\u00e3o olhou para o campo. O que n\u00e3o existe \u00e9 a segunda metade do argumento, a ponte entre esse fato e o placar. Reconhecer o fen\u00f4meno e provar que ele derruba sele\u00e7\u00f5es s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es distintas, e toda a for\u00e7a da acusa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em fazer a primeira passar pela segunda.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando a crise n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o suport\u00e1vel, a comunidade elege um culpado, e a paz volta pelo sacrif\u00edcio. O crente \u00e9 o candidato perfeito: vis\u00edvel, rec\u00e9m-chegado, de joelhos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O erro tem genealogia ilustre.\u00a0<em>A \u00c9tica Protestante e o \u201cEsp\u00edrito\u201d do Capitalismo<\/em>\u00a0foi reduzida, no imagin\u00e1rio popular, \u00e0 ideia de que <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/protestantes\/\">protestante <\/a>trabalha e enriquece enquanto cat\u00f3lico reza e atrasa. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/max-weber\/\">Max Weber<\/a> foi mais cauteloso que seus divulgadores: falou em afinidade eletiva, express\u00e3o escolhida para n\u00e3o dizer que a religi\u00e3o produz a economia como a chuva produz a po\u00e7a. Os brasileiros que o importaram tiveram menos cuidado: boa parte do nosso pensamento social leu o atraso do pa\u00eds como falta da \u00e9tica protestante \u2013 faltava-nos a disciplina do puritano, sobrava-nos a moleza ib\u00e9rica. Essa estrutura acaba de reaparecer virada do avesso: o protestantismo, receitado ontem como a cura que faltava ao Brasil, atualmente \u00e9 visto como a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O lance mais fino do erro envolve Gilberto Freyre. Foi ele quem inventou a f\u00f3rmula do futebol mulato: o g\u00eanio brasileiro do jogo seria dionis\u00edaco, ginga de malandro, contra o padr\u00e3o apol\u00edneo do europeu, formal e cerebral. A f\u00f3rmula envelheceu como envelhecem as mitologias raciais, mas quem chora o futebol-arte chora dentro dela \u2013 a nostalgia do drible \u00e9 nostalgia freyriana, saiba-o o nost\u00e1lgico ou n\u00e3o. E o mito trai a acusa\u00e7\u00e3o duas vezes. Primeiro, no endere\u00e7o do inimigo, que era europeu, n\u00e3o religioso: a europeiza\u00e7\u00e3o t\u00e1tica que a imprensa defende desde 1974, o culto ao rigor f\u00edsico, o menino exportado aos 16, ativo financeiro antes de ser jogador. Segundo, na palavra-chave: individualismo, o pecado que a tese atribui ao evang\u00e9lico, era para Freyre o g\u00eanio do nosso drible, a jogada de improviso, a vaidade do craque que encara a zaga inteira. Era virtude nacional; agora \u00e9 v\u00edcio importado. Quando a mesma palavra nomeia o melhor e o pior do jogo conforme quem a pronuncia, ela parou de recortar qualquer coisa.<\/p>\n<p>Contra a vers\u00e3o de boteco da tese, basta o calend\u00e1rio. No tetra de 1994 havia os \u201cAtletas de Cristo\u201d: Taffarel, Jorginho, M\u00fcller, Paulo S\u00e9rgio, Zinho. A gera\u00e7\u00e3o mais evang\u00e9lica que a sele\u00e7\u00e3o j\u00e1 reuniu trouxe a ta\u00e7a para casa; oito anos depois, o penta veio com Kak\u00e1 e L\u00facio ajoelhados no gramado. Na outra ponta, o time de 1982, o futebol-arte em estado can\u00f4nico, cat\u00f3lico e popular como manda o mito, perdeu no Sarri\u00e1. O mito venera uma derrota. Dir\u00e3o que o tetra foi formado nos anos 70, antes da onda evang\u00e9lica, e que a causa verdadeira opera na inf\u00e2ncia, n\u00e3o no vesti\u00e1rio: o menino que hoje passa tr\u00eas noites por semana no culto n\u00e3o est\u00e1 na rua. \u00c9 a \u00fanica forma s\u00e9ria da tese, e merece resposta s\u00e9ria.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Pois bem: o menino n\u00e3o est\u00e1 na rua. Mas nada mais est\u00e1. A viol\u00eancia trancou a inf\u00e2ncia no condom\u00ednio, a escolinha paga substituiu a v\u00e1rzea, o celular fez o resto. Entre todas as for\u00e7as que esvaziaram a rua onde o drible nascia, a acusa\u00e7\u00e3o indicia uma s\u00f3: a que est\u00e1 de joelhos. E ainda inverte a seta: a igreja de periferia cresceu onde a rua j\u00e1 tinha morrido. Ela ocupou um terreno baldio; n\u00e3o o produziu. O culto de quarta-feira \u00e9 hoje, em muito bairro, o \u00faltimo lugar onde o pobre urbano encontra gente, e culp\u00e1-lo pela solid\u00e3o ao redor \u00e9 confundir o sobrevivente com o assassino.<\/p>\n<p>Os elencos formados dentro da onda evang\u00e9lica jogam pior por causa dela? N\u00e3o sei, e o acusador tampouco. Ele comparece sem um n\u00famero, sem um levantamento das categorias de base, sem nem sequer definir o que chama de decl\u00ednio. A diferen\u00e7a est\u00e1 no que cada um faz com a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. Ren\u00e9 Girard descreveu o mecanismo: quando a crise n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o suport\u00e1vel, a comunidade elege um culpado, e a paz volta pelo sacrif\u00edcio. O crente \u00e9 o candidato perfeito: vis\u00edvel, rec\u00e9m-chegado, de joelhos. Escolh\u00ea-lo poupa o trabalho de encarar o que n\u00e3o tem consolo: fomos alcan\u00e7ados no nosso pr\u00f3prio of\u00edcio por quem industrializou o que faz\u00edamos por instinto. Eu, que sou cat\u00f3lico, n\u00e3o tenho o direito de reivindicar o penta em nome de Roma nem a derrota em nome de Genebra. O gramado \u00e9 laico at\u00e9 quando reza. E gra\u00e7as a Deus se reza.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neymar reza ajoelhado no gramado ap\u00f3s a derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo. 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