{"id":554657,"date":"2026-07-15T05:02:00","date_gmt":"2026-07-15T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=554657"},"modified":"2026-07-15T05:02:00","modified_gmt":"2026-07-15T09:02:00","slug":"salarios-acima-do-teto-sao-privilegios-que-custam-caro-ao-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=554657","title":{"rendered":"Sal\u00e1rios acima do teto s\u00e3o privil\u00e9gios que custam caro ao pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/05\/21164305\/supersalarios.jpg.webp\" \/><span>O caso brasileiro dos supersal\u00e1rios mostra que o governo n\u00e3o \u00e9 apenas um poss\u00edvel corretor de desigualdades. Muitas vezes, ele \u00e9 seu maior criador e perpetuador. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Uma reportagem recente trouxe de volta um problema antigo do Estado brasileiro: a quest\u00e3o dos privil\u00e9gios. Mesmo depois de o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/stf\/\">Supremo Tribunal Federal<\/a> fixar regras para limitar os chamados &#8220;penduricalhos&#8221; pagos a magistrados e membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, tribunais de Justi\u00e7a estaduais continuaram registrando remunera\u00e7\u00f5es acima do teto constitucional.<\/p>\n<p>O teto, de R$ 46.366,19, j\u00e1 \u00e9 elevado para a realidade brasileira. Ainda assim, com a inclus\u00e3o dos penduricalhos, a remunera\u00e7\u00e3o dos magistrados pode alcan\u00e7ar R$ 78,5 mil por m\u00eas, cerca de 25 vezes o sal\u00e1rio-m\u00ednimo. A not\u00edcia mostra que, em alguns casos, nem esse limite ampliado vem sendo respeitado.<\/p>\n<p>Merece destaque o registro de pagamento superior a R$ 1 milh\u00e3o, em um \u00fanico m\u00eas, a um desembargador. Ainda que parcela dessas verbas possua natureza indenizat\u00f3ria, permanece a constata\u00e7\u00e3o de que recursos p\u00fablicos s\u00e3o utilizados para manter um padr\u00e3o de rendimento totalmente fora da realidade.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote-module-scss-module__jALRda__postQuoteContainer\">\n<p>Quando uma parcela da elite se distancia tanto da renda m\u00e9dia do pa\u00eds, cresce a sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e enfraquece a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. O cidad\u00e3o passa a enxergar o Estado n\u00e3o como instrumento de equil\u00edbrio, mas como uma estrutura que serve apenas a uma classe de privilegiados<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Adicionalmente, diante das tentativas de limitar os chamados penduricalhos, houve manifesta\u00e7\u00f5es que beiram o absurdo, inclusive a compara\u00e7\u00e3o da nova remunera\u00e7\u00e3o a um &#8220;sal\u00e1rio de escravo&#8221;. A express\u00e3o exp\u00f5e o grau de descolamento de certos setores privilegiados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade da popula\u00e7\u00e3o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, financia esses sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 2022, segundo o Censo do IBGE, mais de dois ter\u00e7os dos trabalhadores brasileiros recebiam at\u00e9 dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos. Milh\u00f5es de fam\u00edlias brasileiras vivem contando cada real para fechar as contas do m\u00eas. Nesse contexto, remunera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas de R$ 80 mil, ou de centenas de milhares de reais, refor\u00e7am a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 duas realidades muito distintas dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Cada real direcionado a privil\u00e9gios injustific\u00e1veis deixa de financiar pol\u00edticas com maior retorno social, como educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, sa\u00fade, seguran\u00e7a p\u00fablica e infraestrutura. O debate fiscal, muitas vezes concentrado em cortar benef\u00edcios sociais ou limitar investimentos, precisa focar a redu\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios. H\u00e1 ainda um efeito pol\u00edtico e moral.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Quando uma parcela da elite se distancia tanto da renda m\u00e9dia do pa\u00eds, cresce a sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e enfraquece a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. O cidad\u00e3o passa a enxergar o Estado n\u00e3o como instrumento de equil\u00edbrio, mas como uma estrutura que serve apenas a uma classe de privilegiados, \u00e0s custas do restante da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 profundamente desigual, e parte dessa desigualdade \u00e9 produzida por regras e arranjos institucionais que mant\u00eam privil\u00e9gios de determinados setores da sociedade e que s\u00e3o heran\u00e7a de um per\u00edodo colonial repleto de injusti\u00e7as e desigualdades de poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico. Limitar penduricalhos n\u00e3o deveria ser visto como ataque ao Judici\u00e1rio, mas como defesa do interesse p\u00fablico e da legitimidade das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso transpar\u00eancia, controle efetivo e responsabiliza\u00e7\u00e3o de gestores que autorizem pagamentos fora dos par\u00e2metros legais. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar a cultura que trata privil\u00e9gios como direitos adquiridos. Um pa\u00eds em que grande parte da popula\u00e7\u00e3o vive com t\u00e3o pouco n\u00e3o pode aceitar que recursos p\u00fablicos sustentem remunera\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com qualquer no\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel de justi\u00e7a social e de igualdade de oportunidades. O teto constitucional precisa voltar a ser teto, n\u00e3o ponto de partida para exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em><strong>Luciano Nakabashi<\/strong> \u00e9 doutor em economia e professor associado da FEARP\/USP.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso brasileiro dos supersal\u00e1rios mostra que o governo n\u00e3o \u00e9 apenas um poss\u00edvel corretor de desigualdades. 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