{"id":547516,"date":"2026-07-12T13:00:00","date_gmt":"2026-07-12T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=547516"},"modified":"2026-07-12T13:00:00","modified_gmt":"2026-07-12T17:00:00","slug":"resiliencia-a-arte-de-nao-se-deixar-dominar-pela-derrota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=547516","title":{"rendered":"Resili\u00eancia, a arte de n\u00e3o se deixar dominar pela derrota"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/10144817\/resiliencia-derrota-brasil.jpg.webp\" \/><span>Jogadores brasileiros lamentam derrota para a Noruega na Copa do Mundo. (Foto: ChatGPT sobre foto de Octavio Guzman\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Faz sete dias que o Brasil perdeu para a Noruega e, com essa derrota, foi eliminado da Copa do Mundo deste ano. Eu sei que j\u00e1 tem gente suficiente falando a respeito, e uma enxurrada de coment\u00e1rios j\u00e1 correu pela internet, feitos, com certeza, por gente mais entendida e competente na an\u00e1lise do esporte do que eu. Deu o p\u00eanalti para o outro bater, perdeu o p\u00eanalti, perdeu o gol, apatia, sem posse de bola, n\u00e3o marcaram o gigante noruegu\u00eas&#8230; \u2013 eu sei, eu vi. N\u00e3o preciso nem devo refazer essa an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m li gente falando a respeito do que \u201cessa derrota representa\u201d, querendo colar alguns jogadores a estere\u00f3tipos socioculturais, inclusive pol\u00edticos, de forma um pouco imponderada. Mas \u00e9 verdade que, para al\u00e9m dos aspectos t\u00e9cnicos e das conting\u00eancias da partida, existe um padr\u00e3o psicol\u00f3gico ou moral, uma tipologia de sentimentos e atitudes que marca a gera\u00e7\u00e3o atual de brasileiros \u2013 dentro e fora de campo, e isso deveria, sim, nos preocupar. Tem a ver com saber ponderar quando se obedece a uma ordem ou quando se desobedece por uma raz\u00e3o superior; quando \u00e9 preciso assumir uma responsabilidade que \u00e9 nossa, em vez de nos escondermos atr\u00e1s da circunst\u00e2ncia; tem a ver com a concentra\u00e7\u00e3o, a quase frieza que \u00e9 preciso ter no momento \u00fanico e irrepet\u00edvel de agir e cumprir o dever. Tem a ver com dar valor \u00e0 vida no instante, aproveitando-o, praticamente devorando-o com nossa fome de viver, e n\u00e3o nos perdendo numa abstrata expectativa de que a sorte nos encontre. E tem a ver, mais ainda, com a atitude que devemos recuperar no momento seguinte, quando acontecer de falharmos em alguma dessas coisas \u2013 o que acontece.<\/p>\n<p>\u00c9 grande sabedoria usar o inimigo como pedagogo, e usar a derrota para crescer, como na frase de Nietzsche, \u201caquilo que n\u00e3o me mata me fortalece\u201d. Isso exige de n\u00f3s uma estabilidade emocional, uma seguran\u00e7a sobre uma base s\u00f3lida de compreens\u00e3o de n\u00f3s mesmos e da vida, um \u201csaber quem somos\u201d que, visto com a lupa que \u00e9 o esporte, o futebol, mas tamb\u00e9m a arte, parece realmente estar faltando aos brasileiros. Falta-nos uma qualidade muito preciosa, decisiva como poucas, que parece mesmo ter ficado escassa na cultura contempor\u00e2nea. Meu tema aqui \u00e9 a chamada <em>resili\u00eancia<\/em>, e convido o leitor a, mais que refletir sobre o assunto, examinar-se a si mesmo no decorrer da leitura.<\/p>\n<p>Vivemos cercados por recursos tecnol\u00f3gicos, informa\u00e7\u00e3o abundante e possibilidades quase ilimitadas, mas, paradoxalmente, tornamo-nos cada vez menos preparados para lidar com a frustra\u00e7\u00e3o, o fracasso e a demora dos resultados. Pequenos reveses adquirem propor\u00e7\u00f5es desmedidas; dificuldades passageiras s\u00e3o frequentemente interpretadas como derrotas definitivas.<\/p>\n<p>Mas esse fen\u00f4meno n\u00e3o decorre apenas das circunst\u00e2ncias externas, pois reveses e fracassos sempre existiram, qui\u00e7\u00e1 at\u00e9 mais do que hoje. Ele nasce, principalmente, da maneira como interpretamos ou sentimos aquilo que nos acontece.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Mais do que uma simples capacidade de suportar as dificuldades, a resili\u00eancia \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o interior que permite responder \u00e0s adversidades sem perder o equil\u00edbrio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 pessoas que, diante de uma avalia\u00e7\u00e3o, de uma entrevista de emprego ou de um projeto importante, passam dias ou semanas reconstruindo mentalmente cada detalhe, convencidas de que tudo deu errado. Enquanto aguardam o resultado, deixam de viver o presente. Permanecem emocionalmente paralisadas, consumindo uma energia que poderia ser empregada naquilo que efetivamente depende delas. A mente insiste em revisitar erros, amplia incertezas e transforma hip\u00f3teses em certezas pessimistas. Quando finalmente os fatos aparecem, quase sempre revelam que a realidade era muito menos dram\u00e1tica do que a imagina\u00e7\u00e3o havia constru\u00eddo. Ainda assim, o ciclo tende a repetir-se. Mas saber disso, por si s\u00f3, n\u00e3o basta para interromp\u00ea-lo. \u00c9 justamente a\u00ed que entra essa virtude a que se convencionou chamar, especialmente na linguagem contempor\u00e2nea, de resili\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">Mais do que uma simples capacidade de suportar as dificuldades, como por vezes se a define, simploriamente, ela constitui uma <em>disposi\u00e7\u00e3o interior que permite responder \u00e0s adversidades sem perder o equil\u00edbrio<\/em>. Diversos estudos em psicologia mostram que pessoas resilientes lidam melhor com o estresse, apresentam menor probabilidade de desenvolver quadros depressivos e recuperam-se com mais rapidez de experi\u00eancias traum\u00e1ticas. N\u00e3o significa que sofram menos, ou que sejam insens\u00edveis, n\u00e3o; mas sim que conseguem impedir que a dor e adversidade ocupem o centro de suas vidas.<\/p>\n<p>A vida dificilmente poupa algu\u00e9m das derrotas. Perdas familiares, problemas de sa\u00fade, crises profissionais \u2013 como uma derrota no esporte \u2013, decep\u00e7\u00f5es afetivas ou simplesmente o ac\u00famulo de pequenos contratempos cotidianos podem desgastar lentamente qualquer pessoa. A diferen\u00e7a est\u00e1 na forma como cada um responde a essas circunst\u00e2ncias. Alguns permanecem presos ao golpe recebido; outros conseguem reorganizar-se e seguir adiante.<\/p>\n<p>A resili\u00eancia possui, nesse sentido, uma dimens\u00e3o essencialmente reativa. Ela aparece quando a realidade contraria expectativas, quando um projeto fracassa ou quando a dor parece inevit\u00e1vel. N\u00e3o elimina o fracasso, mas impede que ele determine todas as decis\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>A pessoa resiliente n\u00e3o \u00e9 a que cultiva um otimismo ing\u00eanuo. Sua for\u00e7a consiste em n\u00e3o permitir que o medo do amanh\u00e3 ou a culpa pelo ontem ocupem todo o espa\u00e7o da consci\u00eancia, ela sabe dar-se uma nova chance, por assim dizer. Concentra sua aten\u00e7\u00e3o naquilo que ainda pode fazer <em>hoje<\/em>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Essa postura tamb\u00e9m modifica a maneira de assumir responsabilidades. Quem \u00e9 resiliente reconhece os pr\u00f3prios erros sem cair na tenta\u00e7\u00e3o de procurar culpados para tudo. Ao mesmo tempo, evita transformar o arrependimento em condena\u00e7\u00e3o permanente de si mesmo. A <em>culpa<\/em> pode ensinar, quando \u00e9 reconhecida e absorvida; mas a vergonha cr\u00f4nica apenas paralisa.<\/p>\n<p>S\u00e3o justamente as grandes prova\u00e7\u00f5es que tornam essa diferen\u00e7a mais vis\u00edvel. H\u00e1 quem enfrente uma doen\u00e7a grave sem perder a esperan\u00e7a; quem atravesse o fim de um casamento sem permitir que a amargura domine sua personalidade; quem veja uma carreira cuidadosamente constru\u00edda ruir e, ainda assim, encontre novos caminhos para servir \u00e0 pr\u00f3pria fam\u00edlia e reconstruir a vida. Entretanto, reduzir a resili\u00eancia \u00e0s grandes trag\u00e9dias seria um equ\u00edvoco. Ela \u00e9 igualmente necess\u00e1ria para enfrentar os desgastes quase invis\u00edveis do cotidiano: a conviv\u00eancia dif\u00edcil no ambiente de trabalho, os conflitos inevit\u00e1veis da vida familiar, as decep\u00e7\u00f5es provocadas pelos filhos, os atrasos, os imprevistos, as cr\u00edticas e as pequenas frustra\u00e7\u00f5es que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que, somadas, t\u00eam o poder de esgotar qualquer pessoa. Responder com serenidade a esses acontecimentos exige uma \u201cmusculatura\u201d interior que raramente se desenvolve espontaneamente.<\/p>\n<p>Mas existe outro lado da coisa, outro aspecto igualmente interessante: a resili\u00eancia n\u00e3o serve apenas para suportar golpes, como virtude reativa; ela tamb\u00e9m impulsiona a a\u00e7\u00e3o. Existe um aspecto ativo dessa virtude que costuma passar despercebido. O seguinte: Toda iniciativa importante envolve algum grau de risco. Aproximar-se de algu\u00e9m, iniciar um novo projeto, mudar de profiss\u00e3o, empreender, pedir uma promo\u00e7\u00e3o, expor uma ideia ou simplesmente sair da pr\u00f3pria zona de conforto implica aceitar a possibilidade do fracasso. Quem n\u00e3o desenvolve essa capacidade acaba organizando a vida em torno da <em>preven\u00e7\u00e3o da dor<\/em>. Como atletas que entrassem em campo para n\u00e3o perder, e n\u00e3o para ganhar. Essa pessoa evita desafios para n\u00e3o experimentar rejei\u00e7\u00f5es, renuncia a oportunidades para n\u00e3o correr riscos, e prefere permanecer onde tudo \u00e9 previs\u00edvel, ainda que isso signifique abrir m\u00e3o do crescimento. A consequ\u00eancia \u00e9 uma exist\u00eancia progressivamente menor. N\u00e3o porque faltem talentos ou oportunidades, mas porque o medo passa a determinar os limites da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contrapartida, as pessoas que admiramos pela coragem de iniciar conversas dif\u00edceis, propor mudan\u00e7as, assumir responsabilidades ou aventurar-se por caminhos pouco conhecidos geralmente compartilham uma caracter\u00edstica comum: elas n\u00e3o acreditam que um fracasso seja definitivo. Sabem que uma recusa, um erro ou uma tentativa malsucedida produzem desconforto, mas n\u00e3o definem quem elas s\u00e3o. Essa seguran\u00e7a lhes permite agir onde outros permanecem im\u00f3veis. N\u00e3o porque esperem sucesso garantido, mas porque aprenderam que a verdadeira derrota n\u00e3o est\u00e1 em falhar, e sim em nunca tentar.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que essa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pertence apenas ao temperamento de alguns privilegiados. Embora existam diferen\u00e7as individuais, <em>a resili\u00eancia pode ser cultivada<\/em>. Como qualquer <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/virtude\/\">virtude<\/a>, fortalece-se pelo exerc\u00edcio constante. Cada pequena dificuldade enfrentada conscientemente amplia a capacidade de enfrentar desafios maiores no futuro.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Aproximar-se de algu\u00e9m, iniciar um novo projeto, mudar de profiss\u00e3o, empreender, pedir uma promo\u00e7\u00e3o, expor uma ideia ou simplesmente sair da pr\u00f3pria zona de conforto implica aceitar a possibilidade do fracasso<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Talvez por isso antigos manuais de forma\u00e7\u00e3o pessoal insistissem menos em medir talentos e mais em examinar o car\u00e1ter. Em vez de perguntar apenas quais habilidades algu\u00e9m possu\u00eda, propunham quest\u00f5es mais profundas: diante das dificuldades, costumo avan\u00e7ar ou recuar? Procuro desafios ou sigo sempre o caminho mais f\u00e1cil? Aceito cr\u00edticas como oportunidade de crescimento ou me deixo abater por elas? Quando fracasso, desisto ou recome\u00e7o? S\u00e3o perguntas antigas, mas continuam extraordinariamente atuais. Afinal, a qualidade de uma vida n\u00e3o depende apenas das oportunidades que encontramos, mas da maneira como respondemos a elas. E poucas virtudes influenciam tanto essa resposta quanto a resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma das descobertas mais inquietantes da psicologia moderna nasceu de uma experi\u00eancia aparentemente simples. Alguns pesquisadores observaram que animais submetidos repetidamente a situa\u00e7\u00f5es das quais n\u00e3o podiam escapar acabavam deixando de reagir, mesmo quando, mais tarde, a sa\u00edda se tornava perfeitamente poss\u00edvel. A barreira estava aberta, mas eles j\u00e1 n\u00e3o tentavam atravess\u00e1-la! O fen\u00f4meno recebeu um nome sugestivo: <em>desamparo aprendido<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos simples animais. Contudo, a express\u00e3o descreve, curiosamente, uma tend\u00eancia profundamente humana. Depois de sucessivas frustra\u00e7\u00f5es, corremos o risco de concluir que nossos esfor\u00e7os n\u00e3o fazem diferen\u00e7a. N\u00e3o desistimos porque a situa\u00e7\u00e3o seja objetivamente imposs\u00edvel, mas porque passamos a acreditar que qualquer tentativa ser\u00e1 in\u00fatil.<\/p>\n<p>Quem nunca experimentou algo semelhante? H\u00e1 relacionamentos nos quais algu\u00e9m fez tudo o que estava ao seu alcance e, ainda assim, foi abandonado. H\u00e1 profissionais dedicados que veem promo\u00e7\u00f5es passarem para outros. H\u00e1 estudantes que se esfor\u00e7am intensamente e n\u00e3o alcan\u00e7am o resultado esperado. Existem pais exemplares que enfrentam dores inesperadas, pessoas corretas que sofrem injusti\u00e7as e trabalhadores honestos que atravessam longos per\u00edodos de desemprego&#8230; Mesmo que fa\u00e7amos tudo corretamente, existe uma grande teia de a\u00e7\u00f5es que nos transcende e abarca, e ela nem sempre parece justa, ainda que creiamos na justi\u00e7a \u00faltima de Deus. \u00c9 o que os antigos chamavam de \u201cFortuna\u201d, e tem algo a ver com o que S\u00e3o Paulo chamou de \u201co mist\u00e9rio da iniquidade\u201d (cf. 2Tess 2, 7-8).<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias t\u00eam algo em comum: elas abalam nossa percep\u00e7\u00e3o de controle sobre a pr\u00f3pria vida. Porque desde cedo aprendemos que boas a\u00e7\u00f5es costumam produzir boas consequ\u00eancias. Quando essa expectativa falha repetidamente, instala-se uma sensa\u00e7\u00e3o perigosa de impot\u00eancia. Surge a pergunta silenciosa e perigosa que corr\u00f3i a disposi\u00e7\u00e3o para agir: \u201cSe nada depende realmente de mim, para que continuar tentando?\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Entretanto aquelas mesmas pesquisas revelam um dado surpreendente. Nem todos reagem dessa maneira. Mesmo diante das mesmas circunst\u00e2ncias, uma parcela significativa das pessoas consegue preservar a iniciativa, recuperar a esperan\u00e7a e enfrentar novos desafios. O sofrimento \u00e9 real, mas n\u00e3o se transforma numa condena\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>O que distingue esses dois grupos? A resposta parece estar menos nos acontecimentos que na forma como cada pessoa os interpreta. Os psic\u00f3logos chamam esse mecanismo de <em>estilo explicativo<\/em>: o h\u00e1bito, quase sempre inconsciente, de atribuir significado aos fatos da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">Sempre que algo nos acontece, procuramos responder, ainda que intuitivamente, a tr\u00eas perguntas: <strong>1.<\/strong> De quem \u00e9 a responsabilidade? <strong>2.<\/strong> Essa situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 permanente? <strong>3.<\/strong> Ela compromete toda a minha vida ou apenas uma parte dela?<\/p>\n<p>As respostas dadas a essas perguntas moldam profundamente nossa capacidade de recupera\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas interpretam qualquer fracasso como prova de um defeito pessoal. Se algo deu errado, concluem imediatamente que elas pr\u00f3prias s\u00e3o inadequadas. Em seguida, acreditam que essa condi\u00e7\u00e3o dificilmente mudar\u00e1 e, por fim, passam a enxergar o epis\u00f3dio como evid\u00eancia de que toda a sua vida est\u00e1 comprometida. Assim, um \u00fanico rev\u00e9s transforma-se numa senten\u00e7a.<\/p>\n<p>Outras pessoas percorrem o caminho oposto. Reconhecem sua parcela de responsabilidade, quando ela existe, mas tamb\u00e9m levam em conta circunst\u00e2ncias externas. Percebem que determinadas dificuldades pertencem a um momento espec\u00edfico, e n\u00e3o necessariamente ao futuro inteiro. Sobretudo, recusam-se a permitir que um fracasso localizado defina todas as demais dimens\u00f5es da exist\u00eancia. Essa diferen\u00e7a de interpreta\u00e7\u00e3o altera profundamente a maneira de viver.<\/p>\n<p>Imagine algu\u00e9m dispensado do emprego. Uma rea\u00e7\u00e3o poss\u00edvel consiste em concluir: \u201cSou incompetente. Nunca conseguirei outra oportunidade. Minha carreira acabou\u201d. Pouco importa que nenhuma dessas afirma\u00e7\u00f5es possa ser demonstrada; elas rapidamente adquirem apar\u00eancia de verdade. Outra pessoa, diante do mesmo acontecimento, poder\u00e1 reconhecer fatores econ\u00f4micos, mudan\u00e7as na empresa ou simplesmente admitir que aquele cargo j\u00e1 n\u00e3o correspondia \u00e0s pr\u00f3prias capacidades. Perder o emprego continua sendo doloroso, mas deixa de representar o colapso completo da pr\u00f3pria identidade. A diferen\u00e7a entre essas duas leituras n\u00e3o est\u00e1 na intensidade da dor, mas nas possibilidades que permanecem abertas depois dela.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A resili\u00eancia come\u00e7a quando deixamos de perguntar apenas o que aconteceu conosco e passamos a perguntar o que ainda podemos fazer a partir do que aconteceu<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Naturalmente, o risco inverso tamb\u00e9m existe. H\u00e1 quem jamais reconhe\u00e7a a pr\u00f3pria responsabilidade por qualquer fracasso. Tudo seria culpa do governo, da economia, da fam\u00edlia, da sorte ou das circunst\u00e2ncias. Essa postura talvez alivie momentaneamente a consci\u00eancia, mas impede qualquer crescimento. Afinal, se nada depende de mim, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada que eu possa melhorar.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed. A maturidade exige um equil\u00edbrio mais dif\u00edcil, e esse equil\u00edbrio \u00e9 a nossa justa amoldagem aos fatos. \u00c9 preciso admitir os pr\u00f3prios erros sem concluir que eles definem quem somos. Da mesma forma, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer os limites impostos pelas circunst\u00e2ncias sem utiliz\u00e1-los como desculpa permanente para a in\u00e9rcia. E ent\u00e3o voltar-se para o futuro. A resili\u00eancia come\u00e7a precisamente nesse ponto: quando deixamos de perguntar apenas o que aconteceu conosco e passamos a perguntar o que ainda podemos fazer a partir do que aconteceu. Os acontecimentos exercem grande influ\u00eancia sobre n\u00f3s, mas raramente determinam, por si s\u00f3s, o rumo da nossa vida. Entre o fato e a rea\u00e7\u00e3o existe um espa\u00e7o invis\u00edvel: a interpreta\u00e7\u00e3o que fazemos daquilo que aconteceu. \u00c9 nesse espa\u00e7o que nasce \u2013 ou se perde \u2013 a resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Dois indiv\u00edduos podem enfrentar exatamente a mesma contrariedade e sair dela profundamente diferentes. Um permanece abatido durante meses; o outro, embora igualmente ferido, encontra for\u00e7as para recome\u00e7ar. Em ambos os casos, a realidade objetiva \u00e9 a mesma. O que muda \u00e9 o <em>significado<\/em> atribu\u00eddo a ela. Essa constata\u00e7\u00e3o possui consequ\u00eancias pr\u00e1ticas importantes. Se nossas interpreta\u00e7\u00f5es influenciam diretamente nossas rea\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o vale a pena submet\u00ea-las a exame. Nem tudo aquilo que pensamos corresponde aos fatos.<\/p>\n<p>O primeiro passo consiste em perguntar se nossa conclus\u00e3o realmente encontra apoio na realidade. Quantas vezes confundimos uma impress\u00e3o moment\u00e2nea com uma verdade permanente? Em seguida, conv\u00e9m considerar outras explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Nossa mente costuma privilegiar a hip\u00f3tese mais pessimista, como se ela fosse automaticamente a mais prov\u00e1vel. No entanto, a experi\u00eancia mostra que os acontecimentos humanos quase sempre possuem m\u00faltiplas causas. Nem tudo depende exclusivamente de n\u00f3s, assim como nem tudo depende das circunst\u00e2ncias. Tamb\u00e9m \u00e9 saud\u00e1vel avaliar as consequ\u00eancias que estamos imaginando. O ser humano possui extraordin\u00e1ria capacidade para transformar pequenos acontecimentos em trag\u00e9dias futuras. Uma dificuldade financeira converte-se, em poucos minutos, na certeza da ru\u00edna completa. Por fim, existe uma pergunta talvez ainda mais importante: esse modo de pensar nos ajuda a agir melhor?<\/p>\n<p>Talvez essa seja a ess\u00eancia da resili\u00eancia. N\u00e3o consiste em jamais cair, nem em permanecer indiferente ao fracasso. Consiste em recusar a tenta\u00e7\u00e3o de transformar um acontecimento transit\u00f3rio numa verdade definitiva sobre n\u00f3s mesmos. Quem aprende essa disciplina interior continua sujeito aos fracassos, \u00e0s perdas e \u00e0s decep\u00e7\u00f5es que acompanham toda exist\u00eancia humana. A diferen\u00e7a \u00e9 que deixa de conceder a eles a \u00faltima palavra. Com esta virtude, car\u00edssimos, lutaremos at\u00e9 o apito final do grande jogo que \u00e9 nossa vida.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jogadores brasileiros lamentam derrota para a Noruega na Copa do Mundo. 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