{"id":545993,"date":"2026-07-11T19:45:04","date_gmt":"2026-07-11T23:45:04","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545993"},"modified":"2026-07-11T19:45:04","modified_gmt":"2026-07-11T23:45:04","slug":"o-legado-esquecido-de-marechal-rondon-que-queria-a-assimilacao-gradual-dos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545993","title":{"rendered":"O legado esquecido de Marechal Rondon, que queria a assimila\u00e7\u00e3o gradual dos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Pouco depois do meio-dia de 27 de fevereiro de 1914, sete canoas partiram de um ponto onde a linha telegr\u00e1fica cruzava um rio escuro, cheio pela esta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, no noroeste do Mato Grosso. Eram 22 homens sob dois comandantes: o coronel brasileiro C\u00e2ndido Rondon e o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que integrava a expedi\u00e7\u00e3o ao lado do filho Kermit. &#8220;Partimos Rio da D\u00favida abaixo, rumo ao desconhecido&#8221;, escreveu Roosevelt. Se o rio corresse para o Ji-Paran\u00e1, estariam em terreno conhecido dentro de uma semana; se desaguasse no Madeira, em seis. Rondon resumiu a terceira hip\u00f3tese em seu relato: &#8220;A tr\u00eas meses, n\u00e3o se sabe onde, era o Rio da D\u00favida.&#8221;<\/p>\n<p>O batismo era do pr\u00f3prio Rondon, que registrou o rio no di\u00e1rio em agosto de 1909, mapeando cabeceiras na Serra do Norte, sem imaginar que voltaria para percorr\u00ea-lo at\u00e9 o fim. Nenhum homem civilizado tinha descido aquelas \u00e1guas.<\/p>\n<p>A descida durou dois meses e custou tr\u00eas vidas. O remador Simpl\u00edcio afogou-se numa corredeira. Roosevelt rasgou a perna numa pedra, contraiu mal\u00e1ria, delirou com febre de 40 graus e, numa madrugada, chamou o filho e o naturalista George Cherrie para um aviso: &#8220;Quero que voc\u00eas dois sigam em frente. Voc\u00eas conseguem sair. Eu paro aqui.&#8221; Cherrie entendeu que ele falava de suic\u00eddio; dali em diante, ningu\u00e9m o deixou sozinho. Dias depois, o camarada Julio de Lima, flagrado duas vezes roubando comida, matou com um tiro \u00e0 queima-roupa o cabo Paix\u00e3o, o mais respeitado dos homens da expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi nesse momento, escreveu o bi\u00f3grafo Larry Rohter, que as vis\u00f5es de mundo dos dois comandantes colidiram de vez. Roosevelt, agitado, exigia ca\u00e7ar e executar o assassino: &#8220;Quem mata merece morrer. Assim \u00e9 no meu pa\u00eds.&#8221; Rondon respondeu que aquilo era imposs\u00edvel no Brasil: &#8220;Quem comete crimes \u00e9 julgado, n\u00e3o morto.&#8221; Preso, Julio teria de ser levado pela expedi\u00e7\u00e3o faminta at\u00e9 a Justi\u00e7a, em Manaus. Ele fugiu para a mata e nunca mais foi visto.<\/p>\n<p>Em 26 de abril de 1914, dezenove homens esfarrapados chegaram \u00e0 conflu\u00eancia com o Aripuan\u00e3. Tinham mapeado cerca de 760 quil\u00f4metros de um rio desconhecido, o maior feito geogr\u00e1fico do s\u00e9culo nas Am\u00e9ricas. Semanas antes, numa cerim\u00f4nia \u00e0 beira d&#8217;\u00e1gua, Rondon mandou fincar um marco de madeira e leu a ordem do dia: o Rio da D\u00favida passava a se chamar Rio Roosevelt. O homenageado protestou, queria manter o nome antigo, e foi vencido. Num pa\u00eds que mal conhecia o pr\u00f3prio territ\u00f3rio, o feito coube a um engenheiro militar formado no sert\u00e3o.<\/p>\n<h2>O filho de Mimoso<\/h2>\n<p>Rondon nasceu em maio de 1865 no povoado de Mimoso, no Mato Grosso, a quarenta quil\u00f4metros da frente de batalha da Guerra do Paraguai. A data exata ningu\u00e9m sabia: no sert\u00e3o do Imp\u00e9rio, n\u00e3o havia registro civil. O pai, um mascate pobre, morreu cinco meses antes de o filho nascer. A m\u00e3e, Claudina, descendente de bororos e terenas, morreu quando o menino tinha dois anos.<\/p>\n<p>O \u00f3rf\u00e3o foi criado por um tio-av\u00f4, de quem tomou o sobrenome Rondon, e enviado a Cuiab\u00e1 para estudar. Aos dezesseis anos, alistou-se no Ex\u00e9rcito como caminho para a Escola Militar do Rio de Janeiro, onde a matem\u00e1tica o salvou da pobreza e um professor lhe deu uma f\u00e9. Benjamin Constant ensinava c\u00e1lculo e pregava o positivismo de Auguste Comte, a religi\u00e3o da humanidade que prometia ordem e progresso pela ci\u00eancia. Rondon converteu-se para sempre.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 15 de novembro de 1889, o alferes-aluno de 24 anos entrou no quartel-general do Ex\u00e9rcito ao lado de Constant, rev\u00f3lver no coldre, no grupo que comunicou aos ministros do Imp\u00e9rio que estavam presos. Rondon chamou aquilo, a vida inteira, de Revolu\u00e7\u00e3o de 1889; os historiadores preferem golpe militar, e tratam o imperador deposto com mais generosidade do que o positivista jamais tratou. Ele serviria, dali em diante, a todos os treze presidentes da Primeira Rep\u00fablica, e passaria a vida a servi\u00e7o da divisa positivista estampada na bandeira nova.<\/p>\n<h2>Morrer, se preciso for; matar, nunca<\/h2>\n<p>A partir de 1890, Rondon assumiu a constru\u00e7\u00e3o das linhas telegr\u00e1ficas que deviam ligar o oeste ao litoral, trabalho que culminou na comiss\u00e3o batizada com seu nome, aberta atrav\u00e9s de 2 mil quil\u00f4metros de territ\u00f3rio desconhecido at\u00e9 o Amazonas. Nessas obras, Rondon passou d\u00e9cadas longe da mulher, Chiquita, e dos sete filhos, que cresceram sem o pai. Roosevelt, de volta aos Estados Unidos, colocou a obra entre as maravilhas da engenharia do continente: &#8220;Ao Norte, a abertura do Canal do Panam\u00e1; ao Sul, a obra de Rondon.&#8221; Os \u00edndios que conviveram com ele chamavam o tel\u00e9grafo de outra coisa: a l\u00edngua de Mariano.<\/p>\n<p>Foi na reconstru\u00e7\u00e3o das linhas de Goi\u00e1s, ainda nos anos 1890, que ele fixou o lema que o tornaria c\u00e9lebre: morrer, se preciso for; matar, nunca. O lema foi posto \u00e0 prova em outubro de 1908, na terra dos nambiquaras, quando uma flecha passou rente aos seus olhos; a segunda cravou-se na aba do capacete pendurado ao pesco\u00e7o; a terceira atingiu-o no peito e ficou presa no bandoleiro de couro. Rondon sacou o Remington e atirou para o alto. Os guerreiros, vendo que o homem flechado n\u00e3o ca\u00eda, sumiram na mata.<\/p>\n<p>De volta ao acampamento, os soldados exigiram repres\u00e1lia. Rondon os conteve com uma pergunta: &#8220;Se algu\u00e9m invadisse a sua casa para matar e roubar, o que voc\u00ea faria?&#8221; Matariam, claro. Por que esperar que o \u00edndio se comportasse de outro modo? Em seguida, mandou deixar fac\u00f5es e presentes numa plataforma erguida na trilha, oferta aos mesmos homens que quase o mataram. Meses depois, os nambiquaras aceitaram o contato. Rondon jamais matou um \u00edndio em quarenta anos de sert\u00e3o: Albert Einstein, de passagem pelo Brasil em 1925, indicou-o ao Pr\u00eamio Nobel da Paz.<\/p>\n<h2>O irm\u00e3o, n\u00e3o o outro<\/h2>\n<p>Em 1910, o governo criou o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios (SPI) e ofereceu a dire\u00e7\u00e3o a Rondon. Ele imp\u00f4s dezessete condi\u00e7\u00f5es por escrito, publicadas nos jornais, e a primeira era territorial: os \u00edndios deveriam manter a posse das terras em que viviam, com devolu\u00e7\u00e3o do que foi usurpado. O positivista Rondon acreditava que os povos ind\u00edgenas deviam incorporar-se ao Ocidente, mas sem que ningu\u00e9m os for\u00e7asse a isso.<\/p>\n<p>Rondon n\u00e3o falava em preservar o \u00edndio como um outro permanente, e sim em irm\u00e3os. Na autobiografia ditada a Esther de Viveiros no fim da vida, resumiu o m\u00e9todo: conquistar a afei\u00e7\u00e3o e a confian\u00e7a dos \u00edndios era o \u00fanico meio de que eles fossem, espontaneamente, assimilando-se \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e acabassem por se incorporar \u00e0 sociedade brasileira. Quando os bororos substitu\u00edram por quinze meses os soldados dizimados pela febre nas obras do tel\u00e9grafo, ele viu no gesto um &#8220;elevado cunho de espont\u00e2nea brasilidade&#8221;.<\/p>\n<p>O otimismo n\u00e3o durou. Os arquivos do SPI encheram-se de relat\u00f3rios de terras invadidas e de epidemias que varriam tribos inteiras, e as picadas abertas pela Comiss\u00e3o serviram de caminho ao seringueiro e ao grileiro que Rondon combatia. A corrup\u00e7\u00e3o tomou o \u00f3rg\u00e3o, extinto em 1967 em meio a um esc\u00e2ndalo de abusos e substitu\u00eddo pela Funai. A vis\u00e3o do \u00edndio como irm\u00e3o, a conquistar pela confian\u00e7a, ficou no papel; o pr\u00f3prio Rondon, por volta de 1940, documenta Rohter, j\u00e1 tinha d\u00favidas profundas sobre o projeto.<\/p>\n<h2>A Rep\u00fablica como religi\u00e3o<\/h2>\n<p>O mesmo legalismo que salvou Julio de Lima do fuzilamento sum\u00e1rio governou a vida pol\u00edtica de Rondon. Em 1922, no Grande Hotel de Porto Alegre, um general enviado por jovens conspiradores militares ofereceu-lhe a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Rondon recusou. Em 1925, comandou as tropas legalistas que cercaram os tenentes rebelados em Catanduvas, no Paran\u00e1, e fez a guerra a seu modo: avi\u00f5es despejando panfletos que prometiam aos revoltosos tratamento de irm\u00e3os, assinados por General Rondon, antes de qualquer tiro.<\/p>\n<p>Na madrugada de 4 de outubro de 1930, o trem em que dormia foi parado por rebeldes varguistas. Rondon, aos 65 anos, acabou posto em pris\u00e3o domiciliar no mesmo Grande Hotel de Porto Alegre, onde oito anos antes lhe ofereceram o poder, e em seguida expulso do Ex\u00e9rcito. O luxo do cativeiro o irritou: pediu para ser transferido ao navio onde estavam os outros presos.<\/p>\n<p>Get\u00falio Vargas acabou por reabilit\u00e1-lo, encarregando-o da media\u00e7\u00e3o do conflito de Let\u00edcia, entre Col\u00f4mbia e Peru, conduzida por quatro anos sem que se disparasse um tiro a mais. Em 1955, o Congresso o promoveu a marechal; cego, incapaz de ler o pr\u00f3prio discurso, ouviu o presidente do Senado ler o discurso em seu nome: &#8220;O \u00edndio, senhores senadores e deputados, \u00e9 nosso irm\u00e3o.&#8221; No ano seguinte, o antigo territ\u00f3rio do Guapor\u00e9 foi rebatizado de Rond\u00f4nia, e ele se tornou o \u00fanico brasileiro a dar nome a um estado ainda em vida.<\/p>\n<h2>O esp\u00f3lio do marechal<\/h2>\n<p>A ditadura militar transformou Rondon em patrono do seu projeto para a Amaz\u00f4nia, e o lema <em>integrar para n\u00e3o entregar <\/em>usou o vocabul\u00e1rio de Rondon para fins que ele, ao fim da vida, j\u00e1 n\u00e3o endossava. A esquerda o reivindicou pela outra ponta, a da causa ind\u00edgena: a Funai o celebra como fundador, e Lula relan\u00e7ou em 2005 o Projeto Rondon, criado pelo regime militar.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, por\u00e9m, consagrou o contr\u00e1rio do que Rondon pregou por meio s\u00e9culo. Abandonou a perspectiva da assimila\u00e7\u00e3o e garantiu aos povos ind\u00edgenas o direito de permanecer o que s\u00e3o, em terras demarcadas, enquanto o programa rondoniano queria fazer do \u00edndio um brasileiro entre os demais. Do velho projeto, o indigenismo atual se parece apenas com o Rondon tardio, o das d\u00favidas de 1940.<\/p>\n<p>O revisionismo acad\u00eamico dos anos 1990 foi al\u00e9m e o descreveu como agente de um projeto predat\u00f3rio, traidor do pr\u00f3prio sangue. O antrop\u00f3logo M\u00e9rcio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai, respondeu que os cr\u00edticos cobram de Rondon uma vis\u00e3o que s\u00f3 o conhecimento posterior tornou poss\u00edvel, e que sua atitude \u00e9tica n\u00e3o tinha precedente no Brasil de ent\u00e3o nem fora dele.<\/p>\n<p>Ainda assim, nenhum dos dois campos abre m\u00e3o do marechal. Talvez porque o epis\u00f3dio de 1914 diga tanto. O Brasil mandou um oficial descer um rio que ningu\u00e9m sabia aonde ia, na companhia do homem mais famoso do mundo, e o oficial voltou com o mapa, com o nome do estrangeiro dado ao rio e com o assassino poupado da bala que o ex-presidente americano exigia.<\/p>\n<p>Rondon morreu na manh\u00e3 de 19 de janeiro de 1958, anivers\u00e1rio de Auguste Comte, aos 92 anos, recitando a quem o visitava o catecismo positivista: os vivos s\u00e3o conduzidos pelos mortos; o amor por princ\u00edpio, a ordem por base, o progresso por fim. Na semana da morte, Manuel Bandeira escreveu: &#8220;A vida de Rondon \u00e9 um conforto para todo brasileiro que ande descrente de sua terra. Mostra que nem tudo \u00e9 cafajestada nestes nossos 8 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados.&#8221;<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco depois do meio-dia de 27 de fevereiro de 1914, sete canoas partiram de um ponto onde a linha telegr\u00e1fica&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":545994,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-545993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/545993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=545993"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/545993\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/545994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=545993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=545993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=545993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}