{"id":545576,"date":"2026-07-11T14:58:56","date_gmt":"2026-07-11T18:58:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545576"},"modified":"2026-07-11T14:58:56","modified_gmt":"2026-07-11T18:58:56","slug":"grande-sertao-veredas-os-70-anos-de-um-livro-sobre-deus-e-o-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545576","title":{"rendered":"\u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d \u2013 os 70 anos de um livro sobre Deus e o diabo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Nas primeiras p\u00e1ginas de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, os moradores de um povoado matam um bezerro. O animal tinha tra\u00e7os que lembravam um rosto humano sorrindo, e conclu\u00edram que aquilo era o dem\u00f4nio. Riobaldo, que conta o caso sem ter ido ver, registra s\u00f3 o veredito: &#8220;determinaram, era o demo. Povo prasc\u00f3vio. Mataram.&#8221; O romance de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa completa setenta anos em 2026, e a primeira coisa que faz, antes de retratar qualquer guerra de jagun\u00e7os, \u00e9 matar um animal por suspeita a respeito da origem do mal.<\/p>\n<p>A obra-prima de Guimar\u00e3es Rosa, em sua dimens\u00e3o mais profunda, \u00e9 um livro sobre Deus e o diabo.<\/p>\n<p>A frase de abertura j\u00e1 adianta o teor teol\u00f3gico da obra. &#8220;Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem n\u00e3o, Deus esteja&#8221;, diz o narrador a um interlocutor que passa tr\u00eas dias em sua fazenda ouvindo, quase sempre calado, a hist\u00f3ria inteira. Riobaldo \u00e9 um ex-jagun\u00e7o velho e rico que trocou as letras pela vida armada no sert\u00e3o de Minas e agora, na varanda, tenta entender o que viveu. As batalhas e a morte do grande chefe Joca Ramiro ocupam centenas de p\u00e1ginas, mas n\u00e3o s\u00e3o o que tira o sono do velho. O que o persegue \u00e9 uma pergunta de outra natureza, a de saber se ele vendeu ou n\u00e3o a alma.<\/p>\n<p>Riobaldo n\u00e3o decide. Ao longo do relato ele afirma e desmente o diabo dezenas de vezes, \u00e0s vezes na mesma p\u00e1gina. Ora ensina ao vistante que &#8220;o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem&#8221;, e que solto, por si, &#8220;n\u00e3o tem diabo nenhum&#8221;. Ora suspeita que o capeta em pessoa passou pela regi\u00e3o. A d\u00favida n\u00e3o funciona como enfeite ret\u00f3rico, \u00e9 o eixo sobre o qual o livro inteiro gira, e Rosa nunca o fecha.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio central acontece nas Veredas-Mortas. Riobaldo caminha sozinho at\u00e9 a encruzilhada \u00e0 meia-noite para convocar o dono dos infernos e comprar dele a coragem de vencer Herm\u00f3genes, o jagun\u00e7o que tra\u00edra e matara Joca Ramiro. Grita o nome na madrugada e nada responde. &#8220;Ele n\u00e3o existe&#8221;, reconhece Riobaldo, &#8220;n\u00e3o apareceu nem respondeu&#8221;. A frase que vem em seguida \u00e9 a que desmonta qualquer leitura tranquilizadora: &#8220;Mas eu supri que ele tinha me ouvido.&#8221; O pacto se consuma sem a presen\u00e7a do outro contratante. O diabo pode n\u00e3o existir e ainda assim mudar o rumo de uma vida, desde que o homem acredite t\u00ea-lo convocado.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de Deus, no entanto, n\u00e3o entra em julgamento uma \u00fanica vez. Riobaldo diz a diferen\u00e7a com todas as letras: &#8220;Deus existe mesmo quando n\u00e3o h\u00e1. Mas o dem\u00f4nio n\u00e3o precisa de existir para haver.&#8221;<\/p>\n<p>A \u00fanica vez em que algu\u00e9m nega Deus no romance, quem o faz \u00e9 um doutor forasteiro ca\u00e7ador de turmalinas no vale do Ara\u00e7ua\u00ed, que ensina a Riobaldo que a vida reencarna por progresso pr\u00f3prio e que Deus n\u00e3o h\u00e1, e a rea\u00e7\u00e3o do jagun\u00e7o \u00e9 de pavor: &#8220;Estreme\u00e7o. Como n\u00e3o ter Deus?!&#8221;<\/p>\n<p>O que ele chega a questionar em Deus \u00e9 o modo de operar, um Deus que existe &#8220;devagarinho, depressa&#8221; e quase s\u00f3 pela m\u00e3o dos homens, de bons e de maus. O medo do velho esteve sempre em outra coisa, em saber se o mal que ele viu e cometeu tem exist\u00eancia pr\u00f3pria ou nasce inteiro dentro do homem.<\/p>\n<p>Contra esse fundo de d\u00favida, Riobaldo se agarra a tudo que sirva de reza. &#8220;N\u00e3o perco ocasi\u00e3o de religi\u00e3o. Aproveito de todas. Bebo \u00e1gua de todo rio&#8221;, diz, e o que segue \u00e9 o invent\u00e1rio de quem quer toda a prote\u00e7\u00e3o que conseguir juntar. Aceita as preces kardecistas do compadre Quelem\u00e9m e, quando pode, aparece no culto metodista de um tal de Matias, sem largar o catolicismo de sempre nem a rezadeira que ele paga todo m\u00eas para lhe dizer um ter\u00e7o. O motivo est\u00e1 expl\u00edcito no livro. &#8220;Todo-o-mundo \u00e9 louco&#8221;, conclui o narrador, e &#8220;carece principalmente de religi\u00e3o para se desendoidecer. Reza \u00e9 que sara da loucura&#8221;. A f\u00e9, aqui, n\u00e3o \u00e9 consolo de beata, \u00e9 o rem\u00e9dio de um homem contra o terror de viver num mundo em que o bem e o mal n\u00e3o se deixam distinguir.<\/p>\n<p>Essa procura n\u00e3o era s\u00f3 de Riobaldo. Na c\u00e9lebre entrevista a G\u00fcnter Lorenz, Rosa foi perguntado sobre a pr\u00f3pria f\u00e9 e respondeu com a mesma indefini\u00e7\u00e3o do personagem. &#8220;N\u00e3o sei o que sou&#8221;, disse. &#8220;Posso bem ser crist\u00e3o de confiss\u00e3o sertanista, mas tamb\u00e9m pode ser que eu seja tao\u00edsta \u00e0 maneira de Cordisburgo, ou um pag\u00e3o crente \u00e0 la Tolst\u00f3i.&#8221; Cordisburgo \u00e9 a cidadezinha mineira onde ele nasceu, e a piada esconde uma convic\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. Na mesma conversa, Rosa desqualificou de sa\u00edda a leitura mais \u00f3bvia do livro, a do pacto f\u00e1ustico. &#8220;Riobaldo n\u00e3o \u00e9 Fausto&#8221;, avisou, ele &#8220;\u00e9 o sert\u00e3o feito homem&#8221;, e, levada a coisa ao limite, &#8220;\u00e9 apenas o Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Rosa embrulhou tudo isso na l\u00edngua mais original que a literatura brasileira j\u00e1 produziu, e foi essa l\u00edngua que a posteridade escolheu celebrar. O cr\u00edtico liter\u00e1rio Antonio Candido enxergou nela o que tira o livro da categoria de romance regional, justificando que a palavra de Rosa ultrapassa aquilo que narra. Ou seja, ele transforma um caso do interior de Minas em uma quest\u00e3o de qualquer homem, a do &#8220;homem humano&#8221;, express\u00e3o que o cr\u00edtico tomou emprestada ao pr\u00f3prio Riobaldo.<\/p>\n<p>Consagrado como proeza verbal e como epopeia nacional, com o sert\u00e3o promovido a s\u00edmbolo do pa\u00eds inteiro, o romance teve a pergunta religiosa que o estrutura quase sempre lida por dois caminhos que a domesticam. Num deles, o pacto vira folclore, causo pitoresco de jagun\u00e7o supersticioso. No outro, vira alegoria social, e o cr\u00edtico Willi Bolle chegou a ler o desejo de vender a alma como o &#8220;desejo coletivo&#8221; do sertanejo pobre, acuado entre servir a um coronel ou a um chefe de bando. Nenhum dos dois encara o que Rosa deixou de p\u00e9, que \u00e9 a possibilidade de a pergunta sobre o diabo ser levada a s\u00e9rio sem receber resposta.<\/p>\n<p>O mundo do livro n\u00e3o separa as duas coisas. &#8220;Este mundo \u00e9 muito misturado&#8221;, resume Riobaldo em certo trecho, e a mistura \u00e9 o problema teol\u00f3gico do qual ele n\u00e3o escapa, porque se Deus e o diabo trabalham no mesmo homem e \u00e0s vezes na mesma hora, comprar e vender a alma podem ser, como lhe diz o compadre Quelem\u00e9m no fim, &#8220;as a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o as quase iguais&#8221;. A resposta que o velho oferece ao doutor, depois de tudo, \u00e9 uma negativa em que ningu\u00e9m acredita, ele menos que todos: &#8220;O diabo n\u00e3o h\u00e1! \u00c9 o que eu digo, se for&#8230; Existe \u00e9 homem humano.&#8221; A \u00faltima palavra do romance, logo depois, \u00e9 &#8220;Travessia&#8221;. Setenta anos passados, nenhum leitor saiu daquela varanda com a quest\u00e3o encerrada, e talvez fosse isso o que Rosa quisesse, deixar o diabo solto no sert\u00e3o sem confirmar nem enterrar, para que cada um decidisse por conta e risco se aquilo que assombra o homem mora fora dele ou s\u00f3 dentro.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas primeiras p\u00e1ginas de Grande Sert\u00e3o: Veredas, os moradores de um povoado matam um bezerro. 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