{"id":545333,"date":"2026-07-11T09:35:24","date_gmt":"2026-07-11T13:35:24","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545333"},"modified":"2026-07-11T09:35:24","modified_gmt":"2026-07-11T13:35:24","slug":"como-a-atemoia-destronou-a-fruta-do-conde-e-ganha-espaco-no-mercado-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=545333","title":{"rendered":"Como a atemoia destronou a fruta-do-conde e ganha espa\u00e7o no mercado brasileiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Atemoia. O nome ainda provoca alguma estranheza porque, na apar\u00eancia, a fruta lembra muito a fruta-do-conde, ou pinha. Seria apenas a mesma fruta com outro nome? N\u00e3o exatamente. A atemoia \u00e9 um h\u00edbrido, resultado do cruzamento entre a pinha e a cherimoia, fruta da mesma fam\u00edlia, de origem andina, adaptada a regi\u00f5es de altitude e clima mais ameno e pouco vista no mercado brasileiro.<\/p>\n<p>O nome nasceu dessa mistura. \u201cAte\u201d vem de um antigo termo associado \u00e0 pinha, enquanto \u201cmoia\u201d vem de cherimoia. Os primeiros experimentos com a fruta s\u00e3o atribu\u00eddos ao horticultor sueco-americano Peter Jansen Wester, no laborat\u00f3rio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em Miami, em 1908. A ideia era unir o sabor e a resist\u00eancia ao frio da cherimoia \u00e0 produtividade e \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o ao calor da pinha.<\/p>\n<p>No Brasil, a atemoia chegou aos pomares na d\u00e9cada de 1960 e encontrou um caminho menos dif\u00edcil porque a pinha j\u00e1 fazia parte da mem\u00f3ria alimentar de muitas regi\u00f5es. A esp\u00e9cie n\u00e3o \u00e9 originalmente brasileira, mas sua introdu\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 associada ao <strong>Conde de Miranda<\/strong>, na Bahia, ainda no s\u00e9culo XVII, origem do nome fruta-do-conde em parte do Brasil. A atemoia ganhou presen\u00e7a nas \u00faltimas d\u00e9cadas justamente por parecer familiar sem ser igual.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a fica mais clara quando se olha a fruta de perto. Na pinha, os gomos s\u00e3o mais salientes e chegam a se abrir quando ela amadurece. A atemoia tem superf\u00edcie mais uniforme, formato mais pr\u00f3ximo de um cora\u00e7\u00e3o e costuma ser maior e mais pesada. A polpa tamb\u00e9m muda: \u00e9 mais firme, n\u00e3o se desfaz com tanta facilidade, tem menos sementes proporcionalmente e combina do\u00e7ura com uma leve acidez.<\/p>\n<p>Para quem vende, por\u00e9m, o interesse n\u00e3o se limita ao paladar. A fruta resiste melhor ao transporte, permanece em condi\u00e7\u00e3o de venda por mais tempo e reduz um risco conhecido de qualquer hortifruti: fruta que se perde antes de ser comprada vira preju\u00edzo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>A fruta da qual o mercado aprendeu a gostar<\/h2>\n<p>Na Companhia de Entrepostos e Armaz\u00e9ns Gerais de S\u00e3o Paulo, a Ceagesp, a atemoia vem mantendo volume relevante no atacado paulistano e teve em 2025 um dos melhores resultados da s\u00e9rie recente. Segundo o chefe da Se\u00e7\u00e3o de Economia e Desenvolvimento do \u00f3rg\u00e3o, Thiago de Oliveira, a comercializa\u00e7\u00e3o na capital paulista ficou em m\u00e9dia em 2.929 toneladas por ano na \u00faltima d\u00e9cada. No ano passado, chegou a 3.281 toneladas.<\/p>\n<p>A atemoia n\u00e3o substitui a pinha, mas aproveita um per\u00edodo em que a fruta-do-conde perde for\u00e7a no mercado. Um levantamento hist\u00f3rico do Instituto de Economia Agr\u00edcola, com base na Ceagesp, indicava maior oferta da pinha entre fevereiro e maio, enquanto a atemoia se concentrava entre maio e agosto. A diferen\u00e7a ajuda a entender por que as duas convivem no com\u00e9rcio sem ocupar exatamente o mesmo lugar.<\/p>\n<p>Esse intervalo de venda acompanha o pr\u00f3prio comportamento da produ\u00e7\u00e3o. De acordo com o engenheiro agr\u00f4nomo Edson Tadashi Savazaki, especialista agropecu\u00e1rio da Casa da Agricultura de Guai\u00e7ara, unidade ligada \u00e0 Diretoria de Assist\u00eancia T\u00e9cnica Integral, a Cati, a produ\u00e7\u00e3o paulista pode come\u00e7ar entre fevereiro e mar\u00e7o nas \u00e1reas mais quentes e seguir at\u00e9 outubro nas regi\u00f5es mais frias.<\/p>\n<p>A fruta consegue permanecer por mais tempo no hortifruti porque n\u00e3o depende de uma \u00fanica regi\u00e3o produtora, de uma safra concentrada em poucas semanas ou de uma \u00fanica variedade. Na Ceagesp, o pre\u00e7o tamb\u00e9m mostra que a atemoia ocupa uma faixa intermedi\u00e1ria.<\/p>\n<p>A fruta est\u00e1 mais perto das <em>premium<\/em> do que das populares, mas sem aparecer como produto de luxo. Em 2025, o pre\u00e7o m\u00e9dio foi de R$ 9,10 por quilo, pr\u00f3ximo ao da ma\u00e7\u00e3 e ao da pr\u00f3pria pinha.<\/p>\n<p>Em Curitiba, a compara\u00e7\u00e3o com a pinha chama aten\u00e7\u00e3o primeiro pelo pre\u00e7o. Na unidade das Centrais de Abastecimento do Paran\u00e1, a Ceasa Paran\u00e1, a atemoia teve pre\u00e7o m\u00e9dio de R$ 8,86 por quilo em 2025, contra R$ 17,20 da fruta-do-conde. O volume tamb\u00e9m avan\u00e7ou com for\u00e7a: passou de 245 toneladas em 2021 para 479 toneladas em 2025. Em quatro anos, praticamente dobrou.<\/p>\n<p>Engenheiro agr\u00f4nomo da Ceasa Paran\u00e1, Felipe Nascimento dos Santos aponta S\u00e3o Paulo como a principal origem da atemoia que chega ao atacado curitibano, com mais de 70% do volume. O Paran\u00e1 aparece em seguida entre as origens registradas pela central, indicando presen\u00e7a de produ\u00e7\u00e3o local nesse abastecimento, embora ainda distante do peso paulista.<\/p>\n<h2>Mapa da atemoia no Brasil<\/h2>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o brasileira de atemoia se concentra sobretudo no Sudeste, com S\u00e3o Paulo como uma das principais refer\u00eancias t\u00e9cnicas e produtivas. Segundo a Cati, h\u00e1 polos em regi\u00f5es como Jarinu, Atibaia, Itatiba, Pilar do Sul, Itapetininga, Paranapanema e Catanduva.<\/p>\n<p>Minas Gerais tamb\u00e9m tem peso importante, e a for\u00e7a do estado aparece no abastecimento da pr\u00f3pria Ceagesp. Em 2025, os munic\u00edpios mineiros de Turvol\u00e2ndia e Ja\u00edba foram os que mais forneceram atemoia ao atacado paulista. Na sequ\u00eancia, vieram cidades de S\u00e3o Paulo como Pilar do Sul, Paranapanema, Jarinu e Atibaia.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas mais quentes, como o noroeste paulista e regi\u00f5es produtoras de Minas Gerais, e \u00e1reas de clima mais ameno, como Jarinu, Atibaia, Pilar do Sul e Paranapanema, ajuda a distribuir a produ\u00e7\u00e3o ao longo do ano. As variedades plantadas tamb\u00e9m contribuem para essa oferta mais espa\u00e7ada.<\/p>\n<p>Entre as mais presentes no Brasil, a <strong>Gefner<\/strong> tem origem israelense, casca mais fina e gomos mais destacados, com maior propor\u00e7\u00e3o de polpa, mas tamb\u00e9m mais sens\u00edvel ao escurecimento quando a fruta se machuca. A <strong>Thompson<\/strong>, de origem norte-americana, tem casca mais grossa, superf\u00edcie mais lisa e resiste melhor ao manuseio e ao transporte.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o do cultivo da atemoia no Brasil tamb\u00e9m passou pela tecnologia. O engenheiro agr\u00f4nomo Anderson Watanabe, do Servi\u00e7o de Produ\u00e7\u00e3o de Mudas da Cati Sementes e Mudas, explica que o uso de plantas enxertadas ajudou a tornar a produ\u00e7\u00e3o mais segura.<\/p>\n<p>Em vez de depender apenas de sementes, que podem gerar plantas irregulares, o produtor usa uma base mais adaptada para sustentar a variedade que dar\u00e1 o fruto desejado. Nesse processo, <strong>o araticum ganhou espa\u00e7o como porta-enxerto<\/strong>.<\/p>\n<p>O araticum \u00e9 uma planta da mesma fam\u00edlia da atemoia, usada para formar ra\u00edzes mais adequadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es brasileiras. O trabalho desenvolvido em S\u00e3o Bento do Sapuca\u00ed, onde a Cati mant\u00e9m uma unidade de produ\u00e7\u00e3o de mudas, contribuiu para plantas mais uniformes e pomares menos sujeitos a falhas.<\/p>\n<p>Um comunicado t\u00e9cnico da Embrapa, publicado em 2001, j\u00e1 registrava cultivo de atemoia em S\u00e3o Paulo, norte do Paran\u00e1, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, com introdu\u00e7\u00e3o inicial nos dois primeiros. O documento tamb\u00e9m relatava experimentos no Subm\u00e9dio S\u00e3o Francisco, no Nordeste, sinal de que a fruta j\u00e1 era vista como alternativa para o mercado interno em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Exporta\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 t\u00edmida<\/h2>\n<p>Dados da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados, a Abrafrutas, mostram que o grupo em que a atemoia est\u00e1 inserida tamb\u00e9m aparece nas estat\u00edsticas brasileiras de exporta\u00e7\u00e3o. O dado n\u00e3o isola apenas a fruta, mas re\u00fane anonas e outras frutas do g\u00eanero <em>Annona<\/em>, do qual fazem parte a pinha, a graviola e frutas semelhantes.<\/p>\n<p>Em 2025, essas exporta\u00e7\u00f5es somaram US$ 4,46 milh\u00f5es, com 1.297 toneladas embarcadas. O Canad\u00e1 foi o principal destino, seguido por Reino Unido, Estados Unidos, Fran\u00e7a e Alemanha. De janeiro a maio de 2026, foram US$ 1,55 milh\u00e3o e 410 toneladas.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 pouco perto da for\u00e7a do consumo interno, mas mostra que as anon\u00e1ceas brasileiras j\u00e1 come\u00e7am a aparecer tamb\u00e9m fora do pa\u00eds.<\/p>\n<h2>O que a fruta entrega al\u00e9m da curiosidade<\/h2>\n<p>A atemoia tamb\u00e9m entrou no radar de quem busca benef\u00edcios para a sa\u00fade. Segundo a nutricionista Adriane Tondinelli, da Ceasa Paran\u00e1, a fruta tem vitamina C, pot\u00e1ssio, compostos antioxidantes e carboidratos. A cada 100 gramas, s\u00e3o 25,3 gramas de carboidratos, 97 calorias, 2,1 gramas de fibras e 10,1 miligramas de vitamina C.<\/p>\n<p>A fruta pode fazer parte de uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada, mas a quantidade consumida importa, j\u00e1 que o consumo frequente ou em grande quantidade pode levar a picos glic\u00eamicos. Para quem busca reduzir calorias ou precisa controlar a glicemia, a atemoia precisa entrar na conta do dia.<\/p>\n<p>Outra observa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que <strong>as sementes n\u00e3o devem ser ingeridas nem mastigadas<\/strong>. Assim como ocorre em outras frutas do g\u00eanero <em>Annona<\/em>, elas t\u00eam compostos que podem fazer mal ao organismo e devem ficar fora do consumo.<\/p>\n<p>Se numa dieta equilibrada a atemoia pede controle, no hortifruti brasileiro o movimento tem sido de crescimento. Aos poucos, a fruta de nome estranho deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a figurar entre os itens que v\u00e3o para a sacola.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atemoia. O nome ainda provoca alguma estranheza porque, na apar\u00eancia, a fruta lembra muito a fruta-do-conde, ou pinha. 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