{"id":544684,"date":"2026-07-11T05:01:00","date_gmt":"2026-07-11T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=544684"},"modified":"2026-07-11T05:01:00","modified_gmt":"2026-07-11T09:01:00","slug":"fronteira-invisivel-do-poder-acesso-a-ia-e-a-nova-expressao-da-soberania-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=544684","title":{"rendered":"Fronteira invis\u00edvel do poder: acesso \u00e0 IA \u00e9 a nova express\u00e3o da soberania mundial"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Imagine acordar amanh\u00e3 e descobrir que as intelig\u00eancias artificiais mais avan\u00e7adas do planeta simplesmente deixaram de funcionar no Brasil. N\u00e3o por um ataque cibern\u00e9tico, uma guerra tampouco uma crise econ\u00f4mica, mas porque autoridades de uma pot\u00eancia global decidiram restringir o acesso de estrangeiros aos modelos mais sofisticados de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Empresas interrompem projetos, universidades suspendem pesquisas, hospitais perdem ferramentas de diagn\u00f3stico, institui\u00e7\u00f5es financeiras veem seus sistemas de preven\u00e7\u00e3o a fraudes tornarem-se obsoletos e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos ficam privados da infraestrutura digital da qual passaram a depender. Parece fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 exatamente o tipo de poder que come\u00e7a a moldar a ordem internacional.<\/p>\n<p>Toda \u00e9poca possui sua tecnologia decisiva, aquela que reorganiza o equil\u00edbrio de poder e redefine a hierarquia do sistema internacional. No s\u00e9culo XIX, esse instrumento foi o dom\u00ednio dos mares. Como ensinou Alfred Thayer Mahan, quem controlava as rotas mar\u00edtimas controlava o com\u00e9rcio; quem controlava o com\u00e9rcio acumulava riqueza; e quem acumulava riqueza a convertia em poder. O Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico compreendeu essa l\u00f3gica antes de todos e transformou a hegemonia naval em supremacia global.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, a geografia estrat\u00e9gica descrita por Halford J. Mackinder e Nicholas Spykman continuou determinando a competi\u00e7\u00e3o entre Estados, mas foi acompanhada por uma nova dimens\u00e3o de poder: a ci\u00eancia. O \u00e1tomo, os foguetes, os sat\u00e9lites e a inform\u00e1tica converteram o conhecimento em instrumento de sobreviv\u00eancia nacional. A Guerra Fria foi, antes de tudo, uma disputa tecnol\u00f3gica. Quem dominava a inova\u00e7\u00e3o dominava tamb\u00e9m a capacidade militar, industrial e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI inaugura uma transforma\u00e7\u00e3o ainda mais profunda. O territ\u00f3rio decisivo da competi\u00e7\u00e3o internacional deixou de ser apenas f\u00edsico. A nova fronteira estrat\u00e9gica \u00e9 cognitiva e envolve mais do que competi\u00e7\u00e3o comercial entre empresas de tecnologia. \u00c9 uma corrida estrat\u00e9gica entre pot\u00eancias, travada com a frieza e a desconfian\u00e7a de uma guerra. E, no momento, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 nessa competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A IA n\u00e3o constitui apenas inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou ferramenta de aumento de produtividade. Ela se tornou infraestrutura de poder, fator de produ\u00e7\u00e3o, multiplicador militar e instrumento de influ\u00eancia geopol\u00edtica. Em torno dela est\u00e1 surgindo uma nova arquitetura internacional, na qual o acesso \u00e0 capacidade computacional e aos modelos mais avan\u00e7ados passa a definir quais pa\u00edses exercer\u00e3o soberania plena e quais depender\u00e3o de terceiros.<\/p>\n<p>\u00c9 essa transforma\u00e7\u00e3o que propomos chamar de soberania cognitiva: a capacidade de uma na\u00e7\u00e3o de preservar acesso confi\u00e1vel \u00e0s tecnologias respons\u00e1veis por produzir, processar e ampliar intelig\u00eancia em escala. Assim como a soberania energ\u00e9tica condicionou a autonomia dos Estados no s\u00e9culo XX, a soberania cognitiva tende a tornar-se um dos principais fundamentos da autonomia nacional neste s\u00e9culo. N\u00e3o se trata de produzir todos os chips do mundo nem de desenvolver isoladamente os modelos mais sofisticados. Trata-se de garantir que decis\u00f5es tomadas em capitais estrangeiras n\u00e3o possam interromper, de um dia para outro, a capacidade nacional de inovar, competir, defender-se e governar.<\/p>\n<p>J\u00e1 sustentamos, em artigo anterior nesta Gazeta, intitulado <em><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/ia-virou-arma-militar\/\">A IA virou arma militar<\/a><\/em>, que a IA deixou de ser tecnologia predominantemente civil para converter-se em instrumento de poder estatal e componente essencial de capacidades militares. O que se desenhava como tend\u00eancia tornou-se doutrina. Os EUA tratam a cadeia de semicondutores com o mesmo zelo com que, na Guerra Fria, tratavam os m\u00edsseis bal\u00edsticos e organizam o acesso aos chips e aos modelos de fronteira como quem administra um arsenal: por aliados confi\u00e1veis, por pa\u00edses meramente tolerados e por na\u00e7\u00f5es francamente hostis. A l\u00f3gica deixou de ser a do livre mercado e passou a ser a da seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O s\u00e9culo XXI ser\u00e1 moldado por quem dominar a intelig\u00eancia das m\u00e1quinas e souber tirar cogni\u00e7\u00e3o da areia e da luz<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Robert Gilpin observava que grandes transforma\u00e7\u00f5es na ordem internacional costumam ocorrer quando novas tecnologias alteram profundamente a distribui\u00e7\u00e3o relativa de poder entre os Estados. \u00c9 precisamente isso que estamos testemunhando. A IA deixou de ser apenas um setor econ\u00f4mico para tornar-se vari\u00e1vel central da competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Quem controlar sua infraestrutura controlar\u00e1 parte crescente da inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, da produtividade industrial, da superioridade militar e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, da influ\u00eancia pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>E o acesso, nessa nova ordem, \u00e9 a arma que nenhum ve\u00edculo blindado iguala. Em 2026, o governo americano determinou que um dos principais laborat\u00f3rios de IA do pa\u00eds suspendesse o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avan\u00e7ados, Mythos e Fable; a Anthropic, desenvolvedora de ambos, respondeu suspendendo o acesso de todos, no mundo inteiro, por tempo indeterminado.<\/p>\n<p>Foi a profecia cumprida: o cercamento da fronteira tecnol\u00f3gica, que descrev\u00edamos como o equivalente digital de um embargo, deixou de ser hip\u00f3tese e tornou-se fato consumado. As autoridades dos Estados Unidos voltaram atr\u00e1s na proibi\u00e7\u00e3o de acesso ao Fable no in\u00edcio de julho, mas mantiveram as restri\u00e7\u00f5es relacionadas ao Mythos.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o que o epis\u00f3dio inscreve a ferro \u00e9 simples e brutal: na era cognitiva, a capacidade da qual um pa\u00eds depende pode evaporar da noite para o dia, n\u00e3o por uma guerra, mas por um despacho administrativo. Esse embargo tecnol\u00f3gico deixou de ser hip\u00f3tese para transformar-se em realidade, da qual o Brasil se aproxima sem possuir estrat\u00e9gia para alcan\u00e7ar soberania cognitiva.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ensina o que est\u00e1 em jogo, e ensina sem piedade. Sempre que uma tecnologia altera profundamente a distribui\u00e7\u00e3o do poder entre os Estados, ela deixa de ser apenas inova\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para se transformar em ativo estrat\u00e9gico, dividindo o mundo entre soberanos e tutelados. O mercado cede espa\u00e7o \u00e0 geopol\u00edtica; a concorr\u00eancia, ao controle; a efici\u00eancia, \u00e0 seguran\u00e7a nacional e \u00e0 resili\u00eancia. O que hoje observamos com os semicondutores e a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o constitui ruptura da hist\u00f3ria, mas sua continuidade.<\/p>\n<p>Em 1945, os EUA detinham o monop\u00f3lio at\u00f4mico; no ano seguinte, a Lei McMahon cortou o acesso \u00e0 tecnologia nuclear norte-americana at\u00e9 de seu aliado mais pr\u00f3ximo, o Reino Unido, que combatera a seu lado e contribu\u00edra para o pr\u00f3prio Projeto Manhattan. Londres precisou desenvolver seu programa nuclear para fins militares sem apoio direto dos EUA e gastar mais de uma d\u00e9cada de diplomacia paciente para reconquistar a confian\u00e7a de Washington, selada apenas em 1958. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 dupla e atual\u00edssima: a autarquia tecnol\u00f3gica quase nunca \u00e9 vi\u00e1vel, e a exclus\u00e3o do clube dos que dominam a tecnologia decisiva \u00e9 uma senten\u00e7a que se paga em gera\u00e7\u00f5es. Quem chega tarde, ou chega do lado errado da linha, dificilmente recupera o tempo perdido.<\/p>\n<p>A IA representa novo salto dessa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica. Pela primeira vez, a tecnologia dominante n\u00e3o amplia apenas uma capacidade espec\u00edfica, mas potencializa todas as demais. Acelera a pesquisa cient\u00edfica, otimiza cadeias log\u00edsticas, aumenta a produtividade industrial, transforma os mercados financeiros, revoluciona a medicina, amplia capacidades militares e acelera o pr\u00f3prio desenvolvimento de novas IAs. N\u00e3o \u00e9 apenas mais uma tecnologia disruptiva, mas a primeira capaz de acelerar sistematicamente a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento em praticamente todos os setores da economia.<\/p>\n<p>Justamente por isso, a IA come\u00e7a a ocupar lugar compar\u00e1vel ao que a energia ocupou na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ou o petr\u00f3leo desempenhou durante o s\u00e9culo XX. Ela deixa de ser um setor para tornar-se infraestrutura. Mais do que um novo mercado, converte-se em novo fator de produ\u00e7\u00e3o. Terra, trabalho e capital continuam indispens\u00e1veis, mas passam a depender crescentemente de uma quarta vari\u00e1vel: a capacidade de produzir intelig\u00eancia em escala. Em outras palavras, a competi\u00e7\u00e3o internacional passa a ser, cada vez mais, uma disputa pela soberania cognitiva.<\/p>\n<blockquote>\n<p> Uma estrat\u00e9gia brasileira de IA realista tem de cortar o besteirol pseudoprogressista, reconhecer as limita\u00e7\u00f5es estruturais do pa\u00eds e fazer escolhas poss\u00edveis, o que \u00e9 inteiramente distinto do que foi feito at\u00e9 o momento<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o explica por que as grandes pot\u00eancias passaram a tratar chips avan\u00e7ados, capacidade computacional e modelos de fronteira como ativos de seguran\u00e7a nacional. O objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas liderar mercados, mas controlar a infraestrutura da intelig\u00eancia mundial. O que antes era pol\u00edtica industrial converte-se em grande estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m medir, ent\u00e3o, o tamanho real da nossa fragilidade. Pensemos no que sustenta um \u00fanico modelo de fronteira. Na base est\u00e1 o sil\u00edcio: chips fabricados em um processo t\u00e3o exigente que apenas tr\u00eas empresas no mundo o dominam, dependentes, todas elas, de uma \u00fanica companhia holandesa, a ASML, que fabrica as m\u00e1quinas de litografia sem as quais nada se produz. Acima do sil\u00edcio est\u00e1 a energia: um <em>data center<\/em> de fronteira consome o equivalente a uma cidade m\u00e9dia, e projetos norte-americanos j\u00e1 se medem em gigawatts.<\/p>\n<p>Acima da energia est\u00e3o os modelos, treinados por um punhado de laborat\u00f3rios que gastam, cada um, mais por ano do que o Brasil inteiro destina \u00e0 ci\u00eancia. E, acima de tudo, est\u00e1 o talento, escasso e migrat\u00f3rio, que o Brasil forma e exporta como exporta soja. O c\u00f4mputo tornou-se a moeda mensur\u00e1vel do poder neste s\u00e9culo, como o foram a tonelagem naval e a capacidade nuclear nos anteriores, e a dist\u00e2ncia entre quem o possui e quem n\u00e3o o possui define um dom\u00ednio importante da hierarquia internacional.<\/p>\n<p>Dessas camadas, o Brasil n\u00e3o controla nenhuma. N\u00e3o temos a litografia, n\u00e3o fabricamos os chips, n\u00e3o treinamos os modelos de fronteira e perdemos os c\u00e9rebros que formamos. Temos, \u00e9 verdade, uma \u00fanica pe\u00e7a do quebra-cabe\u00e7a, e a ela voltaremos, porque nela mora a \u00fanica estrat\u00e9gia poss\u00edvel. Antes, por\u00e9m, \u00e9 preciso entender por que essa depend\u00eancia \u00e9 de uma esp\u00e9cie mais perigosa do que qualquer outra que j\u00e1 enfrentamos.<\/p>\n<p>O Brasil conhece bem a sensa\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia estrat\u00e9gica. Importa mais de 85% dos fertilizantes que aplica em suas lavouras, de uma oferta mundial concentrada em poucas m\u00e3os, e sabe o que \u00e9 ver o custo da pr\u00f3pria comida oscilar ao sabor de guerras alheias. Mas reparemos numa diferen\u00e7a decisiva. Por mais dolorosa que seja, a depend\u00eancia de fertilizantes \u00e9 super\u00e1vel, pois o Brasil tem o subsolo, o g\u00e1s, o fosfato e o pot\u00e1ssio. Tem, portanto, a geologia da pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um problema que se resolve com capital, infraestrutura e a paci\u00eancia de um projeto longo. A servid\u00e3o do adubo tem cura, ainda que lenta.<\/p>\n<p>Com a IA n\u00e3o h\u00e1 cura an\u00e1loga, e aqui est\u00e1 a tese deste artigo: a depend\u00eancia em IA pode tornar-se o passivo estrat\u00e9gico mais grave do Brasil neste s\u00e9culo, pior que o dos fertilizantes, porque o ecossistema da intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 um insumo, \u00e9 um organismo, e nenhuma de suas partes se deixa estocar, substituir ou nacionalizar com a simples aplica\u00e7\u00e3o de tempo e dinheiro. O fertilizante \u00e9 uma <em>commodity<\/em>, fung\u00edvel, estoc\u00e1vel, substitu\u00edvel, compr\u00e1vel de v\u00e1rios fornecedores e, em grande medida, replic\u00e1vel com a geologia que j\u00e1 temos.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia da IA pertence, entretanto, a uma categoria inteiramente distinta. O que a distingue de praticamente todos os insumos estrat\u00e9gicos conhecidos \u00e9 que ela n\u00e3o constitui apenas um produto, mas infraestrutura sobre a qual passa a repousar parte crescente da economia contempor\u00e2nea. \u00c9 uma fronteira em movimento, e quem fica de fora n\u00e3o permanece onde est\u00e1. Afasta-se progressivamente da fronteira tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esse mecanismo que torna a soberania cognitiva diferente da soberania energ\u00e9tica, alimentar ou mineral. Um pa\u00eds pode recuperar d\u00e9cadas de atraso industrial. Pode descobrir novas reservas de petr\u00f3leo. Pode expandir sua produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Mas recuperar o tempo perdido em uma tecnologia cujo pr\u00f3prio ritmo de evolu\u00e7\u00e3o se acelera continuamente \u00e9 infinitamente mais dif\u00edcil, pois, quanto maior a dist\u00e2ncia tecnol\u00f3gica, maior a velocidade com que essa dist\u00e2ncia tende a crescer.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O c\u00f4mputo n\u00e3o se estoca; o que vale \u00e9 a capacidade instalada hoje, treinando os modelos de amanh\u00e3, que treinar\u00e3o os de depois. \u00c9 um juro composto da intelig\u00eancia, e o Brasil est\u00e1 fora dele. Pior: ao contr\u00e1rio do adubo, que nutre uma safra, a IA \u00e9 o substrato da produtividade futura, da defesa, da economia e da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que nossos filhos herdar\u00e3o. Uma na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a possui n\u00e3o paga apenas mais caro; torna-se estruturalmente subalterna, locat\u00e1ria da cogni\u00e7\u00e3o alheia, condenada a alugar do estrangeiro a pr\u00f3pria capacidade de pensar em escala.<\/p>\n<p>\u00c9 o embargo do s\u00e9culo XXI, e traz um agravante que o torna mais cruel que o do \u00e1tomo ou o do adubo: n\u00e3o h\u00e1 jazida no subsolo e n\u00e3o h\u00e1 projeto industrial de 25 anos que dele nos liberte, porque a fronteira que precisar\u00edamos alcan\u00e7ar ter\u00e1 avan\u00e7ado outra vez quando l\u00e1 cheg\u00e1ssemos. E, como a pr\u00f3pria Terafab, de Elon Musk, demonstra \u2013 a f\u00e1brica de chips or\u00e7ada em at\u00e9 US$ 119 bilh\u00f5es, com a ambi\u00e7\u00e3o de produzir sozinha mais c\u00f4mputo do que toda a ind\u00fastria atual \u2013, erguer o ecossistema do zero \u00e9 incerto, mesmo com bilh\u00f5es e g\u00eanio. Por isso, o slogan da &#8220;IA soberana&#8221;, repetido por autoridades brasileiras de todos os matizes, n\u00e3o \u00e9 apenas ing\u00eanuo; \u00e9 perigoso, porque substitui a estrat\u00e9gia pela pose, e a pose anestesia.<\/p>\n<p>E aqui chegamos ao documento que o Brasil ousa chamar de estrat\u00e9gia: o Plano Brasileiro de Intelig\u00eancia Artificial (PBIA). Batizado com o t\u00edtulo de autoajuda &#8220;IA para o Bem de Todos&#8221;, promete R$ 23 bilh\u00f5es entre 2024 e 2028. Ponhamos o n\u00famero em perspectiva. S\u00e3o pouco mais de US$ 4 bilh\u00f5es ao longo de quatro anos, o equivalente ao que as grandes empresas americanas de tecnologia investem, somadas, em pouco mais de uma semana. \u00c9 tamb\u00e9m, sozinho, quase tudo o que o pa\u00eds gastou em um \u00fanico ano com toda a \u00e1rea de ci\u00eancia e tecnologia.<\/p>\n<p>Com essa quantia, promete um supercomputador &#8220;entre os cinco mais potentes do mundo&#8221;, ambi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nasce vaga e obsoleta, rodando, como quase tudo no pa\u00eds, sobre GPUs importadas da Nvidia, em nuvens hospedadas pela Amazon, sob um marco regulat\u00f3rio que segue adiado, \u00e0 espera das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As premissas do plano falam em bem-estar, diversidade, sustentabilidade e governan\u00e7a participativa, vocabul\u00e1rio t\u00edpico de um semin\u00e1rio de recursos humanos <em>woke<\/em>, n\u00e3o o de uma estrat\u00e9gia de poder nacional. Confunde-se ado\u00e7\u00e3o com soberania, gasto com capacidade, e o vazio \u00e9 maquiado com um PDF de capa reluzente. O perigo n\u00e3o \u00e9 o PBIA ser modesto, mas, sim, tom\u00e1-lo por estrat\u00e9gia e, assim, dormir o sono dos que se julgam protegidos.<\/p>\n<p>Que fazer, ent\u00e3o, se a autarquia \u00e9 fantasia e a passividade \u00e9 suic\u00eddio? A resposta come\u00e7a por uma humildade estrat\u00e9gica que falta ao discurso nacional: o Brasil n\u00e3o vai dominar a fronteira da IA, e fingir o contr\u00e1rio \u00e9 desperdi\u00e7ar a \u00fanica d\u00e9cada que importa. O objetivo realista n\u00e3o \u00e9 a &#8220;IA soberana&#8221;, \u00e9 a mitiga\u00e7\u00e3o da fragilidade, o que os estrategistas chamam de depend\u00eancia administrada. Disso decorrem linhas de a\u00e7\u00e3o concretas.<\/p>\n<p>A primeira, e mais urgente, \u00e9 diplom\u00e1tica: garantir ao Brasil assento no grupo confi\u00e1vel da nova arquitetura norte-americana de controle de exporta\u00e7\u00f5es de chips e modelos, o que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel com um governo brasileiro francamente hostil a Washington. O mundo da IA est\u00e1 sendo dividido, neste exato momento, entre aliados confi\u00e1veis, pa\u00edses tolerados e na\u00e7\u00f5es restritas, e o epis\u00f3dio Mythos e Fable mostrou que essa fronteira \u00e9 real e excludente.<\/p>\n<p>Assim como o Reino Unido teve de negociar, ano ap\u00f3s ano, seu retorno ao c\u00edrculo nuclear norte-americano, o Brasil ter\u00e1 de negociar ativamente seu lugar no c\u00edrculo do c\u00f4mputo. Uma das tarefas centrais da pol\u00edtica externa brasileira nos pr\u00f3ximos anos \u00e9 assegurar que o pa\u00eds fique do lado certo dessa linha, mediante a ado\u00e7\u00e3o de instrumentos bilaterais com os EUA, tratados com a mesma seriedade com que se tratam seguran\u00e7a energ\u00e9tica e defesa. Isso deve constar de qualquer estrat\u00e9gia de pol\u00edtica externa digna do nome.<\/p>\n<p>A segunda explora a \u00fanica carta que o Brasil de fato possui: energia limpa, abundante e barata. Se h\u00e1 um insumo da pilha de IA em que somos ricos, \u00e9 eletricidade renov\u00e1vel, justamente o gargalo que sufoca os <em>data centers<\/em> norte-americanos e europeus. O Brasil deve transformar essa abund\u00e2ncia em presen\u00e7a f\u00edsica de c\u00f4mputo no territ\u00f3rio nacional, atraindo o investimento dos grandes provedores, como fazem os emirados do Golfo e os pa\u00edses n\u00f3rdicos. Ainda que a infraestrutura seja de capital estrangeiro, a presen\u00e7a f\u00edsica significa jurisdi\u00e7\u00e3o, empregos qualificados, transfer\u00eancia de compet\u00eancia e, sobretudo, poder de barganha. Energia \u00e9 a nossa moeda, e \u00e9 com ela que compramos um lugar \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 diversificar as parcerias dentro do bloco que importa. Os EUA s\u00e3o o s\u00f3cio indispens\u00e1vel, porque controlam chips, modelos e capital. Mas Jap\u00e3o, Coreia do Sul e Taiwan oferecem equipamentos, t\u00e9cnicas de integra\u00e7\u00e3o que unem chip e mem\u00f3ria (<em>advanced packaging<\/em>) e forma\u00e7\u00e3o de quadros. Com a China, a prud\u00eancia enseja cautela: ela oferecer\u00e1 chips e modelos a pre\u00e7o pol\u00edtico, mas aceit\u00e1-los nos expulsaria do grupo confi\u00e1vel ocidental e nos lan\u00e7aria numa subalternidade pior, temperada por riscos de vigil\u00e2ncia. Realismo n\u00e3o \u00e9 equidist\u00e2ncia, e sim saber de que lado fica o futuro.<\/p>\n<p>A quarta \u00e9 construir, em vez do quim\u00e9rico modelo de fronteira, a camada em que o retorno marginal brasileiro \u00e9 maior: a aplica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o competiremos com os laborat\u00f3rios que gastam dezenas de bilh\u00f5es treinando modelos gigantes. Competiremos \u2013 e podemos vencer \u2013 ajustando esses modelos aos dom\u00ednios em que temos dados e vantagem natural: o agroneg\u00f3cio, a medicina tropical, a biodiversidade e a gest\u00e3o de redes el\u00e9tricas. Os esfor\u00e7os nacionais de modelos pr\u00f3prios fazem sentido como camada de adapta\u00e7\u00e3o soberana, n\u00e3o como pretensos campe\u00f5es a desafiar a fronteira.<\/p>\n<p>A quinta \u00e9 multilateral e subsidi\u00e1ria, jamais substitutiva: articular um arranjo lus\u00f3fono e sul-americano de c\u00f4mputo e dados, com o Brasil como polo regional, aproveitando o patrim\u00f4nio lingu\u00edstico do portugu\u00eas como ativo estrat\u00e9gico. Foros como o BRICS servem para <em>hedge<\/em> pragm\u00e1tico, n\u00e3o como suced\u00e2neo do acesso ocidental que de fato decide o jogo. Quem confunde o acess\u00f3rio com o essencial paga com d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A sexta, por fim, \u00e9 institucional: tirar a IA do gueto do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia e instal\u00e1-la no n\u00facleo da grande estrat\u00e9gia nacional, ao lado da pol\u00edtica externa e da defesa. Enquanto a intelig\u00eancia artificial for tratada como pauta setorial de inova\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como quest\u00e3o de poder nacional, nenhum plano, por mais bilh\u00f5es que prometa, escapar\u00e1 da ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma simetria hist\u00f3rica que deveria nos assombrar. O s\u00e9culo XX foi decidido por quem dominou primeiro as tecnologias capazes de aniquilar ou sustentar na\u00e7\u00f5es inteiras e soube neg\u00e1-las aos rivais. O s\u00e9culo XXI ser\u00e1 moldado por quem dominar a intelig\u00eancia das m\u00e1quinas e souber tirar cogni\u00e7\u00e3o da areia e da luz.<\/p>\n<p>O Brasil chega a essa corrida com as mat\u00e9rias-primas do novo tempo nas m\u00e3os e amea\u00e7a desperdi\u00e7\u00e1-las com uma estrat\u00e9gia feita de adjetivos e um PowerPoint batizado de plano. Uma estrat\u00e9gia brasileira de IA realista tem de cortar o besteirol pseudoprogressista, reconhecer as limita\u00e7\u00f5es estruturais do pa\u00eds e fazer escolhas poss\u00edveis, o que \u00e9 inteiramente distinto do que foi feito at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia de fertilizantes empobrece uma safra; a depend\u00eancia de intelig\u00eancia empobrece um s\u00e9culo. A primeira tem cura na geologia e na paci\u00eancia. A segunda s\u00f3 tem rem\u00e9dio na lucidez estrat\u00e9gica, e lucidez \u00e9 precisamente o que nos falta enquanto trocamos pol\u00edtica externa por bravata e estrat\u00e9gia por autoestima. Nenhum pa\u00eds exerce autonomia estrat\u00e9gica quando depende de decis\u00f5es tomadas por outros para acessar a infraestrutura tecnol\u00f3gica sobre a qual repousam sua economia, sua ci\u00eancia e sua defesa.<\/p>\n<p>Ou o Brasil entende, ainda nesta d\u00e9cada, que o acesso \u00e0 intelig\u00eancia artificial \u00e9 uma das principais express\u00f5es contempor\u00e2neas da soberania, ou se acomodar\u00e1, d\u00f3cil e bem-intencionado, \u00e0 mais amarga das servid\u00f5es: transferir para outros o controle sobre sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia.<\/p>\n<p><em><strong>Marcos Degaut<\/strong>, ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (CAMEX), \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional; <strong>Lindolpho Cademartori <\/strong>\u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine acordar amanh\u00e3 e descobrir que as intelig\u00eancias artificiais mais avan\u00e7adas do planeta simplesmente deixaram de funcionar no Brasil. 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