{"id":544682,"date":"2026-07-11T05:02:00","date_gmt":"2026-07-11T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=544682"},"modified":"2026-07-11T05:02:00","modified_gmt":"2026-07-11T09:02:00","slug":"como-o-transumanismo-dissolve-a-propria-ideia-do-que-e-um-ser-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=544682","title":{"rendered":"Como o transumanismo dissolve a pr\u00f3pria ideia do que \u00e9 um ser humano"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Um t<a href=\"https:\/\/www.christianitytoday.com\/2025\/07\/transhumanism-faith-miroslav-volf\/\">exto de meu ex-professor, Miroslav Volf, publicado na revista americana <em>Christianity Today<\/em><\/a>, ganhou o pr\u00eamio de melhor artigo de teologia de 2025. Apesar de gostar de muita coisa que Miroslav escreve, esse texto eu achei surpreendentemente fraco. Parece-me que ele se encolhe, deixando de confrontar o problema principal, ou talvez simplesmente falha em perceber a natureza real do problema do transumanismo.<\/p>\n<p>Mas, antes de tecer minhas cr\u00edticas ao te\u00f3logo, deixe-me explicar os problemas do transumanismo. Miroslav usa as declara\u00e7\u00f5es de Yuval Harari em seu livro <em>Homo Deus<\/em> como exemplo de apologia ao transumanismo materialista por excel\u00eancia e, nisso, ele acerta.<\/p>\n<p>Harari defende que a humanidade est\u00e1 entrando numa nova fase hist\u00f3rica em que biologia, intelig\u00eancia artificial e processamento de dados permitir\u00e3o ao ser humano superar antigos limites, como sofrimento, doen\u00e7a, envelhecimento e talvez at\u00e9 a pr\u00f3pria morte. Ele apresenta o transumanismo como a continua\u00e7\u00e3o natural do humanismo moderno.<\/p>\n<p>N\u00e3o questiona: \u00e9 a marcha inexor\u00e1vel do progresso, sendo que, se a ci\u00eancia j\u00e1 derrotou boa parte da fome, das epidemias e da mis\u00e9ria f\u00edsica, por que parar antes de redesenhar a pr\u00f3pria consci\u00eancia humana? A ideia central \u00e9 que o ser humano seria, no fundo, um sistema biol\u00f3gico de processamento de informa\u00e7\u00e3o, um algoritmo sofisticado que pode ser melhorado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>No momento em que reduzimos a pessoa humana a mat\u00e9ria manipul\u00e1vel, destru\u00edmos tamb\u00e9m o fundamento da dignidade humana. Direitos passam a existir apenas como acordos tempor\u00e1rios, facilmente descart\u00e1veis quando se tornam &#8216;ineficientes&#8217;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nesse modelo, liberdade vira otimiza\u00e7\u00e3o; moralidade vira efici\u00eancia, que j\u00e1 tinha virado desde o surgimento da \u00e9tica utilit\u00e1ria; e salva\u00e7\u00e3o vira aprimoramento tecnol\u00f3gico. Harari sugere que a evolu\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00e3o natural est\u00e1 sendo substitu\u00edda por uma evolu\u00e7\u00e3o guiada por intelig\u00eancia, e que agora o \u201cdesigner\u201d seria o pr\u00f3prio ser humano.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa vis\u00e3o de mundo \u00e9 fascinante. Ela promete liberta\u00e7\u00e3o da dor, expans\u00e3o da intelig\u00eancia, controle emocional, longevidade indefinida e talvez imortalidade. Ela seduz especialmente sociedades modernas j\u00e1 moldadas pelo materialismo e pela depend\u00eancia tecnol\u00f3gica. Mas o que Harari est\u00e1 fazendo? Est\u00e1 traduzindo antigos desejos religiosos em linguagem cient\u00edfica. Harari prop\u00f5e nada mais do que uma nova vers\u00e3o de f\u00e9 que, como disse o fil\u00f3sofo pol\u00edtico Eric Voegelin, \u201cimanentiza o eschaton\u201d.<\/p>\n<p>O velho sonho humano de vida eterna, transcend\u00eancia, conhecimento absoluto e fuga do sofrimento continua existindo; apenas mudou de roupa. Deus desaparece, mas a estrutura do desejo religioso permanece. O Vale do Sil\u00edcio vira uma esp\u00e9cie de catedral secular. Dados substituem revela\u00e7\u00e3o. O engenheiro toma o lugar do sacerdote.<\/p>\n<p>S\u00f3 que os mil\u00eanios de experi\u00eancia humana deixaram registrados, em estudos filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos, que a ideia de que o ser humano pode ser reduzido \u00e0 biologia ou ao processamento de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o apenas reducionista, mas destrutiva da ess\u00eancia de nossa humanidade. O ser humano n\u00e3o \u00e9 apenas um animal inteligente ou uma m\u00e1quina complexa. Ele \u00e9 criatura. Sua dignidade vem do fato de participar de uma realidade maior que a mat\u00e9ria. Deus criou o mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O transumanismo cient\u00edfico atual n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o \u00e9tica individual. \u00c9 suic\u00eddio da esp\u00e9cie vestido com a linguagem do progresso. Nada de novo debaixo do sol. A alma ocidental, cada vez mais cansada de si mesma, tenta novamente se destruir<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 esse conceito \u201carcaico\u201d e talvez \u201cdanoso para a humanidade\u201d, segundo alguns inimigos da cultura judaico-crist\u00e3, que sustenta toda nossa cren\u00e7a na dignidade humana e no \u201cdireito\u201d que temos de melhorar. Essa \u00e9 uma convic\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica, ou seja, nos d\u00e1 senso de origem e destino, e teleol\u00f3gica, nos d\u00e1 prop\u00f3sito. Saber-nos criados \u00e0 imagem de Deus, todos n\u00f3s, seres humanos, sem exce\u00e7\u00f5es, sem limita\u00e7\u00e3o de classe, cor, poder financeiro, pa\u00eds de origem, gera em n\u00f3s a obriga\u00e7\u00e3o de pertencer um ao outro, porque somos todos iguais, filhos do mesmo Pai, criados com a mesma finura e beleza, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, com o mesmo valor inato. Esta cria\u00e7\u00e3o nos atribui dignidade.<\/p>\n<p>Consci\u00eancia, amor sacrificial, beleza, senso moral, adora\u00e7\u00e3o, busca por significado \u2013 nada disso pode ser explicado completamente por utilidade evolutiva ou an\u00e1lise de dados. O ser humano possui interioridade, alma, profundidade simb\u00f3lica e responsabilidade moral. No momento em que reduzimos a pessoa humana a mat\u00e9ria manipul\u00e1vel, destru\u00edmos tamb\u00e9m o fundamento da dignidade humana. Direitos passam a existir apenas como acordos tempor\u00e1rios, facilmente descart\u00e1veis quando se tornam \u201cineficientes\u201d.<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva, o transumanismo tamb\u00e9m interpreta mal o sofrimento e os limites humanos. O cristianismo, por exemplo, n\u00e3o v\u00ea finitude como defeito t\u00e9cnico a ser eliminado, mas como parte da condi\u00e7\u00e3o da criatura, dentro da qual surgem humildade, depend\u00eancia, amor, sacrif\u00edcio e forma\u00e7\u00e3o moral. Harari assume que sofrimento \u00e9 apenas interrup\u00e7\u00e3o sem sentido, e n\u00e3o algo que tamb\u00e9m pode gerar sabedoria, compaix\u00e3o ou reden\u00e7\u00e3o. Assim, o projeto transumanista n\u00e3o busca apenas curar o ser humano; ele acaba tentando abolir a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Existe ainda um perigo pol\u00edtico profundo embutido nessa vis\u00e3o. Se seres humanos s\u00e3o apenas algoritmos, ent\u00e3o aqueles que controlam os algoritmos tornam-se a nova classe sacerdotal. Empresas tecnol\u00f3gicas, governos e elites cient\u00edficas passam a ter autoridade in\u00e9dita para definir o que significa melhoria, intelig\u00eancia, sa\u00fade ou at\u00e9 humanidade. Por tr\u00e1s da linguagem da liberta\u00e7\u00e3o pode surgir uma humanidade completamente administrada por vigil\u00e2ncia, previs\u00e3o comportamental e controle biol\u00f3gico. A palavra \u201caprimoramento\u201d pode rapidamente se transformar em \u201csele\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Miroslav, em seu artigo, come\u00e7a fr\u00e1gil, interpretando mal o texto cl\u00e1ssico de Giovanni Pico della Mirandola. Ele diz que Pico, fil\u00f3sofo crist\u00e3o do s\u00e9culo XV, advogava o transumanismo. Pico, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o estava defendendo a ideia moderna de que o ser humano pode se reinventar infinitamente atrav\u00e9s da tecnologia. Sua vis\u00e3o ainda era profundamente crist\u00e3. Para ele, o ser humano podia tanto se elevar quanto se degradar, mas sempre dentro de uma ordem criada por Deus. A liberdade humana em Pico n\u00e3o significa abolir os limites da criatura nem o transformar em m\u00e1quina.<\/p>\n<p>O transumanismo cient\u00edfico atual n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o \u00e9tica individual. \u00c9 suic\u00eddio da esp\u00e9cie vestido com a linguagem do progresso. Nada de novo debaixo do sol. A alma ocidental, cada vez mais cansada de si mesma, tenta novamente se destruir. A diferen\u00e7a agora \u00e9 o poder tecnol\u00f3gico. Outras civiliza\u00e7\u00f5es podiam apenas entrar em decad\u00eancia moral, destruir povos, matar seus filhos. A nossa talvez finalmente consiga redesenhar o pr\u00f3prio ser humano at\u00e9 elimin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cir longe demais\u201d com a tecnologia. O problema \u00e9 mais profundo. O transumanismo dissolve a pr\u00f3pria ideia do que \u00e9 um ser humano. Ele separa intelig\u00eancia do corpo, raz\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o moral, consci\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o de criatura. O resultado \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o gradual do que nos torna humanos por efici\u00eancia, c\u00e1lculo e m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Volf tenta responder com humildade e cautela. Ele nos convida a manter uma \u201chumildade antropol\u00f3gica\u201d. O problema \u00e9 que o materialismo n\u00e3o \u00e9 e nunca ser\u00e1 humilde. O orgulho e a prepot\u00eancia s\u00e3o parte de sua cren\u00e7a fundamental. Pessoas como Yuval Noah Harari afirmam abertamente que qualquer avan\u00e7o tecnol\u00f3gico \u00e9 melhor do que limites morais, e que a raz\u00e3o sozinha basta para definir o que somos. Uma vez aceita essa l\u00f3gica, qualquer intelig\u00eancia superior \u00e0 humana passa a ser vista n\u00e3o apenas como \u00fatil, mas como moralmente superior.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, professor, \u00e9 grave assim.<\/p>\n<p>O perigo central do transumanismo n\u00e3o \u00e9 apenas orgulho humano. \u00c9 o abandono da pr\u00f3pria humanidade. Uma civiliza\u00e7\u00e3o que deixa de acreditar que o ser humano possui valor intr\u00ednseco inevitavelmente trocar\u00e1 humanidade por conforto, efici\u00eancia e capacidade t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 brutal: a mesma cultura que passou d\u00e9cadas desconstruindo toda ideia transcendente de dignidade humana agora espera que os \u201cdireitos humanos\u201d sobrevivam ao desaparecimento do pr\u00f3prio humano.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma teologia corajosa, capaz de afirmar transcend\u00eancia e, portanto, a realidade irredut\u00edvel da cria\u00e7\u00e3o divina, consegue resistir \u00e0s pretens\u00f5es morais materialistas do transumanismo. N\u00e3o existe equil\u00edbrio est\u00e1vel entre essas duas vis\u00f5es, ou concess\u00f5es que os te\u00f3logos possam fazer ao materialismo. Ou vemos o ser humano como criatura, portadora de um significado anterior \u00e0 utilidade, ou concedemos ao materialismo que nos trata apenas como mat\u00e9ria-prima esperando para ser redesenhada. A segunda alternativa jamais produziu nenhum bem na hist\u00f3ria da humanidade e o que pode fazer agora, montada no cavalo branco do poder tecnol\u00f3gico, \u00e9 aterrador.<\/p>\n<p><em><strong>Braulia Ribeiro<\/strong> \u00e9 mestre em Lingu\u00edstica, mestre em Divindade pela Yale University e doutora em Hist\u00f3ria e Teologia Pol\u00edtica pela University of St. Andrews (Esc\u00f3cia).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um texto de meu ex-professor, Miroslav Volf, publicado na revista americana Christianity Today, ganhou o pr\u00eamio de melhor artigo de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":544683,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-544682","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/544682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=544682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/544682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/544683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=544682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=544682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=544682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}