{"id":543407,"date":"2026-07-10T14:54:45","date_gmt":"2026-07-10T18:54:45","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=543407"},"modified":"2026-07-10T14:54:45","modified_gmt":"2026-07-10T18:54:45","slug":"ditadores-amam-pessoas-em-redes-sociais-o-dia-inteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=543407","title":{"rendered":"Ditadores amam pessoas em redes sociais o dia inteiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/10120018\/ChatGPT-Image-10-de-jul.-de-2026-11_32_42.jpg.webp\" \/><span>A politiza\u00e7\u00e3o total da vida produz um curioso efeito: quanto mais as pessoas falam de pol\u00edtica, menos diferen\u00e7a fazem para os donos do poder. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>A reportagem \u201cThe end of reading is here\u201d, de Rose Horowitch, na revista The Atlantic, varreu o mundo das letras nesta semana. A autora revela que a quantidade de pessoas que leem por prazer na Am\u00e9rica diminuiu em 43% entre 2004 e 2023. Americanos podem at\u00e9 devorar senten\u00e7as, mas n\u00e3o conseguem mais pensar profundamente sobre um texto que seja mais longo do que um post de Instagram. Cerca de 30% dos adultos americanos s\u00e3o incapazes de fazer uma par\u00e1frase ou extrair infer\u00eancias de um texto com mais de uma p\u00e1gina. Em 2017, esse n\u00famero permanecia abaixo dos 20%.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o ainda mais alarmantes entre os jovens. No equivalente ao nosso colegial, os jovens que leem foram minguando nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre 1984 e 2025, a quantidade de jovens de 13 anos que alegaram raramente ou nunca ler por divers\u00e3o passou de 8% para 29%. Quanto menor a idade do jovem, mais ele tende a encarar a leitura como algo ultrapassado e sup\u00e9rfluo \u2013 muitas vezes sem nem entender como a pr\u00e1tica da leitura pode ser associada a alguma forma de lazer.<\/p>\n<p>Se os americanos precisam enfrentar o v\u00edcio em celular, os brasileiros precisam enfrentar o v\u00edcio em celular, o paulofreirismo e um sistema educacional inspirado no fascismo italiano que valoriza qualquer forma de pensamento, exceto o abstrato, lento e profundo. \u00c9 preciso olhar com cobran\u00e7a para o Vale do Sil\u00edcio (provavelmente pesquisando pelo\u2026 celular) no caso de um pa\u00eds razoavelmente livre como os Estados Unidos, mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso notar outros fen\u00f4menos mais descarados no caso de um pa\u00eds autorit\u00e1rio como o Brasil.<\/p>\n<p>A despeito da briga da ditadura brasileira atual com o Vale do Sil\u00edcio, em um aspecto ambos est\u00e3o de m\u00e3os dadas: no quanto preferem uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o l\u00ea. Regimes ditatoriais, principalmente as ditaduras contempor\u00e2neas, amam que as pessoas estejam entretidas, sem nunca se formarem.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Antigamente, ditadores queimavam bibliotecas. Hoje, precisam apenas de pessoas com o celular na m\u00e3o, passando na frente de bibliotecas todos os dias como passam por uma lixeira<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 um paradoxo comentado por muitos: nunca se leu tanto, mas n\u00e3o se l\u00ea literatura, filosofia ou qualquer obra que forme, e n\u00e3o s\u00f3 informe. O paradoxo \u00e9 apenas aparente: no mundo tecnol\u00f3gico, as pessoas \u201cleem\u201d apenas redes sociais, cujos conte\u00fados reproduzem a rapidez simplificante do marketing, e o WhatsApp. O que \u00e9 uma conversa constante, apenas por escrito. Ou seja, nunca passamos tanto tempo hipnotizados por an\u00fancios e jogando conversa fora. Basicamente, uma continuidade mais lucrativa da televis\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u201ceconomia da aten\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a din\u00e2mica em que donos de algoritmos lucram muito com o v\u00edcio das pessoas em redes sociais, quanto mais viciadas e menos conscientes elas estiverem. As v\u00edtimas acreditam mesmo que est\u00e3o \u201cinformadas\u201d ao passar o dia lendo redes sociais, com conte\u00fados determinados por algoritmos.<\/p>\n<p>Nunca pensam que n\u00e3o conseguem mais permanecer cinco minutos diante de um texto sem figuras, an\u00fancios, intera\u00e7\u00f5es simplificadas (como arrastar para o lado) e alguma forma de v\u00eddeo. \u00c9 o mesmo efeito que criticavam na MTV nos anos 90: imagens passando rapidamente, sem tempo para a reflex\u00e3o. Algo mais pr\u00f3ximo da hipnose do que da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno curioso se somou a esse comportamento coletivo, que j\u00e1 foi chamado de \u201cMcDonaldiza\u00e7\u00e3o da Sociedade\u201d por George Ritzer ainda em 1993. Trata-se da extrema politiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>No Brasil e no mundo, principalmente de 2013 para c\u00e1, todas as rela\u00e7\u00f5es humanas passaram a ser mediadas pela pol\u00edtica \u2013 quando a pol\u00edtica \u00e9 que deveria ser avaliada pelo quanto possibilita ou atrapalha o nosso conv\u00edvio. Antes de 2013, era normal termos amigos de esquerda e de direita, e nossas conversas envolverem mais brigas por conta de futebol ou de gosto musical do que por partidos pol\u00edticos. O comum era termos diversos assuntos.<\/p>\n<p>Depois do impeachment e da pris\u00e3o de Lula, da elei\u00e7\u00e3o de Trump e da de Bolsonaro, a conviv\u00eancia tornou-se quase imposs\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 outro assunto al\u00e9m da pol\u00edtica \u2013 e n\u00e3o estamos falando da grande ci\u00eancia pol\u00edtica ou de uma filosofia social, e sim da pol\u00edtica partid\u00e1ria mais rasteira e mesquinha.<\/p>\n<p>Os donos do poder tiveram como resposta a esses movimentos medidas cada vez mais autorit\u00e1rias, mas envernizadas pela palavra \u201cdemocracia\u201d. A contrarrea\u00e7\u00e3o das pessoas foi\u2026 falar mais de pol\u00edtica em redes sociais. Mas falar muito de pol\u00edtica em redes sociais, passar a vida falando de pol\u00edtica em redes sociais, conversar em bares tendo como assunto o que se falou de pol\u00edtica em redes sociais. H\u00e1 youtubers e instagramers especializados no que as pessoas falam de pol\u00edtica em redes sociais, e programas de r\u00e1dio e TV comentam o que pessoas falaram de pol\u00edtica em redes sociais.<\/p>\n<p>Muitos comemoram a dita \u201cpolitiza\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, as pessoas supostamente teriam \u201cconsci\u00eancia\u201d pol\u00edtica hoje por repetirem discursos e comentarem o que outras pessoas falaram sobre deputados e jornalistas. No entanto, a politiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno rasteiro que tamb\u00e9m flerta com a aliena\u00e7\u00e3o. Passar a vida monotematicamente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma garantia de um futuro louv\u00e1vel. Pior ainda quando essa conversa constante, afastada de livros, n\u00e3o \u00e9 nada mais do que uma\u2026 conversa. Algo muito mais pr\u00f3ximo de uma velha fofoqueira do que de um Klemens von Metternich.<\/p>\n<p>Com celulares e sem livros, as pessoas, na pr\u00e1tica, est\u00e3o apenas entretidas. Novamente, a din\u00e2mica panem et circenses. Quanto mais creem que se tornaram perigosas ao poder por falarem de pol\u00edtica partid\u00e1ria, mais as pessoas est\u00e3o voltando \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o da novela, do futebol e dos programas de besteiras no domingo (todos est\u00e3o no X e no Instagram 25 horas por dia, com comerciais ainda mais constantes).<\/p>\n<p>Ditadores sempre gostaram de pessoas sem leitura. Claro, sempre se vai citar o caso do Terceiro Reich como uma contraprova, j\u00e1 que aquele austr\u00edaco de bigodinho esquisito foi al\u00e7ado ao poder pelo povo mais culto do globo. N\u00e3o \u00e9 bem verdade: apesar de um apoio massivo de professores, as ditaduras da d\u00e9cada de 1930 ficaram marcadas pelo uso extensivo do r\u00e1dio, com intelectuais daqueles idos j\u00e1 reclamando do abandono dos livros pelas pessoas.<\/p>\n<p>O r\u00e1dio \u2013 e, hoje, a internet \u2013 permite um discurso rob\u00f3tico, massificado e simplificado. S\u00f3 vence na era do algoritmo quem sabe repetir tudo de maneira marqueteira, para outras pessoas repetirem ainda mais. As tais \u201cpalavras-chave\u201d. Reveja seu youtuber preferido e veja quantas frases de efeito ele vive repetindo. Entre no perfil das pessoas que discutem com voc\u00ea sem que voc\u00ea nunca as tenha visto na vida e note os mesmos discursos, que n\u00e3o preenchem uma linha, xerocados ali. Perceba que, at\u00e9 chegar a esta parte do artigo, voc\u00ea j\u00e1 se viu tentado a larg\u00e1-lo para checar as redes sociais umas tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Falar o dia inteiro de not\u00edcias e repetir nomes de pol\u00edticos n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a aos pol\u00edticos e burocratas do outro lado. \u00c9 o que os ditadores mais querem. \u00c9 at\u00e9 um afago no ego. Ainda mais com linguagem reducionista e uma massa repetindo roboticamente algo sem consci\u00eancia. Quem ganha com isso s\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>Ditadores t\u00eam medo de livros e de pessoas com pensamentos profundos, articulados e criativos. Basta pensar: se voc\u00ea fosse um ditador, teria medo de \u201cpessoas politizadas\u201d repetindo platitudes o dia inteiro em redes, ou de pessoas que estudam quietas livros complexos e sabem articular ideias? Infelizmente, temos apostado no pior para a nossa liberdade.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A politiza\u00e7\u00e3o total da vida produz um curioso efeito: quanto mais as pessoas falam de pol\u00edtica, menos diferen\u00e7a fazem para&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":543408,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-543407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/543407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=543407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/543407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/543408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=543407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=543407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=543407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}