{"id":540040,"date":"2026-07-08T12:59:23","date_gmt":"2026-07-08T16:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=540040"},"modified":"2026-07-08T12:59:23","modified_gmt":"2026-07-08T16:59:23","slug":"para-calar-a-fe-dos-outros-a-promotora-impos-o-seu-dogma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=540040","title":{"rendered":"Para calar a f\u00e9 dos outros, a promotora imp\u00f4s o seu dogma"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/07170937\/Promotora-repreende-apresentacao-de-criancas-em-duque-de-caxias.jpeg.webp\" \/><span>A promotora afirmou que \u201ca f\u00e9 \u00e9 um direito privado que n\u00e3o deve ser estendido a outras pessoas em um evento p\u00fablico&#8221;. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo discordam. (Foto: Acterj \/ Reprodu\u00e7\u00e3o v\u00eddeo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>A cena \u00e9 de Duque de Caxias, numa sexta-feira. Um grupo de crian\u00e7as se apresenta num f\u00f3rum de conselheiros tutelares. Enquanto a molecada troca de figurino, o instrutor l\u00ea um poema sobre o abra\u00e7o de Deus. Uma promotora de Justi\u00e7a pega o microfone e anuncia \u00e0 sala que aquilo \u00e9 inconstitucional. A plateia responde \u201cOba!\u201d Algu\u00e9m solta um \u201c\u00ca, \u00ea\u201d. E ela carimba a palavra: <em><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/promotora-repreende-fala-sobre-deus-em-abertura-de-evento-inconstitucional\/\">inconstitucional<\/a><\/em>. Uma crian\u00e7a fantasiada, um poema sobre um abra\u00e7o, e a m\u00e1quina do Estado convocada para decretar ilegalidade, com torcida organizada.<\/p>\n<p>H\u00e1 um fundo quase defens\u00e1vel na intui\u00e7\u00e3o dela. O Estado n\u00e3o professa <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religi\u00e3o <\/a>oficial, e, por isso, n\u00e3o deve obrigar ningu\u00e9m a rezar, n\u00e3o deve premiar o crente e punir o ateu. Isso se chama laicidade, e \u00e9 uma conquista civilizacional, pr\u00f3pria da cristandade. S\u00f3 que n\u00e3o foi isso que a promotora defendeu. O que ela fez, como agente do Estado, foi exigir que particulares engolissem a pr\u00f3pria f\u00e9 p\u00fablica dela. Invocou a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberdade-religiosa\/\">liberdade religiosa<\/a> para ca\u00e7ar uma manifesta\u00e7\u00e3o religiosa. A Constitui\u00e7\u00e3o protege o culto e o direito de manifest\u00e1-lo, publicamente. Ela leu a parte que lhe convinha.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A promotora n\u00e3o defendeu a laicidade. O que ela fez, como agente do Estado, foi exigir que particulares engolissem a pr\u00f3pria f\u00e9 p\u00fablica dela<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Houve um tempo em que eu teria batido palma com a plateia, e com a convic\u00e7\u00e3o de um catec\u00fameno. Deus me parecia assunto de quarto fechado: mania particular que gente adulta guardava entre o travesseiro e a consci\u00eancia. Levou tempo para eu desconfiar de que aquela certeza tamb\u00e9m era uma f\u00e9, e das mais intolerantes. Quem j\u00e1 morou no culto o reconhece de longe.<\/p>\n<p>O centro de tudo est\u00e1 numa frase que ela j\u00e1 trazia pronta: \u201ca f\u00e9 \u00e9 um direito privado, que n\u00e3o deve ser estendido a outras pessoas num evento p\u00fablico\u201d. Ela n\u00e3o argumenta a favor disso. Enuncia. Declara. \u00c9 um axioma, e ela o trata como revela\u00e7\u00e3o. Quando o poeminha infantil violou o preceito, ofereceu como prova a pr\u00f3pria ferida: estava \u201cextremamente ofendida\u201d, \u201cassolapada por uma ora\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica\u201d. E a assembleia deu o am\u00e9m. Um dogma se reconhece por tr\u00eas sinais: a proposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se prova, o esc\u00e2ndalo que ocupa o lugar da prova, e o coro que confirma. Estavam os tr\u00eas ali, no sal\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O que ela aplica \u00e9 uma regra que os fil\u00f3sofos liberais chamam de raz\u00e3o p\u00fablica: a exig\u00eancia de que s\u00f3 entre no espa\u00e7o comum aquilo que possa ser dito numa l\u00edngua neutra, aceit\u00e1vel por todos. Deus, nessa gram\u00e1tica, s\u00f3 \u00e9 admitido se aceitar traduzir-se e, ao traduzir-se, desaparecer. O truque est\u00e1 em supor que existe essa l\u00edngua neutra por baixo de todas as outras, um ch\u00e3o sem cren\u00e7a sobre o qual as demais se depositam. Charles Taylor, fil\u00f3sofo canadense, deu nome \u00e0 ilus\u00e3o: a hist\u00f3ria da subtra\u00e7\u00e3o, a fantasia de que, retirada a religi\u00e3o, o que sobra \u00e9 a raz\u00e3o limpa. O que sobra \u00e9 outra cren\u00e7a, disfar\u00e7ada de aus\u00eancia de cren\u00e7a, blindada contra o exame que exige de todas as outras.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 que ela imagina defender o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberalismo\/\">liberalismo <\/a>e traiu os melhores liberais. Tocqueville, que n\u00e3o era beato, viu na religi\u00e3o a primeira das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia <\/a>americana, a condi\u00e7\u00e3o mesma da liberdade. B\u00f6ckenf\u00f6rde, jurista nada suspeito de sacristia, cravou o teorema que envergonha o laicismo: o Estado liberal secularizado vive de pressupostos morais que ele pr\u00f3prio \u00e9 incapaz de produzir. At\u00e9 Habermas, no fim da vida, admitiu que a rep\u00fablica precisa dos conte\u00fados de verdade que as religi\u00f5es guardam e que a raz\u00e3o sozinha n\u00e3o fabrica. A promotora est\u00e1 muito mais \u00e0 esquerda de Habermas na quest\u00e3o religiosa, e isso j\u00e1 \u00e9 um feito. O fil\u00f3sofo brit\u00e2nico John Milbank diria, com alguma mal\u00edcia, que o secularismo precisou ser inventado \u2013 ningu\u00e9m o encontrou na natureza.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A promotora tem mais f\u00e9 do que confessa; apenas n\u00e3o sabe o nome do deus a que serve<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Falta o pior, que \u00e9 o gesto de soberania autorit\u00e1ria. Carl Schmitt escreveu que soberano \u00e9 quem decide sobre a exce\u00e7\u00e3o, e ela decidiu: \u201ca senhora j\u00e1 teve a sua oportunidade de falar; agora quem fala \u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico\u201d. Sumariamente, determinou quem ali tinha voz e quem devia calar-se. Em vez de demonstrar a inconstitucionalidade, decretou-a e removeu o herege. \u00c9 a velha teologia pol\u00edtica que Schmitt farejava sob os conceitos do Estado moderno: o dogma, a heresia, a excomunh\u00e3o. Trocou-se o incenso pela palavra \u201cconstitucionalidade\u201d, a ladainha do sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o tenho final consolador a oferecer, at\u00e9 porque devemos sempre desconfiar de um. Sa\u00ed, h\u00e1 muitos anos, daquela igreja vazia que era o meu ate\u00edsmo niilista, para o mesmo ch\u00e3o da f\u00e9 onde a promotora ainda pisa. Ela tem mais f\u00e9 do que confessa; apenas n\u00e3o sabe o nome do deus a que serve. Quem j\u00e1 se ajoelhou diante desse mesmo deus mudo da neutralidade n\u00e3o se indigna com ela sem se lembrar de si. A cren\u00e7a dela seria assunto de foro \u00edntimo? Deixo a perguntinha ret\u00f3rica. Quando ela manda calar os demais, batiza de lei a pr\u00f3pria liturgia e sai do sal\u00e3o convencida de ter sido uma pessoa razo\u00e1vel.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A promotora afirmou que \u201ca f\u00e9 \u00e9 um direito privado que n\u00e3o deve ser estendido a outras pessoas em um&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":540041,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-540040","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/540040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=540040"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/540040\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/540041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=540040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=540040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=540040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}