{"id":539518,"date":"2026-07-08T07:26:14","date_gmt":"2026-07-08T11:26:14","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=539518"},"modified":"2026-07-08T07:26:14","modified_gmt":"2026-07-08T11:26:14","slug":"remigracao-por-que-os-estrangeiros-estao-deixando-a-africa-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=539518","title":{"rendered":"Remigra\u00e7\u00e3o: por que os estrangeiros est\u00e3o deixando a \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>&#8220;V\u00e3o embora, voltem para o seu pa\u00eds ou voltar\u00e3o em um caix\u00e3o&#8221;. H\u00e1 semanas, a \u00c1frica do Sul \u00e9 palco de uma revolta contra os imigrantes irregulares que invadiram o pa\u00eds vindos de outros pa\u00edses africanos. Protestos, por vezes violentos, que em alguns casos resultaram em confrontos com a pol\u00edcia e atos de vandalismo contra o com\u00e9rcio. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o convocada por nada menos que vinte organiza\u00e7\u00f5es, entre as quais &#8220;March and March&#8221;, &#8220;Operation Dudula&#8221; e &#8220;Progressive Forces&#8221;. S\u00e3o militantes de movimentos que surgiram nas regi\u00f5es zulus \u2014 tribos tradicionalmente inimigas dos xhosas, que formam o n\u00facleo duro do Congresso Nacional Africano (CNA) de Nelson Mandela e do movimento anti-apartheid.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, 25 mil pessoas j\u00e1 cruzaram a fronteira para deixar o pa\u00eds espontaneamente. Este \u00e9 o primeiro balan\u00e7o oficial fornecido pelas autoridades locais sobre um \u00eaxodo que se torna mais imponente a cada hora. S\u00e3o comunidades inteiras de cidad\u00e3os origin\u00e1rios do Zimb\u00e1bue, Malawi, Gana e Nig\u00e9ria que empacotaram tudo para ir embora. Em contrapartida, nos centros de acolhimento, dezenas de milhares de refugiados aguardam a repatria\u00e7\u00e3o sob o temor constante de que estourem novos focos de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Dessa forma, a \u00c1frica do Sul se mostra como a primeira na\u00e7\u00e3o do mundo a aplicar a remigra\u00e7\u00e3o com sucesso e rapidez. Tudo, contudo, de forma improvisada. Porque as revoltas (e os regressos) no pa\u00eds s\u00e3o espont\u00e2neos, surgem de baixo e acontecem sob o nariz de um governo que n\u00e3o sabe como frear a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na base do protesto, est\u00e1 a tend\u00eancia de apontar os imigrantes como a principal causa da crise econ\u00f4mica interna. Pesa sobre eles a acusa\u00e7\u00e3o de canibalizar o mercado de trabalho e de terem provocado o colapso de um sistema de sa\u00fade p\u00fablica agora reduzido a uma casca vazia, incapaz de fornecer at\u00e9 mesmo os servi\u00e7os de assist\u00eancia m\u00ednima aos cidad\u00e3os nativos.<\/p>\n<p>Segundo estimativas, cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de estrangeiros residem legalmente na \u00c1frica do Sul \u2014 o que equivale a 5% da popula\u00e7\u00e3o total \u2014, vindos principalmente de pa\u00edses vizinhos em busca de oportunidades. A esse n\u00famero deve-se somar uma parcela muito expressiva e imensur\u00e1vel de trabalhadores sem documentos. At\u00e9 o momento, o Executivo \u2014 liderado por uma coaliz\u00e3o entre o hist\u00f3rico partido de esquerda, o Congresso Nacional Africano (que perdeu a maioria no parlamento pela primeira vez em 30 anos), e seu principal rival de centro-direita, a Alian\u00e7a Democr\u00e1tica \u2014 sempre expressou forte condena\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, rejeitando a ideia de expuls\u00f5es em massa for\u00e7adas. Nos \u00faltimos meses, no entanto, a linha do governo endureceu, numa tentativa de se alinhar \u00e0s posi\u00e7\u00f5es dos movimentos anti-imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meados de junho, milhares de pessoas fugiram de suas casas por medo, dormindo ao relento nas cal\u00e7adas, em campos e em acampamentos improvisados, na esperan\u00e7a de serem repatriadas o quanto antes para seus pa\u00edses de origem. O que parece, para todos os efeitos, uma fuga em massa sofreu uma disparada perto de ter\u00e7a-feira, 30 junho, data-limite do ultimato imposto pelos movimentos anti-imigra\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul. Nas \u00faltimas semanas, grupos radicais orquestraram manifesta\u00e7\u00f5es dur\u00edssimas contra a presen\u00e7a de estrangeiros sem documentos. Suas exig\u00eancias ao governo s\u00e3o claras: exigem um controle r\u00edgido das fronteiras e, sobretudo, uma prote\u00e7\u00e3o legislativa que exclua os n\u00e3o sul-africanos do pequeno com\u00e9rcio nas periferias, de modo a devolver os postos de trabalho e a venda varejista \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local. As tens\u00f5es, que come\u00e7aram a aumentar j\u00e1 em mar\u00e7o, deixaram at\u00e9 agora quatro mortos.<\/p>\n<p>Para conter a crise, o governo de Pret\u00f3ria acionou o ex\u00e9rcito. Os principais centros urbanos, incluindo Joanesburgo, Durban, Pietermaritzburg e Cidade do Cabo, foram patrulhados por colunas de policiais, enquanto o medo de repres\u00e1lias levou quase todos os comerciantes a manterem as portas fechadas. Em Joanesburgo, a tens\u00e3o ficou particularmente evidente: nos bairros com forte presen\u00e7a estrangeira, como Hillbrow e Yeoville, milhares de manifestantes marcharam. Entre eles, notavam-se grupos de homens com os tradicionais bast\u00f5es de combate zulus (<em>Izinduku<\/em>) e escudos de couro de boi (<em>Isihlangu<\/em>), mas tamb\u00e9m muitas mulheres envoltas na bandeira nacional. Nos cartazes, destacavam-se frases que pediam a sa\u00edda da \u00c1frica do Sul da Conven\u00e7\u00e3o da ONU sobre Refugiados. O Minist\u00e9rio da Pol\u00edcia informou que os cortejos foram em grande parte pac\u00edficos, apesar de registrar saques a lojas e pedradas contra janelas.<\/p>\n<p>J\u00e1 no m\u00eas passado, para tentar conter o ressentimento dos sul-africanos, o governo havia introduzido novas medidas restritivas para combater a imigra\u00e7\u00e3o irregular, o que resultou imediatamente em 8 mil expuls\u00f5es. O dado faz parte de uma tend\u00eancia de forte aumento nas repatria\u00e7\u00f5es j\u00e1 evidente nos \u00faltimos anos, que saltaram de 58 mil no per\u00edodo de 2024-2025 para quase 110 mil registradas em mar\u00e7o de 2026. A gest\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios tornou-se o ponto central da campanha eleitoral para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es locais de novembro, ganhando grande destaque nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que dedicam muito espa\u00e7o \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es como \u201cMarch and March\u201d e \u201cOperation Dudula\u201d, os principais promotores da mobiliza\u00e7\u00e3o. Essas express\u00f5es \u2014 que nos dialetos locais significam literalmente \u201crecha\u00e7ar\u201d e \u201cdevolver ao remetente\u201d \u2014 atuam agora como um poder paralelo: fazem piquetes em empresas que empregam m\u00e3o de obra estrangeira, barram o acesso de imigrantes irregulares a cuidados m\u00e9dicos e improvisam bloqueios nas estradas para revistar os documentos de motoristas e pedestres.<\/p>\n<p>Essa rede encontrou seu megafone ideal em l\u00edderes digitais como Nkosi-khona Ndabandaba, conhecido publicamente pelo pseud\u00f4nimo de \u201cPhakel\u2019umthakathi\u201d. Com uma base de cerca de 2 milh\u00f5es de seguidores no Facebook, Ndabandaba \u00e9 o grande articulador de assembleias gigantescas.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul, embora assentada sobre imensas riquezas minerais, amarga uma taxa de desemprego que beira os 32% e que entre os jovens \u2014 a maioria absoluta da sociedade \u2014 ultrapassa a marca dram\u00e1tica de 60%. O que transformou essas estat\u00edsticas em um barril de p\u00f3lvora foi a fragilidade das fronteiras: durante quinze anos, vinda de na\u00e7\u00f5es como Mo\u00e7ambique, Malawi ou Nig\u00e9ria, uma press\u00e3o migrat\u00f3ria constante canalizou para o pa\u00eds mais de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas em busca de uma vida melhor. H\u00e1 alguns dias, essa mesma mar\u00e9 humana se v\u00ea for\u00e7ada a fazer o caminho inverso por imposi\u00e7\u00e3o dos nativos.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno assumiu dimens\u00f5es continentais: o Malawi registrou quase 9 mil pedidos de evacua\u00e7\u00e3o imediata, Uganda registrou 900, enquanto em Lagos, na Nig\u00e9ria, j\u00e1 pousou a primeira ponte a\u00e9rea trazendo a bordo quase trezentas pessoas \u2014 os primeiros elementos de um plano massivo de repatria\u00e7\u00e3o que continuar\u00e1 nos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n<p>Na Europa, chamariam isso de remigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a9 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permiss\u00e3o. Original em italiano: <a href=\"https:\/\/lanuovabq.it\/it\/sudafrica-la-remigrazione-che-non-fa-notizia-e-parte-dal-basso\">Sudafrica, la remigrazione che non fa notizia e parte dal basso<\/a>.<\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;V\u00e3o embora, voltem para o seu pa\u00eds ou voltar\u00e3o em um caix\u00e3o&#8221;. 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