{"id":535085,"date":"2026-07-06T07:17:24","date_gmt":"2026-07-06T11:17:24","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=535085"},"modified":"2026-07-06T07:17:24","modified_gmt":"2026-07-06T11:17:24","slug":"os-eua-aos-250-anos-entre-valores-universais-e-interesses-nacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=535085","title":{"rendered":"Os EUA aos 250 anos: entre valores universais e interesses nacionais"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/06081207\/laurenz-heymann-x26qnmX0aXo-unsplash.jpg.webp\" \/><span>Desde 1776, os EUA convivem com a dif\u00edcil tarefa de conciliar a for\u00e7a moral de seus valores fundadores com a l\u00f3gica dura da pol\u00edtica de poder. (Foto: Laurenz Heymann\/Unsplash)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Os Estados Unidos da Am\u00e9rica completaram 250 anos de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/opiniao\/editoriais\/250-anos-independencia-estados-unidos-democracia-liberdade\/\">independ\u00eancia<\/a>. A passagem de uma data t\u00e3o marcante oferece uma excelente oportunidade para se discutir o papel que a superpot\u00eancia militar, econ\u00f4mica, cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica e cultural desempenha no atual momento do sistema internacional.<\/p>\n<p>Em 4 de julho de 1776, no Segundo Congresso Continental, foi adotada a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia, principalmente redigida por Thomas Jefferson, cujo pre\u00e2mbulo continha sua frase mais famosa, que inspirou americanos e n\u00e3o americanos desde ent\u00e3o: \u201cConsideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens s\u00e3o criados iguais, que s\u00e3o dotados pelo seu Criador de certos direitos inalien\u00e1veis, que, entre estes, est\u00e3o a vida, a liberdade e a busca da felicidade.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo que a declara\u00e7\u00e3o contivesse contradi\u00e7\u00f5es incontorn\u00e1veis e \u00f3bvias com a realidade dos fatos \u00e0 \u00e9poca, afinal, a na\u00e7\u00e3o que surgia mantinha a escravid\u00e3o e n\u00e3o tratava homens e mulheres com igualdade, o documento lan\u00e7ava as sementes das ideias que, no futuro e \u00e0 custa de muito sangue, levariam os EUA \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais que, se n\u00e3o tornaram todos os homens iguais, pelo menos aproximaram aquela sociedade desse objetivo de forma mais consistente do que a maior parte dos pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>Nessa caminhada de 250 anos, na qual uma frouxa reuni\u00e3o de treze ex-col\u00f4nias se transformou na maior superpot\u00eancia global, os EUA sempre viveram um dilema: como equilibrar os valores fundamentais que proclamavam com seus pr\u00f3prios interesses ao lidar com os demais pa\u00edses?<\/p>\n<p>Essas tens\u00f5es ficam clar\u00edssimas logo ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, quando, apesar de o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, ter sido o maior incentivador da cria\u00e7\u00e3o da Liga das Na\u00e7\u00f5es, cujo objetivo era preservar a paz por meio da seguran\u00e7a coletiva, da diplomacia e da redu\u00e7\u00e3o de armamentos, no pr\u00f3prio Senado americano essa ideia era combatida, sob o argumento de que a ades\u00e3o do pa\u00eds poderia envolv\u00ea-lo em conflitos que nada tinham a ver com seus interesses. Por fim, o Senado vetou a ades\u00e3o dos EUA \u00e0 Liga, enfraquecendo-a j\u00e1 no nascimento e contribuindo decisivamente para o seu fracasso.<\/p>\n<p>Na Segunda Guerra Mundial, ap\u00f3s o ataque japon\u00eas a Pearl Harbor, tropas americanas lutaram na Europa, no Norte da \u00c1frica e no Pac\u00edfico. A um custo de mais de 400 mil vidas, os EUA lideraram os aliados na vit\u00f3ria contra o nazifascismo. Entretanto, tamb\u00e9m legaram ao mundo o terror nuclear, ao lan\u00e7arem as bombas at\u00f4micas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.<\/p>\n<p>Foi ainda durante a Segunda Guerra Mundial que, reunidos em Bretton Woods, nos EUA, representantes de 44 pa\u00edses criaram as duas institui\u00e7\u00f5es financeiras \u2014 o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial \u2014 que moldariam as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas globais por d\u00e9cadas e consolidariam a lideran\u00e7a econ\u00f4mica norte-americana no p\u00f3s-Segunda Guerra.<\/p>\n<p>Em 1945, ao fim da guerra, mais uma vez os EUA lideraram a cria\u00e7\u00e3o de um organismo multilateral: a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/onu\/\">ONU<\/a>. Aprendendo com os erros da Liga das Na\u00e7\u00f5es, as Na\u00e7\u00f5es Unidas organizaram-se de forma a balancear as tens\u00f5es entre seus mais poderosos membros, o que contribuiu para a sua longevidade at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Entre 1947 e 1991, o mundo mergulhou na Guerra Fria, com os EUA imersos em uma enorme competi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sob a amea\u00e7a de um conflito nuclear que repetidamente atingiu n\u00edveis extremos, al\u00e9m da eclos\u00e3o de diversos conflitos por procura\u00e7\u00e3o entre norte-americanos e sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/otan\/\">OTAN <\/a>e o Plano Marshall fortaleceram os la\u00e7os dos EUA com a Europa Ocidental. Ao travarem a guerra contra o comunismo, os norte-americanos envolveram-se internacionalmente de forma profunda, indo \u00e0 guerra na Pen\u00ednsula da Coreia e no Vietn\u00e3, influenciando e interferindo em governos de diversas partes do mundo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, com a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a acachapante vit\u00f3ria sobre as for\u00e7as iraquianas, que, em seis semanas, foram expulsas do Kuwait, os EUA demonstraram ser a \u00fanica superpot\u00eancia militar do planeta. Estava inaugurado o momento unipolar, no qual os norte-americanos acreditaram que passariam a liderar uma ordem internacional de valores compartilhados em torno de ideias liberais, \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto, em 2003, no contexto da guerra ao terror iniciada ap\u00f3s os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA invadiram o Iraque sem a necess\u00e1ria autoriza\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, naquele que talvez tenha sido o exemplo mais claro da tens\u00e3o entre a ret\u00f3rica de liberdade, democracia e ordem internacional, de um lado, e a pr\u00e1tica unilateral do poder militar, de outro.<\/p>\n<p>Na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, a acelerada ascens\u00e3o da China levou a pot\u00eancia asi\u00e1tica a desafiar essa ordem, oferecendo-se como lideran\u00e7a alternativa e passando a competir com os Estados Unidos especialmente no campo econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m, de forma crescente, nos campos cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico e militar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse novo contexto de competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que surge Donald Trump como l\u00edder de um movimento que promove profundas transforma\u00e7\u00f5es na forma como os EUA se relacionam com o restante do mundo. J\u00e1 em seu primeiro mandato, mas de maneira ainda mais clara no segundo, Trump passou a colocar aquilo que ele julga serem os interesses norte-americanos acima dos compromissos multilaterais, das alian\u00e7as tradicionais e at\u00e9 de algumas das institui\u00e7\u00f5es que ajudaram a sustentar a pr\u00f3pria supremacia dos Estados Unidos no p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Mas Trump n\u00e3o criou essa tens\u00e3o. Ele apenas a tornou mais expl\u00edcita.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Desde 1776, os EUA convivem com a dif\u00edcil tarefa de conciliar a for\u00e7a moral de seus valores fundadores com a l\u00f3gica dura da pol\u00edtica de poder<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A liberdade, a democracia, os direitos individuais e a defesa de uma ordem baseada em regras sempre foram componentes importantes da identidade internacional norte-americana. Ao mesmo tempo, esses princ\u00edpios foram frequentemente relativizados quando entraram em choque com os interesses estrat\u00e9gicos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse espa\u00e7o aberto pela percep\u00e7\u00e3o da perda de coer\u00eancia entre discurso e pr\u00e1tica que a China encontra oportunidades estrat\u00e9gicas. Pequim n\u00e3o precisa convencer o mundo de que representa valores mais universais do que os norte-americanos. Basta-lhe explorar a crescente percep\u00e7\u00e3o de que os Estados Unidos defendem regras, institui\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios apenas quando estes favorecem seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Quanto mais a lideran\u00e7a norte-americana parecer seletiva, unilateral ou contradit\u00f3ria, mais espa\u00e7o a China ter\u00e1 para apresentar sua ascens\u00e3o como alternativa a uma ordem internacional percebida por muitos como moldada \u00e0 conveni\u00eancia de Washington.<\/p>\n<p>Aos 250 anos de independ\u00eancia, esse talvez seja o grande dilema dos Estados Unidos. Se quiserem continuar apresentando sua lideran\u00e7a como express\u00e3o de valores universais, precisar\u00e3o demonstrar que as regras que defendem tamb\u00e9m limitam a sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, sua pol\u00edtica externa ser\u00e1 percebida, cada vez mais, n\u00e3o como a defesa de uma ordem internacional fundada em princ\u00edpios, mas como a atua\u00e7\u00e3o de uma grande pot\u00eancia que invoca valores quando eles servem aos seus interesses e os abandona quando eles passam a limit\u00e1-los.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1776, os EUA convivem com a dif\u00edcil tarefa de conciliar a for\u00e7a moral de seus valores fundadores com a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":535086,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-535085","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/535085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=535085"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/535085\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/535086"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=535085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=535085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=535085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}