{"id":533781,"date":"2026-07-05T13:27:04","date_gmt":"2026-07-05T17:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=533781"},"modified":"2026-07-05T13:27:04","modified_gmt":"2026-07-05T17:27:04","slug":"quem-foi-o-padre-perereca-apagado-da-historia-por-razoes-ideologicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=533781","title":{"rendered":"Quem foi o Padre Perereca, apagado da hist\u00f3ria por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/05100636\/ChatGPT-Image-Jul-5-2026-10_06_17-AM.jpg.webp\" \/><span>Padre Perereca: influ\u00eancia apagada. (Foto: Imagem gerada pelo ChatGPT)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Segundo a historiografia tradicional brasileira, a chegada da Corte Real Portuguesa no Brasil em 1808 foi nada mais do que uma fuga. Os monarcas portugueses, de acordo com esta leitura, simplesmente escaparam, como criminosos, de Napole\u00e3o Bonaparte. Por aqui, acrescenta o audiovisual brasileiro, chegaram suados e esbaforidos, desconectados de seu tempo e espa\u00e7o. Por\u00e9m, um exc\u00eantrico historiador, contempor\u00e2neo ao epis\u00f3dio, apresenta uma vers\u00e3o diversa e hoje esquecida.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Gon\u00e7alves dos Santos (1767-1844), filho de um portugu\u00eas e de uma brasileira, nasceu no Rio de Janeiro e foi testemunha ocular do hist\u00f3rico dia, em sua obra \u201cMem\u00f3rias para servir \u00e0 hist\u00f3ria do Reino do Brasil&#8221;. Tornou-se padre aos 27 anos e o t\u00edtulo o acompanhou desde ent\u00e3o, seguido de um infame apelido: Padre \u201cPerereca\u201d.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o com o anf\u00edbio se d\u00e1 em raz\u00e3o de sua complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Padre Perereca, dizem os relatos, era baixo, de l\u00e1bios grossos e tinha voz fina. Diante de \u201cfealdade n\u00e3o comum\u201d, como diz o depreciativo pref\u00e1cio do historiador Francisco Agenor de Noronha Santos (1876-1954), ficou assim conhecido.<\/p>\n<p>Antecipando a grandiosidade da vinda da fam\u00edlia real, Padre Perereca relata o epis\u00f3dio de forma heroica. \u201cMuitos n\u00e3o se fiavam dos seus pr\u00f3prios olhos, parecia-lhes o que viam mais uma ilus\u00e3o, do que realidade. Dia da nossa maior ventura, em que tivemos a honra e a gl\u00f3ria de receber neste porto do Rio de Janeiro o senhor D. Jo\u00e3o, Pr\u00edncipe Regente de Portugal, nosso amabil\u00edssimo soberano\u201d.<\/p>\n<h2>Entre a hist\u00f3ria e a cr\u00f4nica<\/h2>\n<p>Padre Perereca adota um estilo de cr\u00f4nica de jornal e une os eventos hist\u00f3ricos a descri\u00e7\u00f5es do cotidiano. Para um leg\u00edtimo cronista, assim, nada mais importante do que contar como estava o tempo na chegada da primeira monarquia ao Novo Mundo: \u201cEram duas para as tr\u00eas horas da tarde, a qual estava muito fresca, bela, e apraz\u00edvel neste para sempre memor\u00e1vel dia 7 de mar\u00e7o, que desde a aurora o sol nos havia anunciado como o mais ditoso para o Brasil\u201d.<\/p>\n<p>O livro, inclusive, se tornou relativamente popular. Tanto, que recebeu men\u00e7\u00f5es em dois romances de Machado de Assis (1839-1908):\u00a0 Casa Velha (1886) e Dom Casmurro (1899). Mesmo que o Bruxo do Cosme Velho tenha sido cr\u00edtico nas refer\u00eancias, como em geral era com o clero.\u00a0<\/p>\n<p>Victor Almeida Gama \u00e9 um historiador brasileiro e doutor em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela PUC\/MG. Ele exalta a import\u00e2ncia da obra de Padre Perereca. \u201cEle foi um dos nossos primeiros historiadores. Apesar das cr\u00edticas que a obra recebeu, pelo apoio declarado \u00e0 Casa de Bragan\u00e7a, \u00e9 sem d\u00favidas uma obra erudita\u201d, afirma.<\/p>\n<p>J\u00e1 o escritor Alexandre Sugamosto, doutor em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o, diz que, sem o Padre Perereca, n\u00e3o haveria como enxergar a Corte de D. Jo\u00e3o VI no Rio de Janeiro. \u201cAs mem\u00f3rias dele s\u00e3o a grande testemunha ocular do per\u00edodo joanino, tanto que em 1839 j\u00e1 estavam no Instituto Hist\u00f3rico, respeitado pela sua erudi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Muito da erudi\u00e7\u00e3o do padre vem do seu interesse no estudo da ret\u00f3rica, da filosofia, da po\u00e9tica, da geografia e do grego. Al\u00e9m disso, sua obra revela que ele dominava, tamb\u00e9m, a hist\u00f3ria. Mas ele n\u00e3o era historiador de of\u00edcio, o que abre um dos caminhos poss\u00edveis para explicar o seu ostracismo.<\/p>\n<h2>Uma vis\u00e3o cat\u00f3lica<\/h2>\n<p>Como sacerdote da Igreja Cat\u00f3lica, Padre Perereca deixava em cada linha um testemunho tamb\u00e9m de sua f\u00e9. Por isso, em \u201cMem\u00f3rias\u201d, a chegada da Corte portuguesa, al\u00e9m de um fato hist\u00f3rico, era consequ\u00eancia da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o divina. As men\u00e7\u00f5es a Deus, a Jesus Cristo e Nossa Senhora s\u00e3o frequentes e o autor exalta a \u00edntima liga\u00e7\u00e3o da Coroa portuguesa com a Igreja.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cPadre Perereca foi formado segundo o esp\u00edrito da forma\u00e7\u00e3o sacerdotal de sua \u00e9poca, um momento onde o ultramontanismo [doutrina cat\u00f3lica que defende a autoridade absoluta e centralizadora do Papa sobre a Igreja e os governos civis] era a norma geral\u201d, diz Gama.<\/p>\n<p>Padre Perereca escreveu v\u00e1rias obras de cunho religioso, como \u201cO Celibato Clerical e Religioso Defendido dos Golpes de Impiedade e da Libertinagem (1827)\u201d, em que defende o celibato e \u201cApologia dos Bens Religiosos e Religiosas do Imp\u00e9rio do Brasil (1828)\u201d, em que traz uma defesa do patrim\u00f4nio e das institui\u00e7\u00f5es religiosas no Brasil Imperial.<\/p>\n<p>Sugamosto completa que sua vis\u00e3o cat\u00f3lica era bem aguerrida, lendo a hist\u00f3ria como provid\u00eancia divina e a chegada da corte quase como uma gra\u00e7a dos c\u00e9us. \u201cEle defendeu a Igreja Cat\u00f3lica com unhas e dentes e foi inimigo ferrenho da ma\u00e7onaria e do protestantismo\u201d, diz o escritor.<\/p>\n<h2>Silenciamento ideol\u00f3gico<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria convencional e atual \u00e9 a que coloca Portugal em outro escopo moral, alinhado \u00e0 Igreja, como um agente nocivo aos interesses do Brasil. Ignora esta vis\u00e3o viciada que foram os colonizadores que abriram os portos do pa\u00eds ao com\u00e9rcio internacional, que modernizaram a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e que criaram diversas institui\u00e7\u00f5es, como o Banco do Brasil, a Imprensa R\u00e9gia e as bases do que seria a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a primeira institui\u00e7\u00e3o superior no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria que venceu \u00e9 liberal, republicana e laica e nela n\u00e3o sobra cadeira para um padre ultramontano e monarquista. Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) j\u00e1 o tratava com m\u00e1 vontade e Lu\u00eds Edmundo de Melo Pereira da Costa (1878-1961) despachou as mem\u00f3rias como \u2018literatura de confeitos e \u00e1gua-de-flor-de-laranjeira\u2019. Pronto, estava sepultado\u201d, lamenta Sugamosto.<\/p>\n<p>J\u00e1 Gama aponta tamb\u00e9m para o problema do positivismo, corrente filos\u00f3fica e sociol\u00f3gica do s\u00e9culo XIX, que defende a ci\u00eancia como a \u00fanica forma de conhecimento verdadeiro, que inspirou a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. \u201cO padre divergia, tanto desta vis\u00e3o progressiva da hist\u00f3ria do Brasil, quanto da historiografia nacionalista, que enfatizava a luta pela independ\u00eancia\u201d,diz Gama.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, aos leitores interessados em uma obra de f\u00f4lego e comprometida com a veracidade dos fatos, a obra de Padre Perereca permanece, a despeito dos ventos contr\u00e1rios da historiografia, como uma prece persistente.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Perereca: influ\u00eancia apagada. 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