{"id":528883,"date":"2026-07-02T13:29:31","date_gmt":"2026-07-02T17:29:31","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528883"},"modified":"2026-07-02T13:29:31","modified_gmt":"2026-07-02T17:29:31","slug":"irmandades-do-rosario-simbolos-da-negritude-ouropretana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528883","title":{"rendered":"Irmandades do Ros\u00e1rio: s\u00edmbolos da negritude ouropretana"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p><em>\u201c\u00c9 muito conveniente ao servi\u00e7o de Deus e de Nossa Senhora, e ao bem das Almas dos fi\u00e9is, que nesta Irmandade se aceite por irm\u00e3os, todas as pessoas, que, por sua devo\u00e7\u00e3o, quiser servir a Nossa Senhora, tanto eclesi\u00e1sticos, como seculares; homens e mulheres; brancos, pardos e pretos, assim escravos como forros, sem determinar-se n\u00famero certo de irm\u00e3os, se n\u00e3o os mais que puderem haver, os quais, logo que forem aceitos pela mesa, assinar\u00e3o termos de irm\u00e3os em um livro que haver\u00e1 para esse efeito, lavrado pelo Escriv\u00e3o da Irmandade, em que se obriguem as determina\u00e7\u00f5es desse Compromisso.\u201d<\/em> (Compromisso da Irmandade do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos da Vila de S\u00e3o Jos\u00e9, 1795)<\/p>\n<p>O texto que est\u00e1 em ep\u00edgrafe \u00e9 do Compromisso da Irmandade do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos da charmos\u00edssima cidade de Tiradentes, anteriormente chamada de Vila de S\u00e3o Jos\u00e9. Os Compromissos eram os estatutos das irmandades religiosas, documentos escritos que definiam a estrutura jur\u00eddica, administrativa, religiosa e financeira da confraria. Toda irmandade importante procurava obter a aprova\u00e7\u00e3o de seu Compromisso pelas autoridades competentes, num texto elaborado pelos pr\u00f3prios confrades, aprovado pelo bispo da diocese e, em muitos casos, confirmado pela Coroa portuguesa por meio da Mesa da Consci\u00eancia e Ordens. Essa aprova\u00e7\u00e3o conferia legitimidade \u00e0 irmandade e lhe permitia atuar oficialmente.<\/p>\n<p>No caso das Irmandades do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, h\u00e1 quest\u00f5es espec\u00edficas de fundamental import\u00e2ncia: essas associa\u00e7\u00f5es conciliavam as normas do catolicismo portugu\u00eas com as necessidades espec\u00edficas de uma comunidade composta majoritariamente por africanos e afrodescendentes; muitos desses, escravos. Nelas, n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o social, e o escravo poderia se tornar membro importante na hierarquia da irmandade; e a distin\u00e7\u00e3o racial, que nos parece \u00f3bvia pelo contexto em que essas irmandades floresceram, guarda integra\u00e7\u00f5es, separa\u00e7\u00f5es, sincretismos e uma gama riqu\u00edssima de elementos culturais que intrigam pesquisadores at\u00e9 hoje.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em Minas Gerais, quase toda vila importante tinha uma Irmandade do Ros\u00e1rio, muitas vezes com igreja pr\u00f3pria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas fa\u00e7amos uma necess\u00e1ria digress\u00e3o: ao falarmos de comunidades religiosas negras, formadas fundamentalmente por negros \u2013 escravos, libertos e livres \u2013, por que a escolha de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, uma vez que sabemos da devo\u00e7\u00e3o a santos negros como Santo Elesb\u00e3o e Santa Ifig\u00eania? De acordo com Julita Scarano, \u201cdesde os s\u00e9culos 15 e 16 era sob essa invoca\u00e7\u00e3o que em Portugal se congregavam os homens de cor. Em nosso pa\u00eds, os negros tinham tamb\u00e9m como patronos Santa Efig\u00eania, S\u00e3o Benedito, Santo Ant\u00f4nio de Categer\u00f3, S\u00e3o Gon\u00e7alo, Santo Onofre, os quais, segundo a hagiografia tradicional, eram pretos ou pardos, e gozavam por isso de singular popularidade\u201d. E acrescenta:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o nos parecem bastante claras as raz\u00f5es de escolha de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio para protetora dos pretos. Nenhuma explica\u00e7\u00e3o oferecida \u00e9 realmente satisfat\u00f3ria. Sabe-se que a padroeira dos crioulos, Nossa Senhora das Merc\u00eas, est\u00e1 ligada \u00e0 reden\u00e7\u00e3o dos prisioneiros crist\u00e3os. A irmandade originou-se da antiga Ordem Religiosa de Nossa Senhora das Merc\u00eas para a Reden\u00e7\u00e3o dos Cativos, dedicada a livrar, na \u00c1frica, os crist\u00e3os do jugo mouro. Neste caso \u00e9, pois, compreens\u00edvel que fosse a padroeira escolhida. Quanto \u00e0 Senhora do Ros\u00e1rio, seu culto tornou-se popular com a Batalha de Lepanto e sua fama, bem como a recita\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o, foram intensamente divulgadas pelos dominicanos. Os in\u00fameros privil\u00e9gios que mereceram dos pont\u00edfices provocaram um florescimento de Igrejas, Conventos e Irmandades, de geral aceita\u00e7\u00e3o. Divulgada a devo\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, logo foi tida como protetora de in\u00fameros grupos, como os homens do mar no Porto sobretudo e considerada milagrosa entre os marinheiros.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Mas a raz\u00e3o de sua devo\u00e7\u00e3o pelos negros foi, de acordo com Scarano, gradativa, na inten\u00e7\u00e3o de atrair os africanos \u2013 que j\u00e1 eram numerosos em Portugal no s\u00e9culo 15 \u2013 ao catolicismo. De acordo com a afirma\u00e7\u00e3o de Frei Agostinho de Santa Maria, em seu <em>Santu\u00e1rio Mariano<\/em> \u2013 citado por Scarano:<\/p>\n<p><em>\u201c[&#8230;] Foi uma imagem de Nossa Senhora resgatada em Argel que deu in\u00edcio ao culto, levando os negros a escolherem essa invoca\u00e7\u00e3o, erigindo-a em padroeira. Vai al\u00e9m esse religioso, dizendo ter sido a pr\u00f3pria M\u00e3e de Deus quem os escolheu \u02bbpara confus\u00e3o dos brancos\u02bc. Explica que estes abandonaram a devo\u00e7\u00e3o quase completamente, quando passou ela a ser adotada pelos pretos \u02bbque lhe deram o t\u00edtulo do Ros\u00e1rio, que \u00e9 com que hoje ao presente \u00e9 buscada &amp; servida dos seus devotos pretinhos\u02bc (&#8230;). Acentua o fervor dos homens pretos, mostrando-os mais calorosos do que os brancos, mais imbu\u00eddos do desejo de agradar \u00e0 padroeira [&#8230;]. Sejam quais forem as raz\u00f5es que os levaram a isso, parece que os pretos de Portugal exerceram, por sua vez, um proselitismo em prol da f\u00e9 cat\u00f3lica na Africa. Falando das vantagens da exist\u00eancia de Confrarias de pretos na Metr\u00f3pole, dizem os pretos: \u02bbser not\u00f3rio o grande proveito que resultar\u00e1 a convers\u00e3o das almas; que at\u00e9 os Reis Gentios mandavam esmolas para a Confraria e pediam ret\u00e1bulos de nossa Sra. do Ros\u00e1rio\u02bc. Com isso, os negros procuram demonstrar como tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de divulgar a religi\u00e3o que abra\u00e7aram e fazem-no com resultados promissores.\u201d<\/em> (ortografia adaptada por mim)<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o estabelecimento das confrarias dos pretos, uma sucess\u00e3o de recusas, cr\u00edticas e movimentos de separa\u00e7\u00e3o se seguiu desde a metr\u00f3pole at\u00e9 a col\u00f4nia, com brancos reclamando das irmandades negras \u2013 muito porque, em muitos casos, as irmandades negras tinham mais apelo social e acabavam por angariar mais esmolas. Inclusive os brancos, em muitos casos, insistiram na uni\u00e3o das confrarias sob a justificativa de n\u00e3o haver acep\u00e7\u00e3o de pessoas entre crist\u00e3os, mas, na verdade, o motivo era econ\u00f4mico. Para Scarano, \u201cesse deve ter sido o motivo de usarem os brancos de todos os expedientes para que houvesse apenas uma confraria em cada lugar \u2013 a deles \u2013, onde se aceitariam os pretos que dela quisessem participar\u201d. J\u00e1 os pretos insistiam na separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como dissemos anteriormente, as irmandades negras s\u00e3o uma realidade desde o medievo europeu e, no Brasil, se espalharam praticamente por todo o pa\u00eds. Por\u00e9m, em <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/minas-gerais\/\">Minas Gerais<\/a>, sua presen\u00e7a foi intensa; quase toda vila importante tinha uma Irmandade do Ros\u00e1rio, muitas vezes com igreja pr\u00f3pria. Isso ocorreu porque a regi\u00e3o mineradora concentrava uma enorme popula\u00e7\u00e3o negra (livre e escrava); pelo medo de os padres se envolverem com minera\u00e7\u00e3o e, por sua facilidade de circular livremente pelas vilas, participarem de contrabando de ouro, as ordens religiosas regulares foram proibidas, dando \u00e0s confrarias um protagonismo excepcional. Sobre seu estabelecimento em Minas Gerais, diz Scarano:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 dif\u00edcil estabelecer uma cronologia precisa da introdu\u00e7\u00e3o desse gr\u00eamio e mesmo a respeito de sua cria\u00e7\u00e3o em Minas Gerais n\u00e3o h\u00e1 como fornecer datas seguras. O compromisso da Irmandade do Ros\u00e1rio dos Pretos em Vila Rica \u00e9 de 1715 e dele consta a declara\u00e7\u00e3o de que funcionava \u02bbh\u00e1 mais de 30 anos\u02bc. Isso vale dizer que seria muito anterior ao estabelecimento do arraial de onde se originara a vila ou at\u00e9 dos primeiros descobrimentos de ouro dos quais se h\u00e1 not\u00edcia.\u201d<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 Lidiane Mariana da Silva Gomes, na obra <em>Irmandades Negras \u2013 educa\u00e7\u00e3o, m\u00fasica e resist\u00eancia nas Minas Gerais do s\u00e9culo 18<\/em>, enfatiza que, no caso espec\u00edfico de Ouro Preto, as irmandades se dividiram em duas, uma que ocupava a\u00a0Matriz de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da Matriz Santa Efig\u00eania, no lugar que veio a se chamar Alto da Cruz do Padre Faria (no bairro de Padre Faria); e outra, que era abrigada na Nossa Senhora do Pilar e, depois, se abrigaria em sua pr\u00f3pria igreja, a el\u00edptica Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos. Gomes complementa: \u201cAssim, a irmandade constru\u00edda no alto do morro no bairro de Padre Faria passou a se chamar Santa Efig\u00eania em 1719, e a constru\u00edda no bairro do Caquende (hoje chamado Ros\u00e1rio), pr\u00f3xima \u00e0 Matriz do Pilar, [&#8230;] permaneceu com o nome de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos tornou-se um importante centro de sociabilidade, assist\u00eancia m\u00fatua e afirma\u00e7\u00e3o religiosa para a popula\u00e7\u00e3o negra da antiga Vila Rica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ou seja, na antiga Vila Rica existiram duas importantes Irmandades de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, correspondentes \u00e0s duas freguesias que estruturavam administrativamente a cidade: a de Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Dias. A primeira, fundada em 1715, construiu a atual Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, um dos mais emblem\u00e1ticos monumentos do barroco mineiro. A segunda estabeleceu-se na freguesia de Ant\u00f4nio Dias e ergueu seu templo no Alto da Cruz, onde mais tarde se desenvolveria a devo\u00e7\u00e3o a Santa Ifig\u00eania.<\/p>\n<p>Com o passar do s\u00e9culo 18, especialmente ap\u00f3s a difus\u00e3o da obra <em>Os Dois Atlantes de Eti\u00f3pia<\/em>, de Frei Jos\u00e9 Pereira de Santana \u2013 mencionada na ep\u00edgrafe do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/irmandades-do-rosario-resistencia-negra-em-ouro-preto\/\">artigo anterior<\/a> \u2013, a devo\u00e7\u00e3o a Santa Ifig\u00eania adquiriu grande destaque na irmandade de Ant\u00f4nio Dias. Em consequ\u00eancia, a igreja passou gradualmente a ser identificada por essa invoca\u00e7\u00e3o, tornando-se conhecida como Igreja de Santa Ifig\u00eania. Apesar dessa mudan\u00e7a de identidade devocional, sua origem permaneceu ligada \u00e0 Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos.<\/p>\n<p>A Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos \u00e9 um dos mais impressionantes monumentos religiosos de Ouro Preto e um dos principais s\u00edmbolos das irmandades negras em Minas Gerais. Destaca-se por sua planta el\u00edptica e pelas linhas curvas da fachada, caracter\u00edsticas que lhe conferem uma singularidade na arquitetura barroca mineira. Mais do que um espa\u00e7o de culto, a igreja tornou-se um importante centro de sociabilidade, assist\u00eancia m\u00fatua e afirma\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religiosa <\/a>para a popula\u00e7\u00e3o negra da antiga Vila Rica. Por dentro, a igreja \u00e9 quase simples. Seu altar-mor tem, no centro, a imagem de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio; nos altares laterais, distribuem-se imagens dos santos negros: S\u00e3o Benedito, Santo Ant\u00f4nio de Categer\u00f3, Santa Ifig\u00eania e Santo Elesb\u00e3o \u2013 al\u00e9m de outros santos de ampla devo\u00e7\u00e3o no catolicismo colonial. O forro \u00e9 simples, mas \u00e9 uma igreja muito aconchegante e que carrega uma espiritualidade mais simples e serena.<\/p>\n<p>Sua planta el\u00edptica representa uma das mais ousadas inova\u00e7\u00f5es da arquitetura religiosa do Brasil colonial, rompendo com o modelo retangular predominante nas igrejas de tradi\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica. Ao que tudo indica, essa concep\u00e7\u00e3o remonta \u00e0s experi\u00eancias do arquiteto italiano Francesco Borromini, que chegaram ao Brasil por interm\u00e9dio de Portugal, onde foram reinterpretadas \u2013 l\u00e1, em obras como a Igreja dos Cl\u00e9rigos, no Porto, projetada por Nicolau Nasoni; aqui, na Igreja de S\u00e3o Pedro dos Cl\u00e9rigos, no Rio de Janeiro. Para alguns estudiosos, o respons\u00e1vel por introduzir esse modelo em Minas Gerais foi o bacharel portugu\u00eas Ant\u00f4nio Pereira de Sousa Calheiros, a quem se atribui o projeto da Igreja do Ros\u00e1rio de Ouro Preto e da Igreja de S\u00e3o Pedro dos Cl\u00e9rigos, em Mariana, mas essa autoria \u00e9 contestada.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>J\u00e1 na Igreja de Santa Efig\u00eania, que fica no alto do morro de Padre Faria \u2013 e, por isso, esbanja impon\u00eancia no topo de uma longa escadaria \u2013, do qual pode ser vista em destaque na cidade (sua foto ilustra o artigo anterior), \u00e9 marcante a presen\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 dos santos africanos, mas de elementos da cultura africana. O altar-mor tem, no alto, uma imagem de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio e, logo abaixo, tamb\u00e9m no centro, uma imagem de Santa Ifig\u00eania. Santo Elesb\u00e3o ocupa posi\u00e7\u00e3o de destaque em um dos altares laterais, refor\u00e7ando a associa\u00e7\u00e3o entre os dois santos difundida no s\u00e9culo 18 pela obra <em>Os Dois Atlantes de Eti\u00f3pia<\/em>. Mas h\u00e1 um detalhe importante, relatado por Lidiane Gomes:<\/p>\n<p><em>\u201cUm estudo feito pelo historiador da cultura mineira, professor L\u00e1zaro Francisco da Silva, e um colaborador, chamado Marcelo Hip\u00f3lito, revelou uma s\u00e9rie de elementos do candombl\u00e9 em toda a ornamenta\u00e7\u00e3o da Igreja de Santa Efig\u00eania. O estudo n\u00e3o \u00e9 revelador somente nesse aspecto, pois revela tamb\u00e9m que h\u00e1 uma intensa luta di\u00e1ria dessa irmandade, com as autoridades e com seus senhores, por seus direitos. Em seu estudo <\/em>A Conjura\u00e7\u00e3o Negra em Minas Gerais <em>\u2013 um nome bem sugestivo \u2013, o autor mostra que: \u2018[&#8230;] havia falos que numa outra perspectiva se convertiam em vaginas; havia bolotas chanfradas que evocaram os b\u00fazios utilizados na Umbanda e no Candombl\u00e9 brasileiros para fins divinat\u00f3rios; havia um cl\u00e9rigo com as ins\u00edgnias papais, e de cor negra e barrete fr\u00edgio na cabe\u00e7a e os tr\u00eas outros com caracter\u00edsticas negroides; havia tartarugas esculpidas nos altares; e chifres de cabras e de carneiros; e inhames; tudo se confundido com os elementos multiformes do barroco\u2019.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Eu faria uma ressalva \u00e0 cita\u00e7\u00e3o: os elementos africanos n\u00e3o s\u00e3o, em sua origem, do candombl\u00e9 ou umbanda, uma vez que essas religi\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o africanas, mas brasileiras, e o primeiro terreiro de candombl\u00e9 do Brasil \u00e9 do s\u00e9culo 19. Os elementos afro do ret\u00e1bulo-mor pertencem a religi\u00f5es de matriz ege e iorub\u00e1.<\/p>\n<blockquote>\n<p>As Irmandades do Ros\u00e1rio constitu\u00edram o principal espa\u00e7o de desenvolvimento das tradi\u00e7\u00f5es afrocat\u00f3licas no Brasil colonial<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Espantei-me quando vi a figura do papa negro (imagem que ilustra esse artigo), em destaque, acima do altar-mor da Matriz de Santa Ifig\u00eania. A mim, a ousadia dessa confraria assemelha-se, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, \u00e0 de Mestre Ata\u00edde e seu <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/o-ceu-de-ataide\/\">teto mulato<\/a>. Estudos t\u00e9cnicos conduzidos por restauradores comprovaram que a pele escura do papa \u00e9 original do s\u00e9culo 18 e n\u00e3o se trata de um escurecimento causado pela a\u00e7\u00e3o do tempo, fuma\u00e7a de velas ou oxida\u00e7\u00e3o dos pigmentos. Foi uma escolha deliberada do artista. J\u00e1 os elementos africanos no ret\u00e1bulo-mor s\u00e3o sutis e necessitam de aten\u00e7\u00e3o para serem descobertos \u2013 o que faz a alegria dos guias ao revelarem-nos aos estupefatos turistas. \u00c9 uma igreja bel\u00edssima, que exibe, do lado de fora, em sua portada, uma imagem de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio em pedra-sab\u00e3o atribu\u00edda ao Aleijadinho.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, um elemento cultural important\u00edssimo que deve ser destacado: as Irmandades do Ros\u00e1rio constitu\u00edram o principal espa\u00e7o de desenvolvimento das tradi\u00e7\u00f5es afrocat\u00f3licas no Brasil colonial. Foi em seu interior que floresceram manifesta\u00e7\u00f5es como o Congado e os Reinados de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, nos quais a devo\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica convivia com refer\u00eancias simb\u00f3licas \u00e0s monarquias da \u00c1frica Centro-Ocidental. Tais manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o se tratam de mero sincretismo religioso, como nos esclarece Gomes:<\/p>\n<p><em>\u201cOutro estudo feito para detectar quais etnias foram trazidas para o Brasil e se encontraram no interior das Irmandades \u00e9 o de Marina de Mello e Souza, que afirma que as etnias s\u00e3o respons\u00e1veis pela adapta\u00e7\u00e3o da Coroa\u00e7\u00e3o do rei Congo e que aqui se tornaram festas comemorativas. Em <\/em>Reis Negros no Brasil Escravista: hist\u00f3ria da festa de Coroa\u00e7\u00e3o de Rei Congo<em> (2002), Souza entra no \u00e2mbito das irmandades religiosas, mais especificamente, no que diz respeito \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es festivas de influ\u00eancia nitidamente africana, como congadas e jongos espalhados pelo Brasil. [\u2026] A<\/em><em>credita que as congadas foram importantes ve\u00edculos de cristianiza\u00e7\u00e3o dos africanos e seus descendentes, e eram vistas ora como \u02bb[&#8230;] instrumentos da classe senhorial na domestica\u00e7\u00e3o dos escravos e negros livres, ora como espa\u00e7os de resist\u00eancia cultural desses \u00faltimos, sempre a partir de um ponto de vista que privilegiava a opress\u00e3o ou rebeldia\u02bc. Em sua vis\u00e3o, o contato pr\u00e9vio entre o reino do Congo e Portugal facilitou a apropria\u00e7\u00e3o das culturas em \u02bbuma via de m\u00e3o dupla\u02bc antes mesmo de se encontrarem no Brasil.\u201d<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>As Irmandades do Ros\u00e1rio eram institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas leg\u00edtimas e devotas, nas quais popula\u00e7\u00f5es negras produziram formas originais de viver a f\u00e9<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao fim e ao cabo, as Irmandades do Ros\u00e1rio n\u00e3o eram espa\u00e7os onde duas religi\u00f5es simplesmente se misturavam, mas institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas leg\u00edtimas e devotas, nas quais popula\u00e7\u00f5es negras produziram formas originais de viver a f\u00e9, preservando refer\u00eancias culturais, pol\u00edticas e est\u00e9ticas de suas sociedades de origem.<\/p>\n<p>Vale a men\u00e7\u00e3o a uma outra igreja cujo interior n\u00e3o tive como conhecer, posto que estava fechada todas as vezes que fui a Ouro Preto, mas que me chamou a aten\u00e7\u00e3o pelo nome de sua irmandade: Igreja de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Homens Pardos ou Bem-Casados. Segundo Myriam de Andrade e Adalgisa Campo, na obra <em>Barroco e Rococ\u00f3 nas igrejas de Ouro Preto e Mariana<\/em>, \u201ca Irmandade de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Homens Pardos de Vila Rica foi institu\u00edda na Matriz de Ant\u00f4nio Dias, onde funcionou at\u00e9 o ano de 1726, quando construiu capela pr\u00f3pria no morro que leva seu nome na freguesia do Pilar. Congregava trabalhadores livres, em sua maioria mesti\u00e7os (pardos), ligados aos of\u00edcios mec\u00e2nicos e \u00e0 m\u00fasica, entre os quais o m\u00fasico Francisco Gomes da Rocha e o arquiteto e escultor Ant\u00f4nio Francisco Lisboa, o Aleijadinho\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 todo um universo de estudo dessas Irmandades em seus diversos aspectos, de modo que dois artigos n\u00e3o d\u00e3o conta de evidenciar sua riqueza cultural para o pa\u00eds, bastante explorada nos c\u00edrculos acad\u00eamicos, mas ainda pouco explorada culturalmente a fim de ganhar amplitude popular nacional. Mas espero que o leitor, a partir deste modesto esfor\u00e7o, se sinta impelido a conhecer mais dessa nossa tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante no sentido da constru\u00e7\u00e3o de um Brasil mais rico e diverso culturalmente.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 muito conveniente ao servi\u00e7o de Deus e de Nossa Senhora, e ao bem das Almas dos fi\u00e9is, que nesta&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":528884,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-528883","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=528883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528883\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/528884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=528883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=528883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=528883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}