{"id":528580,"date":"2026-07-02T10:03:17","date_gmt":"2026-07-02T14:03:17","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528580"},"modified":"2026-07-02T10:03:17","modified_gmt":"2026-07-02T14:03:17","slug":"a-felicidade-que-nasce-em-doar-se-o-cansaco-de-amar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528580","title":{"rendered":"A felicidade que nasce em doar-se: o cansa\u00e7o de amar"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/02105425\/ChatGPT-Image-2-de-jul.-de-2026-10_35_57.jpg.webp\" \/><span>A felicidade n\u00e3o floresce no ego\u00edsmo, mas na entrega ao outro. A paternidade e maternidade revelam, como nada mais, essa verdade esquecida. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">&#8220;A felicidade s\u00f3 \u00e9 real quando compartilhada.&#8221; Essa \u00e9 a conclus\u00e3o a que chegou Chris McCandless, o viajante americano que deixou tudo para tr\u00e1s para embarcar em uma jornada rumo ao Alasca e se conectar com a natureza. Sua vida foi imortalizada no livro <em>Na Natureza Selvagem<\/em> (<em>Into the Wild<\/em>), que mais tarde foi adaptado para o cinema.<\/p>\n<p>Ao longo de sua jornada, McCandless encontra todos os tipos de pessoas: jovens e idosos, hippies e oper\u00e1rios. Todos o marcam, mas McCandless, impulsionado por seu desejo de chegar ao Alasca, deixa-os para tr\u00e1s. No entanto, a mensagem que ele deixa se reflete na frase que o pr\u00f3prio McCandless escreve nas margens de seu exemplar de <em>Doutor Jivago<\/em>: &#8220;A felicidade s\u00f3 \u00e9 real quando compartilhada&#8221;. \u00c9 uma frase escrita por algu\u00e9m que, tendo constru\u00eddo relacionamentos significativos com muitas pessoas, escolheu a solid\u00e3o e a escreve a partir desse lugar de saudade daqueles que livremente deixou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Os versos a seguir se relacionam com essa necessidade humana de sair de si e doar-se a outro semelhante. Essa necessidade encontra in\u00fameras maneiras de ser satisfeita, mas gostaria de me concentrar particularmente em uma experi\u00eancia humana especialmente excelente: a paternidade.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Aquino, expandindo a vis\u00e3o de Arist\u00f3teles sobre a humanidade como um animal pol\u00edtico, declarou que o homem \u00e9 um ser social. Sua perspectiva, enraizada na antropologia crist\u00e3, revela que os seres humanos possuem um mundo interior t\u00e3o vasto e ilimitado que focar apenas em n\u00f3s mesmos \u00e9 uma tentativa de preencher um vazio sem fundo.<\/p>\n<p>Podemos tentar nos preencher com experi\u00eancias intensas, satisfa\u00e7\u00f5es e prazeres e, embora tudo isso seja v\u00e1lido, se esses elementos forem direcionados apenas para n\u00f3s mesmos, acabamos percebendo o que McCandless observou: que nada disso \u00e9 verdadeiramente real, nada disso nos preenche de verdade, a menos que seja compartilhado com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino afirma que a pessoa \u00e9 a coisa mais perfeita em toda a natureza (<em>S. Th.<\/em>, I, q. 29, a. 3). Isso n\u00e3o significa que todas as outras criaturas sejam desprez\u00edveis ou insignificantes, mas sim que a mais alta dignidade entre os seres pertence ao ser pessoal.<\/p>\n<p>O ser pessoal \u00e9 \u00fanico, irrepet\u00edvel e aberto \u00e0 verdade gra\u00e7as \u00e0 sua racionalidade e espiritualidade. Isso o leva a desenvolver um mundo interior que inevitavelmente busca ser comunicado. A experi\u00eancia cotidiana confirma isso: uma pessoa que n\u00e3o se sente ouvida fica frustrada, irritada ou triste, ou tudo isso junto. E n\u00e3o queremos ser ouvidos por pedras ou animais. Queremos ser ouvidos por aqueles que s\u00e3o como n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Todo ser humano deseja ser feliz. A for\u00e7a motriz por tr\u00e1s de todas as nossas a\u00e7\u00f5es, de todas as as nossas decis\u00f5es, \u00e9 alcan\u00e7ar o que chamamos de felicidade, e o problema \u00e9 que n\u00e3o sabemos exatamente em que consiste essa felicidade<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>, Arist\u00f3teles estabelece alguns requisitos que a felicidade deve cumprir: que provenha de uma atividade pr\u00f3pria da humanidade; que seja um fim em si mesma, e n\u00e3o um meio para algo mais; e que possua certa estabilidade e autossufici\u00eancia.<\/p>\n<p>Se observarmos o primeiro requisito, ou seja, que ela surja de uma atividade pr\u00f3pria do n\u00edvel da vida racional, descobriremos que a felicidade deve estar relacionada \u00e0 raz\u00e3o. E, dentro dessa vida racional, podemos aprofundar ainda mais essa reflex\u00e3o para perceber que o ser racional \u00e9 um ser pessoal, com uma vida interior que se desenvolve quanto mais \u00e9 exercida, como uma panela fervendo, sempre em movimento e sempre produzindo calor que busca escapar.<\/p>\n<p>\u00c9 importante considerar que a \u00e1gua ferve de forma ca\u00f3tica e incontrol\u00e1vel, enquanto nosso ser interior est\u00e1 imerso na raz\u00e3o. Contudo, a imagem demonstra claramente que n\u00e3o encontramos a felicidade tampando a panela e mantendo toda essa atividade dentro dela: qualquer pessoa que j\u00e1 tenha feito exatamente isso com uma panela fervendo sabe que o resultado \u00e9 desastroso. Pelo contr\u00e1rio, devemos deixar esse movimento fluir, deix\u00e1-lo continuar a crescer e, em uma pessoa, esse crescimento adquire seu pleno significado quando \u00e9 acolhido por algu\u00e9m que tem a capacidade de faz\u00ea-lo: algu\u00e9m que compartilha da mesma dignidade, da mesma profundidade, da mesma abertura ao infinito. Vale esclarecer que esta \u00e9 uma simples digress\u00e3o da antropologia cl\u00e1ssica, que enfatiza mais a vida virtuosa do que a natureza comunicativa da intimidade humana. No entanto, a vida virtuosa ocorre em comunh\u00e3o com o outro, e \u00e9 esse o ponto que quero enfatizar.<\/p>\n<p>O que Arist\u00f3teles disse n\u00e3o \u00e9 meramente a declara\u00e7\u00e3o de um s\u00e1bio que viveu h\u00e1 mais de dois mil\u00eanios. \u00c9 particularmente interessante examinar o Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, publicado em 2023 no livro <em>A Boa Vida<\/em>, de Robert Waldinger e Marc Schulz. Esse estudo afirma ser o projeto de pesquisa mais longo j\u00e1 realizado sobre felicidade, analisando dados de mais de 80 anos, e sua principal conclus\u00e3o est\u00e1 claramente alinhada com a filosofia cl\u00e1ssica: a chave para a felicidade reside em levar uma vida na qual n\u00e3o nos isolamos, mas, sim, constru\u00edmos relacionamentos interpessoais significativos, est\u00e1veis e fortes.<\/p>\n<p>Sair de n\u00f3s mesmos para nos conectar com o outro exige um certo grau de abnega\u00e7\u00e3o e diversos ajustes em nossa pr\u00f3pria vida. Sabemos que n\u00e3o basta simplesmente dizer o que queremos; se quisermos ser compreendidos, precisamos nos adaptar ao ouvinte. E, ao longo do caminho, percebemos que a outra pessoa tamb\u00e9m tem a mesma necessidade de ser ouvida e que, para estabelecer conex\u00f5es genu\u00ednas, precisamos tamb\u00e9m acolher o que ela tem a oferecer.<\/p>\n<p>A ideia de nos desapegarmos de n\u00f3s mesmos para nos conectarmos com o outro surge de nossas pr\u00f3prias necessidades como seres humanos, mas essa abnega\u00e7\u00e3o sempre envolve um certo grau de dificuldade, e talvez nunca tenha havido um momento na hist\u00f3ria em que ela tenha sido t\u00e3o desafiadora quanto hoje. O discurso predominante \u00e9 justamente o oposto desse aspecto de nossa natureza.<\/p>\n<p>De acordo com a mentalidade de nosso tempo, somos mais felizes na medida em que nos colocamos em primeiro lugar. &#8220;Porque voc\u00ea vale a pena&#8221;, diz a L&#8217;Or\u00e9al \u00e0s mulheres. E eles n\u00e3o est\u00e3o mentindo: \u00e9 verdade que valemos a pena, e valemos muito. Possu\u00edmos uma dignidade imensur\u00e1vel, baseada no fato de termos sido feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de um Deus infinitamente perfeito, e todo ser humano \u00e9 digno de ser amado de acordo com essa infinitude. Mas acontece que toda tenta\u00e7\u00e3o sempre cont\u00e9m alguma verdade e, neste caso, essa verdade reside no fato de que o amor-pr\u00f3prio deve estar na raiz de todo outro amor.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o se pode amar ningu\u00e9m se n\u00e3o se amar primeiro a si mesmo. Tom\u00e1s de Aquino falou da necessidade do amor-pr\u00f3prio com base no mandamento evang\u00e9lico de &#8220;amar o pr\u00f3ximo como a si mesmo&#8221; (<em>S. Th.<\/em>, II-II, q. 25, a. 4). O problema \u00e9 que, talvez, em nosso tempo, tenhamos permanecido apenas com o amor-pr\u00f3prio e nos esquecido de que esse amor n\u00e3o \u00e9 o passo final que buscamos alcan\u00e7ar, mas o primeiro: \u00e9 o fundamento que torna poss\u00edvel o movimento em dire\u00e7\u00e3o a um encontro real com o outro.<\/p>\n<p>Assim, encontramo-nos em uma situa\u00e7\u00e3o complexa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade humana no mundo atual. Temos a necessidade de nos abrirmos aos outros, de nos conectarmos com eles e de nos abrirmos \u00e0 sua riqueza pessoal, mas parece que quase tudo \u00e9 projetado para nos colocar em primeiro lugar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A publicidade e o conforto que nos cercam nos impulsionam a satisfazer nossas pr\u00f3prias necessidades com o m\u00ednimo esfor\u00e7o poss\u00edvel, e escapar dessa l\u00f3gica implica lutar conscientemente contra a corrente<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Diante dessa realidade, deparamo-nos com outra igualmente humana: a parentalidade, que for\u00e7a os indiv\u00edduos a confrontarem a verdade de que n\u00e3o podemos ter absolutamente tudo sob controle em nossas vidas. \u00c9 como um choque que obriga os novos pais a deixarem para tr\u00e1s a rotina di\u00e1ria, na qual todo prazer e satisfa\u00e7\u00e3o est\u00e3o prontamente dispon\u00edveis, e a encararem o fato de que agora precisam se esfor\u00e7ar para satisfazer necessidades que nem sequer s\u00e3o suas, mas de um ser pequeno e indefeso que depende inteiramente deles.<\/p>\n<p>A parentalidade nos confronta com uma contradi\u00e7\u00e3o vital para a qual o mundo contempor\u00e2neo n\u00e3o nos prepara minimamente: existe uma pessoa que amamos mais do que tudo no mundo, mas que, ao mesmo tempo em que preenche a vida dos pais de alegria, tamb\u00e9m os enche de preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso contraria tudo o que nos \u00e9 proposto atualmente. Mesmo nos relacionamentos rom\u00e2nticos, j\u00e1 vimos mais de uma cr\u00edtica ao amor rom\u00e2ntico, especialmente \u00e0 ideia de colocar o outro em primeiro lugar. Na parentalidade, por\u00e9m, \u00e9 imposs\u00edvel escapar desse aspecto do amor.<\/p>\n<p>As necessidades humanas mais b\u00e1sicas dos pais muitas vezes precisam ser adiadas. Est\u00e1 com sono? Bem, acontece que seu beb\u00ea de tr\u00eas meses est\u00e1 com fome. E ele vai garantir, com seu choro, que voc\u00ea n\u00e3o durma at\u00e9 que sua fome seja saciada. Provavelmente poucos pais conseguem manter a alegria e o bom humor nessa situa\u00e7\u00e3o (embora, sem d\u00favida, existam pessoas muito virtuosas que o consigam). Contudo, mesmo aqueles de n\u00f3s que respondem a todas as necessidades dos filhos n\u00e3o com um sorriso terno, mas com o olhar distante t\u00edpico do piloto autom\u00e1tico em que entramos para sobreviver, n\u00e3o podem negar que o fazem movidos por um amor mais intenso e aut\u00eantico do que jamais imaginaram ser poss\u00edvel sentir.<\/p>\n<p>\u00c9 um amor repleto de conforto e prazer? Certamente n\u00e3o. Ent\u00e3o, esse amor \u00e9 menos completo do que o amor que poder\u00edamos sentir por algu\u00e9m que n\u00e3o nos priva desses bens? Jamais. Pelo contr\u00e1rio, sabemos que o amor que sentimos por aquela criaturinha inflama nossos cora\u00e7\u00f5es de uma forma que transcende as palavras.<\/p>\n<p>Assim, tornar-se pai ou m\u00e3e praticamente nos obriga a considerar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es sobre a felicidade que nossa cultura atual torna muito dif\u00edceis de abordar. Mesmo que se tenha dinheiro e recursos, o que facilita bastante a parentalidade (\u00e9 poss\u00edvel contratar enfermeiras noturnas, bab\u00e1s, especialistas em interven\u00e7\u00e3o precoce e assim por diante), existem dificuldades e desconfortos imposs\u00edveis de ignorar. Basta perguntar a qualquer mulher que j\u00e1 esteve gr\u00e1vida. E isso \u00e9 uma excelente not\u00edcia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>As pessoas hoje em dia n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o inclinadas a ter filhos como antigamente, e uma poss\u00edvel raz\u00e3o \u00e9 que o mundo moderno contradiz muito do que significa ser pai ou m\u00e3e<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas, mesmo com os desafios inerentes \u00e0 parentalidade, uma realidade ainda maior se sobressai: ao nos dedicarmos aos nossos filhos por amor, encontramos a resposta a um chamado que fala \u00e0s profundezas da nossa natureza humana. E, nessa resposta, encontramos uma felicidade profunda e verdadeira.<\/p>\n<p>Todo o sofrimento e as dificuldades inerentes \u00e0 parentalidade assumem, assim, um significado que contradiz a mensagem contempor\u00e2nea sobre o bem-estar: se essa dor tem origem no amor pelo outro, se transcende o interesse pr\u00f3prio, torna-se parte de uma felicidade indescrit\u00edvel.<\/p>\n<p>Parece contradit\u00f3rio que algu\u00e9m que dorme t\u00e3o pouco, que n\u00e3o consegue ir ao banheiro em paz ou terminar uma refei\u00e7\u00e3o quente, possa sentir-se t\u00e3o realizado e feliz. E, no entanto, sob a l\u00f3gica aparentemente insana do amor, isso \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel, como confirmam as experi\u00eancias de in\u00fameros pais.<\/p>\n<p>As ideias que proponho n\u00e3o s\u00e3o um convite a ter filhos indiscriminadamente, como forma de resolver os problemas do nosso mundo moderno. Contribuir para trazer uma nova pessoa ao mundo \u00e9, talvez, a coisa mais milagrosa da qual podemos participar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada crian\u00e7a \u00e9 um indiv\u00edduo \u00fanico que contribui com algo para a realidade que absolutamente ningu\u00e9m mais pode oferecer<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Portanto, a decis\u00e3o de se abrir \u00e0 possibilidade da paternidade ou da maternidade deve ser tomada com toda a seriedade que merece, e n\u00e3o como um meio para um fim, mesmo que esse fim seja a nobre causa de ajudar a remediar a rendi\u00e7\u00e3o deste mundo ao prazer e \u00e0 gratifica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea.<\/p>\n<p>O que busco, em vez disso, \u00e9 abrir uma reflex\u00e3o sobre como todo ser humano, tenha ou n\u00e3o filhos, foi feito para ser feliz, e essa felicidade s\u00f3 \u00e9 encontrada ao se entregar a outro que \u00e9, de alguma forma, t\u00e3o &#8220;outro&#8221; quanto eu; isto \u00e9, que possui em si uma intimidade profunda, \u00fanica e irrepet\u00edvel, capaz de me acolher, e a quem tamb\u00e9m posso acolher.<\/p>\n<p>Essa doa\u00e7\u00e3o de si nasce do amor ao pr\u00f3ximo e encontra in\u00fameras express\u00f5es, o que faz todo o sentido, j\u00e1 que, se por natureza somos abertos ao infinito, ent\u00e3o as formas de realizar nossa voca\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ser\u00e3o infinitas. Dentre elas, talvez a paternidade e a maternidade demonstrem com maior clareza o chamado humano a doar-se \u00e0queles que amamos para encontrar a verdadeira felicidade.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 necess\u00e1rio abordar a raz\u00e3o fundamental pela qual esse chamado para sermos uma d\u00e1diva aos outros se alinha t\u00e3o perfeitamente com nosso anseio por felicidade.<\/p>\n<p>Aqueles de n\u00f3s que temos a gra\u00e7a de receber o dom da f\u00e9 acreditamos firmemente que n\u00e3o nos criamos a n\u00f3s mesmos e que, por tr\u00e1s de nossa cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma for\u00e7a estranha e desconhecida, mas uma pessoa. E n\u00e3o qualquer pessoa, mas A Pessoa: o pr\u00f3prio Deus, que, no auge do amor, diz no livro do G\u00eanesis: \u201cFa\u00e7amos o homem \u00e0 nossa imagem, conforme a nossa semelhan\u00e7a\u201d (G\u00eanesis 1:26).<\/p>\n<p>\u00c9 por meio dessa semelhan\u00e7a que podemos conhecer a verdade, que somos atra\u00eddos pela bondade e que nos regozijamos na beleza. \u00c9 por meio dessa semelhan\u00e7a que nos abrimos ao amor. E, especialmente relevante para os temas aqui discutidos, n\u00e3o devemos esquecer que fomos feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de um Deus que n\u00e3o \u00e9 um Deus solit\u00e1rio, mas que \u00e9, Ele mesmo, uma comunh\u00e3o perfeita de pessoas.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade \u00e9, em muitos aspectos, completamente incompreens\u00edvel para a raz\u00e3o humana, mas deixa uma mensagem muito clara: Deus, exemplo de amor perfeito, \u00e9 comunh\u00e3o. E n\u00f3s, feitos \u00e0 Sua semelhan\u00e7a, trazemos no mais profundo do nosso ser a necessidade de nos entregarmos aos outros e de entrarmos em comunh\u00e3o com outras pessoas.<\/p>\n<p>Como sempre, a generosidade de Deus \u00e9 insuper\u00e1vel. Os pais que amam profundamente seus filhos j\u00e1 possuem aquela felicidade inef\u00e1vel que prov\u00e9m do amor verdadeiro e altru\u00edsta. Mas, quando esses pais abra\u00e7am a f\u00e9, esse mesmo amor se multiplica de maneiras que transcendem toda a imagina\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios sofrimentos inerentes \u00e0 paternidade, mencionados anteriormente, n\u00e3o encontram mais significado apenas no amor pelo filho, mas tamb\u00e9m se fundamentam na l\u00f3gica do amor redentor de Cristo por Sua Igreja. N\u00e3o se sofre mais apenas por amor ao filho, mas tamb\u00e9m por amor \u00c0quele que primeiro sofreu por n\u00f3s. E, na doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos que experimentamos por nossos filhos, n\u00f3s, pais, experimentamos a alegria de viver nessa comunh\u00e3o que busca assemelhar-se \u00e0 comunh\u00e3o trinit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mencionei anteriormente que todos n\u00f3s fomos feitos para nos doar e oferecer essa doa\u00e7\u00e3o a outro que deseje receb\u00ea-la. Isso pode ser observado e corroborado pelo que a pr\u00f3pria natureza humana nos revela: basta observarmos como n\u00f3s, seres humanos, funcionamos e quais s\u00e3o as nossas tend\u00eancias. Mas essa ideia adquire uma for\u00e7a poderosa e irresist\u00edvel quando iluminada pela f\u00e9. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II afirmou isso com uma clareza que eu jamais conseguiria alcan\u00e7ar com minhas pr\u00f3prias palavras, por isso usarei as dele: \u201cO homem torna-se imagem de Deus n\u00e3o tanto no momento da solid\u00e3o, mas no momento da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">De fato, ele \u00e9 \u2018desde o princ\u00edpio\u2019 n\u00e3o apenas uma imagem na qual se reflete a solid\u00e3o de uma Pessoa que governa o mundo, mas tamb\u00e9m, e essencialmente, uma imagem de uma insond\u00e1vel comunh\u00e3o divina de Pessoas\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Audi\u00eancia Geral, 14 de novembro de 1979). O Papa Le\u00e3o XIV tamb\u00e9m afirma isso na <em>Magnifica Humanitas<\/em>, recordando o primeiro fundamento da Doutrina Social da Igreja. Ela nos ensina que isso \u201cnos conduz ao pr\u00f3prio \u00e2mago da nossa f\u00e9: o mist\u00e9rio do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo como comunh\u00e3o de pessoas; Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo: amor em rela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 dado reciprocamente e comunicado ao mundo. (&#8230;) Os seres humanos s\u00e3o chamados \u00e0 comunh\u00e3o com Deus e \u2018n\u00e3o podem encontrar a sua pr\u00f3pria plenitude sen\u00e3o na doa\u00e7\u00e3o sincera de si mesmos\u2019; a sua voca\u00e7\u00e3o mais profunda \u00e9 entrar no movimento trinit\u00e1rio do amor recebido e partilhado\u201d (<em>Magnifica Humanitas<\/em>, n. 48).<\/p>\n<p>Como Santo Agostinho t\u00e3o belamente nos lembra no primeiro livro de suas <em>Confiss\u00f5es<\/em>, fomos feitos para Deus. Portanto, todos somos chamados a estender a m\u00e3o e entrar em comunh\u00e3o com Ele. E Deus quis que Seus filhos fossem cercados por outros como n\u00f3s, para que, em comunh\u00e3o com eles, pud\u00e9ssemos encontrar um sinal de nossa pr\u00f3pria comunh\u00e3o com Ele e dela participar. N\u00f3s, que somos pais, temos a alegria infinita de ter nossos filhos como um lembrete constante daquilo para o qual fomos criados e do significado de nossos esfor\u00e7os: viver com amor pelos outros, por amor a Deus.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\"><em><strong>Francisca de los Hoyos<\/strong> \u00e9 casada e m\u00e3e de dois filhos. \u00c9 graduada em Filosofia e em Pedagogia, com especializa\u00e7\u00e3o em Filosofia pela Universidade dos Andes, no Chile. Atua como professora de Filosofia no ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Los Andes, tamb\u00e9m no Chile.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/06\/26\/el-luminoso-cansancio-de-amar\/\">El luminoso cansancio de amar<\/a><\/strong><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A felicidade n\u00e3o floresce no ego\u00edsmo, mas na entrega ao outro. A paternidade e maternidade revelam, como nada mais, essa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":528581,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-528580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=528580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528580\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/528581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=528580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=528580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=528580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}