{"id":528268,"date":"2026-07-02T07:00:00","date_gmt":"2026-07-02T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528268"},"modified":"2026-07-02T07:00:00","modified_gmt":"2026-07-02T11:00:00","slug":"os-estados-unidos-aos-250-anos-liberdade-virtude-e-constituicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=528268","title":{"rendered":"Os Estados Unidos aos 250 anos: liberdade, virtude e Constitui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/01141102\/washington-cruzando-o-delaware-250-anos-estados-unidos.jpg.webp\" \/><span>&#8220;Washington cruzando o Delaware&#8221;, de Emanuel Leutze, mostra um epis\u00f3dio da Guerra de Independ\u00eancia Americana. (Foto: Wikimedia Commons\/Dom\u00ednio p\u00fablico)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Neste s\u00e1bado, 4 de julho, os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a> celebram 250 anos de sua independ\u00eancia. Poucas na\u00e7\u00f5es exerceram influ\u00eancia t\u00e3o profunda sobre a hist\u00f3ria moderna. Ao longo de dois s\u00e9culos e meio, o pa\u00eds tornou-se uma pot\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica, militar, cient\u00edfica e cultural, desempenhando papel decisivo na derrota de regimes totalit\u00e1rios, na expans\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e na defesa da liberdade em diversas partes do mundo.<\/p>\n<p>Naturalmente, a hist\u00f3ria americana n\u00e3o \u00e9 isenta de contradi\u00e7\u00f5es. Como toda grande na\u00e7\u00e3o, conheceu injusti\u00e7as, guerras, divis\u00f5es e per\u00edodos de decl\u00ednio moral. Ainda assim, seus 250 anos oferecem uma oportunidade para reconhecer o que tornou essa experi\u00eancia pol\u00edtica singular: uma na\u00e7\u00e3o fundada n\u00e3o sobre uma identidade \u00e9tnica, mas sobre princ\u00edpios; n\u00e3o sobre um rei, mas sobre uma Constitui\u00e7\u00e3o; n\u00e3o sobre uma igreja estatal, mas sobre uma heran\u00e7a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/protestantes\/\">protestante <\/a>que moldou sua concep\u00e7\u00e3o de liberdade, responsabilidade e dignidade humana.<\/p>\n<h2>A independ\u00eancia norte-americana<\/h2>\n<p>A independ\u00eancia dos Estados Unidos foi a separa\u00e7\u00e3o das 13 col\u00f4nias brit\u00e2nicas da Coroa inglesa, ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada de tens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e constitucionais. N\u00e3o se tratou apenas de uma rea\u00e7\u00e3o contra impostos, mas de uma resist\u00eancia \u00e0 pretens\u00e3o do Parlamento e do rei Jorge III de exercer autoridade sobre colonos que reivindicavam os mesmos direitos e liberdades dos demais s\u00faditos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>A Guerra da Independ\u00eancia, travada entre 1775 e 1783, teve momentos decisivos. Em Lexington e Concord, o conflito come\u00e7ou. Em Bunker Hill, os colonos demonstraram capacidade de resist\u00eancia. Em Trenton, George Washington restaurou o moral do Ex\u00e9rcito Continental. Em Saratoga, a vit\u00f3ria americana convenceu a Fran\u00e7a a entrar na guerra. Por fim, em Yorktown, em 1781, o ex\u00e9rcito brit\u00e2nico foi cercado e obrigado a render-se, selando a vit\u00f3ria americana.<\/p>\n<p>Mais do que conquistar autonomia nacional, os Estados Unidos afirmaram um princ\u00edpio revolucion\u00e1rio: o poder civil n\u00e3o \u00e9 absoluto. Os colonos entendiam que seus direitos provinham da tradi\u00e7\u00e3o constitucional brit\u00e2nica e, acima dela, do pr\u00f3prio Criador. Quando o Parlamento passou a legislar e tributar sem representa\u00e7\u00e3o efetiva das col\u00f4nias, muitos conclu\u00edram que o pacto entre governantes e governados havia sido rompido.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nos EUA, o Estado deixou de ser considerado a fonte dos direitos e passou a ser julgado por sua fidelidade a direitos que o precedem<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nesse contexto surgiu a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia, redigida principalmente por Thomas Jefferson e aprovada em 1776. Seu argumento central tornou-se uma das afirma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais influentes da hist\u00f3ria: todos os homens foram criados iguais, receberam do Criador direitos inalien\u00e1veis, e os governos existem para proteger esses direitos, n\u00e3o para conced\u00ea-los.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o alterou profundamente o pensamento pol\u00edtico ocidental. O Estado deixou de ser considerado a fonte dos direitos e passou a ser julgado por sua fidelidade a direitos que o precedem. Quando um governo se torna tir\u00e2nico, perde sua legitimidade moral. Essa convic\u00e7\u00e3o ultrapassou rapidamente as fronteiras das 13 col\u00f4nias, oferecendo ao mundo um modelo de governo constitucional baseado na limita\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<h2>O singular constitucionalismo americano<\/h2>\n<p>A verdadeira originalidade dos Estados Unidos, entretanto, talvez n\u00e3o esteja na Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia, mas na Constitui\u00e7\u00e3o elaborada poucos anos depois. Diversas na\u00e7\u00f5es proclamaram liberdade. Poucas conseguiram preserv\u00e1-la.<\/p>\n<p>Os fundadores americanos compreendiam uma verdade esquecida em muitas \u00e9pocas: o maior perigo para uma sociedade livre n\u00e3o \u00e9 apenas um governante mau, mas a concentra\u00e7\u00e3o do poder. Por essa raz\u00e3o, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1787 criou um sistema cuidadosamente equilibrado.<\/p>\n<p>O governo federal recebeu compet\u00eancias limitadas. Os estados conservaram ampla autonomia. O poder foi dividido entre Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio. Cada institui\u00e7\u00e3o recebeu mecanismos para limitar as demais. Posteriormente, a Carta de Direitos refor\u00e7ou as garantias individuais contra abusos do pr\u00f3prio governo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Esse modelo nasceu de uma vis\u00e3o profundamente realista da natureza humana. Influenciados pela <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cristianismo\/\">tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3<\/a> e, em especial, pela compreens\u00e3o reformada do pecado, muitos dos fundadores sabiam que nenhuma autoridade terrena permanece imune \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acreditavam na bondade inerente dos governantes. Sabiam que homens virtuosos podem exercer bem o poder, mas tamb\u00e9m que homens pecadores frequentemente abusam dele. Por isso, a limita\u00e7\u00e3o constitucional do poder n\u00e3o expressava desconfian\u00e7a apenas de determinados governantes, mas da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana ap\u00f3s a Queda.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o americana n\u00e3o foi constru\u00edda na expectativa de governantes perfeitos, mas na certeza de que eles jamais existiriam. Essa compreens\u00e3o permanece uma de suas maiores contribui\u00e7\u00f5es para a civiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<h2>A Guerra Civil e o risco \u00e0 unidade americana<\/h2>\n<p>A Guerra Civil Americana, travada entre 1861 e 1865, colocou em risco a pr\u00f3pria excepcionalidade dos Estados Unidos ao amea\u00e7ar destruir a experi\u00eancia constitucional iniciada em 1776 e consolidada pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1787.<\/p>\n<p>O conflito come\u00e7ou com o bombardeio do Forte Sumter e foi marcado por batalhas sangrentas. Em Antietam, Abraham Lincoln encontrou as condi\u00e7\u00f5es para anunciar a Proclama\u00e7\u00e3o de Emancipa\u00e7\u00e3o; em Gettysburg, a Uni\u00e3o conquistou sua vit\u00f3ria mais emblem\u00e1tica, preservando a rep\u00fablica; em Vicksburg, assumiu o controle do Rio Mississippi, dividindo a Confedera\u00e7\u00e3o; e, em Appomattox Court House, o general Robert E. Lee rendeu o principal ex\u00e9rcito confederado a Ulysses S. Grant, encerrando a guerra.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia da escravid\u00e3o expunha uma profunda contradi\u00e7\u00e3o entre os princ\u00edpios da Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia e a realidade da rep\u00fablica, enquanto a secess\u00e3o dos estados sulistas colocava em d\u00favida a sobreviv\u00eancia da Uni\u00e3o e da pr\u00f3pria ordem constitucional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o americana n\u00e3o foi constru\u00edda na expectativa de governantes perfeitos, mas na certeza de que eles jamais existiriam<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Lincoln compreendeu que preservar a Uni\u00e3o e abolir a escravid\u00e3o eram objetivos insepar\u00e1veis. Sua vit\u00f3ria restaurou a unidade nacional, reafirmou a autoridade da Constitui\u00e7\u00e3o e fortaleceu o ideal americano de liberdade sob o imp\u00e9rio da lei.<\/p>\n<h2>Homens que moldaram a rep\u00fablica<\/h2>\n<p>Toda grande na\u00e7\u00e3o possui personagens que sintetizam seus ideais. Nenhum ocupa lugar mais elevado que George Washington. Sua lideran\u00e7a durante a Guerra da Independ\u00eancia garantiu a sobreviv\u00eancia do novo pa\u00eds. Ainda mais importante foi sua decis\u00e3o de renunciar ao comando militar ap\u00f3s a vit\u00f3ria e, posteriormente, limitar voluntariamente seu tempo na presid\u00eancia. Em uma \u00e9poca marcada por generais que se transformavam em ditadores, Washington demonstrou que a autoridade existe para servir \u00e0 rep\u00fablica, e n\u00e3o ao governante.<\/p>\n<p>Ao lado dele, James Madison merece lugar de destaque. Principal arquiteto da Constitui\u00e7\u00e3o e defensor de sua ratifica\u00e7\u00e3o, ficou conhecido como o \u201cPai da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d. Sua compreens\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o dos poderes, dos freios e contrapesos e do federalismo moldou de forma duradoura a arquitetura institucional americana.<\/p>\n<p>John Adams representou outro elemento essencial da experi\u00eancia americana: a supremacia da lei. Advogado brilhante, defensor da independ\u00eancia e segundo presidente do pa\u00eds, insistia que os Estados Unidos deveriam ser \u201cum governo de leis, e n\u00e3o de homens\u201d. Poucas frases resumem t\u00e3o bem o esp\u00edrito constitucional americano.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 19, Lincoln preservou a Uni\u00e3o durante sua maior crise. A Guerra Civil custou centenas de milhares de vidas, mas impediu a fragmenta\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica e abriu caminho para a aboli\u00e7\u00e3o definitiva da escravid\u00e3o. Lincoln reuniu, em rara medida, firmeza moral, habilidade pol\u00edtica e esp\u00edrito conciliador.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Ao lado dele destacou-se Ulysses S. Grant. General vitorioso da Uni\u00e3o e depois presidente, compreendeu que a paz somente seria duradoura se os direitos civis dos libertos fossem protegidos. Durante a Reconstru\u00e7\u00e3o, enfrentou organiza\u00e7\u00f5es racistas violentas e buscou consolidar a igualdade jur\u00eddica assegurada pelas novas emendas constitucionais.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, Theodore Roosevelt simbolizou energia nacional, patriotismo e confian\u00e7a no futuro. Reformador vigoroso e defensor da proje\u00e7\u00e3o internacional americana, ajudou a consolidar os Estados Unidos como pot\u00eancia global sem abandonar o ideal de responsabilidade c\u00edvica.<\/p>\n<p>Franklin D. Roosevelt conduziu o pa\u00eds durante a Grande Depress\u00e3o e a Segunda Guerra Mundial. Ap\u00f3s o ataque japon\u00eas a Pearl Harbor, mobilizou a extraordin\u00e1ria capacidade industrial, econ\u00f4mica e militar dos Estados Unidos, transformando-os no arsenal da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia <\/a>e desempenhando papel decisivo na derrota do nazismo, do fascismo e do militarismo japon\u00eas, apesar das controv\u00e9rsias em torno de sua pol\u00edtica interna.<\/p>\n<p>Dwight D. Eisenhower levou para a presid\u00eancia a experi\u00eancia adquirida como comandante supremo das for\u00e7as aliadas na Europa. Sob seu governo, os Estados Unidos consolidaram sua lideran\u00e7a no mundo livre, expandiram sua infraestrutura e administraram com prud\u00eancia os primeiros anos da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/guerra-fria\/\">Guerra Fria<\/a>.<\/p>\n<p>John F. Kennedy tornou-se s\u00edmbolo de uma nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes. Durante seu breve governo, enfrentou a Crise dos M\u00edsseis em Cuba com firmeza e prud\u00eancia, evitando uma guerra nuclear. Seu governo deu novo impulso \u00e0 corrida espacial ao estabelecer como objetivo nacional o envio de um homem \u00e0 Lua antes do fim da d\u00e9cada. Esse desafio mobilizou a capacidade cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e industrial dos Estados Unidos e tornou-se um dos legados mais duradouros de sua presid\u00eancia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Convencido da excepcionalidade americana, Ronald Reagan lembrava frequentemente que a liberdade depende da virtude de seus cidad\u00e3os<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ronald Reagan foi um dos grandes protagonistas da fase final da Guerra Fria. Sua firme oposi\u00e7\u00e3o ao comunismo sovi\u00e9tico combinou fortalecimento militar, recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e renova\u00e7\u00e3o do otimismo nacional. Convencido da excepcionalidade americana, lembrava frequentemente que a liberdade depende da virtude de seus cidad\u00e3os. Seu governo contribuiu para criar as condi\u00e7\u00f5es que culminariam no colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e no fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Mais do que uma disputa geopol\u00edtica, a Guerra Fria representou tamb\u00e9m o confronto entre duas vis\u00f5es de sociedade: de um lado, a tradi\u00e7\u00e3o da liberdade constitucional, da propriedade privada e da dignidade da pessoa humana; de outro, um sistema baseado no materialismo marxista, na concentra\u00e7\u00e3o do poder estatal e na nega\u00e7\u00e3o das liberdades civis e religiosas.<\/p>\n<p>Cada um desses l\u00edderes enfrentou desafios distintos, mas compartilhou a mesma convic\u00e7\u00e3o: preservar a rep\u00fablica era mais importante do que promover ambi\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<h2>Generais a servi\u00e7o da rep\u00fablica<\/h2>\n<p>Os Estados Unidos produziram alguns dos mais not\u00e1veis comandantes militares da era moderna. John J. Pershing organizou o ex\u00e9rcito americano que combateu na Primeira Guerra Mundial. Na Segunda Guerra Mundial, George S. Patton destacou-se pela velocidade e agressividade de suas campanhas na Europa; Omar N. Bradley tornou-se conhecido por sua lideran\u00e7a equilibrada e pela capacidade de coordenar grandes for\u00e7as aliadas; e Douglas MacArthur conduziu campanhas decisivas no Pac\u00edfico e supervisionou a reconstru\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o. Durante a Guerra da Coreia, Matthew Ridgway restaurou o moral das for\u00e7as da ONU. D\u00e9cadas depois, Colin Powell aliou lideran\u00e7a militar a not\u00e1vel servi\u00e7o p\u00fablico, enquanto Norman Schwarzkopf Jr. comandou a coaliz\u00e3o internacional que libertou o Kuwait em 1991.<\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as de personalidade, estrat\u00e9gia e guerras, esses comandantes compartilharam um princ\u00edpio essencial: subordinaram a autoridade militar ao poder civil. Mesmo em crises, como a destitui\u00e7\u00e3o de MacArthur por Harry Truman durante a Guerra da Coreia, prevaleceu a supremacia da autoridade civil, preservando as For\u00e7as Armadas como instrumento da Constitui\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>A influ\u00eancia decisiva do protestantismo<\/h2>\n<p>Nenhuma an\u00e1lise da hist\u00f3ria americana pode ser completa sem considerar o papel do protestantismo. Desde os peregrinos da Nova Inglaterra at\u00e9 os grandes movimentos de despertamento e avivamento, o cristianismo protestante moldou profundamente a cultura pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A teologia da alian\u00e7a exerceu influ\u00eancia decisiva nesse processo. A ideia de que Deus estabelece pactos tanto com indiv\u00edduos quanto com comunidades fortaleceu a compreens\u00e3o de que a sociedade tamb\u00e9m se organiza mediante compromissos livremente assumidos. Assim, fam\u00edlia, igreja, comunidade local e governo passaram a ser vistos como esferas distintas de responsabilidade, cada uma limitada por deveres morais diante de Deus.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o favoreceu o desenvolvimento da responsabilidade pessoal, do autogoverno, da educa\u00e7\u00e3o popular, da leitura das Escrituras, da valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, da disciplina e da participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Tamb\u00e9m refor\u00e7ou a convic\u00e7\u00e3o de que nenhuma autoridade humana \u00e9 absoluta: somente Deus possui soberania ilimitada, e os governantes permanecem sujeitos \u00e0 sua lei moral.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, essa heran\u00e7a criou um amplo consenso \u00e9tico entre as diferentes denomina\u00e7\u00f5es protestantes. Apesar das diverg\u00eancias teol\u00f3gicas, havia acordo quanto aos fundamentos morais da sociedade: casamento, fam\u00edlia, honestidade, responsabilidade, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberdade-religiosa\/\">liberdade religiosa <\/a>e dignidade da pessoa humana. Esse patrim\u00f4nio cultural explica, em grande medida, a extraordin\u00e1ria estabilidade institucional dos Estados Unidos ao longo de mais de dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ao visitar o pa\u00eds na d\u00e9cada de 1830, Alexis de Tocqueville observou que a for\u00e7a da democracia americana n\u00e3o repousava apenas em suas leis, mas tamb\u00e9m nos costumes, nas igrejas, nas fam\u00edlias e nas in\u00fameras associa\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias que moldavam o car\u00e1ter dos cidad\u00e3os. Para ele, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religi\u00e3o <\/a>n\u00e3o enfraquecia a liberdade; ao contr\u00e1rio, fornecia o fundamento moral indispens\u00e1vel para sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Desde os peregrinos da Nova Inglaterra at\u00e9 os movimentos de despertamento e avivamento, o cristianismo protestante moldou a cultura pol\u00edtica dos EUA<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>O maior te\u00f3logo americano<\/h2>\n<p>Se existe um pensador que sintetiza a grande tradi\u00e7\u00e3o intelectual do protestantismo americano, esse nome \u00e9 Jonathan Edwards. Pastor e te\u00f3logo do s\u00e9culo 18, uniu extraordin\u00e1rio rigor intelectual a profunda espiritualidade. Sua obra influenciou gera\u00e7\u00f5es de pastores, mission\u00e1rios, fil\u00f3sofos e educadores. A defesa da soberania de Deus, da beleza da santidade, da centralidade da convers\u00e3o e da necessidade do novo nascimento tornou-se refer\u00eancia para o protestantismo de l\u00edngua inglesa.<\/p>\n<p>Edwards tamb\u00e9m foi um dos principais protagonistas do Primeiro Grande Despertamento. Para ele, o verdadeiro avivamento n\u00e3o consistia em mera emo\u00e7\u00e3o religiosa, mas na renova\u00e7\u00e3o espiritual produzida pelo Esp\u00edrito Santo, acompanhada de arrependimento, santidade, amor pela verdade e transforma\u00e7\u00e3o moral. Essa compreens\u00e3o permanece atual.<\/p>\n<h2>Um novo despertar para um novo tempo<\/h2>\n<p>Ao completar 250 anos, os Estados Unidos continuam sendo uma das democracias mais influentes do mundo. Contudo, enfrentam desafios profundos. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as guerras no exterior, a fragmenta\u00e7\u00e3o cultural, a crise da fam\u00edlia, a seculariza\u00e7\u00e3o acelerada e a crescente confus\u00e3o acerca da natureza humana enfraqueceram muitos dos consensos que sustentaram a rep\u00fablica durante gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda assim, os Estados Unidos permanecem significativamente mais religiosos do que a maior parte do Ocidente. Segundo o mais recente levantamento do Pew Research Center, cerca de dois ter\u00e7os dos americanos ainda se identificam como crist\u00e3os, quase metade afirma orar diariamente, e aproximadamente um ter\u00e7o participa de cultos religiosos ao menos uma vez por m\u00eas. Em contraste, na maior parte da Europa Ocidental, a frequ\u00eancia semanal aos cultos permanece abaixo de um quarto da popula\u00e7\u00e3o, chegando a \u00edndices de apenas um d\u00edgito em diversos pa\u00edses. A pesquisa tamb\u00e9m mostra que manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de f\u00e9 continuam presentes na vida pol\u00edtica americana, seja em cerim\u00f4nias de ora\u00e7\u00e3o ap\u00f3s trag\u00e9dias, no uso de s\u00edmbolos religiosos por autoridades ou em refer\u00eancias \u00e0s Escrituras no debate p\u00fablico.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma sociedade livre depende de cidad\u00e3os virtuosos e virtudes duradouras dificilmente sobrevivem quando suas ra\u00edzes espirituais s\u00e3o abandonadas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entretanto, essa vitalidade religiosa, por si s\u00f3, n\u00e3o garante a preserva\u00e7\u00e3o da coes\u00e3o moral e cultural da na\u00e7\u00e3o. Nenhuma reforma exclusivamente pol\u00edtica ser\u00e1 suficiente para restaurar o terreno comum que se perdeu. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o indispens\u00e1veis, mas sua perman\u00eancia depende das virtudes cultivadas pela sociedade.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios fundadores compreendiam que nenhuma Constitui\u00e7\u00e3o, por mais s\u00e1bia que fosse, poderia preservar uma sociedade cujos cidad\u00e3os abandonassem a virtude. Leis podem conter abusos, mas n\u00e3o substituem o car\u00e1ter. Por isso, a preserva\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica dependia n\u00e3o apenas da sabedoria humana, mas tamb\u00e9m da provid\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Talvez, portanto, a necessidade mais urgente dos Estados Unidos n\u00e3o seja apenas uma renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas um novo despertar espiritual. Um avivamento protestante, centrado na autoridade das Escrituras, na prega\u00e7\u00e3o fiel do evangelho, na santidade pessoal, na responsabilidade familiar e na renova\u00e7\u00e3o moral, poderia fortalecer os fundamentos culturais que durante tanto tempo sustentaram a experi\u00eancia constitucional americana.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa defender uma religi\u00e3o oficial nem confundir igreja e Estado. Significa reconhecer que uma sociedade livre depende de cidad\u00e3os virtuosos e que virtudes duradouras dificilmente sobrevivem quando suas ra\u00edzes espirituais s\u00e3o abandonadas.<\/p>\n<h2>Em ora\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos<\/h2>\n<p>Ao celebrar seus 250 anos, os Estados Unidos t\u00eam raz\u00f5es leg\u00edtimas para agradecer por sua hist\u00f3ria extraordin\u00e1ria. Mas tamb\u00e9m possuem motivos para refletir sobre seu futuro. Desde os prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o, pastores e te\u00f3logos protestantes advertiam que a prosperidade da nova sociedade dependeria menos de sua riqueza, de seu poder ou de seu engenho do que de sua fidelidade ao Senhor.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A verdadeira grandeza americana nasceu da convic\u00e7\u00e3o de que a liberdade exige responsabilidade, de que o poder deve permanecer limitado pela lei e de que a dignidade humana decorre do fato de todos terem sido criados por Deus<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em 1630, ao despedir-se dos puritanos que partiam para a Nova Inglaterra, John Cotton exortou-os a buscar a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus sobre a nova comunidade, aplicando \u00e0 col\u00f4nia as palavras do Salmo 122: \u201cOrai pela paz de Jerusal\u00e9m; prosperar\u00e3o aqueles que a amam&#8230; Toda planta\u00e7\u00e3o que a sua destra n\u00e3o plantou ser\u00e1 arrancada, mas a planta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Senhor prosperar\u00e1 e florescer\u00e1\u201d. Sessenta anos depois, Cotton Mather reafirmou o mesmo princ\u00edpio em um serm\u00e3o dirigido \u00e0s autoridades de Massachusetts: \u201cO Deus dos c\u00e9us estar\u00e1 com um povo enquanto esse povo estiver com Ele&#8230; N\u00e3o prosperariam muito mais todos os nossos empreendimentos se, com mais ora\u00e7\u00e3o por eles, reconhec\u00eassemos o Senhor em todos os nossos caminhos?\u201d Finalmente, em 1747, Jonathan Edwards transformou essa esperan\u00e7a em uma fervorosa ora\u00e7\u00e3o por um novo derramamento da gra\u00e7a divina: \u201c&#8230; que ele continuasse e levasse adiante esta obra e derramasse, de modo ainda mais abundante e amplo, o seu Esp\u00edrito&#8230; estabelecendo o seu glorioso reino por toda a terra\u201d.<\/p>\n<p>Passados quase quatro s\u00e9culos desde aquele primeiro apelo de Cotton, ele permanece atual. Que um novo Grande Despertamento, precedido por ora\u00e7\u00e3o fervorosa e arrependimento sincero, renove o car\u00e1ter moral dos Estados Unidos, fortale\u00e7a suas institui\u00e7\u00f5es constitucionais e restaure as virtudes que sustentaram a rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A verdadeira grandeza americana nunca residiu apenas em sua riqueza, em seu poder militar ou em sua capacidade tecnol\u00f3gica. Ela nasceu da convic\u00e7\u00e3o de que a liberdade exige responsabilidade, de que o poder deve permanecer limitado pela lei e de que a dignidade humana decorre do fato de todos terem sido criados por Deus.<\/p>\n<p>A rep\u00fablica fundada por Washington somente continuar\u00e1 florescendo se conservar a f\u00e9 que inspirou homens como Edwards. A for\u00e7a de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside apenas em seu poder, mas no car\u00e1ter de seu povo. E o car\u00e1ter floresce quando Deus \u00e9 honrado, sua Palavra \u00e9 obedecida e a liberdade permanece subordinada \u00e0 verdade.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Washington cruzando o Delaware&#8221;, de Emanuel Leutze, mostra um epis\u00f3dio da Guerra de Independ\u00eancia Americana. (Foto: Wikimedia Commons\/Dom\u00ednio p\u00fablico) Ou\u00e7a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":528269,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-528268","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=528268"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/528268\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/528269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=528268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=528268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=528268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}