{"id":525485,"date":"2026-07-01T07:00:00","date_gmt":"2026-07-01T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=525485"},"modified":"2026-07-01T07:00:00","modified_gmt":"2026-07-01T11:00:00","slug":"o-homem-que-nao-vendeu-a-alma-em-tempos-de-bajuladores-o-exemplo-de-thomas-more","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=525485","title":{"rendered":"O homem que n\u00e3o vendeu a alma em tempos de bajuladores: o exemplo de Thomas More"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<h2>I. Uma anedota e um conselho duro<\/h2>\n<p>H\u00e1 algum tempo, um jovem advogado mexicano me escreveu. Ele me cumprimentou com a familiaridade de algu\u00e9m que guarda uma lembran\u00e7a querida e confessou algo inesperado: de todas as nossas conversas, o que ele sempre lembrava era de um conselho direto que eu lhe dera havia algum tempo: &#8220;Que se dane a sua reputa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ele me garantiu que essa frase havia ficado gravada em sua cabe\u00e7a e continuava voltando \u00e0 sua mente. Essa anedota me veio \u00e0 mente quando refleti sobre os tempos em que vivemos e, especialmente, sobre a santidade de Thomas More.<\/p>\n<h2>II. A embriaguez dos aplausos contempor\u00e2neos<\/h2>\n<p>Vivemos embriagados pelos aplausos. Fazemos tudo o que est\u00e1 ao nosso alcance para deixar um legado, para sermos reconhecidos, para acumular credenciais e para evitar, a todo custo, o temido cancelamento social ou profissional.<\/p>\n<p>Passamos a vida construindo uma imagem p\u00fablica, escolhendo cuidadosamente nossas palavras para n\u00e3o ofender a maioria e garantir um lugar \u00e0 mesa dos &#8220;influentes&#8221;. Mas, todo dia 22 de junho, o calend\u00e1rio nos oferece um lembrete inc\u00f4modo que desafia essa obsess\u00e3o contempor\u00e2nea: o dia de S\u00e3o Thomas More.<\/p>\n<h2>III. O sucesso terreno de Thomas More<\/h2>\n<p>Se algu\u00e9m, na hist\u00f3ria, teve raz\u00f5es terrenas para se apegar ao seu prest\u00edgio e aos seus privil\u00e9gios, esse algu\u00e9m foi ele. Na Inglaterra do s\u00e9culo XVI, More tinha absolutamente tudo: era um humanista aclamado, um advogado brilhante, um diplomata, Lorde Chanceler e amigo \u00edntimo e conselheiro do rei Henrique VIII.<\/p>\n<p>Ele era, digamos, a personifica\u00e7\u00e3o do sucesso profissional, pol\u00edtico e social.<\/p>\n<h2>IV. Firmeza contra a corrente<\/h2>\n<p>Quando Henrique VIII exigiu ser reconhecido como Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra para se divorciar de Catarina de Arag\u00e3o, quase toda a elite cedeu. Cl\u00e9rigos, nobres e figuras de imenso poder se curvaram por conveni\u00eancia pol\u00edtica, por covardia ou, como sugeriram a More, por mera &#8220;camaradagem&#8221;.<\/p>\n<p>Mas More n\u00e3o se deixou influenciar. E veja bem: ele n\u00e3o era um impulsivo que, de repente, se opunha ao rei. Como bem observou o bispo Robert Barron, More era um homem experiente que, inicialmente, tentou usar todo o seu conhecimento da lei inglesa para manter sua integridade sem romper com o rei, sendo t\u00e3o &#8220;simples como uma pomba e t\u00e3o astuto como uma serpente&#8221;.<\/p>\n<p>Foi somente quando a situa\u00e7\u00e3o se tornou absoluta \u2014 &#8220;ou uma coisa ou outra&#8221; \u2014 que ele decidiu tomar uma posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>V. O peso e a verdade da consci\u00eancia<\/h2>\n<p>Ele se recusou a aceitar a convuls\u00e3o pol\u00edtica e religiosa e o div\u00f3rcio de Henrique VIII porque compreendia algo que hoje, tragicamente, esquecemos: que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um capricho pessoal. Ecoando as palavras do cardeal Newman, frequentemente recordadas pelo bispo Barron, a consci\u00eancia \u00e9 &#8220;o vig\u00e1rio primordial de Cristo na alma&#8221;, a pr\u00f3pria voz de Deus ressoando dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando os l\u00edderes abandonam essa consci\u00eancia em favor de seus cargos p\u00fablicos, conduzem seu pa\u00eds rapidamente ao caos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como alerta o bispo mencionado anteriormente, se nos esquecermos de que nosso pa\u00eds e nossa pol\u00edtica est\u00e3o sob a autoridade de Deus, a lei e a pol\u00edtica tornam-se egoc\u00eantricas e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, autojustificativas.<\/p>\n<h2>VI. O pre\u00e7o da fidelidade \u00e0 verdade<\/h2>\n<p>Diante da press\u00e3o de seus entes queridos para que cedesse, More respondeu ironicamente, questionando se, quando fosse para o inferno por violar sua consci\u00eancia, esses colegas o acompanhariam por pura &#8220;camaradagem&#8221;.<\/p>\n<p>Thomas More n\u00e3o se importou em ver sua fama reduzida a cinzas. Ele foi destitu\u00eddo do cargo, perdeu seu dinheiro e foi preso em uma cela gelada e miser\u00e1vel na Torre de Londres, onde passava os invernos contemplando o rio atrav\u00e9s de estreitas grades.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um julgamento em Westminster Hall, repleto de artimanhas, manipula\u00e7\u00e3o do j\u00fari e manobras legais desleais, foi condenado \u00e0 morte.<\/p>\n<h2>VII. Santidade e bom humor<\/h2>\n<p>Mas o que mais fascina nesse homem \u00e9 que sua imensa santidade jamais foi r\u00edgida ou amarga. Santa Teresa de \u00c1vila orou a Deus para que a livrasse dos &#8220;santos amargos&#8221; e, fiel a esse esp\u00edrito, More manteve seu brilhante senso de humor at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>No pr\u00f3prio cadafalso, prestes a ser decapitado, ele brincou com seu carrasco, pedindo-lhe que afastasse a barba para que o machado n\u00e3o a cortasse, j\u00e1 que, segundo ele, ela n\u00e3o havia sido acusada de nenhuma trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>VIII. Crentes na sociedade pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Hoje, quando um secularismo ideol\u00f3gico agressivo tenta expulsar a f\u00e9 da esfera p\u00fablica, tratando-a como se fosse um mero passatempo privado, um &#8220;hobby&#8221; de trabalho social, a figura de More nos lembra que os crentes devem ser, na sociedade pol\u00edtica, o que a alma \u00e9 para o corpo: sua for\u00e7a animadora e moral.<\/p>\n<p>Como aponta a Carta a Diogneto (s\u00e9culo II d.C.):<\/p>\n<p><em>&#8220;[Os crist\u00e3os] vivem em cidades gregas e b\u00e1rbaras [\u2026] exibem um modo de vida admir\u00e1vel e, na opini\u00e3o de todos, incr\u00edvel. Habitam em sua pr\u00f3pria terra, mas como estrangeiros; [\u2026] Vivem na terra, mas sua cidadania \u00e9 celestial. Obedecem \u00e0s leis estabelecidas e, por seu modo de vida, transcendem essas leis. [\u2026] Sofrem desonra, e isso lhes serve de gl\u00f3ria; sofrem danos \u00e0 sua reputa\u00e7\u00e3o, e isso testemunha sua retid\u00e3o. [\u2026] Simplificando: os crist\u00e3os s\u00e3o para o mundo o que a alma \u00e9 para o corpo. [\u2026] A alma est\u00e1 encerrada no corpo, mas \u00e9 a alma que mant\u00e9m o corpo unido; da mesma forma, os crist\u00e3os est\u00e3o presos no mundo como em uma pris\u00e3o, mas s\u00e3o eles que mant\u00eam a coes\u00e3o do mundo.&#8221;<\/em><\/p>\n<h2>IX. Apresente-se para o p\u00fablico certo<\/h2>\n<p>No \u00faltimo dia 22 de junho, quando celebramos sua santidade, suas \u00faltimas palavras continuam a ressoar em todos n\u00f3s: &#8220;Morro como um bom servo do rei, mas, antes de tudo, de Deus.&#8221;<\/p>\n<blockquote>\n<p>De que adianta a fama se, no fim das contas, voc\u00ea perde a pr\u00f3pria alma?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O bispo Barron costuma ilustrar esse conflito relembrando uma cena magistral do filme <em>Um Homem para Todas as Esta\u00e7\u00f5es<\/em>. Nela, um jovem Richard Rich, consumido pela ambi\u00e7\u00e3o e pela ansiedade de status, pergunta a More, frustrado, qual o sentido de se dedicar ao ensino: &#8220;Se eu fosse um bom professor, quem saberia?&#8221;. A resposta de More \u00e9 uma cr\u00edtica direta ao cerne da nossa cultura de ostenta\u00e7\u00e3o: &#8220;Voc\u00ea mesmo. Seus amigos. Seus alunos. Deus. N\u00e3o \u00e9 um p\u00fablico ruim.&#8221;<\/p>\n<p>O bispo acerta em cheio quando nos lembra que a nossa grande trag\u00e9dia, hoje, \u00e9 exatamente a mesma de Rich: viver representando para a plateia e para o p\u00fablico mundial, implorando por aplausos passageiros.<\/p>\n<h2>X. O valor da integridade e da lealdade<\/h2>\n<p>Em suma, num mundo cheio de bajuladores que mudam de lado e de partido a cada sopro de vento, S\u00e3o Thomas More nos convida a sacrificar tudo \u2014 trabalho, reputa\u00e7\u00e3o, status e at\u00e9 mesmo a vida \u2014 em vez de trair a verdade. Literalmente tudo, como Nosso Senhor exige dos jovens (e nem t\u00e3o jovens) ricos, entre os quais, \u00e9 claro, me incluo.<\/p>\n<p>Seu legado nos mostra que a fama humana \u00e9 passageira, constru\u00edda sobre alicerces inst\u00e1veis, e que \u00e9 melhor conhecer e amar a Deus do que ser &#8220;conhecido&#8221; e que a verdadeira grandeza reside em ter a coragem de mandar a fama &#8220;para o inferno&#8221; quando o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria integridade e a fidelidade ao Evangelho.<\/p>\n<p><em><strong>Javier Mena Mauricio<\/strong> \u00e9 advogado da Corpora\u00e7\u00e3o Comunidad y Justicia, em Santiago, no Chile.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/06\/22\/tomas-moro-el-buen-siervo-en-tiempos-de-aduladores\/\">Tom\u00e1s Moro: el buen siervo en tiempos de aduladores.<\/a><\/strong><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I. Uma anedota e um conselho duro H\u00e1 algum tempo, um jovem advogado mexicano me escreveu. 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