{"id":525332,"date":"2026-07-01T05:00:00","date_gmt":"2026-07-01T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=525332"},"modified":"2026-07-01T05:00:00","modified_gmt":"2026-07-01T09:00:00","slug":"como-as-atividades-manuais-podem-ajudar-a-superar-a-ansiedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=525332","title":{"rendered":"Como as atividades manuais podem ajudar a superar a ansiedade"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\">\n<div class=\"postMainImage_post-main-image-info__AaDnR\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/30162705\/trabalhos-manuais.jpg.webp\" \/><span>A experi\u00eancia manual exige perman\u00eancia. O pensamento deixa de circular apenas em hip\u00f3teses abstratas e passa a acompanhar um movimento concreto. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span><\/div>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Durante muito tempo, aprendemos a tratar descanso como improdutividade e sil\u00eancio como aus\u00eancia de movimento. A l\u00f3gica contempor\u00e2nea transformou velocidade em valor moral. Quem responde r\u00e1pido parece mais eficiente. Quem produz sem pausa parece mais admirado. Quem permanece ocupado o tempo inteiro passa a acreditar que est\u00e1 vivendo de forma correta. No meio disso, muitas pessoas deixaram de perceber o pr\u00f3prio corpo, a pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o pr\u00f3prio pensamento.<\/p>\n<p>Tenho observado um fen\u00f4meno curioso nos \u00faltimos anos. Pessoas que antes buscavam apenas solu\u00e7\u00f5es imediatas para a ansiedade come\u00e7aram a procurar experi\u00eancias manuais. Algumas voltaram a desenhar. Outras passaram a bordar, pintar, costurar, modelar argila ou montar quebra-cabe\u00e7as. \u00c0 primeira vista, pode parecer apenas um hobby. Mas existe algo mais profundo acontecendo nesse retorno.<\/p>\n<p>A ansiedade possui rela\u00e7\u00e3o direta com a antecipa\u00e7\u00e3o. A mente ansiosa tenta prever cen\u00e1rios, controlar possibilidades e evitar riscos futuros. Ela abandona o presente para tentar organizar aquilo que ainda n\u00e3o aconteceu. O problema \u00e9 que o corpo n\u00e3o consegue sustentar esse funcionamento continuamente sem entrar em estado de exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m costura, desenha ou pinta, existe uma mudan\u00e7a importante. A experi\u00eancia manual exige perman\u00eancia. O pensamento deixa de circular apenas em hip\u00f3teses abstratas e passa a acompanhar um movimento concreto. A m\u00e3o precisa seguir um ritmo. O olhar precisa observar detalhes. A aten\u00e7\u00e3o deixa de ser sequestrada por dezenas de est\u00edmulos simult\u00e2neos.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>Nossas m\u00e3os talvez carreguem uma intelig\u00eancia emocional que esquecemos de escutar. Durante anos, ensinamos o corpo a apenas produzir, digitar e acelerar. Agora, muitas pessoas come\u00e7am a perceber que existe algo profundamente humano em criar sem urg\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Existe um aspecto que considero central nessa discuss\u00e3o. Atividades manuais devolvem percep\u00e7\u00e3o de tempo. O universo digital fragmentou nossa rela\u00e7\u00e3o com a continuidade. Quase tudo hoje acontece de maneira instant\u00e2nea. Rolamos telas sem pausa. Consumimos imagens sem perman\u00eancia. Interrompemos conversas para responder notifica\u00e7\u00f5es. O c\u00e9rebro passou a operar em estado de dispers\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p>O trabalho manual produz outra l\u00f3gica. Existe come\u00e7o, meio e fim. Existe constru\u00e7\u00e3o gradual. Existe espera. Existe erro. Existe repeti\u00e7\u00e3o. E talvez seja exatamente isso que tantas pessoas estejam procurando sem perceber. N\u00e3o apenas distra\u00e7\u00e3o, mas uma experi\u00eancia emocional que reorganize o ritmo interno.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe algo importante na rela\u00e7\u00e3o entre cria\u00e7\u00e3o manual e emo\u00e7\u00e3o. Nem todo sofrimento consegue ser traduzido racionalmente. Algumas experi\u00eancias internas ainda n\u00e3o possuem linguagem. Em muitos casos, o corpo encontra caminhos antes da consci\u00eancia. A arte manual permite acessar conte\u00fados que permanecem dif\u00edceis de explicar verbalmente.<\/p>\n<p>Vejo isso com frequ\u00eancia cl\u00ednica. Pessoas que chegam extremamente aceleradas come\u00e7am a relatar mudan\u00e7as sutis depois de incorporar pr\u00e1ticas simples no cotidiano. N\u00e3o porque bordar elimine a ansiedade ou porque desenhar resolva a depress\u00e3o. N\u00e3o se trata de romantizar o sofrimento ps\u00edquico. O que acontece \u00e9 outra coisa. Essas experi\u00eancias criam pausas cognitivas. Elas interrompem o excesso de est\u00edmulo. Elas reduzem a hiperatividade mental por alguns instantes.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que muitas dessas pr\u00e1ticas acontecem coletivamente. Oficinas de cer\u00e2mica, encontros de pintura ou grupos de bordado criam formas de conviv\u00eancia menos mediadas por performance. As pessoas voltam a ocupar espa\u00e7os presenciais sem precisar transformar tudo em produtividade ou exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe uma solid\u00e3o silenciosa atravessando a vida contempor\u00e2nea. Muitas pessoas passam o dia inteiro conectadas e, ainda assim, emocionalmente isoladas. O encontro manual cria uma experi\u00eancia diferente porque desacelera a compara\u00e7\u00e3o. Enquanto as m\u00e3os trabalham, a necessidade de parecer impec\u00e1vel perde for\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez por isso tanta gente esteja retornando a atividades que antes eram vistas como secund\u00e1rias. Existe uma tentativa coletiva de recuperar contato com presen\u00e7a, ritmo e percep\u00e7\u00e3o sensorial. N\u00e3o como fuga da realidade, mas como possibilidade de permanecer nela sem adoecer.<\/p>\n<p>Pensei muito nisso ao observar a proposta da Bienal de Veneza para 2026. Em uma exposi\u00e7\u00e3o de escala internacional, surgem espa\u00e7os concebidos para descanso e instala\u00e7\u00f5es que convidam o visitante a pausar, respirar, escutar e permanecer diante da obra. Isso me parece um sinal importante do nosso tempo. Quando at\u00e9 a arte, frequentemente atravessada pela urg\u00eancia de ver, circular e interpretar, come\u00e7a a criar espa\u00e7os para repouso, estamos diante de uma linguagem cultural que reconhece o esgotamento contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Talvez a pausa tenha deixado de ser apenas uma necessidade \u00edntima e tenha se tornado uma quest\u00e3o coletiva. Permanecer diante de uma obra, permitir que um som, uma imagem, um cheiro ou uma repeti\u00e7\u00e3o corporal nos atravesse, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de recuperar presen\u00e7a. O mesmo acontece quando algu\u00e9m borda, pinta, desenha ou costura. A m\u00e3o desacelera aquilo que a mente tentou acelerar demais.<\/p>\n<p>Nossas m\u00e3os talvez carreguem uma intelig\u00eancia emocional que esquecemos de escutar. Durante anos, ensinamos o corpo a apenas produzir, digitar e acelerar. Agora, muitas pessoas come\u00e7am a perceber que existe algo profundamente humano em criar sem urg\u00eancia. Talvez o que esteja faltando n\u00e3o seja apenas descanso. Talvez seja v\u00ednculo com aquilo que ainda consegue nos manter presentes.<\/p>\n<p><em><strong>Maria Klien<\/strong> \u00e9 psic\u00f3loga<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A experi\u00eancia manual exige perman\u00eancia. 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