{"id":523801,"date":"2026-06-30T14:04:21","date_gmt":"2026-06-30T18:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=523801"},"modified":"2026-06-30T14:04:21","modified_gmt":"2026-06-30T18:04:21","slug":"mae-atleta-e-campea-sao-todos-lados-de-uma-mesma-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=523801","title":{"rendered":"M\u00e3e, atleta e campe\u00e3 s\u00e3o todos lados de uma mesma moeda"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Fui patinadora art\u00edstica ol\u00edmpica, e por isso acompanhei os Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno com grande interesse em fevereiro. Ao longo de duas semanas e meia, assisti e admirei as apresenta\u00e7\u00f5es dos atletas, mas tamb\u00e9m percebi os temas mais amplos que surgiram com as hist\u00f3rias contadas pelos atletas, e sobre eles, que ganharam destaque na m\u00eddia e capturaram o interesse do p\u00fablico. Dois desses temas, em particular, chamaram minha aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro foi a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/maternidade\/\">maternidade<\/a>. Embora antes fosse quase impens\u00e1vel que mulheres continuassem competindo em alto n\u00edvel ap\u00f3s terem <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filhos\/\">filhos<\/a>, estes Jogos Ol\u00edmpicos inclu\u00edram um n\u00famero surpreendente de m\u00e3es ol\u00edmpicas. Fiquei especialmente impressionada com a cobertura positiva e viral de duas m\u00e3es: a italiana Francesca Lollobrigida e a americana Elana Meyers Taylor, que conquistaram medalhas de ouro com seus filhos pequenos presentes nas arquibancadas. A mensagem era de empoderamento: mulheres podem se destacar tanto como atletas quanto como m\u00e3es!<\/p>\n<p>O outro tema contava uma hist\u00f3ria completamente diferente: era a hist\u00f3ria de como o mundo esportivo frequentemente encara a capacidade das atletas de se tornarem m\u00e3es como algo a ser temido, reprimido ou at\u00e9 mesmo violado. Esse tema geralmente permanece oculto, invis\u00edvel e n\u00e3o verbalizado, e imagino que para muitos espectadores estes Jogos Ol\u00edmpicos n\u00e3o tenham sido diferentes. Para mim, por\u00e9m, ele surgiu com for\u00e7a por causa da controv\u00e9rsia envolvendo a dupla francesa de dan\u00e7a no gelo formada por Laurence Fournier-Beaudry e Guillaume Cizeron.<\/p>\n<p>A ex-parceira de dan\u00e7a de Cizeron, Gabriella Papadakis, havia lan\u00e7ado uma autobiografia bomb\u00e1stica pouco antes dos Jogos. Entre outras revela\u00e7\u00f5es perturbadoras, Papadakis escreveu que, antes do Campeonato Mundial de 2019, engravidou inesperadamente e procurou realizar um <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/aborto\/\">aborto<\/a>. Devido ao efeito retardado do medicamento abortivo que tomou, ela participou da apresenta\u00e7\u00e3o de gala do Campeonato Mundial ainda sangrando, e passou por um intenso sofrimento emocional, recebendo pouco apoio de sua equipe. Ao conhecer a hist\u00f3ria de Papadakis, tomei consci\u00eancia de que muitas atletas ol\u00edmpicas provavelmente haviam sacrificado (ou sido pressionadas a sacrificar) sua capacidade de gerar uma nova vida \u2013 e, por vezes, sacrificar at\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria vida em gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os belos exemplos de maternidade ol\u00edmpica vistos em fevereiro foram um lembrete de que a capacidade de gerar filhos n\u00e3o \u00e9 intrinsecamente incompat\u00edvel com o sucesso esportivo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O desfecho tr\u00e1gico da hist\u00f3ria de Papadakis contrastava fortemente com as m\u00e3es ol\u00edmpicas festejadas nas redes sociais e na televis\u00e3o. Poder\u00edamos concluir simplesmente que isso revela a hipocrisia do mundo esportivo, e encerrar a discuss\u00e3o por ali mesmo. No entanto, acredito que uma an\u00e1lise mais cuidadosa desses dois temas n\u00e3o apenas ajuda a iluminar os desafios enfrentados pelas mulheres no esporte, mas tamb\u00e9m nos ajuda a construir uma vis\u00e3o mais completa das capacidades femininas. Embora exista uma tens\u00e3o entre a fertilidade feminina e o esporte de alto rendimento, os belos exemplos de maternidade ol\u00edmpica vistos em fevereiro foram um lembrete de que a capacidade de gerar filhos n\u00e3o \u00e9 intrinsecamente incompat\u00edvel com o sucesso esportivo. Por uma quest\u00e3o de justi\u00e7a, o mundo esportivo precisa aprender a acomodar e celebrar a fertilidade natural das mulheres. Ao mesmo tempo, ver mulheres se destacando nos mais altos n\u00edveis do esporte \u00e9 um poderoso ant\u00eddoto contra a antiga tend\u00eancia de reduzir as mulheres \u00e0 sua capacidade reprodutiva, ajudando nossa cultura a apreciar melhor as muitas facetas da excel\u00eancia feminina.<\/p>\n<h2>Esporte versus o corpo feminino<\/h2>\n<p>Alguns podem ouvir a hist\u00f3ria de gravidez e aborto de Papadakis e presumir que se trata de um caso isolado. Mas sua experi\u00eancia aponta para um problema profundamente enraizado na cultura do esporte de elite: a rejei\u00e7\u00e3o do corpo feminino e, em particular, da fertilidade feminina. A manifesta\u00e7\u00e3o mais extrema e evidente desse problema \u00e9 o aborto. Ainda assim, \u00e9 imposs\u00edvel saber com certeza o qu\u00e3o comum ele \u00e9 entre atletas de elite. As evid\u00eancias s\u00e3o, em grande parte, aned\u00f3ticas: atletas e treinadores preocupados com regulamenta\u00e7\u00f5es sobre aborto; depoimentos de atletas que recorreram ao procedimento; rumores sobre uma epidemia de abortos entre competidoras de atletismo que acreditam n\u00e3o poder engravidar; e um memorial jur\u00eddico apresentado no caso <em>Dobbs v. Jackson Women\u2019s Health Organization<\/em> [em que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a decis\u00e3o <em>Roe v. Wade<\/em>, que garantia o acesso ao aborto em todo o pa\u00eds], assinado por 500 atletas mulheres de elite, alegando que o sucesso do esporte feminino depende do acesso ao aborto. O que une essas hist\u00f3rias \u00e9 a narrativa de que gravidez e sucesso esportivo s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio chegar ao tema do aborto para perceber que a cultura esportiva frequentemente \u00e9 hostil \u00e0 fertilidade feminina. Considere, por exemplo, a preval\u00eancia da amenorreia (aus\u00eancia de menstrua\u00e7\u00e3o) entre atletas mulheres. Em minha experi\u00eancia como patinadora art\u00edstica, atletas e treinadores frequentemente demonstravam pouca preocupa\u00e7\u00e3o com irregularidades menstruais e desconheciam as consequ\u00eancias de longo prazo dessas condi\u00e7\u00f5es para a sa\u00fade. A amenorreia em atletas jovens costuma ser diagnosticada como um dos componentes da chamada \u201ctr\u00edade da atleta feminina\u201d: outro componente \u00e9 a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, frequentemente associada a transtornos alimentares.<\/p>\n<p>Muitos esportes t\u00eam expectativas r\u00edgidas quanto ao tipo f\u00edsico ideal do atleta, e a press\u00e3o para atender a esse padr\u00e3o (que muitas vezes \u00e9 irreal) pode levar \u00e0 m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o. Embora homens tamb\u00e9m enfrentem press\u00f5es semelhantes em algumas modalidades, chama aten\u00e7\u00e3o a frequ\u00eancia com que as exig\u00eancias impostas \u00e0s atletas mulheres atingem diretamente caracter\u00edsticas f\u00edsicas relacionadas \u00e0 fertilidade. Na minha modalidade, a dan\u00e7a no gelo, por exemplo, a expectativa era ser o mais magra poss\u00edvel. A dan\u00e7arina ideal era alta e esguia, com pouca gordura corporal e poucas curvas. Os quadris mais largos, a maior porcentagem de gordura e as formas mais arredondadas t\u00edpicas do corpo feminino \u2013 caracter\u00edsticas intimamente ligadas \u00e0 capacidade de gerar filhos \u2013 eram justamente consideradas indesej\u00e1veis pelo esporte. Embora eu mesma nunca tenha desenvolvido um transtorno alimentar, enfrentei dificuldades para manter uma nutri\u00e7\u00e3o adequada devido a essas press\u00f5es. Felizmente, eu estava cercada por familiares e m\u00e9dicos que priorizavam meu bem-estar geral e garantiram que eu mantivesse minha sa\u00fade enquanto continuava treinando e competindo em alto n\u00edvel. Infelizmente, essa n\u00e3o \u00e9 a realidade de muitas atletas.<\/p>\n<p>O fator comum entre todos esses exemplos talvez seja melhor resumido pelas pr\u00f3prias palavras de Papadakis. Descrevendo suas l\u00e1grimas durante a viagem para casa ap\u00f3s o aborto, ela escreveu: \u201cTratei meu corpo como uma m\u00e1quina, envergonhada por ter tra\u00eddo minha equipe ao inadvertidamente concordar em me tornar humana, e ent\u00e3o a press\u00e3o me atingiu\u201d. O mundo dos esportes tende a tratar o corpo como uma m\u00e1quina, e n\u00e3o como parte integrante de uma pessoa humana. Para atletas de elite, tudo \u2013 carreira, finan\u00e7as, educa\u00e7\u00e3o \u2013 depende do desempenho f\u00edsico. Isso vale tanto para homens quanto para mulheres, mas os homens conseguem se aproximar mais facilmente do ideal da \u201cm\u00e1quina\u201d, porque seus corpos s\u00e3o orientados para gerar vida fora de si mesmos. J\u00e1 a estrutura f\u00edsica feminina (orientada para a gesta\u00e7\u00e3o) e suas constantes flutua\u00e7\u00f5es hormonais s\u00e3o vistas como inconvenientes que o esporte tenta suprimir para encaix\u00e1-las no molde de uma m\u00e1quina. A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/gravidez\/\">gravidez <\/a>\u00e9 o lembrete definitivo de que o corpo feminino n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina. Quando uma atleta engravida, torna-se subitamente evidente que o sucesso esportivo n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico prop\u00f3sito do corpo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/22141917\/elana-meyers-taylor.jpg.webp\" \/><i>Elana Meyers Taylor, m\u00e3e de duas crian\u00e7as, conquistou o ouro no monobob nos Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno de 2026. Foi a sexta medalha ol\u00edmpica de sua carreira. (Foto: Andrea Solero\/EFE\/EPA)<\/i><\/p>\n<h2>Cr\u00edticas de ambos os lados<\/h2>\n<p>Para ser justa, a hostilidade do mundo esportivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fertilidade tem um fundo de verdade: \u00e9 imposs\u00edvel \u2013 ou no m\u00ednimo inseguro \u2013 competir nos n\u00edveis mais altos do esporte enquanto se est\u00e1 em est\u00e1gio avan\u00e7ado de gravidez. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que muitas das diferen\u00e7as biol\u00f3gicas entre homens e mulheres que contribuem para n\u00edveis geralmente mais baixos de for\u00e7a, velocidade e resist\u00eancia nas mulheres (como menores n\u00edveis de testosterona e maior percentual de gordura corporal) est\u00e3o intimamente ligadas \u00e0 fertilidade feminina. Nesse sentido, a fertilidade feminina est\u00e1, de fato, em tens\u00e3o com as exig\u00eancias do esporte de alto rendimento, e vivemos em uma cultura na qual pessoas de ambos os lados do espectro pol\u00edtico se sentem profundamente desconfort\u00e1veis com essa tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos setores da esquerda respondem negando a diferen\u00e7a sexual nos esportes. Ignorando as diferen\u00e7as f\u00edsicas femininas \u2013 amplamente enraizadas na capacidade de carregar e dar \u00e0 luz uma nova vida \u2013, defendem a inclus\u00e3o de homens biol\u00f3gicos nos esportes femininos. Quando s\u00e3o obrigados a confrontar a realidade da diferen\u00e7a sexual por causa da capacidade das atletas de engravidar, simplesmente prop\u00f5em contracep\u00e7\u00e3o e aborto como solu\u00e7\u00f5es. Para aqueles de n\u00f3s que veem a diferen\u00e7a sexual como uma realidade evidente, a maternidade como um bem e cada vida humana como sagrada, essas solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o claramente inaceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Embora muitos conservadores tenham corretamente concentrado seus esfor\u00e7os em se opor \u00e0s tentativas de negar as diferen\u00e7as sexuais nos esportes, existe tamb\u00e9m uma corrente de pensamento conservadora que responde \u00e0 tens\u00e3o entre fertilidade e esporte diminuindo a import\u00e2ncia das capacidades e oportunidades atl\u00e9ticas das mulheres. Muitas vezes isso acontece de forma impl\u00edcita \u2013 afinal, onde exatamente uma atleta ol\u00edmpica de 30 anos se encaixaria no ideal da \u201c<em>tradwife<\/em>\u201d (esposa tradicional)? \u2013, mas \u00e0s vezes aparece explicitamente em alega\u00e7\u00f5es de que os esportes s\u00e3o intrinsecamente pouco femininos ou incompat\u00edveis com a maternidade.<\/p>\n<p>Apesar das preocupa\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas sobre a corrup\u00e7\u00e3o da cultura esportiva de elite e sua hostilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fertilidade feminina natural, declarar que os esportes s\u00e3o inadequados ou proibidos para as mulheres \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o exagerada e infeliz. N\u00e3o existe raz\u00e3o cient\u00edfica ou pr\u00e1tica para que as mulheres n\u00e3o possam praticar esportes no mais alto n\u00edvel, respeitando ao mesmo tempo a estrutura natural de seus corpos e sua fertilidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A estrutura f\u00edsica feminina (orientada para a gesta\u00e7\u00e3o) e suas constantes flutua\u00e7\u00f5es hormonais s\u00e3o vistas como inconvenientes que o esporte tenta suprimir para encaix\u00e1-las no molde de uma m\u00e1quina<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Alguns temem que altos n\u00edveis de exerc\u00edcio inevitavelmente prejudiquem a fertilidade e a sa\u00fade geral das mulheres, mas a ci\u00eancia n\u00e3o confirma essa preocupa\u00e7\u00e3o. Como Hannah Rowan relatou recentemente em um ensaio para a revista <em>The Lamp<\/em>, Jerilynn Prior conduziu um estudo com mulheres que desejavam treinar para maratonas sem prejudicar seus ciclos menstruais. Ela descobriu que o problema n\u00e3o era o exerc\u00edcio em si, mas a nutri\u00e7\u00e3o inadequada.<\/p>\n<p>Da mesma forma, algumas pessoas observam o maior risco de determinadas les\u00f5es entre atletas mulheres e concluem que isso \u00e9 uma caracter\u00edstica inevit\u00e1vel dos esportes femininos. Essa conclus\u00e3o parte do pressuposto de que os esportes, da forma como s\u00e3o praticados atualmente, representam um padr\u00e3o imut\u00e1vel ao qual os corpos femininos devem se adaptar, ou fracassar. Recentemente, por exemplo, muita aten\u00e7\u00e3o foi dada \u00e0 epidemia de rupturas do ligamento cruzado anterior (LCA) entre atletas jovens. As meninas s\u00e3o mais propensas a essa les\u00e3o do que os meninos devido a v\u00e1rios fatores, incluindo quadris mais largos e horm\u00f4nios relacionados ao ciclo menstrual, fatores f\u00edsicos claramente ligados \u00e0 fertilidade feminina. No entanto, existem fortes evid\u00eancias de que exerc\u00edcios preventivos eliminam em grande parte esse problema. As taxas alarmantes de les\u00e3o decorrem da ignor\u00e2ncia ou neglig\u00eancia na implementa\u00e7\u00e3o desses exerc\u00edcios.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 que os corpos f\u00e9rteis e saud\u00e1veis das mulheres sejam inadequados para os esportes. O problema \u00e9 que poucas pessoas est\u00e3o dispostas a dedicar tempo para ouvir o que os corpos femininos precisam e ajustar os m\u00e9todos de treinamento.<\/p>\n<h2>E a maternidade?<\/h2>\n<p>Mas e a maternidade? Maternidade e esporte de elite s\u00e3o fundamentalmente incompat\u00edveis, como conclu\u00edram alguns cr\u00edticos tanto da direita quanto da esquerda? A resposta \u00e9 um enf\u00e1tico \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Talvez antigamente parecesse que o \u00fanico caminho para atletas que desejavam se tornar m\u00e3es era se aposentar jovens e s\u00f3 ent\u00e3o ter filhos. No entanto, o n\u00famero crescente de atletas de elite que deram \u00e0 luz e retornaram \u00e0s suas modalidades deixou claro que sucesso esportivo e maternidade podem caminhar juntos. Nos Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno de 2026, havia nove m\u00e3es somente na equipe dos Estados Unidos, e um n\u00famero recorde de medalhistas ol\u00edmpicas retornou a esses Jogos j\u00e1 como m\u00e3es.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno tamb\u00e9m n\u00e3o se limita aos esportes de inverno. Allyson Felix, uma das maiores atletas de atletismo de todos os tempos, \u00e9 amplamente conhecida por ter continuado sua carreira ap\u00f3s se tornar m\u00e3e e por defender os direitos maternos no esporte. Serena Williams venceu o Aberto da Austr\u00e1lia no in\u00edcio de sua primeira gravidez e retornou ao mais alto n\u00edvel do t\u00eanis ap\u00f3s dar \u00e0 luz; depois de quatro anos aposentada, ela anunciou recentemente que retornar\u00e1 novamente \u00e0s competi\u00e7\u00f5es. E a lista n\u00e3o termina por a\u00ed.<\/p>\n<p>Para deixar claro, n\u00e3o estou dizendo que toda atleta pode ou deve ter filhos durante sua carreira esportiva. A sequ\u00eancia \u201cesporte primeiro, maternidade depois\u201d \u00e9 um caminho perfeitamente vi\u00e1vel e talvez at\u00e9 o melhor para muitas mulheres nessa situa\u00e7\u00e3o \u2013 embora ter filhos n\u00e3o tenha sido a raz\u00e3o pela qual me afastei da patina\u00e7\u00e3o competitiva aos 22 anos, essa sequ\u00eancia funcionou muito bem para mim. No entanto, as m\u00e3es atletas dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2026 (e n\u00e3o s\u00f3 desses Jogos) nos mostraram que, embora exista uma tens\u00e3o entre esporte de elite e maternidade, \u00e9 absurdo afirmar que as \u00fanicas solu\u00e7\u00f5es para essa tens\u00e3o sejam a contracep\u00e7\u00e3o e o aborto, ou a limita\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o feminina nos esportes.<\/p>\n<h2>O caminho a seguir<\/h2>\n<p>A cultura esportiva precisa fazer um trabalho melhor ao afirmar a bondade do corpo feminino e da fertilidade feminina. A frequ\u00eancia de doen\u00e7as, les\u00f5es e at\u00e9 abortos entre atletas mulheres aponta para uma cultura que v\u00ea o corpo humano como uma m\u00e1quina, e n\u00e3o como um componente integral da pessoa humana. Ao mesmo tempo, a cultura em geral precisa ajustar sua vis\u00e3o sobre mulheres e esportes para acomodar tanto a fertilidade feminina quanto a extraordin\u00e1ria capacidade das mulheres para a excel\u00eancia atl\u00e9tica. Nem todas as atletas se tornar\u00e3o m\u00e3es durante suas carreiras esportivas. Mas aquelas que o fazem s\u00e3o lembretes poderosos de que, por uma quest\u00e3o de justi\u00e7a, precisamos respeitar <em>tanto<\/em> a fertilidade feminina <em>quanto<\/em> a capacidade das mulheres para a excel\u00eancia esportiva. Por meio de seu testemunho e de sua atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica, essas m\u00e3es atletas j\u00e1 est\u00e3o ajudando a reconstruir o esporte feminino em torno das necessidades reais das mulheres.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o acredito que essa seja apenas uma quest\u00e3o de justi\u00e7a. Essas atletas-m\u00e3es nos desafiam a ir al\u00e9m e mudar a forma como pensamos sobre excel\u00eancia f\u00edsica e sobre aquilo de que as mulheres s\u00e3o capazes. As narrativas dominantes de nossa cultura frequentemente for\u00e7am as mulheres a se encaixarem em categorias estanques. O feminismo predominante, embora corretamente rejeite a antiga tend\u00eancia de reduzir as mulheres \u00e0 sua capacidade reprodutiva, tamb\u00e9m rejeitou a bondade da fertilidade feminina natural e colocou maternidade e sucesso em oposi\u00e7\u00e3o uma \u00e0 outra. Ao mesmo tempo, narrativas populares antifeministas tendem a exaltar a fertilidade feminina de tal forma que acabam ignorando a capacidade das mulheres para outros tipos de excel\u00eancia. A pr\u00f3pria exist\u00eancia de m\u00e3es atletas nos mais altos n\u00edveis do esporte nos obriga a reconsiderar essas narrativas e reconhecer uma verdade muito diferente: a maternidade e a excel\u00eancia f\u00edsica s\u00e3o, na verdade, duas faces da mesma moeda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/22141521\/allyson-felix.jpg.webp\" \/><i>Allyson Felix tem 11 medalhas ol\u00edmpicas (7 de ouro), duas delas conquistadas depois de ter dado \u00e0 luz. (Foto: Wu Hong\/EFE\/EPA)<\/i><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma verdade na qual passei a acreditar por meio da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia como atleta de elite e m\u00e3e. Levei tempo para enxergar isso. Nos primeiros anos da maternidade, as mudan\u00e7as f\u00edsicas provocadas pela gravidez e pelo p\u00f3s-parto pareciam o oposto de tudo aquilo para o qual eu havia treinado meu corpo como atleta. Mas agora, seis anos ap\u00f3s me tornar m\u00e3e, j\u00e1 n\u00e3o vejo a maternidade como um afastamento da minha carreira esportiva, mas como uma continua\u00e7\u00e3o dela. O trabalho da gravidez, do parto e da cria\u00e7\u00e3o dos filhos exige muito fisicamente, e a capacidade do corpo feminino de gerar e sustentar uma nova vida \u00e9 t\u00e3o magn\u00edfica quanto qualquer desempenho digno de medalha de ouro. Vi que o corpo de uma m\u00e3e \u2013 durante a gravidez, no p\u00f3s-parto ou enquanto cria seus filhos \u2013 tem uma forma de excel\u00eancia f\u00edsica, at\u00e9 mesmo uma esp\u00e9cie de atleticismo. Mesmo quando uma mulher n\u00e3o est\u00e1 gr\u00e1vida ou nunca esteve, seu corpo aponta constantemente para essa verdade, preparando-se para uma nova vida a cada ciclo menstrual, sempre \u201cem treinamento\u201d para as exig\u00eancias f\u00edsicas da maternidade.<\/p>\n<p>A maioria das mulheres n\u00e3o tem a oportunidade de aprender isso por experi\u00eancia pr\u00f3pria, como eu aprendi. \u00c9 por isso que acredito que o testemunho das m\u00e3es atletas \u00e9 t\u00e3o poderoso: elas desafiam as pessoas a perceberem que a mesma mulher, o mesmo corpo, \u00e9 capaz de dois tipos diferentes, mas igualmente exigentes, de excel\u00eancia f\u00edsica. Muito pode ser dito contra a ideia de que as mulheres n\u00e3o t\u00eam excel\u00eancia atl\u00e9tica ou de que sua fertilidade \u00e9 um obst\u00e1culo ao sucesso esportivo, mas o argumento mais poderoso \u00e9 simplesmente ver mulheres como Francesca Lollobrigida e Elana Meyers Taylor realizarem feitos impressionantes de for\u00e7a e agilidade e, logo depois, abra\u00e7arem seus filhos pequenos.<\/p>\n<p>Essa verdade nos permite construir uma vis\u00e3o mais ampla e mais realista da excel\u00eancia f\u00edsica feminina, mas ela tamb\u00e9m aponta para uma verdade ainda mais profunda. Volto repetidamente ao lamento comovente de Papadakis de que ela havia \u201cinadvertidamente concordado em se tornar humana\u201d. Suas palavras me lembram a pergunta ret\u00f3rica da escritora Dorothy Sayers: \u201cAs mulheres s\u00e3o humanas?\u201d Tantas vozes em nossa cultura nos dizem que a resposta \u00e9 n\u00e3o, mas as m\u00e3es atletas de elite oferecem um sonoro \u201csim\u201d a essa pergunta. Quase sem exce\u00e7\u00e3o, essas mulheres falam das mudan\u00e7as positivas que a maternidade trouxe para suas motiva\u00e7\u00f5es e para seu desempenho esportivo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A cultura esportiva precisa fazer um trabalho melhor ao afirmar a bondade do corpo feminino e da fertilidade feminina<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao anunciar sua tentativa de retorno para os Jogos Ol\u00edmpicos de Los Angeles, em 2028, Allyson Felix lan\u00e7ou um site explicando sua motiva\u00e7\u00e3o: \u201cE se a maternidade fizer voc\u00ea ser mais, e n\u00e3o menos?\u201d Francesca Lollobrigida falou sobre seu desejo de vencer por seu filho, Tommaso, e de servir como exemplo para outras mulheres que desejam seguir tanto o esporte quanto a maternidade. A medalhista ol\u00edmpica do bobsled Kaillie Humphries, m\u00e3e de um menino pequeno, declarou: \u201cA maternidade (&#8230;) me impulsionou a ser maior, mais r\u00e1pida e mais forte\u201d. E Elana Meyers Taylor, que conquistou o ouro em 2026 acompanhada de seus dois filhos pequenos com necessidades especiais, afirmou: \u201cMeus filhos se tornaram meu motivo. No come\u00e7o era entrar para uma equipe ol\u00edmpica, conquistar uma medalha ol\u00edmpica, conquistar uma medalha de ouro. (&#8230;) Quero mostrar aos meus filhos que, independentemente dos obst\u00e1culos que voc\u00ea enfrente, pode super\u00e1-los e perseguir seus objetivos\u201d.<\/p>\n<p>Por meio da maternidade e do esporte, essas mulheres descobriram sua capacidade n\u00e3o apenas para a excel\u00eancia f\u00edsica, mas para a excel\u00eancia humana: para a virtude. Elas compartilham essa capacidade com os homens, mas a vivem de uma forma distintamente feminina e encarnada. Talvez a maior li\u00e7\u00e3o que possamos aprender com as m\u00e3es ol\u00edmpicas seja que as mulheres s\u00e3o mais do que seus corpos e que todos somos chamados a uma excel\u00eancia humana integrada, de corpo e alma.<\/p>\n<p><strong><em>Siobhan Heekin-Canedy <\/em><\/strong><em>escreve sobre assuntos internacionais, religi\u00e3o, esportes e feminismo. Tem mestrado em Direito e Diplomacia, competiu pela Ucr\u00e2nia na dan\u00e7a no gelo entre 2008 e 2014, e participou dos Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno de 2014. Ela e o marido, Michael, t\u00eam duas filhas.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 The Public Discourse. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.thepublicdiscourse.com\/2026\/06\/101268\/\">Female Fertility and Athleticism: Two Sides of the Same Coin<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui patinadora art\u00edstica ol\u00edmpica, e por isso acompanhei os Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno com grande interesse em fevereiro. 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