{"id":521066,"date":"2026-06-28T19:15:08","date_gmt":"2026-06-28T23:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=521066"},"modified":"2026-06-28T19:15:08","modified_gmt":"2026-06-28T23:15:08","slug":"existe-uma-esquerda-democratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=521066","title":{"rendered":"Existe uma esquerda democr\u00e1tica?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/28093355\/Wikimedia-31.jpg.webp\" \/><span>Presidentes do Uruguai, Yamand\u00fa Orsi, do Chile, Gabriel Boric, e da Col\u00f4mbia, Gustavo Petro, em encontro com Lula em 2025: diferentes matizes da esquerda. (Foto: Ricardo Stuckert \/ PR)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>&#8220;O conceito de democracia \u00e9 relativo.&#8221; A frase \u00e9 de Lula, junho de 2023, e foi dita em defesa de Nicol\u00e1s Maduro. Semanas antes, ao lado do venezuelano no Pal\u00e1cio do Planalto, ele j\u00e1 havia descrito a Venezuela como v\u00edtima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo. Quem o corrigiu em p\u00fablico n\u00e3o foi a oposi\u00e7\u00e3o brasileira e sim Gabriel Boric, presidente de esquerda do Chile, que lembrou que o sofrimento dos venezuelanos era real e n\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o. Em janeiro de 2026, o ditador cuja repress\u00e3o Lula reduzira a uma narrativa foi arrancado da pr\u00f3pria cama por for\u00e7as americanas e levado a uma cela no Brooklyn, onde responde por narcotr\u00e1fico. A relatividade da democracia n\u00e3o lhe serviu de prote\u00e7\u00e3o, e a narrativa que Lula tratava como inven\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios terminou sendo a descri\u00e7\u00e3o exata do regime que ele defendia.<\/p>\n<p>A defesa de Maduro n\u00e3o foi um caso isolado. Lula resistiu por anos a chamar o regime venezuelano de ditadura, e ajudou a fundar em 1990 o Foro de S\u00e3o Paulo, articula\u00e7\u00e3o que re\u00fane a esquerda do continente h\u00e1 mais de trinta anos. A retic\u00eancia diante do autoritarismo de um aliado n\u00e3o ficou na diplomacia. Em junho de 2026, ela apareceu dentro das urnas, e a pergunta deixou de ser acad\u00eamica: existe uma esquerda democr\u00e1tica?<\/p>\n<h2>A derrota<\/h2>\n<p>Em 21 de junho de 2026, a Col\u00f4mbia elegeu Abelardo De la Espriella presidente no segundo turno, com 49,66% contra 48,70% de Iv\u00e1n Cepeda, candidato do Pacto Hist\u00f3rico de Gustavo Petro. Cepeda, o derrotado, reconheceu o resultado tr\u00eas dias depois. Quem n\u00e3o o fez foi Petro, o presidente, que passou esses dias denunciando uma fraude que j\u00e1 alegava desde o primeiro turno, em 31 de maio.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, com 143 observadores de mais de vinte pa\u00edses, n\u00e3o encontrou irregularidades. A auditoria do instituto interamericano CAPEL chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o, e a Registradur\u00eda informou que a apura\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes coincidia em 99,9% com a contagem preliminar. Especialistas desmontaram as provas que Petro apresentou, mostrando que ele confundia problemas de infraestrutura de internet com adultera\u00e7\u00e3o de votos.<\/p>\n<p>O elemento que explica a den\u00fancia est\u00e1 em 2022. Quando venceu, com a maior vota\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria colombiana, Petro aceitou sem ressalva a mesma contagem preliminar que agora chama de fraude. As mesas com vota\u00e7\u00e3o alta que ele aponta como prova de manipula\u00e7\u00e3o foram proporcionalmente mais frequentes na elei\u00e7\u00e3o que ganhou, 8,73%, do que na que perdeu, 4,13%.<\/p>\n<p>Pressionado a reconhecer a derrota, lembrou que j\u00e1 havia pegado em armas uma vez por causa de uma fraude eleitoral, refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria milit\u00e2ncia no M-19. A cobran\u00e7a mais dura n\u00e3o veio da direita. A jornalista Mar\u00eda Jimena Duz\u00e1n, de esquerda, escreveu que aceitar o resultado \u00e9 o que faz uma esquerda democr\u00e1tica, e que recus\u00e1-lo entrega \u00e0 direita a bandeira de defensora da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Peru, a cena se repetiu no mesmo m\u00eas, com uma diferen\u00e7a que conv\u00e9m registrar. As acusa\u00e7\u00f5es de fraude come\u00e7aram pela direita, com Rafael L\u00f3pez Aliaga reclamando de manipula\u00e7\u00e3o depois de ficar em terceiro no primeiro turno, em abril. Foi o derrotado do segundo turno, por\u00e9m, o esquerdista Roberto S\u00e1nchez, do Juntos por el Per\u00fa, quem em 23 de junho anunciou que n\u00e3o reconheceria o governo de Keiko Fujimori, alegando uma fraude que a associa\u00e7\u00e3o Transpar\u00eancia e os tribunais eleitorais j\u00e1 haviam descartado por falta de prova.<\/p>\n<p>H\u00e1 um degrau acima de n\u00e3o reconhecer um resultado, e o Peru j\u00e1 o subiu. Em dezembro de 2022, o presidente de esquerda Pedro Castillo tentou dissolver o Congresso e governar por decreto, um autogolpe que durou poucas horas at\u00e9 a pris\u00e3o. O gesto de Castillo foi al\u00e9m de recusar um resultado, descartou a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o que poderia julg\u00e1-lo.<\/p>\n<h2>A doutrina<\/h2>\n<p>Parte da esquerda tem uma justificativa hist\u00f3rica para essa recusa. Em 1918, em &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky&#8221;, Vladimir L\u00eanin descreveu a democracia liberal como uma fachada burguesa. Argumentava que de pouco servia cada cidad\u00e3o ter um voto igual enquanto a riqueza e o poder seguiam concentrados numa classe, e que a igualdade perante a lei apenas disfar\u00e7ava quem mandava de fato.<\/p>\n<p>Contra Karl Kautsky, que foi um dos fundadores da chamada social-democracia, op\u00f4s a ditadura do proletariado e uma vanguarda capaz de conhecer o verdadeiro interesse do povo melhor do que o pr\u00f3prio povo nas urnas. Se a democracia das urnas \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia, e a verdadeira ainda est\u00e1 por vir, rejeitar um resultado deixa de ser um golpe e vira lealdade \u00e0 democracia de verdade. L\u00f3pez Aliaga gritou fraude e n\u00e3o passou de um perdedor inconformado, sem nada que sustentasse a queixa. A recusa de Petro vinha amparada por outra coisa, pela den\u00fancia de interfer\u00eancia estrangeira e por uma tradi\u00e7\u00e3o que L\u00f3pez Aliaga n\u00e3o tinha como invocar.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o a tudo isso veio, ainda no s\u00e9culo passado, de dentro da pr\u00f3pria esquerda. Norberto Bobbio se dizia socialista liberal e nunca escondeu o lado em que estava, e \u00e9 por isso que sua advert\u00eancia pesa mais do que a de qualquer cr\u00edtico de direita. Em &#8220;Direita e Esquerda&#8221; e em &#8220;Qual Socialismo?&#8221;, ele separou a democracia formal, feita de regra e altern\u00e2ncia, da democracia substantiva, feita de igualdade material, e sustentou que a esquerda podia perseguir a segunda sem sacrificar a primeira, desde que jamais confundisse persegui-la com suspend\u00ea-la. Bobbio escreveu contra o socialismo realmente existente de seu tempo justamente para lembrar que nenhuma promessa de igualdade futura autoriza desconhecer a vontade contada no presente.<\/p>\n<h2>Qual esquerda?<\/h2>\n<p>A essa altura, a resposta \u00e0 pergunta do t\u00edtulo parece um n\u00e3o. Mas existe, sim, uma esquerda democr\u00e1tica, e quem o afirma com mais clareza \u00e9 Adriano Gianturco, cientista pol\u00edtico do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais. Ela tem nome, social-democracia, e uma linhagem que passa por John Rawls e John Maynard Keynes. Seus governos se comportaram como governos, n\u00e3o como movimentos.<\/p>\n<p>Em Portugal, o Partido Socialista equilibrou as contas e levou o pa\u00eds, em 2019, ao primeiro super\u00e1vit or\u00e7amental em quase meio s\u00e9culo de democracia. Na Inglaterra, o New Labour de Tony Blair conservou as privatiza\u00e7\u00f5es de Thatcher em vez de desfaz\u00ea-las, e Gianturco lembra que tamb\u00e9m foram governos de esquerda que abriram as economias da It\u00e1lia e da Nova Zel\u00e2ndia. Chamar isso de esquerda, diz ele, n\u00e3o \u00e9 pol\u00eamico em lugar nenhum, nem entre cientistas pol\u00edticos nem entre economistas.<\/p>\n<p>O problema, na leitura dele, \u00e9 de etiqueta, e \u00e9 brasileiro. Os marxistas convenceram a opini\u00e3o p\u00fablica de que essa esquerda social-democrata, o PSDB de Fernando Henrique, era direita neoliberal \u2013 embora as privatiza\u00e7\u00f5es que FHC conduziu nos anos 90 fossem as mesmas que a esquerda moderada europeia fazia ao mesmo tempo. O r\u00f3tulo colou, e o efeito foi que, no Brasil, a palavra esquerda deixou de nomear a social-democracia e passou a nomear quem a havia empurrado para a direita. \u00c9 essa esquerda, a que ficou com o nome, que defendeu Maduro l\u00e1 fora e recusou o resultado das urnas em Bogot\u00e1 e em Lima.<\/p>\n<h2>O que sobra<\/h2>\n<p>A esquerda democr\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 existe como costuma policiar a pr\u00f3pria casa. Foi Boric quem corrigiu Lula sobre a Venezuela, e foi Mar\u00eda Jimena Duz\u00e1n, jornalista de esquerda, quem lembrou a Petro que aceitar a derrota \u00e9 o que se espera de uma esquerda democr\u00e1tica. A Frente Amplio governou o Uruguai e entregou o poder sem ru\u00eddo. Nada disso sustenta uma tese de incompatibilidade de origem entre a esquerda e a democracia.<\/p>\n<p>A d\u00favida que sobra aponta para a frente, e \u00e9 brasileira. A Unidade Popular lan\u00e7ou Samara Martins como pr\u00e9-candidata \u00e0 Presid\u00eancia em 2026, com um programa que chama de Revolu\u00e7\u00e3o e Socialismo e diz sem rodeio que quer superar o capitalismo, e teve 0,05% dos votos em 2022. \u00c9 a vers\u00e3o mais franca, e mais inofensiva, da esquerda revolucion\u00e1ria no pa\u00eds. O perigo est\u00e1 no campo que ficou com o nome depois que a social-democracia foi empurrada para a direita, o mesmo que tratou Maduro como v\u00edtima de narrativa e que ainda n\u00e3o perdeu, dentro do Brasil, uma elei\u00e7\u00e3o grande demais para engolir. O que far\u00e1 nesse dia \u00e9 a \u00fanica parte da resposta que continua em aberto.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidentes do Uruguai, Yamand\u00fa Orsi, do Chile, Gabriel Boric, e da Col\u00f4mbia, Gustavo Petro, em encontro com Lula em 2025:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":521067,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-521066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/521066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=521066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/521066\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/521067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=521066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=521066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=521066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}