{"id":520529,"date":"2026-06-28T13:39:43","date_gmt":"2026-06-28T17:39:43","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=520529"},"modified":"2026-06-28T13:39:43","modified_gmt":"2026-06-28T17:39:43","slug":"escritora-brasileira-foge-a-onda-identitaria-e-e-finalista-de-premio-mundial-de-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=520529","title":{"rendered":"Escritora brasileira foge \u00e0 onda identit\u00e1ria e \u00e9 finalista de pr\u00eamio mundial de literatura"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Ana Paula Maia avisa, com algum divertimento, que as pessoas t\u00eam medo dela. Diz que com ela n\u00e3o d\u00e1 muito p\u00e9, que sempre acaba vindo uma resposta atravessada. Em uma entrevista recente ao portal UOL, a escritora de 48 anos, nascida em Nova Igua\u00e7u, na Baixada Fluminense, define o que faz como terror, escreve sobre homens que atordoam gado e cremam defuntos. Vive, nas pr\u00f3prias palavras, num mundinho esquisito, e desconfia que esse mundinho se comunica melhor longe daqui.<\/p>\n<p>A desconfian\u00e7a tem base. Na Alemanha, <em>A guerra dos bastardos<\/em> foi saudado pela cr\u00edtica como um dos melhores romances noir do ano e lhe rendeu fama de celebridade. Na Inglaterra, em maio, ela chegou \u00e0 final do International Booker Prize (Pr\u00eamio Booker Internacional, a mais disputada distin\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o traduzida para o ingl\u00eas) com <em>Assim na terra como embaixo da terra<\/em>, vertido por Padma Viswanathan, e perdeu para <em>Taiwan Travelogue<\/em>, da taiwanesa Yang Shuang-zi. No Brasil, onde mant\u00e9m um p\u00fablico pequeno e fiel, o que circulou nas \u00faltimas semanas n\u00e3o foi nem a indica\u00e7\u00e3o nem a derrota, e sim uma entrevista.<\/p>\n<h2>&#8220;Aqui n\u00e3o tem quest\u00e3o identit\u00e1ria&#8221;<\/h2>\n<p>\u00c0 rep\u00f3rter do UOL, dias antes da cerim\u00f4nia em Londres, ela falou da obra sem nenhuma das media\u00e7\u00f5es que costumam cercar uma autora premiada l\u00e1 fora e quase desconhecida aqui. Disse que n\u00e3o escreve sobre um recorte do Brasil, que seus temas s\u00e3o sistemas de poder e n\u00e3o a guerra civil cotidiana do pa\u00eds, e que n\u00e3o h\u00e1 protagonismo feminino em seus livros porque nunca lhe ocorreu um, sem que pretenda investigar o motivo. &#8220;Aqui n\u00e3o tem quest\u00e3o identit\u00e1ria&#8221;, afirmou, antes de emendar que, sem essa chave, fica mais dif\u00edcil encaix\u00e1-la, e que prefere os lugares &#8220;onde voc\u00ea s\u00f3 precisa ser bom&#8221;. Sobre os pares que levam a identidade para dentro da obra, lembrou de uma piada antiga, a de que todos pareciam se encontrar na recep\u00e7\u00e3o do mesmo terapeuta, b\u00eabados e em crise, enquanto ela estava em outro canto, abatendo porcos e cremando gente.<\/p>\n<p>O inc\u00f4modo veio r\u00e1pido. No site Mundo Negro, o escritor Ale Santos, uma das vozes do chamado afrofuturismo brasileiro, deslocou a discuss\u00e3o para um terreno menos confort\u00e1vel que o da provoca\u00e7\u00e3o. Para ele, a pergunta n\u00e3o \u00e9 se existe literatura identit\u00e1ria, e sim por que o mercado editorial ainda trata horror, fantasia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como g\u00eaneros menores quando a assinatura \u00e9 de um autor negro. Santos lembrou que, entre 2011 e 2021, apenas 6% dos autores publicados pelas quinze editoras tradicionais do eixo Rio-S\u00e3o Paulo eram negros. A ironia \u00e9 que a frase sobre n\u00e3o ter &#8220;quest\u00e3o identit\u00e1ria&#8221; partiu de uma mulher negra criada na Baixada Fluminense, que em outro trecho da mesma entrevista recusou exatamente esse invent\u00e1rio, o de ter nascido em Nova Igua\u00e7u, ser mulher e ser preta. No BookTwitter (o Twitter liter\u00e1rio), o saldo foi o previs\u00edvel, com a autora transformada por alguns dias em sintoma de uma disputa que ela diz n\u00e3o travar. Tudo passou, mas vale revisitar a obra que quase a consagrou com o Booker.<\/p>\n<h2>A fazenda sobre os mortos<\/h2>\n<p>Quem abre <em>Assim na terra como embaixo da terra<\/em> entende por que a etiqueta n\u00e3o cola. O romance se passa numa col\u00f4nia penal em vias de desativa\u00e7\u00e3o, cercada por muros de seis metros de altura e dois de espessura, com uma cerca eletrificada no topo, num ponto do mapa que os pr\u00f3prios presos n\u00e3o sabem nomear. Sobre o port\u00e3o, em letras de ferro gastas, l\u00ea-se que a corre\u00e7\u00e3o liberta, e o leitor que conhece a inscri\u00e7\u00e3o de Auschwitz reconhece a proced\u00eancia sem que a autora precise apont\u00e1-la. L\u00e1 dentro, o agente Melqu\u00edades ca\u00e7a os condenados \u00e0 noite, com um rifle tcheco, e chama o expediente de medida socioeducativa.<\/p>\n<p>A col\u00f4nia foi erguida sobre camadas de viol\u00eancia que a antecedem. Antes do pres\u00eddio, ali se torturavam e matavam escravos, num lugar que chegou a se chamar Calv\u00e1rio Negro. Depois vieram um fazendeiro cujos filhos somem num piquenique e nunca voltam, um milharal que pega fogo e, por fim, o modelo penitenci\u00e1rio do qual ningu\u00e9m escaparia. Cavando uma cova para enterrar mais um morto, os personagens encontram um ba\u00fa que imaginam cheio de ouro, e dentro est\u00e3o ossos de beb\u00eas. O t\u00edtulo cumpre a promessa, j\u00e1 que h\u00e1 mais gente debaixo da terra do que em cima dela, e a fazenda inteira repousa sobre os pr\u00f3prios mortos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o universo de Ana Paula Maia desde a trilogia <em>A saga dos brutos<\/em>, e ele se organiza em torno de homens definidos pelo que fazem, n\u00e3o pelo que s\u00e3o. Edgar Wilson, que atravessa <em>De gados e homens<\/em> e <em>Enterre seus mortos<\/em>, atordoa o gado num matadouro e depois recolhe cad\u00e1veres para cremar, com um respeito pelos mortos que poucos dedicam aos vivos. No fim de <em>Assim na terra<\/em>, o \u00edndio Bronco Gil sai dos muros e aceita ser capataz na fazenda de abate de um tal Milo, o mesmo nome do matadouro Touro do Milo de <em>De gados e homens<\/em>, e troca um confinamento por outro sem que a troca o assuste. S\u00e3o todos homens de sangue, e esse sangue n\u00e3o tem cor de pele nem sotaque, apenas a fun\u00e7\u00e3o de quem mata para os outros. A col\u00f4nia sem nome e sem coordenadas \u00e9 a forma exata de uma escritora que diz n\u00e3o ter apego regional, um Brasil reconhec\u00edvel pela crueldade e pelo descaso mais do que por qualquer cor local.<\/p>\n<h2>O caso oposto de Itamar<\/h2>\n<p>A frase de Maia ecoou em outra recusa recente, a de Itamar Vieira Junior, finalista do mesmo Booker em 2024 com <em>Torto Arado<\/em>, que vem repetindo que tentam confin\u00e1-lo ao identitarismo e que o que est\u00e1 em disputa \u00e9 o direito \u00e0 mem\u00f3ria. A semelhan\u00e7a \u00e9 s\u00f3 de superf\u00edcie. Vieira Junior \u00e9 o maior nome da literatura identit\u00e1ria brasileira da \u00faltima d\u00e9cada, e sua obra inteira nasce do passado escravista, das protagonistas negras, do gesto contracolonial assumido sem disfarce. J\u00e1 na abertura de <em>Torto Arado<\/em>, a faca tirada da mala da av\u00f3 e o gosto do metal na boca instalam uma narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa, memorial\u00edstica, em que a identidade n\u00e3o \u00e9 assunto, \u00e9 o material de que o livro inteiro \u00e9 feito. O que ele recusa n\u00e3o \u00e9 a pauta, e sim a tutela do r\u00f3tulo, a ideia de que um autor negro s\u00f3 possa ser lido por essa chave. Maia est\u00e1 no outro extremo, com livros de carcereiros e atordoadores de gado em que a identidade n\u00e3o comparece como tema nem como protagonista. Quando os dois reclamam de serem encaixados, usam palavras parecidas para defender coisas que n\u00e3o se tocam, um para que n\u00e3o o reduzam ao que de fato escreve, a outra para que n\u00e3o lhe atribuam o que jamais escreveu.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o ganhou outra camada quando a tradutora Aurora Fornoni Bernardini, da USP, disse \u00e0 <em>Folha<\/em> que <em>Torto Arado<\/em> n\u00e3o \u00e9 literatura, mas produto de mercado que privilegia o conte\u00fado em detrimento da forma. Vieira Junior respondeu que ela fala por um grupo pequeno de cr\u00edticos tradicionais incapazes de entender o sucesso de um outsider, algu\u00e9m de fora. O ensa\u00edsta Eduardo Cesar Maia, da UFPE, que n\u00e3o tem parentesco com a romancista, tentou tirar o debate da rede social: a tese estrita de que certos autores &#8220;n\u00e3o s\u00e3o literatura&#8221; lhe parece uma peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio autorit\u00e1ria, j\u00e1 que n\u00e3o existe obra sem forma, mas o diagn\u00f3stico de fundo, o do assunto que engole o estilo, est\u00e1 correto. Ele recorre a <em>As ideias e as formas<\/em>, de Jos\u00e9 Guilherme Merquior, escrito em 1981, quando o problema era o inverso, o do formalismo que abdicava das ideias, e lembra que pensar e exprimir s\u00e3o a mesma atividade.<\/p>\n<h2>A forma antes do tema<\/h2>\n<p>\u00c9 nesse ponto que Ana Paula Maia desarma a dicotomia que a discuss\u00e3o insiste em manter de p\u00e9. Sua prosa \u00e9 seca, presente, sem adjetivo sobrando, e foi a forma, antes do tema, que conquistou os jurados de Londres, para quem o livro \u00e9, nas palavras do j\u00fari, uma &#8220;novela brutal, assombrosa e hipn\u00f3tica&#8221;. O conte\u00fado \u00e9 dos mais pesados que a fic\u00e7\u00e3o brasileira recente ousou encarar, e ainda assim nada nele se oferece como pauta. A escritora que se recusa a fazer da identidade um assunto faz da conten\u00e7\u00e3o uma disciplina, e o resultado \u00e9 exatamente o casamento entre ideia e forma que Merquior cobrava.<\/p>\n<p>Ela conta que adoece ao terminar cada livro, que precisa tomar vitaminas e fica sem energia para qualquer coisa, e que, mal se recupera, j\u00e1 precisa escrever o pr\u00f3ximo. O d\u00e9cimo, <em>O tenebroso brilho do sol<\/em>, sai no segundo semestre e se passa no Rio Grande do Sul, exce\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria autora aponta na obra. Resta a pergunta que a entrevista deixou no ar e que nenhum pr\u00eamio respondeu, a de por que o lugar onde basta ser bom, para uma autora que jamais morou fora e diz que n\u00e3o pretende, continua sendo qualquer um menos o Brasil sobre o qual ela escreve.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Paula Maia avisa, com algum divertimento, que as pessoas t\u00eam medo dela. 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