{"id":520506,"date":"2026-06-28T13:00:00","date_gmt":"2026-06-28T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=520506"},"modified":"2026-06-28T13:00:00","modified_gmt":"2026-06-28T17:00:00","slug":"o-poder-do-sorriso-como-viver-dias-afaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=520506","title":{"rendered":"O poder do sorriso: como viver dias af\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/26170745\/afabilidade-sorriso.jpg.webp\" \/><span>Um sorriso n\u00e3o elimina diferen\u00e7as, mas desarma e mostra que reconhecemos no outro algu\u00e9m que merece respeito. (Foto: Ivana Tom\u00e1\u0161kov\u00e1\/Pixabay)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quando o Brasil marca um gol, a rea\u00e7\u00e3o da maioria das pessoas \u00e9 soltar um grito de alegria, levantar-se num salto da cadeira ou do sof\u00e1, balan\u00e7ar os punhos cerrados assim, na altura do rosto, e ent\u00e3o procurar os olhos de quem est\u00e1 do lado \u2013 comemoramos juntos, nos abra\u00e7amos. Tamb\u00e9m os jogadores fazem isso, ou mais. \u00c9 um \u00e1pice de euf\u00f3rica alegria.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, quando segue o jogo, n\u00f3s voltamos \u00e0 nossa posi\u00e7\u00e3o inicial, guardando ainda, \u00e9 claro, o calor daquele triunfo, para acompanharmos o tempo restante da partida. Se pud\u00e9ssemos fazer um gr\u00e1fico da emo\u00e7\u00e3o e da express\u00e3o da alegria durante o jogo, ver\u00edamos uma montanha-russa: altos picos de contentamento e vibra\u00e7\u00e3o, talvez contra outros de decep\u00e7\u00e3o, quando nossa sele\u00e7\u00e3o toma um gol, ou perde um gol (ou tem um gol injustamente anulado, <em>hunf!<\/em>).<\/p>\n<p>Nossa vida, por\u00e9m, corre de maneira mais homog\u00eanea. A passagem das semanas e dos dias, e dos v\u00e1rios momentos dentro de um mesmo dia \u2013 desde que acordamos, em tudo o que fazemos, nos trajetos pelos quais nos deslocamos, at\u00e9 a hora em que, com a gra\u00e7a de Deus, nos deitamos novamente \u2013, formaria um gr\u00e1fico muito mais uniforme, com raros picos de alegria. Isso torna as nossas alegrias e as nossas dificuldades, nossos v\u00edcios e virtudes, \u00e0s vezes dilu\u00eddos e dif\u00edceis de captar. O bem e o mal que fazemos raramente s\u00e3o chamativos como um gol. Por isso h\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/virtude\/\">virtudes <\/a>cuja presen\u00e7a costuma passar despercebida, ainda que sua aus\u00eancia seja sens\u00edvel. Quando faltam, tornam os ambientes pesados, \u00e1speros e desconfort\u00e1veis; quando existem, criam uma atmosfera t\u00e3o natural que poucos se d\u00e3o conta de seu valor.<\/p>\n<p>Existe uma, esquecida, da qual me parece que ningu\u00e9m fala; ou, pior ainda, fala, mas que \u00e9 mencionada em contextos um pouco pobres \u2013 montagens de gosto duvidoso, que circulam no WhatsApp&#8230; Refiro-me \u00e0 <em>afabilidade<\/em>, aquela que tem seu s\u00edmbolo m\u00e1ximo no sorriso. Essa virtude, elegante e valiosa, pertence \u00e0quela categoria de bens silenciosos. Ela n\u00e3o chama aten\u00e7\u00e3o para si mesma, n\u00e3o se exibe nem busca reconhecimento. Contudo, \u00e9 uma das for\u00e7as mais eficazes na constru\u00e7\u00e3o de uma conviv\u00eancia verdadeiramente salutar, como nos ambientes de trabalho e outros grupos nos quais nos inserimos, e, mais importante ainda, no nosso lar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A aut\u00eantica afabilidade n\u00e3o procura conquistar favores nem despertar admira\u00e7\u00e3o. Sua origem est\u00e1 no <em>reconhecimento sincero da dignidade do outro<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nossa \u00e9poca, especialmente os \u00faltimos anos, e ap\u00f3s o <em>lockdown<\/em> de 2020, vem assistindo \u00e0 troca das rela\u00e7\u00f5es interpessoais por intera\u00e7\u00f5es digitais, o que acarreta novos padr\u00f5es de comportamento, e numa crescente dificuldade de relacionamento. As pessoas se cruzam nas ruas, nos escrit\u00f3rios, nos meios de transporte \u2013 e at\u00e9 dentro das pr\u00f3prias casas! \u2013 sem realmente se encontrarem. Multiplicam-se os meios de comunica\u00e7\u00e3o, enquanto escasseiam os gestos simples que tornam poss\u00edvel a comunh\u00e3o entre os homens. Talvez por isso a chamada afabilidade seja hoje mais necess\u00e1ria do que nunca.<\/p>\n<p>Quando se fala em cortesia, gentileza ou delicadeza, muitos imaginam imediatamente uma forma de artificialidade social: sorrisos for\u00e7ados, elogios interesseiros, aten\u00e7\u00f5es calculadas. E a experi\u00eancia cotidiana fornece, de fato, in\u00fameros exemplos desse comportamento. H\u00e1 quem seja cordial apenas enquanto espera obter alguma vantagem; h\u00e1 quem transforme a simpatia em estrat\u00e9gia. H\u00e1 quem use a amabilidade como instrumento de ascens\u00e3o social ou profissional. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a verdadeira virtude a que quero me referir, n\u00e3o, mas somente uma caricatura dela.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A aut\u00eantica afabilidade nasce de uma disposi\u00e7\u00e3o interior muito diferente. Ela n\u00e3o procura conquistar favores nem despertar admira\u00e7\u00e3o. Sua origem est\u00e1 no <em>reconhecimento sincero da dignidade do outro<\/em>. O homem af\u00e1vel n\u00e3o trata bem as pessoas porque espera algo delas; trata-as bem porque reconhece nelas algo precioso. Reconhece que, por tr\u00e1s de cada rosto, existe uma hist\u00f3ria; que, por tr\u00e1s de cada nome, existe uma alma. E a afabilidade consiste precisamente em agir como quem sabe disso. Em seu sentido mais profundo, a afabilidade \u00e9 a <em>capacidade de acolher os outros com benevol\u00eancia espont\u00e2nea<\/em>. \u00c9 a disposi\u00e7\u00e3o de tornar-se acess\u00edvel: \u00e9 a arte de fazer com que as pessoas sintam que sua presen\u00e7a vale, que ela importa.<\/p>\n<p>Talvez pare\u00e7a pouco, mas n\u00e3o \u00e9, \u00e9 muito. Isto porque uma das maiores necessidades humanas \u00e9 n\u00e3o exatamente ser admirado, mas ser <em>reconhecido<\/em>. Todos desejamos, de alguma forma, que algu\u00e9m perceba nossa exist\u00eancia e a considere valiosa. \u00c9 uma abertura de di\u00e1logo, de presen\u00e7a. Por isso a indiferen\u00e7a fere mais profundamente do que muitas agress\u00f5es expl\u00edcitas, e ser ignorado \u00e9 uma das experi\u00eancias mais dolorosas da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>E \u00e9 ent\u00e3o que gestos simples podem adquirir um alcance extraordin\u00e1rio: um cumprimento <em>sincero<\/em>, um olhar atento, uma palavra cordial que n\u00e3o era obrigat\u00f3ria \u2013 um sorriso oferecido sem c\u00e1lculo. Pequenas manifesta\u00e7\u00f5es de humanidade que muitas vezes mudam inteiramente o tom de uma conversa, de uma reuni\u00e3o ou mesmo de um dia inteiro, um sorriso que pode confortar e regular o humor dos nossos filhos outra vez.<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que \u201co sorriso \u00e9 a dist\u00e2ncia mais curta entre duas pessoas\u201d. A imagem \u00e9 feliz. Antes mesmo das palavras, o sorriso comunica receptividade, acolhimento. Ele diz silenciosamente: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um estranho para mim\u201d. N\u00e3o elimina todas as diferen\u00e7as que possam existir entre duas pessoas, evidentemente; mas recorda algo mais importante do que essas diferen\u00e7as: a humanidade compartilhada entre todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Naturalmente, nem todo sorriso possui esse significado, e nem todo sorriso \u00e9 express\u00e3o ou s\u00edmbolo da verdadeira afabilidade. Existe o sorriso da ironia, da superioridade e at\u00e9 o do desprezo. Existe o sorriso usado como m\u00e1scara, que esconde ressentimento. Mas o que importa, e que, se estivermos atentos, todos sabemos reconhecer, \u00e9 aquele sorriso raro que nasce da alegria de encontrar outro ser humano. Esse sorriso n\u00e3o depende de intimidade pr\u00e9via; n\u00e3o exige amizade consolidada: surge da simples percep\u00e7\u00e3o de que o outro \u00e9 algu\u00e9m semelhante a mim, algu\u00e9m que tamb\u00e9m conhece alegrias e sofrimentos, esperan\u00e7as e fracassos, medos e sonhos. A verdadeira cordialidade nasce exatamente dessa percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A palavra <em>cordialidade<\/em> \u2013 que o pensador S\u00e9rgio Buarque de Holanda usou para descrever o brasileiro, como o \u201chomem cordial\u201d, em seu famoso livro <em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em> \u2013 conserva uma riqueza que vale a pena recordar. Sua origem remete ao cora\u00e7\u00e3o. Ser cordial n\u00e3o significa apenas observar regras externas de educa\u00e7\u00e3o: significa envolver o cora\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o. Significa dirigir-se ao outro como pessoa, e n\u00e3o como objeto, fun\u00e7\u00e3o ou obst\u00e1culo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Antes mesmo das palavras, o sorriso comunica receptividade, acolhimento. Ele diz silenciosamente: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um estranho para mim\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 pessoas que falam conosco enquanto parecem olhar atrav\u00e9s de n\u00f3s. Esperam apenas a oportunidade de voltar a falar de si mesmas. Outras, ao contr\u00e1rio, possuem o raro dom de nos fazer sentir presentes. Quando conversam, <em>escutam<\/em> mesmo. Quando perguntam, interessam-se realmente pela resposta, e seu pensamento \u00e9 verdadeiramente transformado pelo que ouviram. Quer dizer, est\u00e3o num efetivo di\u00e1logo, que \u00e9 conduzido a quatro m\u00e3os, para um resultado imprevis\u00edvel, e n\u00e3o para algo previamente pensado, como seria uma palestra. Quando est\u00e3o conosco, essas pessoas nos fazem perceber que nossa presen\u00e7a tem valor. E talvez essa seja uma das formas mais elevadas da delicadeza: conceder aten\u00e7\u00e3o. Num mundo saturado de distra\u00e7\u00f5es, prestar aten\u00e7\u00e3o tornou-se um ato de verdadeira generosidade.<\/p>\n<p>Mas aten\u00e7\u00e3o: a afabilidade, para ser ela mesma, n\u00e3o depende apenas da maneira como vemos os outros; ela exige tamb\u00e9m uma certa reconcilia\u00e7\u00e3o conosco mesmos.<\/p>\n<p>Pessoas excessivamente preocupadas com a pr\u00f3pria imagem tendem a tornar-se r\u00edgidas. Quem vive constantemente na defensiva acaba interpretando tudo como amea\u00e7a, e sobretudo quem se leva demasiadamente a s\u00e9rio encontra dificuldade para sorrir. Existe uma rela\u00e7\u00e3o profunda entre a serenidade interior, um humor saud\u00e1vel, e a capacidade de acolher os demais. O bom humor aut\u00eantico n\u00e3o \u00e9 fruto da aus\u00eancia de problemas, mas surge, sim, da capacidade de <em>relativiz\u00e1-los<\/em>, de ajustar suas propor\u00e7\u00f5es. \u00c9 a arte perdida de n\u00e3o transformar cada contratempo numa trag\u00e9dia, ou de fazer tempestade em copo d\u2019\u00e1gua. \u00c9 a disposi\u00e7\u00e3o de aceitar as limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e alheias sem perder a paz.<\/p>\n<p>Muitos dos conflitos cotidianos nascem precisamente da incapacidade de suportar pequenas contrariedades. Uma palavra mal colocada, um atraso, um esquecimento, uma diverg\u00eancia m\u00ednima tornam-se motivo de irrita\u00e7\u00e3o permanente. Por qu\u00ea? O que se espera da vida, afinal? Que todos nos sirvam e agradem, que tudo v\u00e1 bem? Quem meteu essa ideia leviana em nossa cabe\u00e7a? E, aos poucos, instala-se uma esp\u00e9cie de amargura habitual que obscurece a conviv\u00eancia. A afabilidade, m\u00e3e do bom humor, \u00e9 justamente o que age na dire\u00e7\u00e3o oposta. Ela ilumina os ambientes, suaviza as rela\u00e7\u00f5es, torna mais leve o peso inevit\u00e1vel da vida comum.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>N\u00e3o resolve todos os problemas humanos, \u00e9 claro. Ela n\u00e3o \u00e9 capaz de eliminar injusti\u00e7as nem sofrimentos. O sorriso n\u00e3o \u00e9 \u201cm\u00e1gico\u201d, como sugerem alguns gifs bregas. Mas ele \u00e9 capaz de criar o clima necess\u00e1rio para que os homens possam enfrentar juntos essas dificuldades. No fundo, a afabilidade \u00e9 uma forma discreta de caridade.<\/p>\n<p>Essa sabedoria, essa capacidade de sorrir nas situa\u00e7\u00f5es, de cultivar a tranquilidade do ambiente e das rela\u00e7\u00f5es, e especialmente a capacidade de rir de si mesmo, de olhar para si mesmo sem uma solenidade excessiva, ela raramente aparece nos cursos de lideran\u00e7a ou nos manuais de desenvolvimento pessoal. Ela pode dar uma impress\u00e3o de fraqueza, alguns devem pensar. E, no entanto, ela exerce enorme influ\u00eancia sobre a qualidade das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a associar responsabilidade com gravidade, autoridade com rigidez, import\u00e2ncia com um certo ar de seriedade permanente. Imaginamos que pessoas investidas de fun\u00e7\u00f5es relevantes devam exibir continuamente uma apar\u00eancia austera para serem respeitadas. A realidade, por\u00e9m, costuma ensinar o contr\u00e1rio. As pessoas que mais inspiram confian\u00e7a raramente s\u00e3o aquelas que parecem preocupadas em demonstrar sua import\u00e2ncia. Ao contr\u00e1rio, frequentemente encontramos nelas uma surpreendente liberdade interior. Conhecem suas responsabilidades, mas n\u00e3o transformam a pr\u00f3pria pessoa no centro do universo. Exercem suas fun\u00e7\u00f5es com firmeza, mas sem teatralidade. Sabem o peso de suas decis\u00f5es, mas conservam a capacidade de sorrir.<\/p>\n<p>Talvez porque tenham compreendido uma verdade simples: possuir limites n\u00e3o \u00e9 uma falha moral. \u00c9 apenas uma caracter\u00edstica da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<blockquote>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre levar a pr\u00f3pria vida e o pr\u00f3prio trabalho a s\u00e9rio e <em>levar-se demasiadamente a s\u00e9rio<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Grande parte dos sofrimentos desnecess\u00e1rios nasce da dificuldade de aceitar esse fato elementar. Queremos parecer mais inteligentes do que somos, mais competentes do que realmente somos, mais seguros do que efetivamente nos sentimos. Constru\u00edmos uma imagem idealizada de n\u00f3s mesmos \u2013 e depois gastamos enorme energia tentando sustent\u00e1-la diante dos outros. Isso cansa e, ademais, como diziam os antigos, \u201cfaz mal para a cabe\u00e7a\u201d. Toda cr\u00edtica parece uma amea\u00e7a. Todo erro se transforma numa cat\u00e1strofe. Toda falha exige uma justificativa imediata. Como consequ\u00eancia, o di\u00e1logo se torna dif\u00edcil, a conviv\u00eancia se empobrece e a espontaneidade desaparece.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre levar a pr\u00f3pria vida e o pr\u00f3prio trabalho a s\u00e9rio e <em>levar-se demasiadamente a s\u00e9rio<\/em>. Quem se leva excessivamente a s\u00e9rio vive em permanente estado de defesa. Precisa proteger sua reputa\u00e7\u00e3o, preservar sua imagem, justificar seus equ\u00edvocos, explicar cada fracasso. Pouco a pouco, torna-se incapaz de reconhecer com naturalidade aquilo que todos os demais j\u00e1 perceberam: que \u00e9 um ser humano como qualquer outro. Por isso existe algo de profundamente desarmante numa pessoa capaz de admitir seus erros com serenidade.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Quando algu\u00e9m reconhece uma falha sem buscar culpados, sem apresentar longas explica\u00e7\u00f5es e sem dramatizar o acontecimento, produz um efeito curioso sobre os que o cercam. Em vez de perder autoridade, frequentemente a fortalece. Em vez de diminuir sua credibilidade, aumenta-a. A raz\u00e3o \u00e9 simples: a <em>sinceridade<\/em> inspira confian\u00e7a. Todo mundo erra, afinal, e todos sabemos disso. O que desperta desconfian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o erro em si, mas a tentativa de escond\u00ea-lo sob camadas de justificativas. O esfor\u00e7o exagerado para parecer impec\u00e1vel costuma revelar exatamente o contr\u00e1rio daquilo que pretende demonstrar. Por isso, uma das formas mais refinadas de humildade consiste em conservar a capacidade de <em>rir de si mesmo<\/em>.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">N\u00e3o se trata de autodeprecia\u00e7\u00e3o nem de desprezo por si mesmo, e nem tem a ver com rebaixar-se na sua pr\u00f3pria dignidade, muito menos com baixa autoestima, com autossabotagem&#8230; Nada disso. Trata-se de algo muito mais simples e saud\u00e1vel: reconhecer que a vida humana possui inevitavelmente uma dimens\u00e3o c\u00f4mica. Todos acumulamos pequenas incoer\u00eancias, esquecimentos, distra\u00e7\u00f5es, exageros e equ\u00edvocos. Aceit\u00e1-los com bom humor n\u00e3o nos diminui. Pelo contr\u00e1rio, torna-nos mais livres! A autoironia \u00e9 uma esp\u00e9cie de ant\u00eddoto contra a vaidade. Ela impede que nos tornemos prisioneiros da pr\u00f3pria imagem. Permite-nos observar nossas limita\u00e7\u00f5es sem desespero, e nossos sucessos sem arrog\u00e2ncia. \u00c9 uma forma de <em>realismo<\/em> acompanhada de <em>benevol\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p>As pessoas maduras n\u00e3o ignoram seus defeitos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vivem obcecadas por eles. N\u00e3o passam o tempo contemplando a pr\u00f3pria imagem, seja para admirar-se, seja para condenar-se<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Talvez por isso as pessoas verdadeiramente agrad\u00e1veis costumem possuir essa qualidade. S\u00e3o capazes de contar hist\u00f3rias em que n\u00e3o aparecem apenas como her\u00f3is e bonz\u00f5es. N\u00e3o sentem necessidade de vencer todas as discuss\u00f5es. N\u00e3o se apressam em corrigir cada observa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel que recebem. Conseguem rir junto com os outros quando se tornam objeto de uma brincadeira inocente. Essa leveza produz um efeito social extraordin\u00e1rio, deixa o ambiente&#8230; af\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m admite a pr\u00f3pria imperfei\u00e7\u00e3o, cria espa\u00e7o para que os demais fa\u00e7am o mesmo. O ambiente se torna menos tenso, as pessoas sentem-se mais livres para expressar opini\u00f5es, formular perguntas e at\u00e9 discordar. O di\u00e1logo floresce porque desaparece o medo constante de errar. Ora, nas fam\u00edlias, essa virtude possui um valor ainda maior. Quantos conflitos cotidianos poderiam ser resolvidos se houvesse mais capacidade de sorrir juntos! Muitas tens\u00f5es dom\u00e9sticas sobrevivem apenas porque cada participante insiste em defender sua posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 o \u00faltimo detalhe. Ningu\u00e9m deseja ceder. Ningu\u00e9m deseja reconhecer exageros. Ningu\u00e9m aceita a possibilidade de ter reagido de forma desproporcional. Bastaria, \u00e0s vezes, uma observa\u00e7\u00e3o bem-humorada \u2013 uma piadinha de bom gosto \u2013 para desfazer o n\u00f3. N\u00e3o o humor cruel que humilha, \u00e9 claro! E nem a ironia que fere. Essas coisas s\u00e3o gasolina jogada na chama de uma discuss\u00e3o. Mas sim aquele humor afetuoso que permite enxergar as situa\u00e7\u00f5es sob uma luz mais ampla e mais humana. O orgulho prefere a solenidade afetada; e a verdade \u00e9 amiga da humildade. E a verdade, bem, \u00e9 que somos todos bastante fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>O n\u00facleo mais profundo do senso de humor n\u00e3o est\u00e1 na piada, nem na leveza superficial do comportamento, mas numa forma de lucidez sobre si mesmo. \u00c9 o ponto em que a pessoa deixa de se tomar como medida de todas as coisas e passa a se reconhecer como parte de um todo maior, limitado e, por isso mesmo, humano. S\u00e3o Thomas More exprime isso com precis\u00e3o espiritual ao sugerir que certas tenta\u00e7\u00f5es n\u00e3o se combatem apenas com esfor\u00e7o dram\u00e1tico, mas com um gesto de desativa\u00e7\u00e3o interior: o desprezo sereno. H\u00e1 pensamentos e impulsos que perdem for\u00e7a quando deixam de ser tratados como absolutamente importantes. A ironia, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 fuga, mas desarme. H\u00e1, ali\u00e1s, uma ora\u00e7\u00e3o tradicional atribu\u00edda a Thomas More, que pede a Deus n\u00e3o apenas alegria, mas uma alma livre de inquieta\u00e7\u00f5es centradas no pr\u00f3prio eu. Antes mesmo do riso, pede-se a liberta\u00e7\u00e3o de um tipo de interioridade fechada, continuamente ocupada consigo mesma. O humor, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 um adorno da vida espiritual, mas um efeito colateral da humildade. E tamb\u00e9m C. S. Lewis, ao retomar esse imagin\u00e1rio em suas <em>Cartas de um diabo a seu aprendiz<\/em>, transforma essa intui\u00e7\u00e3o numa verdadeira pedagogia espiritual: o orgulho n\u00e3o suporta ser ridicularizado. Ele precisa de solenidade para sobreviver. Quando perde o palco, perde tamb\u00e9m o dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Talvez uma das caracter\u00edsticas mais marcantes das pessoas maduras seja justamente essa reconcilia\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria imperfei\u00e7\u00e3o. Elas n\u00e3o ignoram seus defeitos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vivem obcecadas por eles. N\u00e3o passam o tempo contemplando a pr\u00f3pria imagem, seja para admirar-se, seja para condenar-se. Simplesmente seguem adiante. E assim se vai longe! Adiante e adiante, sempre sorrindo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um sorriso n\u00e3o elimina diferen\u00e7as, mas desarma e mostra que reconhecemos no outro algu\u00e9m que merece respeito. (Foto: Ivana Tom\u00e1\u0161kov\u00e1\/Pixabay)&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":520507,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-520506","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/520506","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=520506"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/520506\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/520507"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=520506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=520506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=520506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}