{"id":518506,"date":"2026-06-27T12:27:16","date_gmt":"2026-06-27T16:27:16","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=518506"},"modified":"2026-06-27T12:27:16","modified_gmt":"2026-06-27T16:27:16","slug":"os-25-maiores-livros-brasileiros-de-nao-ficcao-deste-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=518506","title":{"rendered":"Os 25 maiores livros brasileiros de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o deste s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Al\u00e9m de incompletas e controversas, as listas de livros s\u00e3o tamb\u00e9m potencialmente perigosas. Porque mesmo as melhores e mais honestas \u2013 sendo, naturalmente, apenas uma cole\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos \u2013 carregam uma pretens\u00e3o que costuma iludir os leitores m\u00e9dios. A maior parte desses leitores, ao receber uma rela\u00e7\u00e3o de nomes de publica\u00e7\u00f5es interessantes, passa a vista de alto a baixo, avalia e, por fim, coloca-a onde \u00e9 seu destino inexor\u00e1vel: a gaveta \u2013 n\u00e3o sem, antes, acalentar a sensa\u00e7\u00e3o de ter ficado um pouquinho mais inteligente pelo mero contato visual com uma por\u00e7\u00e3o de nomes de livros supostamente bons. Parafraseando Ortega y Gasset, concluamos: a obra de caridade mais pr\u00f3pria do nosso tempo \u00e9 n\u00e3o publicar listas de livros desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, organizamos mais uma lista de livros? \u00c9 que em abril deste ano, a <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em> publicou uma lista dos melhores livros brasileiros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XXI, fruto da consulta a cem especialistas convidados pelo jornal. Lembrando o t\u00edtulo do livro de Nelson Werneck Sodr\u00e9 publicado em 1960, o resultado da vota\u00e7\u00e3o dos jurados nos lan\u00e7ou a pergunta: ent\u00e3o s\u00e3o estes os livros que se devem ler para conhecer o Brasil? A resposta mais honesta nos pareceu ser: n\u00e3o exatamente.<\/p>\n<p>A iniciativa da <em>Folha de S\u00e3o Paulo <\/em>tem m\u00e9rito. Reunir um j\u00fari, pedir justificativas, divulgar crit\u00e9rios: provavelmente deu um trabalho danado, e o resultado \u2014 da etnografia de Davi Kopenawa ao relato historiogr\u00e1fico de Laurentino Gomes, passando por Lilia Schwarcz e Heloisa Starling \u2014 \u00e9 uma lista que merece ser discutida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, <em>curatore, traditore. <\/em>Toda lista traz a marca de seu idealizador. Quando observamos com aten\u00e7\u00e3o os cem nomes convidados pela Folha \u2014 majoritariamente oriundos do ecossistema de universidades, da grande imprensa e de institui\u00e7\u00f5es culturais de espectro ideol\u00f3gico bem definido \u2014, o resultado n\u00e3o surpreende, fruto que \u00e9 de um j\u00fari recrutado dentro de fronteiras intelectuais que n\u00e3o representam, por amostra, a produ\u00e7\u00e3o intelectual brasileira dos \u00faltimos vinte e cinco anos. A lista da <em>Folha <\/em>\u00e9 retrato fiel do pensamento progressista brasileiro contempor\u00e2neo e daquilo que ele tolera ler no limite de suas cren\u00e7as, ou seja, um retrato bastante incompleto da produ\u00e7\u00e3o intelectual brasileira dos \u00faltimos anos. N\u00e3o h\u00e1 ali liberalismo cl\u00e1ssico, nem conservadorismo filos\u00f3fico, n\u00e3o h\u00e1 livros de cr\u00edtica \u00e0 esquerda, n\u00e3o h\u00e1 pensamento cat\u00f3lico contempor\u00e2neo e n\u00e3o h\u00e1 filosofia acad\u00eamica de orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o progressista. \u00c9 que um j\u00fari de perfil homog\u00eaneo, por mais bem-intencionado que seja, n\u00e3o enxerga, no conjunto, o que est\u00e1 fora do seu pr\u00f3prio repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para ir al\u00e9m da lista da <em>Folha<\/em>, eu e o economista ga\u00facho Lucas Mendes convidamos quinze intelectuais, escritores e pesquisadores brasileiros de forma\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es deliberadamente diversas para responder \u00e0 mesma pergunta com crit\u00e9rios mais largos. Perguntamos n\u00e3o quais s\u00e3o os melhores livros \u2014 julgamento est\u00e9tico que dificilmente produz consenso \u2014, mas quais s\u00e3o os livros mais relevantes: aqueles que, independentemente de concordarmos com suas teses, contribu\u00edram de alguma forma para o debate de ideias no Brasil. A identifica\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia do livro foi delineada com base nos seguintes crit\u00e9rios: (i) O livro contribuiu para o debate de temas nacionais \u2013 debate hist\u00f3rico, sociol\u00f3gico, cultural, liter\u00e1rio, cient\u00edfico, jur\u00eddico etc? (ii) O livro contribuiu para o debate interno sobre temas n\u00e3o necessariamente nacionais \u2013 filosofia, pol\u00edtica internacional, ci\u00eancia, arte etc? (iii) Embora n\u00e3o tenha gerado debate relevante, o livro permitiu o estudo do tema proposto e sua compreens\u00e3o de maneira destacada?<\/p>\n<p>Apesar de contar com um n\u00famero bem menor de contribui\u00e7\u00f5es, parece-nos que chegamos a vinte e cinco livros que n\u00e3o podem ser ignorados por quem queira entender o pensamento brasileiro \u2013 ou produzido no Brasil \u2013 deste s\u00e9culo. A lista resultante re\u00fane, lado a lado, autores que normalmente n\u00e3o dividem o mesmo espa\u00e7o editorial \u2014 Paulo Arantes e Olavo de Carvalho, Elio Gaspari e Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez, Jos\u00e9 Murilo de Carvalho e Fl\u00e1vio Gordon. Essa conviv\u00eancia, rara nos debates p\u00fablicos nacionais, indica que o exerc\u00edcio funcionou: o resultado n\u00e3o \u00e9 um espelho invertido da lista da <em>Folha<\/em>, mas algo genuinamente mais plural \u2014 porque o j\u00fari que o produziu tamb\u00e9m era mais plural.<\/p>\n<p>Os dois livros mais votados foram <em>Get\u00falio<\/em>, de Lira Neto \u2013 considerado o mais ambicioso e rigoroso projeto biogr\u00e1fico do jornalismo liter\u00e1rio brasileiro contempor\u00e2neo, cobrindo desde as origens ga\u00fachas do pol\u00edtico at\u00e9 o suic\u00eddio de 1954. Segundo um dos jurados, \u201c\u00e9 a biografia que voc\u00ea precisa ler para entender o Brasil desde sempre\u201d; e <em>O M\u00ednimo que Voc\u00ea Precisa Saber para N\u00e3o Ser um Idiota<\/em>, de Olavo de Carvalho, \u201crespons\u00e1vel por apresentar as ideias de Olavo de Carvalho de maneira organizada para o grande p\u00fablico\u201d e \u201co livro mais amaldi\u00e7oado j\u00e1 publicado no Brasil\u201d, segundo a justificativa apresentada por dois jurados.<\/p>\n<p>Aos dois seguem outros seis: <em>\u00c0 Sombra da Modernidade: Ensaios sobre Antimodernismos<\/em>, de Fabr\u00edcio Tavares de Moraes (que busca mostrar que a posi\u00e7\u00e3o antimoderna n\u00e3o \u00e9 nostalgia reacion\u00e1ria, mas uma forma espec\u00edfica de lucidez), <em>A Organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, de Malu Gaspar (\u201cuma obra-prima da reportagem\u201d, na opini\u00e3o de um jurado), <em>A Poeira da Gl\u00f3ria<\/em>, de Martim Vasques da Cunha (uma hist\u00f3ria heterodoxa da literatura brasileira que esmi\u00fa\u00e7a o c\u00e2none consagrado pela cr\u00edtica e provoca desconforto em gregos e baianos), <em>Maldita Guerra: Nova Hist\u00f3ria da Guerra do Paraguai<\/em>, de Francisco Doratioto (livro que busca desmontar a tese de que o imperialismo brit\u00e2nico foi o motor do conflito, tese que transformava o Brasil num fantoche e Solano L\u00f3pez num her\u00f3i nacional mal compreendido), <em>Marxismo e Descend\u00eancia<\/em>, de Antonio Paim (na opini\u00e3o de um jurado, \u201cPaim \u00e9 o historiador das ideias filos\u00f3ficas brasileiras com produ\u00e7\u00e3o mais sistem\u00e1tica e maior amplitude cronol\u00f3gica\u201d, combinando nesta obra \u201cconhecimento interno da tradi\u00e7\u00e3o, dado que foi membro do PCB, com a perspectiva cr\u00edtica madura do pensamento liberal a que aderiu posteriormente\u201d) e <em>O Novo Tempo do Mundo<\/em>, de Paulo Eduardo Arantes (cuja tese central \u00e9 que o tempo hist\u00f3rico mudou de estrutura: sa\u00edmos de um regime em que o futuro funcionava como horizonte de expectativa e entramos num presente perp\u00e9tuo de gest\u00e3o de cat\u00e1strofes, onde a pol\u00edtica se reduz a administrar emerg\u00eancias sem projeto).<\/p>\n<p>Participaram da elei\u00e7\u00e3o, como jurados: Andr\u00e9 de Leones, Luis Villaverde, Pedro Adamy, Karleno Bocarro, Martim Vasques da Cunha, Dionisius Am\u00eandola, Alex Catharino, Hugo Langone, Gustavo Ferreira, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, F\u00e1bio Bertato, Jos\u00e9 Lor\u00eado Filho, Marize Sch\u00f6ns, Felipe Sabino e Jo\u00e3o Eigen. Nenhum deles votou em obras de sua pr\u00f3pria autoria. Para compor a lista final, os organizadores votaram, cada um, em um livro.<\/p>\n<p>Os demais livros eleitos \u2013 <em>A Metaf\u00edsica da Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, de Daniel Scherer, <em>Dom Pedro II<\/em>, de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho e <em>Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil<\/em>, de Jorge Caldeira, entre outros \u2013 fazem da lista um convite \u00e0 leitura e \u00e0 reflex\u00e3o. Mais do que uma rela\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos, o que gostar\u00edamos de ver no Brasil \u2013 a come\u00e7ar neste ano eleitoral, que promete nos bombardear com uma boa dose de elementos dispersivos \u2013 \u00e9 o renascimento da tradi\u00e7\u00e3o de debates que episodicamente fez parte de nossa cultura.<\/p>\n<p><strong>Bruno Magalh\u00e3es <\/strong>\u00e9 escritor e mestre em Filosofia pela PUC-SP, onde pesquisou a respeito do car\u00e1ter inici\u00e1tico da educa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica na obra de Plat\u00e3o. Graduado em Direito (UFMG), \u00e9 procurador da Rep\u00fablica em Belo Horizonte. <strong>Lucas Mendes <\/strong>\u00e9 graduado em Economia, com MBA em Gest\u00e3o e Mercado de Capitais. \u00c9 mestre em Filosofia e \u00c9tica (UFSM).<\/p>\n<p><strong>LIVROS BRASILEIROS DE N\u00c3O FIC\u00c7\u00c3O MAIS RELEVANTES DO S\u00c9CULO XXI<\/strong><\/p>\n<p>1. <strong><em>Get\u00falio<\/em><\/strong>, de Lira Neto \u2014 Companhia das Letras, 2012 (vol. 1: 1882\u20131930)<\/p>\n<p>2. <strong><em>O M\u00ednimo que Voc\u00ea Precisa Saber para N\u00e3o Ser um Idiota<\/em><\/strong>, de Olavo de Carvalho \u2014 Record, 2013<\/p>\n<p>3. <strong><em>\u00c0 Sombra da Modernidade: Ensaios sobre Antimodernos<\/em><\/strong>, de Fabr\u00edcio Tavares de Moraes \u2014 Academia Monergista, 2023<\/p>\n<p>4. <strong><em>A Organiza\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>, de Malu Gaspar \u2014 Companhia das Letras, 2020<\/p>\n<p>5. <strong><em>A Poeira da Gl\u00f3ria: Uma Inesperada Hist\u00f3ria da Literatura Brasileira<\/em><\/strong>, de Martim Vasques da Cunha \u2014 Record, 2015<\/p>\n<p>6. <strong><em>Maldita Guerra: Nova Hist\u00f3ria da Guerra do Paraguai<\/em><\/strong>, de Francisco Doratioto \u2014 Companhia das Letras, 2002<\/p>\n<p>7. <strong><em>Marxismo e Descend\u00eancia<\/em><\/strong>, de Antonio Paim \u2014 Vide Editorial, 2009<\/p>\n<p>8. <strong><em>O Novo Tempo do Mundo<\/em><\/strong>, de Paulo Arantes \u2014 Boitempo, 2014<\/p>\n<p>9. <strong><em>A Corrup\u00e7\u00e3o da Intelig\u00eancia<\/em><\/strong>, de Fl\u00e1vio Gordon \u2014 Record, 2017<\/p>\n<p>10. <strong><em>A Filosofia e Seu Inverso<\/em><\/strong>, de Olavo de Carvalho \u2014 Vide Editorial, 2012<\/p>\n<p>11. <strong><em>A Manilha e o Libambo: A \u00c1frica e a Escravid\u00e3o<\/em><\/strong>, de Alberto da Costa e Silva \u2014 Nova Fronteira, 2002<\/p>\n<p>12. <strong><em>A Metaf\u00edsica da Revolu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>, de Daniel Scherer \u2014 Edi\u00e7\u00f5es Santo Tom\u00e1s, 2021<\/p>\n<p>13. <strong><em>A Tirania dos Especialistas<\/em><\/strong>, de Martim Vasques da Cunha \u2014 Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2019<\/p>\n<p>14. <strong><em>As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucion\u00e1rios e a Reacion\u00e1rios<\/em><\/strong>, de Jo\u00e3o Pereira Coutinho \u2014 Tr\u00eas Estrelas, 2014<\/p>\n<p>15. <strong><em>Capanema: Biografia<\/em><\/strong>, de F\u00e1bio Silvestre Cardoso \u2014 Record, 2019<\/p>\n<p>16. <strong><em>Dom Pedro II<\/em><\/strong>, de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho \u2014 Companhia das Letras, 2007<\/p>\n<p>17. <strong><em>Hist\u00f3ria da Literatura Brasileira: da Carta de Caminha aos Contempor\u00e2neos<\/em><\/strong>, de Carlos Nejar \u2014 LeYa, 2011 (h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o anterior pela Relume Dumar\u00e1, 2007)<\/p>\n<p>18. <strong><em>Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil<\/em><\/strong>, de Jorge Caldeira \u2014 Esta\u00e7\u00e3o Brasil, 2017<\/p>\n<p>19. <strong><em>O Liberalismo Franc\u00eas: A Tradi\u00e7\u00e3o Doutrin\u00e1ria e sua Influ\u00eancia no Brasil<\/em><\/strong>, de Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez \u2014 Editora E.D.A., 2023<\/p>\n<p>20. <strong><em>Pare de Acreditar no Governo<\/em><\/strong>, de Bruno Garschagen \u2014 Record, 2015<\/p>\n<p>21. <strong><em>Pr\u00e9-Hist\u00f3ria e Hist\u00f3ria: As Institui\u00e7\u00f5es e as Ideias em seus Fundamentos Religiosos<\/em><\/strong>, de Maur\u00edcio G. Righi \u2014 \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2017<\/p>\n<p>22. <strong><em>Trincheira Tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio<\/em><\/strong>, de Ruy Castro \u2014 Companhia das Letras, 2025<\/p>\n<p>23. <strong><em>As Ilus\u00f5es Armadas<\/em><\/strong>, de Elio Gaspari \u2014 Companhia das Letras, 2002 (conjunto de <em>A Ditadura Envergonhada<\/em> e <em>A Ditadura Escancarada<\/em>)<\/p>\n<p>24. <strong><em>Estudos Neokantianos<\/em><\/strong>, de M\u00e1rio Ariel Gonz\u00e1lez Porta \u2014 Loyola, 2011<\/p>\n<p>25. <strong><em>Pa\u00eds dos Petralhas<\/em><\/strong>, de Reinaldo Azevedo \u2014 Record, 2008<\/p>\n<p><em>Bruno Magalh\u00e3es \u00e9 escritor e mestre em Filosofia pela PUC-SP, onde pesquisou a respeito do car\u00e1ter inici\u00e1tico da educa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica na obra de Plat\u00e3o. Graduado em Direito (UFMG), \u00e9 procurador da Rep\u00fablica em Belo Horizonte.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m de incompletas e controversas, as listas de livros s\u00e3o tamb\u00e9m potencialmente perigosas. 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