{"id":514402,"date":"2026-06-25T16:16:23","date_gmt":"2026-06-25T20:16:23","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=514402"},"modified":"2026-06-25T16:16:23","modified_gmt":"2026-06-25T20:16:23","slug":"irmandades-do-rosario-fe-e-resistencia-negra-em-ouro-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=514402","title":{"rendered":"Irmandades do Ros\u00e1rio: f\u00e9 e resist\u00eancia negra em Ouro Preto"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/25171049\/Santa-Ifigenia.jpeg.webp\" \/><span>No alto, ao centro, a Matriz de Santa Ifig\u00eania. Foto tirada por Paulo Cruz. (Foto: Paulo Cruz\/ Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cCom propriedade e justi\u00e7a, aplico aos Santos Elesb\u00e3o e Ifig\u00eania o egr\u00e9gio t\u00edtulo de Dois Atlantes da Eti\u00f3pia. Com justi\u00e7a, porque \u00e9 certo que usamos desta palavra \u02bbAtlante\u02bc falando em var\u00f5es ilustres, que, com valor, ci\u00eancia ou virtude sustentaram \u043e decoro e a gl\u00f3ria dos Reinos, Rep\u00fablicas e Monarquias [\u2026]. Remontam-se estes de sorte sobre as nuvens, que, avizinhando-se ao C\u00e9u, parece, que em seus ombros o sustentam para que nunca rendido com o seu mesmo peso, afrouxe e venha a cair sobre a terra.\u201d (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra Os dois atlantes de Eti\u00f3pia: Santo Elesb\u00e3o, Imperador XLVII da Abiss\u00ednia, advogado contra os perigos do mar; Santa Efig\u00eania, princesa da N\u00fabia, advogada contra os inc\u00eandios dos edif\u00edcios; ambos carmelitas, publicado em 1738)<\/p>\n<p>Estive novamente em Ouro Preto. Ap\u00f3s duas viagens para l\u00e1 no ano passado \u2013 que, inclusive, renderam uma s\u00e9rie de artigos aqui, nesta Gazeta do Povo (sobre <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/a-biblia-em-pedra-sabao-de-aleijadinho\/\">Aleijadinho<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/o-ceu-de-ataide\/\">Mestre Ata\u00edde<\/a>, por exemplo) \u2013, retornei com minha esposa para, mais uma vez, me maravilhar com tudo o que aquela cidade representa \u2013 para o Brasil de modo geral e para mim especificamente.<\/p>\n<p>Como o leitor deve saber, sou protestante; evang\u00e9lico, para ser preciso nos termos atuais. Mas isso n\u00e3o me impede de admirar a hist\u00f3ria e a espiritualidade barrocas do pa\u00eds \u2013 mais especificamente, de Minas Gerais \u2013, que reputo ser a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0s artes e \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica. A mulatice barroca de Aleijadinho e Ata\u00edde, na arquitetura e nas artes; de Jos\u00e9 Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Francisco Gomes da Rocha, na m\u00fasica sacra; e muitos outros mestres das artes, nascidos em Ouro Preto (antiga Vila Rica), muitos negros (na atual classifica\u00e7\u00e3o do IBGE), nos desnudam um Brasil que nos escapa, sobretudo nos tempos atuais, no qual tudo o que se relaciona a pessoas negras \u00e9 pautado, de um lado, pela subalternidade, e, por outro, pela vitimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouro Preto abriga o Brasil mais brasileiro de todos em seu esplendor m\u00e1ximo. O Brasil das contradi\u00e7\u00f5es, essencialmente pardo numa na\u00e7\u00e3o que, durante muito tempo, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/racismo-construcao-historica-republica-eugenismo\/\">se desejou branca<\/a>. O Brasil da f\u00e9 popular, da devo\u00e7\u00e3o m\u00edstica, da beleza r\u00fastica de suas ladeiras e de sua paisagem deslumbrante. Um <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/roger-scruton-barroco-aleijadinho\/\">para\u00edso recuperado<\/a> e mantido pela impon\u00eancia encantadora de suas igrejas. As horas e horas incans\u00e1veis que passei andando por aquelas ruas, atento em cada detalhe, em cada instante de gra\u00e7a, em cada suspiro de esperan\u00e7a, em cada marca de sofrimento, me levaram a um mergulho em mim mesmo, em pr\u00f3pria minha f\u00e9 e em meu amor pelo que \u00e9 belo \u2013 pelo nosso Belo.<\/p>\n<p>Cada uma daquelas igrejas guarda uma quantidade quase infinita de hist\u00f3rias, sobre as quais os in\u00fameros guias tur\u00edsticos se debru\u00e7am com aqueles que solicitam os seus favores. Desde a localiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a arquitetura, os detalhes esculpidos, as mensagens ocultas nas pinturas e entalhes, as disputas pol\u00edticas, as curiosidades e lendas que circundam as tradi\u00e7\u00f5es. Podemos falar do teto mulato de Ata\u00edde na Igreja de S\u00e3o Francisco (sobre o qual <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/o-ceu-de-ataide\/\">j\u00e1 falei<\/a>); sobre a singular Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos e seu formato el\u00edptico; sobre a suntuosidade dourada da Bas\u00edlica Menor de Nossa Senhora do Pilar, a igreja com a maior quantidade de ouro em MG (a segunda no Brasil); do t\u00famulo de Aleijadinho, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Dias, reaberta recentemente ap\u00f3s quase dez anos fechada para obras de restauro; ou, ainda, da localiza\u00e7\u00e3o privilegiad\u00edssima da Matriz de Santa Ifig\u00eania.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada uma daquelas igrejas guarda uma quantidade quase infinita de hist\u00f3rias, sobre as quais os in\u00fameros guias tur\u00edsticos se debru\u00e7am com aqueles que solicitam os seus favores<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas, desta vez, quero falar de algo que muito me chamou a aten\u00e7\u00e3o desde a primeira vez que estive em Ouro Preto: as Irmandades do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, representadas, na cidade, pela Igreja de Santa Ifig\u00eania e, obviamente, pela Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. Farei isso em duas partes, neste e no pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n<p>As irmandades religiosas n\u00e3o surgiram no Brasil, mas possuem ra\u00edzes na Europa medieval. Em Portugal, desde a Baixa Idade M\u00e9dia, entre os s\u00e9culos XIII e XIV, j\u00e1 existiam centenas de confrarias leigas organizadas em torno de diferentes crit\u00e9rios de pertencimento. Algumas reuniam membros de um mesmo of\u00edcio, como sapateiros, ferreiros ou pescadores; outras congregavam moradores de uma mesma freguesia ou bairro, devotos de determinado santo ou pessoas pertencentes a um mesmo estrato social. Al\u00e9m de promoverem a vida religiosa de seus integrantes, essas associa\u00e7\u00f5es desempenhavam importantes fun\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia m\u00fatua, oferecendo aux\u00edlio aos enfermos, apoio \u00e0s fam\u00edlias dos confrades e garantindo sepultamento digno e sufr\u00e1gios pelos mortos.<\/p>\n<p>Originalmente, essas confrarias n\u00e3o possu\u00edam car\u00e1ter \u00e9tnico, uma vez que a sociedade portuguesa medieval ainda n\u00e3o estava estruturada segundo categorias raciais semelhantes \u00e0s que se consolidariam posteriormente no mundo atl\u00e2ntico. Esse quadro come\u00e7ou a mudar a partir do s\u00e9culo XV, com a expans\u00e3o mar\u00edtima portuguesa e o crescimento da presen\u00e7a de africanos escravizados e libertos em cidades como Lisboa. Nesse contexto, surgiram confrarias destinadas especificamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra, como as irmandades de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, que conciliavam a devo\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica com pr\u00e1ticas de solidariedade e aux\u00edlio m\u00fatuo. Esse modelo institucional seria posteriormente transplantado para a Am\u00e9rica Portuguesa, onde encontraria condi\u00e7\u00f5es particulares de desenvolvimento, sobretudo nas regi\u00f5es de intensa concentra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o africana e afrodescendente, como \u00e9 o caso de Ouro Preto no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>De acordo com Julita Scarano, em <em>Devo\u00e7\u00e3o e Escravid\u00e3o \u2013 A Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos no Distrito Diamantino no S\u00e9culo XVIII<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cAs associa\u00e7\u00f5es leigas, irmandades, confrarias ou arquiconfrarias t\u00eam a reger-lhes um Compromisso, lei que estabelece os estatutos da organiza\u00e7\u00e3o, que deve ser conhecida e seguida por todos os membros que antes da admiss\u00e3o prestam juramento. Tamb\u00e9m disp\u00f5em de um corpo dirigente, a assim chamada Mesa. Os irm\u00e3os de Mesa, eleitos pelo grupo, s\u00e3o, por sua vez, os que t\u00eam direito de voto sempre que seja preciso resolver casos importantes para a organiza\u00e7\u00e3o. Tomando a Irmandade do Ros\u00e1rio do Distrito Diamantino como modelo, podemos ver que a Mesa consta dos seguintes elementos: o Juiz, geralmente mais de um; o Procurador, ou os Procuradores, cargo de alta responsabilidade, j\u00e1 que lhe cabe estar informado da vida particular de cada irm\u00e3o e proporcionar-lhe ajuda caso necess\u00e1rio, verificando tamb\u00e9m se s\u00e3o cumpridores de suas obriga\u00e7\u00f5es. Dos gr\u00eamios tamb\u00e9m fazem parte Escriv\u00e3o e Tesoureiro, que devem saber ler e escrever, al\u00e9m de outras figuras secund\u00e1rias. Nas irmandades de pretos h\u00e1 outros cargos que n\u00e3o t\u00eam cunho administrativo, como os de rei e rainha, que d\u00e3o grande prest\u00edgio e s\u00e3o sumamente honrosos.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m de promover a devo\u00e7\u00e3o religiosa por meio de missas, prociss\u00f5es e festas em honra de seus padroeiros, as irmandades desempenhavam um amplo conjunto de fun\u00e7\u00f5es assistenciais e administrativas. Prestavam aux\u00edlio financeiro aos irm\u00e3os necessitados, visitavam enfermos, custeavam sepultamentos e missas pelos falecidos, ofereciam formas de amparo \u00e0s fam\u00edlias dos confrades e administravam patrim\u00f4nio pr\u00f3prio, como igrejas, capelas, terrenos e outros bens. Em uma sociedade desprovida de sistemas p\u00fablicos de previd\u00eancia, assist\u00eancia social ou sa\u00fade, essas associa\u00e7\u00f5es constitu\u00edam uma importante rede de solidariedade, combinando fun\u00e7\u00f5es religiosas, beneficentes e de prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua para seus membros.<\/p>\n<p>Na classifica\u00e7\u00e3o social (e, por consequ\u00eancia, \u00e9tnica) das irmandades, nos diz Scarano que \u201co branco e o negro, o senhor e o escravo, constituem os extremos da escala social e \u00e9tnica, enquanto os diferentes matizes no tocante \u00e0 cor da pele v\u00e3o determinar os graus intermedi\u00e1rios. O branco cria o que podemos chamar \u02bbassocia\u00e7\u00f5es de altarmor\u02bc, construindo as igrejas mais ricas; ao passo que os pardos e negros ocupam ora os altares laterais, ora as igrejas situadas em lugares de menor destaque no aglomerado urbano\u201d. Ou seja:<\/p>\n<p>\u201cA cor assinalava a separa\u00e7\u00e3o dos grupos e havia restri\u00e7\u00f5es nesse sentido por parte das irmandades de brancos. Mas as confrarias de brancos e de pretos n\u00e3o eram, como tais, rivais ou inimigas. De modo geral, as rivalidades geralmente se estabeleciam entre grupos do mesmo n\u00edvel socioecon\u00f4mico, como aconteceu entre a Ordem Terceira de S. Francisco e a do Carmo, ou entre a de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio e a das Merc\u00eas. Os interesses pessoais, as rela\u00e7\u00f5es de amizade ou antagonismos frequentemente se sobrepunham aos interesses gerais, o que n\u00e3o era incomum no Brasil.\u201d<\/p>\n<p>Durante muito tempo, as Irmandades do Ros\u00e1rio foram interpretadas pela historiografia principalmente como espa\u00e7os de preserva\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia da cultura africana. Entretanto, estudos mais recentes t\u00eam demonstrado que essa leitura \u00e9 insuficiente. Essas confrarias eram institui\u00e7\u00f5es plenamente inseridas no universo do catolicismo colonial, reconhecidas pela Igreja e pela Coroa e organizadas segundo as normas do direito portugu\u00eas, mas que, ao mesmo tempo, ofereciam aos africanos e seus descendentes um espa\u00e7o de sociabilidade, solidariedade, reconstru\u00e7\u00e3o de identidades e preserva\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de origem.<\/p>\n<p>Assim, as Irmandades do Ros\u00e1rio, por exemplo, n\u00e3o podem ser compreendidas apenas como instrumentos de controle colonial nem exclusivamente como formas de resist\u00eancia cultural. Sua import\u00e2ncia reside justamente em seu car\u00e1ter h\u00edbrido: constitu\u00edam espa\u00e7os de aut\u00eantica devo\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, assist\u00eancia m\u00fatua e organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria; ao mesmo tempo em que permitiam a reelabora\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias africanas no contexto da sociedade escravista. Essa complexidade \u00e9 um dos aspectos que tornam as irmandades, especialmente a de Ouro Preto, um objeto privilegiado de estudo para a hist\u00f3ria social e religiosa do Brasil colonial.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima semana, aprofundaremos especificamente nas Irmandades do Ros\u00e1rio de Ouro Preto e nas particularidades das igrejas de Santa Ifig\u00eania e Nossa Senhora do Ros\u00e1rio \u2013 com men\u00e7\u00e3o honrosa \u00e0 Igreja de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Homens Pardos ou Bem Casados. At\u00e9 l\u00e1!<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No alto, ao centro, a Matriz de Santa Ifig\u00eania. Foto tirada por Paulo Cruz. 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