{"id":509708,"date":"2026-06-23T05:01:00","date_gmt":"2026-06-23T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=509708"},"modified":"2026-06-23T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-23T09:01:00","slug":"assedio-eleitoral-no-trabalho-nao-e-so-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=509708","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio eleitoral no trabalho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 opini\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\">\n<div class=\"postMainImage_post-main-image-info__AaDnR\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/16135754\/Jose-Cruz-Agencia-Brasil.jpg.webp\" \/><span>\u00c9 preciso dizer com todas as letras. Ass\u00e9dio eleitoral n\u00e3o se resume \u00e0 amea\u00e7a expl\u00edcita de demiss\u00e3o. A pr\u00e1tica pode se manifestar de forma muito mais sofisticada e, por isso mesmo, mais perigosa. (Foto: Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/span><\/div>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em ano eleitoral, o debate pol\u00edtico naturalmente ganha espa\u00e7o nas ruas, nas redes e nos espa\u00e7os de conviv\u00eancia. O que n\u00e3o pode ser naturalizado, no entanto, \u00e9 sua invas\u00e3o coercitiva no ambiente corporativo. Quando lideran\u00e7as, gestores ou empregadores utilizam a estrutura da empresa para constranger, induzir ou pressionar trabalhadores sobre em quem votar, deixa de existir qualquer zona cinzenta. Trata-se de ass\u00e9dio eleitoral, uma pr\u00e1tica ilegal, abusiva e frontalmente contr\u00e1ria aos princ\u00edpios mais b\u00e1sicos do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros recentes mostram que o problema n\u00e3o \u00e9 pontual, tampouco residual. Em 2024, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho registrou 965 den\u00fancias de ass\u00e9dio eleitoral ao longo do processo das elei\u00e7\u00f5es municipais, um salto expressivo em rela\u00e7\u00e3o aos pleitos anteriores. Ainda no in\u00edcio do primeiro turno, o painel do \u00f3rg\u00e3o j\u00e1 apontava mais de 500 ocorr\u00eancias em todo o pa\u00eds, evidenciando a escalada do problema.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>A liberdade de convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um direito fundamental assegurado constitucionalmente, assim como a dignidade da pessoa humana e a liberdade do voto. Quando a empresa interfere nesse espa\u00e7o, ela viola n\u00e3o apenas a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O dado \u00e9 alarmante por si s\u00f3, mas seu significado \u00e9 ainda mais grave. Ele revela que parte do ambiente corporativo brasileiro ainda convive com pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias que tentam transformar a depend\u00eancia econ\u00f4mica do trabalhador em instrumento de influ\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer com todas as letras. Ass\u00e9dio eleitoral n\u00e3o se resume \u00e0 amea\u00e7a expl\u00edcita de demiss\u00e3o. A pr\u00e1tica pode se manifestar de forma muito mais sofisticada e, por isso mesmo, mais perigosa. Ela aparece em reuni\u00f5es com discursos enviesados de lideran\u00e7as, em mensagens corporativas sugerindo \u201co melhor caminho para a empresa\u201d, em promessas de benef\u00edcios atreladas a determinados resultados eleitorais ou em coment\u00e1rios que insinuam consequ\u00eancias econ\u00f4micas caso certo candidato ven\u00e7a. Quando o trabalhador sente que sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode afetar sua estabilidade, sua imagem interna ou sua perman\u00eancia no emprego, a viol\u00eancia j\u00e1 est\u00e1 instalada.<\/p>\n<p>O aspecto mais preocupante \u00e9 que, em muitos casos, essa conduta se esconde sob a apar\u00eancia de opini\u00e3o pessoal da lideran\u00e7a. Mas n\u00e3o h\u00e1 simetria de poder nessa rela\u00e7\u00e3o. A fala de um gestor dentro do ambiente de trabalho carrega peso institucional, mesmo quando travestida de informalidade.<\/p>\n<p>Um coment\u00e1rio casual feito por quem tem poder de avalia\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o ou desligamento n\u00e3o \u00e9 apenas opini\u00e3o. \u00c9 potencialmente um mecanismo de intimida\u00e7\u00e3o. A cultura organizacional, quando permissiva, transforma o abuso em rotina e a press\u00e3o em algo silenciosamente aceito.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Tribunal Superior Eleitoral e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho refor\u00e7aram essa gravidade ao firmarem coopera\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para combater a pr\u00e1tica nas elei\u00e7\u00f5es. O TSE reconhece que o uso da estrutura empresarial para constranger trabalhadores pode configurar abuso de poder econ\u00f4mico, com repercuss\u00f5es n\u00e3o apenas trabalhistas, mas tamb\u00e9m eleitorais.<\/p>\n<p>Sob a perspectiva jur\u00eddica, n\u00e3o h\u00e1 margem para relativiza\u00e7\u00e3o. A liberdade de convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um direito fundamental assegurado constitucionalmente, assim como a dignidade da pessoa humana e a liberdade do voto. Quando a empresa interfere nesse espa\u00e7o, ela viola n\u00e3o apenas a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, mas princ\u00edpios estruturantes da democracia. O voto pertence ao cidad\u00e3o, n\u00e3o ao empregador. O contrato de trabalho n\u00e3o concede qualquer prerrogativa sobre a consci\u00eancia pol\u00edtica do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma dimens\u00e3o ainda mais profunda que precisa ser enfrentada: a cultural. Empresas que toleram ou reproduzem esse tipo de conduta revelam uma falha s\u00e9ria de governan\u00e7a e \u00e9tica corporativa. Em um cen\u00e1rio em que ESG, compliance e cultura organizacional s\u00e3o pilares estrat\u00e9gicos, permitir press\u00e3o pol\u00edtica interna \u00e9 incompat\u00edvel com qualquer discurso moderno de gest\u00e3o de pessoas. N\u00e3o se trata apenas de evitar passivo jur\u00eddico. Trata-se de proteger um ambiente de confian\u00e7a, respeito e seguran\u00e7a psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Em 2026, ano em que o debate pol\u00edtico tende a se intensificar nacionalmente, o setor corporativo precisa assumir uma posi\u00e7\u00e3o clara e inegoci\u00e1vel. Neutralidade institucional, orienta\u00e7\u00e3o formal \u00e0s lideran\u00e7as, canais seguros de den\u00fancia e resposta r\u00e1pida a desvios n\u00e3o s\u00e3o mais diferenciais. S\u00e3o obriga\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de governan\u00e7a respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Porque, no fim, o ass\u00e9dio eleitoral dentro das empresas n\u00e3o \u00e9 apenas uma infra\u00e7\u00e3o. \u00c9 a tentativa de transferir rela\u00e7\u00f5es de poder econ\u00f4micas para o campo da liberdade individual. E, toda vez que isso acontece, n\u00e3o \u00e9 apenas o trabalhador que perde. \u00c9 a pr\u00f3pria democracia que sai ferida.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em><strong>Larissa Mota<\/strong> \u00e9 advogada, especializada em Rela\u00e7\u00f5es Trabalhistas e Sindicais pelo Centro Universit\u00e1rio Braz Cubas. Em 2005, fundou a Ex\u00edmia, BPO especializada em terceiriza\u00e7\u00e3o de folha de pagamento e gest\u00e3o de benef\u00edcios.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso dizer com todas as letras. Ass\u00e9dio eleitoral n\u00e3o se resume \u00e0 amea\u00e7a expl\u00edcita de demiss\u00e3o. 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