{"id":508449,"date":"2026-06-22T05:01:00","date_gmt":"2026-06-22T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=508449"},"modified":"2026-06-22T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-22T09:01:00","slug":"o-mundo-rearmado-e-a-ilusao-estrategica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=508449","title":{"rendered":"O mundo rearmado e a ilus\u00e3o estrat\u00e9gica brasileira"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco hist\u00f3rico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequ\u00eancia de guerras recentes, talvez represente uma transforma\u00e7\u00e3o profunda na ordem internacional. Segundo levantamento do <em>Stockholm International Peace Research Institute<\/em> (SIPRI), principal centro independente de estudos estrat\u00e9gicos do mundo, os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilh\u00f5es em 2025, o maior valor registrado desde o in\u00edcio das medi\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas consolidadas ap\u00f3s o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Trata-se do d\u00e9cimo primeiro ano consecutivo de crescimento. Em apenas uma d\u00e9cada, o aumento acumulado ultrapassou 40%. Pela primeira vez desde os momentos mais tensos do s\u00e9culo XX, praticamente todas as regi\u00f5es do planeta ampliaram simultaneamente seus or\u00e7amentos de defesa.<\/p>\n<p>Esse aumento n\u00e3o \u00e9 apenas uma resposta epis\u00f3dica \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia, \u00e0 rivalidade sino-americana, ao agravamento das tens\u00f5es no Indo-Pac\u00edfico ou ao intermin\u00e1vel conflito no Oriente M\u00e9dio. O que est\u00e1 em curso \u00e9 uma mudan\u00e7a estrutural na percep\u00e7\u00e3o das grandes pot\u00eancias sobre o futuro da ordem internacional, baseada na dissolu\u00e7\u00e3o gradual da arquitetura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e psicol\u00f3gica que sustentou o mundo p\u00f3s-1989.<\/p>\n<p>O sistema internacional constru\u00eddo ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim fundava-se em tr\u00eas premissas: a globaliza\u00e7\u00e3o reduziria incentivos para guerras ou competi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas entre grandes pot\u00eancias; a interdepend\u00eancia produtiva geraria estabilidade; e a hegemonia americana funcionaria como garantia estrutural da ordem. Pa\u00edses profundamente integrados n\u00e3o fariam guerras entre si porque os custos seriam altos demais. O com\u00e9rcio substituiria a geopol\u00edtica. Mercados substituiriam disputas de poder. Cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o produziriam estabilidade.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese moldou a arquitetura global p\u00f3s-1989. A Europa desmontou parte significativa de suas capacidades militares. A Alemanha transformou-se em uma pot\u00eancia econ\u00f4mica deliberadamente desmilitarizada e, por que n\u00e3o, emasculada. A Otan entrou em uma crise existencial ap\u00f3s o colapso sovi\u00e9tico. Falava-se em &#8220;dividendos da paz&#8221;. Defesa passou a ser vista como resqu\u00edcio de um s\u00e9culo ultrapassado, coisa de brucutus iletrados. Durante quatro d\u00e9cadas, o Ocidente viveu o que o historiador marxista brit\u00e2nico Eric Hobsbawm chamou de &#8220;anomalia hist\u00f3rica&#8221;, um raro per\u00edodo em que as grandes pot\u00eancias n\u00e3o se preparavam para guerras de alta intensidade entre si.<\/p>\n<p>Esse diagn\u00f3stico revelou-se equivocado. O p\u00f3s-Guerra Fria n\u00e3o aboliu a geopol\u00edtica, apenas a suspendeu temporariamente sob a unipolaridade americana, ou unimultipolaridade, nos termos do cientista pol\u00edtico americano Samuel Huntington, que descreveu um sistema internacional h\u00edbrido, com os EUA como \u00fanica pot\u00eancia militar global, mas com o poder econ\u00f4mico repartido entre v\u00e1rios centros.<\/p>\n<p>Essas premissas entraram em colapso simultaneamente. A ascens\u00e3o chinesa, a recupera\u00e7\u00e3o militar russa, o desgaste relativo da capacidade americana de impor ordem global ap\u00f3s o Iraque e o Afeganist\u00e3o e a crescente instrumentaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da tecnologia recolocaram a competi\u00e7\u00e3o entre Estados no centro da pol\u00edtica internacional. Sistemas unipolares raramente s\u00e3o permanentes, e a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade internacional quase nunca se comporta como imaginam os te\u00f3ricos liberais do fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econ\u00f4mico. Diferentemente do que ocorre nas grandes pot\u00eancias, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de pol\u00edtica industrial, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, forma\u00e7\u00e3o de capital humano avan\u00e7ado e proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Estado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O crescimento dos gastos militares n\u00e3o se apresenta, portanto, apenas como fen\u00f4meno or\u00e7ament\u00e1rio, mas civilizacional. As grandes pot\u00eancias j\u00e1 n\u00e3o acreditam que o futuro ser\u00e1 necessariamente mais est\u00e1vel que o passado. O mundo voltou a operar sob a l\u00f3gica da inseguran\u00e7a estrutural e da geopol\u00edtica cl\u00e1ssica, e essa talvez seja a transforma\u00e7\u00e3o mais importante do s\u00e9culo XXI at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Como advertiam Morgenthau, Kennan e Kissinger, competi\u00e7\u00e3o entre Estados, equil\u00edbrio de poder e percep\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade jamais deixaram de constituir o n\u00facleo organizador da pol\u00edtica internacional. Entretanto, a ideia de que prosperidade econ\u00f4mica produz automaticamente converg\u00eancia pol\u00edtica dominou o pensamento estrat\u00e9gico das elites ocidentais desde a d\u00e9cada de 1990, moldando a rela\u00e7\u00e3o com a China, a R\u00fassia e a arquitetura financeira global. O erro anal\u00edtico fundamental dessa premissa foi imaginar que racionalidade econ\u00f4mica substituiria racionalidade hist\u00f3rica, identit\u00e1ria e estrat\u00e9gica e que a burocracia tecnocr\u00e1tica substituiria a for\u00e7a dos nacionalismos. N\u00e3o substituiu. N\u00e3o substitui.<\/p>\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o confundiu uma conjuntura hist\u00f3rica espec\u00edfica com uma real transforma\u00e7\u00e3o da natureza da pol\u00edtica internacional. Historicamente, for\u00e7as centr\u00edfugas de fragmenta\u00e7\u00e3o t\u00eam se mostrado mais resilientes do que for\u00e7as centr\u00edpetas de converg\u00eancia. A China usou precisamente a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para financiar sua ascens\u00e3o, incorporando cadeias globais, absorvendo tecnologia, expandindo capacidade manufatureira, acumulando reservas gigantescas e construindo um modelo de capitalismo de Estado orientado para competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de longo prazo.<\/p>\n<p>A R\u00fassia seguiu trajet\u00f3ria distinta, mas igualmente reveladora. Enquanto o Ocidente acreditava que a integra\u00e7\u00e3o reduziria impulsos revisionistas, Moscou interpretava o avan\u00e7o da Otan em sua periferia como amea\u00e7a existencial. A invas\u00e3o da Ge\u00f3rgia, em 2008, a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia, em 2014, e a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, em 2022, demonstraram que c\u00e1lculos geopol\u00edticos continuavam prevalecendo sobre a racionalidade econ\u00f4mica estrita.<\/p>\n<p>O caso iraniano \u00e9 ainda mais emblem\u00e1tico e revela outra limita\u00e7\u00e3o dessa vis\u00e3o liberal: a cren\u00e7a de que san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e isolamento financeiro seriam suficientes para neutralizar ambi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas de Estados revisionistas. Submetido durante d\u00e9cadas a pesadas restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o Ir\u00e3 n\u00e3o abandonou seus objetivos geopol\u00edticos. Ao contr\u00e1rio. Desenvolveu sofisticada arquitetura de guerra assim\u00e9trica baseada em m\u00edsseis bal\u00edsticos, drones, guerra cibern\u00e9tica e redes de <em>proxies<\/em> regionais, tornando-se um dos principais polos de instabilidade do Oriente M\u00e9dio. Em vez de buscar simetria militar convencional com os EUA, Teer\u00e3 construiu capacidade de impor custos desproporcionais a advers\u00e1rios muito superiores militarmente. O caso iraniano demonstra que, em contextos de rivalidade estrat\u00e9gica profunda, resili\u00eancia ideol\u00f3gica, percep\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a existencial e ambi\u00e7\u00e3o regional prevalecem sobre a racionalidade econ\u00f4mica convencional.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a tornou-se expl\u00edcita na pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria americana. As recentes <em>National Security Strategy<\/em> (NSS) e <em>National Defense Strategy<\/em> (NDS) abandonaram a linguagem da globaliza\u00e7\u00e3o e passaram a definir o cen\u00e1rio internacional como competi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica entre grandes pot\u00eancias, percep\u00e7\u00e3o que ajuda a explicar por que os gastos militares crescem simultaneamente em praticamente todas as regi\u00f5es estrat\u00e9gicas do planeta.<\/p>\n<p>A nova corrida armamentista, entretanto, n\u00e3o se parece com a do s\u00e9culo XX. O poder militar j\u00e1 n\u00e3o se mede apenas por arsenais nucleares, divis\u00f5es blindadas, superioridade a\u00e9rea e naval e capacidade industrial pesada. Hoje, a natureza do poder tornou-se mais difusa, sofisticada e integrada \u00e0 estrutura econ\u00f4mica das sociedades, \u00e0s cadeias produtivas, \u00e0 infraestrutura digital, \u00e0 intelig\u00eancia artificial, aos semicondutores, \u00e0s telecomunica\u00e7\u00f5es, ao espa\u00e7o, \u00e0 energia, \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, ao espa\u00e7o virtual e ao controle de dados. Defesa, tecnologia, agro, ind\u00fastria, com\u00e9rcio, seguran\u00e7a p\u00fablica e soberania econ\u00f4mica deixaram de ser esferas separadas para formar um \u00fanico ecossistema de poder nacional.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria \u00e9 instrutiva. Na Guerra do Golfo, os EUA demonstraram uma superioridade tecnol\u00f3gica in\u00e9dita. \u00c0 \u00e9poca, muitos acreditaram que o futuro da guerra seria marcado apenas pela supremacia tecnol\u00f3gica americana. Mas as guerras do Iraque e do Afeganist\u00e3o revelaram os limites da superioridade convencional diante de insurg\u00eancias relativamente baratas e altamente adapt\u00e1veis.<\/p>\n<p>Posteriormente, a ascens\u00e3o chinesa exp\u00f4s outra dimens\u00e3o do problema: competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica depende n\u00e3o apenas de superioridade militar direta, mas da capacidade de controlar cadeias industriais cr\u00edticas, dominar tecnologias emergentes e reduzir vulnerabilidades econ\u00f4micas. Pequim n\u00e3o buscou apenas expandir suas For\u00e7as Armadas, mas construir autonomia sist\u00eamica de poder, ao controlar infraestrutura log\u00edstica global, ampliar dom\u00ednio sobre minerais cr\u00edticos, liderar setores estrat\u00e9gicos e reduzir depend\u00eancias tecnol\u00f3gicas externas.<\/p>\n<p>Reativamente, Washington passou a restringir exporta\u00e7\u00f5es de semicondutores avan\u00e7ados, subsidiar a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de chips, reorganizar cadeias produtivas estrat\u00e9gicas e tratar setores econ\u00f4micos inteiros como ativos de seguran\u00e7a nacional. A pol\u00edtica industrial, algo que parecia quase heresia liberal nos anos 1990, voltou ao centro da estrat\u00e9gia geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O conflito na Ucr\u00e2nia acelerou essa transforma\u00e7\u00e3o e revelou a nova natureza da guerra. Drones relativamente baratos passaram a destruir plataformas militares multimilion\u00e1rias, alterando a l\u00f3gica tradicional de custo-benef\u00edcio dos conflitos. Sat\u00e9lites comerciais tornaram-se instrumentos operacionais essenciais, e empresas privadas de tecnologia passaram a exercer influ\u00eancia direta sobre o campo de batalha. Guerra eletr\u00f4nica, intelig\u00eancia em tempo real, integra\u00e7\u00e3o digital, capacidade de adapta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, reposi\u00e7\u00e3o industrial cont\u00ednua e resili\u00eancia log\u00edstica tornaram-se t\u00e3o importantes quanto blindados, superioridade a\u00e9rea e naval ou sofistica\u00e7\u00e3o militar convencional. A guerra voltou, em grande medida, a ser uma disputa entre Estados capazes de mobilizar sistemas nacionais integrados de poder.<\/p>\n<p>Talvez seja esse o principal fen\u00f4meno geopol\u00edtico da atualidade: a militariza\u00e7\u00e3o gradual da economia internacional, n\u00e3o no sentido cl\u00e1ssico das economias de guerra total do s\u00e9culo XX, mas no de que com\u00e9rcio, energia, tecnologia, dados e cadeias produtivas passaram a ser tratados como ativos centrais de seguran\u00e7a nacional. Os EUA compreenderam isso ao iniciar um processo de reindustrializa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. A China j\u00e1 opera nessa l\u00f3gica h\u00e1 d\u00e9cadas. A Europa tenta adaptar-se rapidamente ap\u00f3s perceber sua vulnerabilidade energ\u00e9tica e industrial diante da R\u00fassia e sua vulnerabilidade econ\u00f4mica diante dos EUA.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o caso brasileiro torna-se particularmente revelador. O Brasil re\u00fane praticamente todos os elementos de uma pot\u00eancia geopol\u00edtica: dimens\u00f5es continentais, abund\u00e2ncia de recursos naturais, lideran\u00e7a agroalimentar, reservas energ\u00e9ticas estrat\u00e9gicas, vasta proje\u00e7\u00e3o no Atl\u00e2ntico Sul e uma das maiores biodiversidades do planeta. Sob qualquer crit\u00e9rio geopol\u00edtico cl\u00e1ssico, deveria possuir uma cultura estrat\u00e9gica sofisticada.<\/p>\n<p>Entretanto, talvez nenhuma grande pot\u00eancia territorial tenha desenvolvido percep\u00e7\u00e3o t\u00e3o limitada sobre sua pr\u00f3pria dimens\u00e3o estrat\u00e9gica. Parte disso possui ra\u00edzes hist\u00f3ricas. Diferentemente da Europa, o Brasil n\u00e3o foi moldado por guerras interestatais recorrentes. Desde a Guerra do Paraguai, o pa\u00eds n\u00e3o enfrentou amea\u00e7as externas existenciais.<\/p>\n<p>Aos poucos, consolidou-se a percep\u00e7\u00e3o difusa de um \u201cisolamento geopol\u00edtico benigno\u201d, que conformou e condicionou uma \u201cilus\u00e3o estrat\u00e9gica brasileira\u201d, assentada em um pacifismo estrutural involunt\u00e1rio e em cinco pressupostos: a cren\u00e7a de que a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica protegeria o pa\u00eds; a de que a diplomacia poderia substituir o poder material; a de que recursos naturais gerariam relev\u00e2ncia autom\u00e1tica; a de que a aus\u00eancia de guerras regionais equivaleria \u00e0 aus\u00eancia de amea\u00e7as; e a de que a soberania seria garantida prioritariamente pelo direito internacional, e n\u00e3o pela capacidade nacional.<\/p>\n<p>Essa ilus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um tra\u00e7o difuso da cultura pol\u00edtica nacional, mas uma doutrina operante dos que atualmente \u201cformulam\u201d nossa pol\u00edtica externa. O segundo e o quinto pressupostos constituem o pr\u00f3prio sistema nervoso do atual pensamento diplom\u00e1tico. Morgenthau lembrava que a diplomacia \u00e9 o c\u00e9rebro do poder nacional, n\u00e3o seu substituto; entre n\u00f3s, inverteu-se a equa\u00e7\u00e3o, e passou-se a crer que a eloqu\u00eancia, o prest\u00edgio e o argumento jur\u00eddico poderiam compensar a aus\u00eancia de capacidade material. O resultado \u00e9 uma diplomacia farta de princ\u00edpios e escassa de instrumentos.<\/p>\n<p>Trata-se de uma heran\u00e7a que j\u00e1 foi racional. Para um Estado fraco, fazer-se \u201cpa\u00eds do direito internacional\u201d era uma estrat\u00e9gia inteligente de sobreviv\u00eancia. Mas o tempo do Bar\u00e3o do Rio Branco, em que a diplomacia brasileira pensava em termos de territ\u00f3rio e poder, cedeu lugar a um juridicismo que toma a norma como anterior \u00e0 for\u00e7a, quando a hist\u00f3ria ensina o contr\u00e1rio: o direito acompanha o poder, raramente o precede.<\/p>\n<p>A esse desvio doutrin\u00e1rio soma-se um v\u00edcio institucional. O Brasil n\u00e3o disp\u00f5e de uma inst\u00e2ncia capaz de fundir diplomacia, defesa, economia, tecnologia e intelig\u00eancia em uma estrat\u00e9gia \u00fanica: o Itamaraty pensa em um silo, o Minist\u00e9rio da Defesa em outro, a \u00e1rea econ\u00f4mica em um terceiro, e a pol\u00edtica externa \u00e9 conduzida como uma sequ\u00eancia de gestos e rea\u00e7\u00f5es, n\u00e3o como execu\u00e7\u00e3o de um des\u00edgnio. Onde os EUA preservam, de governo a governo, a continuidade de suas estrat\u00e9gias, o Brasil reescreve a sua a cada mandato, oscilando entre alinhamento autom\u00e1tico e terceiro-mundismo reflexo, sem jamais acumular capital estrat\u00e9gico ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Da\u00ed uma cegueira espec\u00edfica e perigosa: a da interdepend\u00eancia convertida em arma. Enquanto as grandes pot\u00eancias mapeiam vulnerabilidades e transformam cadeias de suprimento, sistemas de pagamento e fluxos de dados em instrumentos de coer\u00e7\u00e3o, os formuladores brasileiros seguem lendo com\u00e9rcio e investimento como rela\u00e7\u00f5es puramente comerciais, de ganhos m\u00fatuos. Negociamos acesso a mercados enquanto outros desenham gargalos. E, porque a estrat\u00e9gia n\u00e3o se ensina, o d\u00e9ficit se reproduz: a forma\u00e7\u00e3o de nossas elites e a dos pr\u00f3prios diplomatas subestima tecnologia, geoeconomia, defesa e intelig\u00eancia, perpetuando uma classe dirigente que n\u00e3o foi treinada para pensar em termos de poder e que, por isso, transmite a pr\u00f3pria cegueira \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p>E segue-se operando com pressupostos estrat\u00e9gicos de um mundo que deixou de existir. Vulnerabilidades estrat\u00e9gicas j\u00e1 n\u00e3o se manifestam apenas na forma cl\u00e1ssica de invas\u00f5es militares. Depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, fragilidade cibern\u00e9tica, precariedade log\u00edstica e infraestrutural, insufici\u00eancia industrial e disputa por recursos cr\u00edticos passaram a integrar o n\u00facleo da competi\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O Brasil depende externamente de semicondutores, sistemas avan\u00e7ados de comunica\u00e7\u00e3o, sat\u00e9lites, GPS, componentes eletr\u00f4nicos cr\u00edticos, sistemas antia\u00e9reos, <em>smart weapons<\/em>, defesa cibern\u00e9tica, intelig\u00eancia artificial, drones, sensores e fertilizantes. Em muitos desses setores, a depend\u00eancia externa, mais do que econ\u00f4mica, \u00e9 geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>E, justamente quando o mundo amplia investimentos em defesa e reindustrializa setores estrat\u00e9gicos, o Brasil segue dire\u00e7\u00e3o oposta. Sob Lula 3, o or\u00e7amento de defesa sofreu retra\u00e7\u00e3o significativa, caindo de cerca de 1,5% do PIB para aproximadamente 1,1%, com redu\u00e7\u00e3o acumulada superior a 11% nas despesas discricion\u00e1rias, justamente a parcela respons\u00e1vel por investimentos, manuten\u00e7\u00e3o operacional, aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos e moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O contraste \u00e9 eloquente. Europeus que durante d\u00e9cadas reduziram seus gastos militares passaram a elevar rapidamente seus or\u00e7amentos ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia. A Alemanha criou um fundo extraordin\u00e1rio de \u20ac 100 bilh\u00f5es para reequipamento militar e assumiu o compromisso de atingir 2% do PIB em defesa. A Pol\u00f4nia j\u00e1 ultrapassa 4% do PIB. Os EUA mant\u00eam gastos superiores a US$ 950 bilh\u00f5es anuais. A China segue ampliando seus investimentos em taxas reais de crescimento acima da expans\u00e3o econ\u00f4mica global. Mesmo pot\u00eancias m\u00e9dias asi\u00e1ticas v\u00eam acelerando programas de moderniza\u00e7\u00e3o naval, espacial, cibern\u00e9tica e industrial.<\/p>\n<p>O Brasil, em sentido inverso, reduziu sua capacidade relativa de investimento justamente quando se volta a tratar seguran\u00e7a, ind\u00fastria e tecnologia como dimens\u00f5es insepar\u00e1veis da soberania. O debate nacional continua aprisionado a simplifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e fiscais de curto prazo, oscilando entre dois chav\u00f5es igualmente pobres \u2013 \u201co Brasil gasta demais com militares\u201d ou \u201co Brasil investe pouco em defesa\u201d \u2013 que ignoram o n\u00facleo real do problema.<\/p>\n<p>A fragilidade brasileira n\u00e3o reside apenas no volume de recursos, mas na pr\u00f3pria arquitetura da defesa nacional. O or\u00e7amento militar permanece rigidamente consumido por despesas obrigat\u00f3rias, especialmente pessoal e Previd\u00eancia, comprimindo o investimento em moderniza\u00e7\u00e3o operacional, pesquisa, inova\u00e7\u00e3o, prontid\u00e3o log\u00edstica e desenvolvimento tecnol\u00f3gico e produzindo um paradoxo: For\u00e7as Armadas relativamente grandes em efetivo, mas com limitada capacidade de dissuas\u00e3o de alta intensidade.<\/p>\n<p>Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econ\u00f4mico. Diferentemente do que ocorre nas grandes pot\u00eancias, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de pol\u00edtica industrial, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, forma\u00e7\u00e3o de capital humano avan\u00e7ado e proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Estado. A consequ\u00eancia foi uma esp\u00e9cie de isolamento em rela\u00e7\u00e3o aos grandes ciclos de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, tecnol\u00f3gica e industrial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa desconex\u00e3o produziu efeitos cumulativos. O Brasil perdeu densidade industrial em setores cr\u00edticos, ampliou depend\u00eancias tecnol\u00f3gicas externas e reduziu sua capacidade de transformar projetos militares em plataformas estruturantes de desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Essa fragmenta\u00e7\u00e3o enfraqueceu a pr\u00f3pria cultura geopol\u00edtica do Estado brasileiro. Sem integra\u00e7\u00e3o entre defesa, ind\u00fastria, tecnologia, infraestrutura, energia e planejamento econ\u00f4mico, o pa\u00eds perdeu capacidade de formular uma vis\u00e3o de longo prazo compat\u00edvel com sua dimens\u00e3o continental. O resultado \u00e9 uma estrutura que preserva s\u00edmbolos de poder estatal, mas com dificuldade crescente de converter potencial geogr\u00e1fico, econ\u00f4mico e demogr\u00e1fico em influ\u00eancia estrat\u00e9gica efetiva.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma das poucas pot\u00eancias territoriais cujas elites perderam quase completamente o h\u00e1bito de pensar geopoliticamente. Pensa-se excessivamente em gest\u00e3o e cada vez menos em poder; em equil\u00edbrio fiscal de curto prazo, mas n\u00e3o em resili\u00eancia estrat\u00e9gica; em <em>commodities<\/em>, mas n\u00e3o em autonomia tecnol\u00f3gica; em or\u00e7amento anual, mas n\u00e3o em proje\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de longo prazo.<\/p>\n<p>Isso ajuda a explicar por que projetos fundamentais sofrem contingenciamentos sucessivos, interrup\u00e7\u00f5es e instabilidade or\u00e7ament\u00e1ria permanente, em um cen\u00e1rio no qual o Brasil permanece aprisionado \u00e0 l\u00f3gica fiscalista anual, \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e \u00e0 aus\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica de defesa e projeto nacional de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o salta aos olhos porque o Brasil possui programas tecnologicamente sofisticados, como o Prosub, o Gripen, o KC-390, as Fragatas Tamandar\u00e9 e iniciativas espaciais e cibern\u00e9ticas, capazes de gerar encadeamentos industriais relevantes, transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica, forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra altamente qualificada e fortalecimento da autonomia produtiva nacional. No entanto, \u00e0 semelhan\u00e7a do Sisfron, sufocado h\u00e1 quase 20 anos pela imprevisibilidade or\u00e7ament\u00e1ria, criando espa\u00e7os de obsolesc\u00eancia tecnol\u00f3gica e conceitual, esses projetos s\u00e3o tratados como despesas fiscais contingenci\u00e1veis, e n\u00e3o como instrumentos estruturantes de autonomia tecnol\u00f3gica e poder nacional.<\/p>\n<p>Defesa n\u00e3o \u00e9 assunto apenas militar, mas ativo de toda a sociedade. Envolve pol\u00edtica industrial, universidades, infraestrutura cr\u00edtica, intelig\u00eancia artificial, espa\u00e7o, energia, investimentos, promo\u00e7\u00e3o comercial e ecossistemas de financiamento e garantias de produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses incapazes de dominar tecnologias estrat\u00e9gicas tornam-se dependentes n\u00e3o apenas economicamente, mas geopoliticamente. Lideran\u00e7as pol\u00edticas brasileiras ainda n\u00e3o compreenderam essa transforma\u00e7\u00e3o e talvez esse seja seu maior risco: a aus\u00eancia de consci\u00eancia estrat\u00e9gica compat\u00edvel com sua dimens\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Raymond Aron advertia que \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 tr\u00e1gica\u201d e costuma punir pa\u00edses que confundem estabilidade ef\u00eamera com garantias permanentes de paz, sobretudo aqueles que ignoram mudan\u00e7as hist\u00f3ricas e s\u00f3 enxergam o perigo quando ele se torna inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas a trag\u00e9dia, em pol\u00edtica, raramente \u00e9 destino: \u00e9 quase sempre escolha ou omiss\u00e3o repetida at\u00e9 virar h\u00e1bito. A ilus\u00e3o estrat\u00e9gica brasileira n\u00e3o foi imposta por nenhum inimigo. Foi cultivada em casa, paciente e voluntariamente, como quem confunde a aus\u00eancia de tempestade com a solidez do telhado.<\/p>\n<p><em><strong>Marcos Degaut<\/strong>, ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa e ex-secret\u00e1rio-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (Camex), \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco hist\u00f3rico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequ\u00eancia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":508450,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-508449","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/508449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=508449"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/508449\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/508450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=508449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=508449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=508449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}