{"id":508447,"date":"2026-06-22T05:02:00","date_gmt":"2026-06-22T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=508447"},"modified":"2026-06-22T05:02:00","modified_gmt":"2026-06-22T09:02:00","slug":"juros-inflacao-e-o-custo-de-crescer-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=508447","title":{"rendered":"Juros, infla\u00e7\u00e3o e o custo de crescer menos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A economia, como a literatura, vive de tens\u00f5es. Em <em>Os Buddenbrook<\/em>, Thomas Mann narra a lenta decad\u00eancia de uma fam\u00edlia que prosperou pela disciplina, mas viu a pr\u00f3pria vitalidade ser corro\u00edda por excessos de prud\u00eancia. A imagem, guardadas todas as propor\u00e7\u00f5es, ajuda a pensar um dilema antigo do Brasil: como preservar a estabilidade sem transformar o zelo contra a infla\u00e7\u00e3o em obst\u00e1culo permanente ao crescimento?<\/p>\n<p>O regime de metas de infla\u00e7\u00e3o, adotado no pa\u00eds desde 2000, \u00e9 uma das conquistas institucionais da economia brasileira. Ele organizou expectativas, deu transpar\u00eancia \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Banco Central e consolidou a estabilidade de pre\u00e7os como valor p\u00fablico. N\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento sustentado com infla\u00e7\u00e3o desancorada. A mem\u00f3ria brasileira \u00e9 suficientemente clara sobre os custos sociais da infla\u00e7\u00e3o alta: ela corr\u00f3i sal\u00e1rios, pune os mais pobres, desorganiza investimentos e fragiliza contratos.<\/p>\n<p>Mas reconhecer a import\u00e2ncia da estabilidade n\u00e3o nos desobriga de discutir o pre\u00e7o dos instrumentos utilizados para preserv\u00e1-la. A taxa Selic \u00e9 o principal mecanismo da pol\u00edtica monet\u00e1ria. Quando a infla\u00e7\u00e3o se distancia da meta, o Banco Central eleva os juros para conter a demanda, reduzir consumo e investimento, influenciar expectativas e, em alguns momentos, contribuir para a valoriza\u00e7\u00e3o cambial. Em tese, a cadeia \u00e9 conhecida: juros mais altos esfriam a atividade e, com defasagem, ajudam a infla\u00e7\u00e3o a convergir.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o relevante, portanto, n\u00e3o \u00e9 saber se os juros funcionam. Eles funcionam. A pergunta mais dif\u00edcil \u00e9 outra: qual n\u00edvel de juros \u00e9 necess\u00e1rio para produzir o efeito desejado sem impor ao pa\u00eds um custo excessivo em crescimento, investimento e sustentabilidade fiscal?<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma pol\u00edtica fiscal cr\u00edvel reduz pr\u00eamios de risco e auxilia a pol\u00edtica monet\u00e1ria. Um ambiente institucional previs\u00edvel reduz incertezas. Investimento em infraestrutura, inova\u00e7\u00e3o e produtividade amplia a capacidade de oferta da economia e diminui press\u00f5es inflacion\u00e1rias de origem estrutural<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Estudos econom\u00e9tricos com dados brasileiros entre 2000 e 2026 confirmam a exist\u00eancia dos canais tradicionais de transmiss\u00e3o monet\u00e1ria. Choques inflacion\u00e1rios tendem a ser seguidos por eleva\u00e7\u00f5es da Selic. Aumentos de juros reduzem o ritmo de crescimento da economia ap\u00f3s alguns trimestres. E, mais adiante, contribuem para conter a infla\u00e7\u00e3o. O mecanismo, portanto, est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>O ponto decisivo est\u00e1 na assimetria dos efeitos. Os impactos dos juros sobre a atividade econ\u00f4mica aparecem de forma mais n\u00edtida e persistente do que seus efeitos sobre a infla\u00e7\u00e3o. Em outras palavras: o custo em termos de crescimento \u00e9 mais facilmente observado; o benef\u00edcio desinflacion\u00e1rio, embora exista, surge com maior defasagem e menor precis\u00e3o estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o torna a pol\u00edtica monet\u00e1ria ineficaz. Apenas recomenda prud\u00eancia. Em uma economia como a brasileira, a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o responde apenas ao n\u00edvel de demanda. Ela tamb\u00e9m \u00e9 afetada por c\u00e2mbio, pre\u00e7os internacionais de commodities, choques clim\u00e1ticos, pre\u00e7os administrados, in\u00e9rcia contratual, expectativas e condi\u00e7\u00f5es fiscais. Quando muitos fatores atuam ao mesmo tempo, exigir que a taxa de juros resolva sozinha todos os problemas pode significar sobrecarregar um instrumento que, embora poderoso, n\u00e3o \u00e9 onipotente.<\/p>\n<p>O caso recente ilustra essa complexidade. A Selic permaneceu em patamar elevado, entre 12% e 16% ao ano, por per\u00edodo prolongado, enquanto a infla\u00e7\u00e3o recuou de forma gradual. Ao mesmo tempo, a valoriza\u00e7\u00e3o real da moeda, que em outros ciclos ajudou de maneira importante no processo desinflacion\u00e1rio, n\u00e3o foi suficiente para produzir uma queda mais r\u00e1pida dos pre\u00e7os. A experi\u00eancia sugere que h\u00e1 algo mais profundo em jogo do que uma simples rela\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica entre juros e infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o fiscal que precisa ser enfrentada com sobriedade. Entre 2000 e 2026, a taxa real de juros no Brasil apresentou m\u00e9dia elevada, em torno de 5,7% ao ano, com picos superiores a 10%. A conta de juros da d\u00edvida p\u00fablica, por sua vez, alcan\u00e7ou m\u00e9dia de 6,1% do PIB no per\u00edodo analisado e chegou a patamares ainda mais altos recentemente. Esses n\u00fameros importam porque juros elevados n\u00e3o s\u00e3o uma abstra\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Eles representam recursos p\u00fablicos destinados ao servi\u00e7o da d\u00edvida, reduzindo o espa\u00e7o para infraestrutura, inova\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e pol\u00edticas capazes de elevar a produtividade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro \u00e2ngulo do problema aparece na compara\u00e7\u00e3o entre o pr\u00eamio de risco do Brasil no mercado externo e no mercado dom\u00e9stico. Quando se observa a d\u00edvida brasileira em d\u00f3lar negociada no exterior, o spread em rela\u00e7\u00e3o aos t\u00edtulos do Tesouro americano se aproxima de 2% ao ano, em linha com o CDS de dez anos. J\u00e1 no mercado dom\u00e9stico, a partir do cupom cambial, o pr\u00eamio impl\u00edcito de risco se mostra mais alto, em torno de 2,7%. A diferen\u00e7a \u00e9 pequena em apar\u00eancia, mas relevante em economia: sugere que o investidor cobra mais para carregar risco Brasil dentro do pa\u00eds do que fora dele.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Essa diverg\u00eancia pode refletir maior percep\u00e7\u00e3o de risco na d\u00edvida interna, custos de transa\u00e7\u00e3o, impostos ou uma combina\u00e7\u00e3o desses fatores. Tamb\u00e9m ajuda a explicar por que juros dom\u00e9sticos muito elevados atraem fluxo de capitais de carteira. O capital financeiro, como a \u00e1gua, corre para onde encontra maior inclina\u00e7\u00e3o. Mas essa entrada, embora possa aliviar o c\u00e2mbio no curto prazo, n\u00e3o substitui investimento produtivo nem resolve os entraves estruturais da economia.<\/p>\n<p>O Brasil precisa, portanto, de uma discuss\u00e3o menos ruidosa e mais precisa sobre juros. N\u00e3o se trata de negar a import\u00e2ncia do Banco Central, relativizar a meta de infla\u00e7\u00e3o ou defender voluntarismos. Trata-se de reconhecer que estabilidade monet\u00e1ria, responsabilidade fiscal e crescimento n\u00e3o s\u00e3o objetivos rivais. Ao contr\u00e1rio: s\u00f3 se sustentam quando avan\u00e7am juntos.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica fiscal cr\u00edvel reduz pr\u00eamios de risco e auxilia a pol\u00edtica monet\u00e1ria. Um ambiente institucional previs\u00edvel reduz incertezas. Investimento em infraestrutura, inova\u00e7\u00e3o e produtividade amplia a capacidade de oferta da economia e diminui press\u00f5es inflacion\u00e1rias de origem estrutural. Cr\u00e9dito de longo prazo bem direcionado permite que empresas, cooperativas, produtores e munic\u00edpios invistam hoje para produzir mais amanh\u00e3. \u00c9 nesse ponto que bancos de desenvolvimento t\u00eam papel complementar, n\u00e3o concorrente, \u00e0 pol\u00edtica macroecon\u00f4mica: ajudar a transformar estabilidade em investimento e investimento em produtividade.<\/p>\n<p>A boa economia raramente se resume a uma s\u00f3 vari\u00e1vel. Juros s\u00e3o necess\u00e1rios, mas n\u00e3o podem ser o \u00fanico idioma da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Um pa\u00eds continental, diverso e ainda marcado por grandes d\u00e9ficits de infraestrutura precisa controlar a infla\u00e7\u00e3o sem se resignar ao baixo crescimento. Precisa preservar a moeda sem sacrificar a ambi\u00e7\u00e3o produtiva. Precisa, sobretudo, entender que desenvolvimento exige equil\u00edbrio entre cautela e movimento.<\/p>\n<p>Essa talvez seja uma das quest\u00f5es centrais do Brasil contempor\u00e2neo: construir uma economia em que a estabilidade n\u00e3o seja ponto de chegada, mas base para um novo ciclo de investimento, produtividade e desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong><em>Ren\u00ea Garcia Junior<\/em><\/strong><em> \u00e9 diretor-presidente do Banco Regional de Desenvolvimento (BRDE); <strong>Lauro Vieira de Faria<\/strong> \u00e9 mestre em Economia pela EPGE\/FGV.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia, como a literatura, vive de tens\u00f5es. 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