{"id":507932,"date":"2026-06-21T20:10:56","date_gmt":"2026-06-22T00:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=507932"},"modified":"2026-06-21T20:10:56","modified_gmt":"2026-06-22T00:10:56","slug":"como-o-super-el-nino-virou-cabo-de-guerra-ideologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=507932","title":{"rendered":"Como o Super El\u00a0Ni\u00f1o\u00a0virou cabo de guerra ideol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O El Ni\u00f1o de 2026 foi confirmado em maio pelos especialistas, com quase 100% de probabilidade. Em menos de uma semana, j\u00e1 tinha virado muni\u00e7\u00e3o para uma guerra que pouco tem a ver com meteorologia.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-geral da ONU usou os progn\u00f3sticos para exigir o fim imediato dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Ativistas rotularam o evento como um \u201cSuper El Ni\u00f1o potencializado pela aus\u00eancia de planejamento\u201d. Nas redes, sobraram previs\u00f5es de cat\u00e1strofe iminente, do colapso da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e do pior fen\u00f4meno em 140 anos.<\/p>\n<p>O exagero chegou a tal ponto que o pr\u00f3prio Cemaden, o \u00f3rg\u00e3o federal respons\u00e1vel pelo monitoramento de riscos e emiss\u00e3o de alertas de desastres, passou a evitar o prefixo \u201csuper\u201d \u2014 porque, quando proje\u00e7\u00f5es extremas n\u00e3o se confirmam, \u00e9 a autoridade cient\u00edfica que paga o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Os modelos clim\u00e1ticos usados para estimar a intensidade do fen\u00f4meno tamb\u00e9m n\u00e3o ajudaram a pacificar o debate. Alguns cen\u00e1rios apontavam para um El Ni\u00f1o forte, com pico pr\u00f3ximo de +2,1\u00b0C. Outros trabalhavam com uma intensidade bem mais moderada, em torno de +1,3\u00b0C. Ou seja, as pr\u00f3prias ferramentas de previs\u00e3o divergiam sobre a for\u00e7a do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Existe at\u00e9 um nome t\u00e9cnico para essa limita\u00e7\u00e3o: \u201cbarreira de previsibilidade da primavera boreal\u201d, uma fase em que as previs\u00f5es sobre a evolu\u00e7\u00e3o do evento se tornam menos confi\u00e1veis. Mas quase ningu\u00e9m parecia interessado nela.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novidade. O debate clim\u00e1tico global funciona h\u00e1 anos como um campo de batalha em que dois ex\u00e9rcitos disputam uma narrativa que passa longe de proteger quem mora em \u00e1reas de risco (cerca de 8,27 milh\u00f5es de brasileiros, segundo o IBGE) ou precisa tomar decis\u00f5es diante da possibilidade de uma seca ou de uma enchente.<\/p>\n<p>De um lado, os alarmistas tratam as proje\u00e7\u00f5es extremas como inevit\u00e1veis e as usam para justificar uma interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica global. Do outro, os mais c\u00e9ticos veem tanto exagero nas previs\u00f5es que acabam desconfiando at\u00e9 dos alertas leg\u00edtimos.<\/p>\n<p>No meio dos dois, est\u00e3o o morador de encosta e o produtor rural, que n\u00e3o sabem em quem confiar. Eles pagam o pre\u00e7o de um tema sequestrado pela polariza\u00e7\u00e3o e, o pior, de depender de um Estado que continua sem agir.<\/p>\n<h2><strong>Fato, palpite e pol\u00edtica<\/strong><\/h2>\n<p>A express\u00e3o \u201cconsenso cient\u00edfico\u201d virou uma bandeira. Mas o principal problema \u00e9 que ela passou a empacotar tr\u00eas debates diferentes como se fossem um s\u00f3: a f\u00edsica do clima, as proje\u00e7\u00f5es dos modelos clim\u00e1ticos e as pol\u00edticas governamentais de resposta.<\/p>\n<p>Para desfazer essa confus\u00e3o, \u00e9 preciso separar o que \u00e9 fato, palpite e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A f\u00edsica \u00e9 incontest\u00e1vel. O efeito estufa gerado pela atividade humana \u00e9 um fen\u00f4meno mensur\u00e1vel. No entanto, \u00e9 aqui que o debate deveria come\u00e7ar, e n\u00e3o terminar.<\/p>\n<p>As proje\u00e7\u00f5es de impacto, como a intensidade do El Ni\u00f1o de 2026, dependem de modelos matem\u00e1ticos que divergem entre si. Questionar essas proje\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 negar a ci\u00eancia, e sim exigir rigor t\u00e9cnico \u2014 j\u00e1 que a imprecis\u00e3o desses c\u00e1lculos pode levar a decis\u00f5es desastrosas.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas de rea\u00e7\u00e3o tampouco s\u00e3o verdades cient\u00edficas. Elas representam escolhas que envolvem impostos, restri\u00e7\u00f5es e prioridades de governo.<\/p>\n<p>Misturar esses tr\u00eas elementos no mesmo balaio costuma ser um truque para tentar proteger decis\u00f5es administrativas contra qualquer cr\u00edtica. Mas a guerra cultural clim\u00e1tica embolou tudo ainda mais.<\/p>\n<p>Quem aponta exageros em um modelo matem\u00e1tico logo \u00e9 acusado de contrariar a pr\u00f3pria f\u00edsica do clima. Se voc\u00ea pergunta sobre os custos ou a efici\u00eancia de uma pol\u00edtica p\u00fablica, pode ser chamado de negacionista. E diverg\u00eancias t\u00e9cnicas viram ataques morais entre grupos de cientistas.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 menos espa\u00e7o para discutir o que realmente importa: o que os governos est\u00e3o fazendo na pr\u00e1tica?<\/p>\n<h2><strong>Jogo de cena<\/strong><\/h2>\n<p>A COP30 foi uma vers\u00e3o brasileira desse jogo de cena. Em novembro de 2025, Bel\u00e9m recebeu representantes de quase 200 pa\u00edses para debater o futuro clim\u00e1tico do planeta \u2014 com o governo Lula se apresentando como lideran\u00e7a internacional da agenda ambiental.<\/p>\n<p>Poucas semanas antes, por\u00e9m, o Ibama havia autorizado a Petrobras a avan\u00e7ar na perfura\u00e7\u00e3o da Foz do Amazonas. A ent\u00e3o ministra do Meio Ambiente Marina Silva at\u00e9 reconheceu publicamente a contradi\u00e7\u00e3o, mas Lula preferiu recorrer \u00e0 sua cartilha de sempre: evocou o fantasma do imperialismo para silenciar os cr\u00edticos.<\/p>\n<p>\u201cTemos que explorar o petr\u00f3leo antes que o Trump ache que \u00e9 dele\u201d, disse o presidente, papagueando a campanha \u201cBrasil Soberano\u201d, criada para vender a ideia de independ\u00eancia contra press\u00f5es externas e ganhar f\u00f4lego nas elei\u00e7\u00f5es deste ano.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio deixou claro que os interesses da pol\u00edtica petista atropelam a l\u00f3gica de suas pr\u00f3prias narrativas. E, no fim, a participa\u00e7\u00e3o brasileira se resumiu a muita briga simb\u00f3lica e nenhuma clareza sobre o que, de fato, \u00e9 prioridade.<\/p>\n<h2><strong>Histeria e realidade<\/strong><\/h2>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, o agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, s\u00f3cio-fundador da consultoria Rural Clima, apontou o contraste entre a histeria do debate clim\u00e1tico e a realidade de quem vive do campo. Seus clientes n\u00e3o est\u00e3o interessados em vencer disputas ideol\u00f3gicas \u2014 eles precisam decidir quando plantar, quanto investir e como administrar riscos.<\/p>\n<p>Sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o fen\u00f4meno de 2026 \u00e9 firme. \u201cDizer que ser\u00e1 um Super El Ni\u00f1o ou um El Ni\u00f1o catastr\u00f3fico \u00e9 uma falta de respeito com a popula\u00e7\u00e3o. Afirma\u00e7\u00f5es assim s\u00f3 geram p\u00e2nico\u201d, diz Santos.<\/p>\n<p>O meteorologista n\u00e3o ignora a realidade clim\u00e1tica e confirma a influ\u00eancia do El Ni\u00f1o nos pr\u00f3ximos meses. Sua cr\u00edtica \u00e9 sobre o tom sensacionalista usado para divulgar a previs\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo ele, fatores importantes para o Brasil, como o comportamento do Oceano Atl\u00e2ntico, recebem muito menos aten\u00e7\u00e3o do que os alarmismos. \u201cO Atl\u00e2ntico tem peso muitas vezes maior no clima do pa\u00eds do que o pr\u00f3prio El Ni\u00f1o\u201d, afirma.<\/p>\n<h2><strong>\u201cO resto \u00e9 especula\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/h2>\n<p>Santos ainda lembra que o El Ni\u00f1o de 2015\/16, um dos mais intensos da s\u00e9rie hist\u00f3rica, n\u00e3o desencadeou o mesmo terror clim\u00e1tico que o termo \u201cSuper El Ni\u00f1o\u201d sugere. E destaca um efeito colateral dessa narrativa: \u201cIsso coloca em xeque a credibilidade da previs\u00e3o do tempo, que j\u00e1 \u00e9 algo duvidoso para parte da popula\u00e7\u00e3o, principalmente a urbana\u201d.<\/p>\n<p>Diante da incerteza, ele defende um retorno \u00e0 sobriedade t\u00e9cnica, sem exageros. \u201cO certo \u00e9 dizer que o fen\u00f4meno vir\u00e1 e poder\u00e1 causar problemas, como excesso de chuvas no Sul, veranicos no Centro-Norte e ondas de calor mais intensas. O resto \u00e9 apenas especula\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>A guerra cultural, no entanto, prefere a especula\u00e7\u00e3o. E, enquanto os profetas gritam sobre o apocalipse, os pol\u00edticos fazem pouco caso do que j\u00e1 aparece nos relat\u00f3rios oficiais. O clima pode at\u00e9 passar por mudan\u00e7as, mas as encostas continuam no mesmo lugar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O El Ni\u00f1o de 2026 foi confirmado em maio pelos especialistas, com quase 100% de probabilidade. 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