{"id":507070,"date":"2026-06-21T07:43:51","date_gmt":"2026-06-21T11:43:51","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=507070"},"modified":"2026-06-21T07:43:51","modified_gmt":"2026-06-21T11:43:51","slug":"tratamento-medico-precisa-levar-em-conta-a-espiritualidade-do-paciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=507070","title":{"rendered":"Tratamento m\u00e9dico precisa levar em conta a espiritualidade do paciente"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/21083824\/christina-puchalski-1.jpg.webp\" \/><span>Christina Puchalski desenvolveu uma ferramenta que avalia a import\u00e2ncia da espiritualidade dos pacientes: &#8220;tratamos a pessoa como um todo&#8221;. (Foto: Sophie Cheri\u00e7a\/Divulga\u00e7\u00e3o\/Nupes-UFJF)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quando Christina Puchalski era estudante de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/medicina\/\">Medicina<\/a>, atendeu uma testemunha de Jeov\u00e1 que ficara gravemente doente. A paciente deixou muito claro que n\u00e3o queria receber transfus\u00e3o de sangue, proibida por suas <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">cren\u00e7as religiosas<\/a>. O cirurgi\u00e3o foi contr\u00e1rio, afirmando que ela morreria. Puchalski insistiu: \u201c\u2018existem outros produtos e alternativas que talvez possamos utilizar\u2019, eu disse. Acabamos encontrando uma solu\u00e7\u00e3o\u201d. Ao acordar da cirurgia, a primeira coisa que a paciente perguntou foi: \u201cdoutora, eu recebi algum produto sangu\u00edneo?\u201d. Quando Puchalski respondeu que n\u00e3o, a paciente come\u00e7ou a chorar: \u201cse eu tivesse recebido sangue, eu nunca poderia estar com Deus\u201d, disse ela, agradecida. \u201cNa \u00e9poca eu ainda era estudante, mas me envolvi na discuss\u00e3o porque acreditava que era importante respeitar a decis\u00e3o dela. Por isso a defendi, embora tivesse recebido muitas cr\u00edticas por isso\u201d, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Hoje professora do curso de Medicina da George Washington University, Puchalski \u00e9 uma das principais defensoras da integra\u00e7\u00e3o das necessidades espirituais do paciente no tratamento m\u00e9dico. Ela \u00e9 uma das criadoras da ferramenta Fica, uni\u00e3o das iniciais de \u201cf\u00e9\u201d (se o paciente acredita em algo), \u201cinflu\u00eancia\u201d (o quanto a cren\u00e7a \u00e9 importante para o paciente), \u201ccomunidade\u201d (se o paciente participa de algum grupo ligado \u00e0 sua espiritualidade) e \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d (que tipo de interven\u00e7\u00f5es o paciente gostaria que fossem feitas para suprir suas necessidades espirituais), que pode ser usada por profissionais de sa\u00fade na avalia\u00e7\u00e3o dos pacientes. Puchalski foi a principal convidada do 7.\u00ba Congresso Internacional de Ci\u00eancia, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/espiritualidade-e-saude\/\">Sa\u00fade e Espiritualidade<\/a> (CoNupes), realizado no fim de maio em Juiz de Fora (MG), e conversou com o <strong>Tubo de Ensaio<\/strong> sobre a import\u00e2ncia de integrar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 espiritualidade nos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 importante ou necess\u00e1rio integrar a espiritualidade aos cuidados de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>Porque tratamos a pessoa como um todo. Sintomas f\u00edsicos podem ter ramifica\u00e7\u00f5es emocionais, sociais e espirituais. Se algu\u00e9m chega reclamando de dores de cabe\u00e7a e sua press\u00e3o est\u00e1 muito alta, eu pergunto sobre medicamentos, sobre alimenta\u00e7\u00e3o, sugiro reduzir o sal, mas tamb\u00e9m pergunto sobre estresse porque \u00e9 importante entendermos o m\u00e1ximo poss\u00edvel sobre o paciente. E tamb\u00e9m pergunto sobre espiritualidade. Posso perguntar, por exemplo: \u201cna \u00faltima consulta voc\u00ea me disse que frequentava a igreja e que isso ajudava. Ajudou mesmo? Voc\u00ea continua indo?\u201d Se a pessoa responde que n\u00e3o sente mais vontade, procuro refletir junto com ela. N\u00e3o digo o que deve fazer; pergunto \u201co que voc\u00ea acha disso?\u201d<\/p>\n<p>Eu trabalho muito com pessoas pobres em Washington. S\u00e3o fam\u00edlias, por exemplo, que perderam parentes para a Covid porque viviam em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis. A dimens\u00e3o social afeta diretamente a sa\u00fade. Quem \u00e9 pobre provavelmente consumir\u00e1 alimentos industrializados congelados, cheios de sal. N\u00e3o posso simplesmente dizer a algu\u00e9m nessa situa\u00e7\u00e3o que v\u00e1 comprar alimentos naturais, que custam caro, porque o paciente n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es financeiras para isso. Ent\u00e3o trabalhamos juntos para descobrir quais mudan\u00e7as s\u00e3o poss\u00edveis dentro da realidade da pessoa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSe a verdadeira causa do sofrimento \u00e9 espiritual e n\u00f3s n\u00e3o a abordamos, acabamos oferecendo medicamentos, exames e tratamentos que n\u00e3o respondem ao que est\u00e1 acontecendo na alma daquela pessoa.\u201d<\/p>\n<p><cite>Christina Puchalski, m\u00e9dica e professora da George Washington University.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Um outro exemplo: se uma paciente est\u00e1 sob estresse, e eu j\u00e1 abordei a espiritualidade antes com ela, posso perguntar: \u201cvoc\u00ea me contou que frequentava a igreja regularmente. Continua indo?\u201d Ela responde: \u201cmeu pai est\u00e1 t\u00e3o doente que nem tenho tempo para ir \u00e0 igreja. Eu apenas rezo\u201d, e ent\u00e3o eu continuo: \u201ccomo voc\u00ea se sentia quando ia \u00e0 igreja?\u201d, e ela responde que se sentia muito apoiada. A partir disso, pensamos juntos: talvez seja poss\u00edvel ir uma vez por m\u00eas, ou algu\u00e9m da igreja, ou o padre ou pastor, podem visit\u00e1-la em casa. Procuramos maneiras de lidar com essa necessidade.<\/p>\n<p>Tenho pacientes que meditavam e depois pararam. Pergunto se eles acham que isso tem rela\u00e7\u00e3o com a press\u00e3o alta ou o n\u00edvel de estresse, e vamos conversando at\u00e9 eles me dizerem algo como \u201cestou come\u00e7ando a sentir que n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para mim. Antes eu encontrava muito significado no meu trabalho, mas agora n\u00e3o estou trabalhando\u201d. Isso \u00e9 um tema espiritual; ent\u00e3o eu exploro essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Repare que n\u00e3o se trata apenas de aplicar uma ferramenta de avalia\u00e7\u00e3o espiritual e encerrar o assunto. \u00c9 preciso aprender mais sobre essa dimens\u00e3o, assim como fazemos com qualquer outra dimens\u00e3o da vida humana.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, o que perdemos quando n\u00e3o abordamos as quest\u00f5es espirituais durante o cuidado em sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas que sofrem acabam saindo sem que suas necessidades reais sejam atendidas. Uma vez, tive uma paciente nova que me contou da sua consulta com outro m\u00e9dico, de uma especialidade diferente. Ele perguntou como ela estava, e ela respondeu, chorando: \u201cestou p\u00e9ssima. Meu marido morreu h\u00e1 duas semanas e n\u00e3o sei o que fazer\u201d. O m\u00e9dico disse: \u201cposso receitar um antidepressivo\u201d. Como assim? Ela estava chorando, vivendo o luto, e a resposta foi oferecer um antidepressivo?<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Isso acontece porque, muitas vezes, n\u00e3o temos tempo, n\u00e3o temos treinamento ou n\u00f3s mesmos nos sentimos desconfort\u00e1veis diante do sofrimento. Os m\u00e9dicos s\u00e3o treinados para consertar problemas, para dizer \u201caqui est\u00e1 um rem\u00e9dio, voc\u00ea vai se sentir melhor\u201d; mas, \u00e0s vezes, tudo o que a pessoa precisa \u00e9 de espa\u00e7o para compartilhar o que est\u00e1 vivendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas nos Estados Unidos, mas em muitos lugares do mundo, as consultas duram cinco ou dez minutos, e em compensa\u00e7\u00e3o o paciente recebe uma pilha de guias de exames. Exames desnecess\u00e1rios podem revelar achados irrelevantes e acabar causando mais danos. O mesmo vale para o sofrimento espiritual: se a verdadeira causa do sofrimento \u00e9 espiritual e n\u00f3s n\u00e3o a abordamos, acabamos oferecendo medicamentos, exames e tratamentos que n\u00e3o respondem ao que est\u00e1 acontecendo na alma daquela pessoa. Isso \u00e9 destrutivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos apenas preencher informa\u00e7\u00f5es no prontu\u00e1rio, mas oferecer presen\u00e7a. Estar ali, ouvir verdadeiramente, sem interromper, e acompanhar as pessoas. Eu ligo para meus pacientes quando acho necess\u00e1rio verificar se est\u00e3o bem, marco consultas de acompanhamento, e envolvo capel\u00e3es quando h\u00e1 sofrimento espiritual. Eu n\u00e3o abandono meus pacientes, continuo acompanhando-os para que saibam que n\u00e3o est\u00e3o sozinhos. Quando as pessoas se sentem apoiadas, o sofrimento espiritual diminui. E os dados cient\u00edficos mostram que esses modelos funcionam.<\/p>\n<p><strong>Como superar a resist\u00eancia daqueles que acreditam que o cuidado em sa\u00fade deve ser uma atividade estritamente cient\u00edfica, que a ci\u00eancia pode resolver tudo sozinha?<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma ideia de cura como algo puramente t\u00e9cnico. Algumas pessoas t\u00eam dificuldade em lidar com o sofrimento profundo, e n\u00e3o h\u00e1 problema em reconhecer isso. Mas muitas vezes elas n\u00e3o compreendem que, se n\u00e3o abordarmos a pessoa integralmente, estaremos deixando algo fundamental de fora. N\u00e3o vivemos em quatro compartimentos separados \u2013 f\u00edsico, emocional, social e espiritual \u2013, tudo est\u00e1 integrado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/21083715\/christina-puchalski-2.jpg.webp\" \/><i>Observada por Alexander Moreira-Almeida, diretor do Nupes, Christina Puchalski d\u00e1 a palestra final do CoNupes 2026. (Foto: Sophie Cheri\u00e7a\/Divulga\u00e7\u00e3o\/Nupes-UFJF)<\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o acontece s\u00f3 com a espiritualidade, mas tamb\u00e9m com outros aspectos. Recebemos pouco treinamento sobre quest\u00f5es sociais, por exemplo. Em geral, a resist\u00eancia costuma aparecer nas \u00e1reas em que sentimos n\u00e3o ter forma\u00e7\u00e3o adequada. Por isso os profissionais precisam ser treinados nessas \u00e1reas, incluindo a espiritualidade. Eu procuro normaliz\u00e1-la, mostrar que ela n\u00e3o \u00e9 algo distante, que est\u00e1 l\u00e1 no c\u00e9u, mas na vida cotidiana. Quando entendemos espiritualidade como significado, prop\u00f3sito e conex\u00e3o com aquilo que \u00e9 importante para a pessoa, encontramos um terreno comum para iniciar a conversa. At\u00e9 por isso eu prefiro sempre usar \u201cespiritualidade\u201d em vez de \u201creligi\u00e3o\u201d. O n\u00facleo \u00faltimo da defini\u00e7\u00e3o de espiritualidade \u00e9 a busca por significado \u00faltimo, prop\u00f3sito e transcend\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 mais dif\u00edcil para um profissional de sa\u00fade que n\u00e3o acredita em transcend\u00eancia ou que n\u00e3o possui cren\u00e7as religiosas integrar a espiritualidade aos cuidados de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se existem dados cient\u00edficos sobre isso, mas imagino que possa haver alguns desafios. Concordo que seja mais f\u00e1cil afastar-se do tema quando a espiritualidade \u00e9 entendida apenas em termos religiosos. Mas, quando definimos espiritualidade de forma ampla, como significado e prop\u00f3sito de vida, encontramos um ponto de encontro. As pessoas podem dizer: \u201centendo isso, consigo compreender essa experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Quando um paciente est\u00e1 morrendo, por exemplo, ele frequentemente se confronta com quest\u00f5es de significado e prop\u00f3sito. Eu pergunto aos meus alunos: \u201ccomo a morte de um paciente afeta o seu pr\u00f3prio sentido de prop\u00f3sito?\u201d A busca por significado e prop\u00f3sito \u2013 seja do paciente, seja do estudante de Medicina, seja do m\u00e9dico \u2013 dura a vida inteira e muda ao longo do tempo. O desenvolvimento espiritual nos mostra isso: \u00e0 medida que envelhecemos (ou nos aproximamos do fim da vida, em qualquer idade), podemos alcan\u00e7ar um estado de transcend\u00eancia que nos permite enxergar a vida de outra forma.<\/p>\n<p>J\u00e1 estive ao lado de pessoas pr\u00f3ximas da morte que experimentavam uma paz t\u00e3o profunda que \u00e9 imposs\u00edvel descrever em palavras. S\u00f3 de lembrar, fico arrepiada. Quando estou na presen\u00e7a dessas pessoas, sinto algo que tira meu f\u00f4lego. Chegar a esse estado de transcend\u00eancia, ser capaz de deixar partir sem arrependimentos, \u00e9 algo extraordin\u00e1rio. Por isso a educa\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cOs cuidados paliativos foram uma das \u00e1reas mais receptivas a esse tipo de abordagem, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quando estamos perto da morte que precisamos prestar aten\u00e7\u00e3o ao cuidado espiritual.\u201d<\/p>\n<p><cite>Christina Puchalski<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Em sua primeira palestra no CoNupes, foi comentado que algumas pessoas acreditam que integrar a espiritualidade aos cuidados de sa\u00fade \u00e9 algo relevante apenas para pacientes em fim de vida. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Esse \u00e9 um equ\u00edvoco bastante comum. Mas, de certa forma, n\u00f3s mesmos contribu\u00edmos para essa percep\u00e7\u00e3o, porque os cuidados paliativos foram uma das \u00e1reas mais receptivas a esse tipo de abordagem. Por outro lado, a medicina de fam\u00edlia tamb\u00e9m compreende muito bem essa import\u00e2ncia, e h\u00e1 muitas pesquisas realizadas nessa \u00e1rea. Existe inclusive uma declara\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, defendendo que a espiritualidade seja considerada parte integrante da sa\u00fade total. Precisamos defender isso com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, como diz\u00edamos, de fato a espiritualidade n\u00e3o est\u00e1 relacionada apenas ao fim da vida; tampouco \u00e9 algo restrito aos adultos. As crian\u00e7as possuem uma compreens\u00e3o surpreendente da espiritualidade, e h\u00e1 muitas pesquisas em espiritualidade pedi\u00e1trica mostrando como ela se transforma ao longo do desenvolvimento. Adolescentes frequentemente questionam cren\u00e7as e procuram seu pr\u00f3prio significado e prop\u00f3sito, o que \u00e9 positivo. Eu diria que, se nossa espiritualidade permanece exatamente igual \u00e0 que t\u00ednhamos aos 6 ou 10 anos de idade, ent\u00e3o ela n\u00e3o evoluiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quando estamos perto da morte que precisamos prestar aten\u00e7\u00e3o ao cuidado espiritual. O tempo todo devemos estar nos questionando como estamos cuidando da nossa sa\u00fade f\u00edsica, mas tamb\u00e9m como estamos cuidando das nossas emo\u00e7\u00f5es, se buscamos ajuda quando necess\u00e1rio, se somos capazes de expressar raiva ou tristeza, ou se guardamos tudo para n\u00f3s, se temos rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, se estamos em relacionamento abusivos, se estamos presos a algo que nos faz mal \u2013 inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 espiritualidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 importante, ou melhor, que paciente e profissional tenham o mesmo conjunto de cren\u00e7as ou valores? Isso faz diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o deveria fazer, porque h\u00e1 limites profissionais a respeitar. \u00c0s vezes sinto a tenta\u00e7\u00e3o de fazer alguma sugest\u00e3o quando percebo que a pessoa est\u00e1 enfrentando uma luta espiritual, mas n\u00e3o fa\u00e7o isso, porque aquela luta pertence ao paciente, n\u00e3o a mim. A capacidade de lidar com essa quest\u00e3o precisa surgir dele pr\u00f3prio. Por isso, primeiro procuro sentar, ouvir e compreender sua dificuldade. Talvez eu fa\u00e7a uma ou duas perguntas reflexivas que o ajudem a encontrar sua pr\u00f3pria resposta. Isso \u00e9 completamente diferente de receitar um medicamento para press\u00e3o alta.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acabou de falar sobre limites. Quais s\u00e3o os riscos envolvidos quando o profissional tenta impor suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, pr\u00e1ticas ou valores ao paciente?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um risco enorme, e \u00e9 anti\u00e9tico. Existe uma diferen\u00e7a de poder entre m\u00e9dico e paciente. Imagine que um m\u00e9dico diga: \u201cvou recomendar que voc\u00ea reze\u201d. Um paciente mais seguro de si pode responder: \u201cmas eu n\u00e3o sou religioso. Isso n\u00e3o funciona para mim\u201d. No entanto, uma pessoa vulner\u00e1vel pode n\u00e3o conseguir discordar do m\u00e9dico, e isso viola a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Certa vez eu estava na igreja e, depois da comunh\u00e3o, percebi que uma paciente estava sentada do outro lado da igreja com sua filha. Quando a missa terminou, sa\u00ed por outra porta, de prop\u00f3sito, porque n\u00e3o queria misturar minha vida religiosa com a rela\u00e7\u00e3o profissional, nem faz\u00ea-la sentir qualquer tipo de press\u00e3o. Mas n\u00e3o funcionou. Ela me viu, veio at\u00e9 mim, muito feliz, e disse: \u201ceu n\u00e3o sabia que voc\u00ea frequentava esta igreja!\u201d O tempo passou, essa mesma paciente estava no fim da vida e parou de ir \u00e0s consultas; fiquei preocupada e liguei para a filha. Quando a paciente finalmente veio ao consult\u00f3rio, estava calada e abatida. Eu disse que estava contente em v\u00ea-la, mas ela respondeu que estava com medo. Quando perguntei o motivo, ela disse: \u201ceu n\u00e3o gostava daquela igreja, mas tinha medo de lhe contar isso. Achei que voc\u00ea pudesse ficar chateada\u201d. Ent\u00e3o, respondi: \u201cposso lhe contar um segredo? Eu tamb\u00e9m sa\u00ed daquela igreja. Agora frequento outra igreja cat\u00f3lica\u201d. N\u00f3s duas rimos sem parar, foi um momento muito bonito e uma experi\u00eancia que mostra o quanto precisamos ser sens\u00edveis.<\/p>\n<p>Tenho pacientes cat\u00f3licos que me dizem que gostariam de encontrar uma par\u00f3quia cat\u00f3lica mais liberal. Eu conhe\u00e7o v\u00e1rias e posso dar uma lista enorme de op\u00e7\u00f5es, mas nunca recomendo especificamente a igreja que frequento. O fato de os pacientes normalmente nem perguntarem aonde eu vou ajuda um pouco, mas isso n\u00e3o deixa de ser uma fronteira delicada.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 dif\u00edcil resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, especialmente quando o profissional \u00e9 muito entusiasmado ou convicto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua f\u00e9 ou \u00e0s suas cren\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>A conversa deve ser sempre sobre o paciente, n\u00e3o sobre o profissional. N\u00e3o damos solu\u00e7\u00f5es prontas, precisamos ouvir onde o paciente est\u00e1 em sua jornada, porque a espiritualidade \u00e9 isso, uma jornada. Posso dizer algo a algu\u00e9m, mas isso n\u00e3o significa que realmente ajudei essa pessoa \u2013 na verdade, posso at\u00e9 afast\u00e1-la. Por isso procuro ouvir atentamente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/21083556\/christina-puchalski-3.jpg.webp\" \/><i>A m\u00e9dica Christina Puchalski em sua primeira palestra no CoNupes, em maio deste ano. (Foto: Sophie Cheri\u00e7a\/Divulga\u00e7\u00e3o\/Nupes-UFJF)<\/i><\/p>\n<p>Se percebo sofrimento, vou tentando compreender o que est\u00e1 acontecendo. Posso pensar que parece desesperan\u00e7a, ou um conflito relacionado a cren\u00e7as, mas n\u00e3o digo isso logo de cara. Vou pedindo que o paciente fale mais, e vou refletindo enquanto ou\u00e7o. Se eu perceber, por exemplo, que a pessoa est\u00e1 enlutada, digo algo como \u201cvamos voltar um pouco. Seu marido morreu h\u00e1 tr\u00eas meses. Voc\u00ea acha que isso pode estar relacionado ao que est\u00e1 sentindo?\u201d Ela vai dizer sim ou n\u00e3o, eu vou explorar a quest\u00e3o, mas nunca oferecendo solu\u00e7\u00f5es prontas.<\/p>\n<p>Se o profissional estiver excessivamente entusiasmado com suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, corre o risco de perder o paciente, porque estar\u00e1 ultrapassando uma fronteira que n\u00e3o deveria ser ultrapassada.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea n\u00e3o precisa projetar suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, sentimentos ou valores sobre o paciente.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, da mesma forma que n\u00e3o projeto minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias quando converso com pacientes que est\u00e3o morrendo. \u00c0s vezes eles perguntam: \u201ce se fosse sua m\u00e3e? O que voc\u00ea faria?\u201d Eu n\u00e3o respondo imediatamente; digo que o importante n\u00e3o sou eu, mas o paciente. Na maioria das vezes, isso basta, mas \u00e0s vezes o paciente insiste: \u201ceu sei, mas sua m\u00e3e morreu. Como voc\u00ea lidou com isso?\u201d Nesses casos, talvez eu compartilhe uma ou duas frases breves sobre minha experi\u00eancia, mas isso \u00e9 muito raro.<\/p>\n<p>Tenho alguns pacientes que acompanho desde quando eu era estudante de Medicina ou residente. N\u00f3s nos conhecemos muito bem, e nesses casos \u00e9 um pouco mais f\u00e1cil compartilhar algo pessoal. Mesmo assim, continuo sendo muito cuidadosa para ouvir primeiro a experi\u00eancia deles, e n\u00e3o a minha.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSe o profissional estiver excessivamente entusiasmado com suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, corre o risco de perder o paciente.\u201d<\/p>\n<p><cite>Christina Puchalski<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>E se o paciente pedir que voc\u00ea reze com ele?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o fui treinada para conduzir ora\u00e7\u00f5es. As pessoas costumam pensar que rezar \u00e9 algo simples, mas, existe uma arte e uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para isso. Aprendi isso com um padre que tamb\u00e9m era capel\u00e3o hospitalar. Ele foi treinado para rezar em contextos cl\u00ednicos; eu n\u00e3o. Ele me contou que, \u00e0s vezes, est\u00e1 conversando profundamente com uma pessoa, explorando uma quest\u00e3o espiritual importante, e ela diz: \u201cpadre, o senhor poderia rezar comigo?\u201d Ele percebe que, em alguns casos, a pessoa est\u00e1 tentando fugir da quest\u00e3o dif\u00edcil que est\u00e1 emergindo; ent\u00e3o, responde: \u201cclaro que posso. Mas vamos terminar de conversar sobre isso primeiro\u201d. Ele escuta toda a hist\u00f3ria e, s\u00f3 depois, faz uma ora\u00e7\u00e3o apropriada para aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho essa forma\u00e7\u00e3o. Por isso, quando um paciente me pede para rezar com ele, normalmente respondo: \u201ceu ficaria muito feliz em permanecer aqui enquanto voc\u00ea reza\u201d. A ora\u00e7\u00e3o passa a ser conduzida pelo paciente e, enquanto escuto, muitas vezes percebo elementos importantes que podem me ajudar a compreender melhor a situa\u00e7\u00e3o dele. Mas n\u00e3o interrompo nem fa\u00e7o coment\u00e1rios naquele momento, simplesmente respeito aquele momento de ora\u00e7\u00e3o. Depois, em outra consulta, posso abordar algumas das quest\u00f5es que surgiram.<\/p>\n<p>Sei que muitas pessoas s\u00e3o entusiasmadas com a ora\u00e7\u00e3o e gostam muito de rezar, mas isso exige sensibilidade e respeito aos limites profissionais. Eu falei da diferen\u00e7a de poder entre profissional e paciente; imagine que eu fosse sua m\u00e9dica e dissesse: \u201cposso rezar por voc\u00ea?\u201d, e ainda impusesse as m\u00e3os sobre voc\u00ea. Eu n\u00e3o sou sacerdotisa, n\u00e3o fui treinada para isso, e isso poderia representar uma s\u00e9ria viola\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a. Conhe\u00e7o pacientes que abandonaram profissionais justamente porque n\u00e3o queriam ser alvo de proselitismo religioso.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel dos capel\u00e3es nesse trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Os capel\u00e3es da \u00e1rea da sa\u00fade t\u00eam um papel extremamente importante. Nem todo padre ou l\u00edder religioso tem forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para atuar como capel\u00e3o hospitalar, e muitos deles dir\u00e3o isso abertamente. Por isso, existem associa\u00e7\u00f5es e programas de forma\u00e7\u00e3o que treinam sacerdotes, religiosas e outros profissionais para atuar na capelania em sa\u00fade; ensinando-os quest\u00f5es de limites \u00e9ticos e relacionamento profissional.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cH\u00e1 limites profissionais a respeitar. Conhe\u00e7o pacientes que abandonaram profissionais justamente porque n\u00e3o queriam ser alvo de proselitismo religioso.\u201d<\/p>\n<p><cite>Christina Puchalski<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Gosto muito de trabalhar com capel\u00e3es porque eles colaboram comigo. Eles acompanham o paciente e me ajudam a compreender melhor o que est\u00e1 acontecendo espiritualmente com aquela pessoa.O m\u00e9dico tem de reconhecer seus pr\u00f3prios limites. Quando algu\u00e9m sente dor intensa, sei o que fazer, porque fui treinada para isso. Se algu\u00e9m apresenta quest\u00f5es emocionais complexas, consigo ajudar at\u00e9 certo ponto, mas n\u00e3o sou uma conselheira especializada. N\u00e3o sou uma capel\u00e3 certificada. Quando percebo algo mais profundo em um paciente, posso dizer que tenho um colega que pode ajud\u00e1-lo melhor, fa\u00e7o o encaminhamento e tamb\u00e9m marco uma nova consulta para continuar acompanhando a situa\u00e7\u00e3o. Assim, o paciente n\u00e3o se sente abandonado.<\/p>\n<p>Estamos investindo na forma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho em sa\u00fade e avaliando cuidadosamente os resultados para verificar o que funciona melhor. Um dos meus projetos favoritos foi desenvolvido em uma unidade de neuro-oncologia, que trata pacientes com tumores cerebrais. A assistente social e a capel\u00e3 formavam uma dupla de trabalho. A assistente social fazia a triagem inicial; quando identificava necessidades espirituais, encaminhava o paciente \u00e0 capel\u00e3. Ent\u00e3o, a capel\u00e3 retornava \u00e0 assistente social com orienta\u00e7\u00f5es sobre como proceder.<\/p>\n<p>\u00c9 assim em outras \u00e1reas da medicina. Se percebo uma arritmia card\u00edaca, posso ter uma suspeita diagn\u00f3stica, mas consulto um cardiologista para confirmar e orientar o tratamento. J\u00e1 identifiquei sinais de que algu\u00e9m provavelmente havia c\u00e2ncer; solicitei exames e confirmei a suspeita, mas n\u00e3o trato o c\u00e2ncer diretamente porque n\u00e3o sou especialista em radioterapia ou quimioterapia. Eu continuo cuidando do paciente, tratando os sintomas, as n\u00e1useas, os efeitos colaterais e tudo aquilo que faz parte da minha \u00e1rea de compet\u00eancia. Mas escuto e sigo as orienta\u00e7\u00f5es dos especialistas. Com o cuidado espiritual \u00e9 a mesma coisa: eu sou uma generalista; o capel\u00e3o ou profissional especializado em espiritualidade \u00e9 o especialista. Trabalhamos juntos, n\u00e3o tem mist\u00e9rio.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christina Puchalski desenvolveu uma ferramenta que avalia a import\u00e2ncia da espiritualidade dos pacientes: &#8220;tratamos a pessoa como um todo&#8221;. (Foto:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":507071,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-507070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/507070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=507070"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/507070\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/507071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=507070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=507070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=507070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}