{"id":506874,"date":"2026-06-21T05:00:00","date_gmt":"2026-06-21T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=506874"},"modified":"2026-06-21T05:00:00","modified_gmt":"2026-06-21T09:00:00","slug":"implicancia-da-ue-contra-os-eua-tornara-a-tecnologia-mais-cara-e-atrasada-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=506874","title":{"rendered":"Implic\u00e2ncia da UE contra os EUA tornar\u00e1 a tecnologia mais cara e atrasada na Europa"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Quando um governo concede um monop\u00f3lio em determinados setores, est\u00e1 protegendo a si mesmo da concorr\u00eancia que n\u00e3o consegue controlar. O custo dessa decis\u00e3o sempre recai sobre as pessoas que dependem de servi\u00e7os que se tornam mais caros, mais lentos e menos inovadores por imposi\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso que a Comiss\u00e3o Europeia prop\u00f4s em 3 de junho de 2026, desta vez aplicado \u00e0 infraestrutura digital que sustenta hospitais, universidades, administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e empresas em toda a Europa. A proposta chama-se<em> Cloud and AI Development Act (CADA)<\/em> e constitui o eixo central do chamado Pacote de Soberania Tecnol\u00f3gica. A l\u00f3gica por tr\u00e1s dela \u00e9 protecionista: restringir quem pode competir e garantir participa\u00e7\u00e3o de mercado para alternativas selecionadas pelo Estado.<\/p>\n<p>O CADA estabelece quatro n\u00edveis europeus de &#8220;soberania&#8221; para servi\u00e7os de computa\u00e7\u00e3o em nuvem e intelig\u00eancia artificial. Nos N\u00edveis 3 e 4, aplic\u00e1veis aos setores de sa\u00fade, finan\u00e7as, energia e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, exige controle integral europeu, propriedade dentro da Uni\u00e3o Europeia e imunidade completa \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o americana, em especial ao <em>US CLOUD Act<\/em> de 2018, que permite \u00e0s autoridades dos Estados Unidos, mediante ordem judicial, obrigar empresas como Amazon, Microsoft ou Google a fornecer dados de clientes, independentemente do local onde estejam fisicamente armazenados. O objetivo \u00e9 eliminar essa possibilidade jur\u00eddica para dados europeus considerados sens\u00edveis.<\/p>\n<p>Atualmente, AWS, Microsoft Azure e Google Cloud respondem por cerca de 70% do mercado europeu de computa\u00e7\u00e3o em nuvem. Na pr\u00e1tica, o CADA as exclui \u2014 ou torna extremamente dif\u00edcil sua participa\u00e7\u00e3o \u2014 nos contratos p\u00fablicos mais valiosos. Para cumprir os requisitos dos n\u00edveis mais elevados de soberania, essas empresas s\u00e3o, na pr\u00e1tica, obrigadas a criar &#8220;nuvens soberanas&#8221;: vers\u00f5es separadas e isoladas de sua infraestrutura global, com centros de dados localizados na Europa, equipes exclusivamente europeias e governan\u00e7a local.<\/p>\n<p>Essas vers\u00f5es soberanas custam entre 20% e 30% mais do que suas equivalentes globais, oferecem um conjunto reduzido de funcionalidades e evoluem mais lentamente. Sejam hospitais, universidades ou outros usu\u00e1rios finais, todos acabam recebendo uma vers\u00e3o inferior do que j\u00e1 existe, pagando mais por isso simplesmente porque o Estado assim determina.<\/p>\n<p>Hoje, nenhum provedor europeu oferece capacidades compar\u00e1veis ao AWS SageMaker ou ao Azure ML. O CADA n\u00e3o cria um fornecedor capaz de competir nesse n\u00edvel. Apenas garante contratos p\u00fablicos para alternativas de segunda linha, utilizando recursos dos contribuintes para subsidiar o atraso tecnol\u00f3gico europeu.<\/p>\n<p>O CADA surge em um momento em que as rela\u00e7\u00f5es transatl\u00e2nticas enfrentam um n\u00edvel de tens\u00e3o sem precedentes. Para entender por qu\u00ea, \u00e9 preciso recuar um pouco.<\/p>\n<p>O <em>Digital Markets Act (DMA)<\/em> e o <em>Digital Services Act (DSA),<\/em> principais regula\u00e7\u00f5es digitais da Uni\u00e3o Europeia, aprovadas em 2022, imp\u00f5em obriga\u00e7\u00f5es significativas \u00e0s plataformas com grande poder de mercado. Exigem que essas empresas abram seus sistemas aos concorrentes, limitem a forma como promovem seus pr\u00f3prios servi\u00e7os e se submetam a auditorias e multas potencialmente bilion\u00e1rias. Na pr\u00e1tica, as empresas atingidas s\u00e3o quase exclusivamente americanas: Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft.<\/p>\n<p>Nenhuma empresa europeia possui dimens\u00e3o suficiente para se enquadrar nessas obriga\u00e7\u00f5es. O resultado \u00e9 um arcabou\u00e7o regulat\u00f3rio que, independentemente das inten\u00e7\u00f5es declaradas, funciona como uma desvantagem competitiva imposta por lei \u00e0s empresas dos Estados Unidos. \u00c9 por isso que Washington classifica essas medidas como barreiras n\u00e3o tarif\u00e1rias ao com\u00e9rcio. Elas tornam mais caro e mais complexo operar na Europa para as empresas americanas, sem impor encargos equivalentes aos concorrentes europeus.<\/p>\n<p>Em agosto de 2025, o governo dos Estados Unidos amea\u00e7ou retaliar imediatamente caso a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o recuasse na aplica\u00e7\u00e3o dessas normas. Em dezembro do mesmo ano, o <em>Office of the United States Trade Representative (USTR)<\/em> \u2014 \u00f3rg\u00e3o federal respons\u00e1vel pela pol\u00edtica comercial e pelas negocia\u00e7\u00f5es internacionais dos Estados Unidos \u2014 elevou o tom do conflito ao apresentar um ultimato formal, amea\u00e7ando impor tarifas e restri\u00e7\u00f5es contra empresas europeias como Spotify e DHL caso Bruxelas n\u00e3o mudasse de rumo.<\/p>\n<p>O <em>AI Act<\/em> intensificou ainda mais as tens\u00f5es. As obriga\u00e7\u00f5es impostas aos modelos de intelig\u00eancia artificial de uso geral entraram em vigor em agosto de 2025 e reca\u00edram de forma desproporcional sobre modelos desenvolvidos principalmente por empresas americanas, refor\u00e7ando a percep\u00e7\u00e3o, em Washington, de que a Uni\u00e3o Europeia legisla contra a concorr\u00eancia estrangeira em vez de regular o mercado de maneira neutra.<\/p>\n<p>Um fr\u00e1gil acordo comercial firmado em <em>Turnberry<\/em>, na Esc\u00f3cia, em julho de 2025, reduziu para 15% as tarifas sobre a maior parte das exporta\u00e7\u00f5es europeias para os Estados Unidos e estabilizou temporariamente a rela\u00e7\u00e3o bilateral. Esse equil\u00edbrio, por\u00e9m, permanece delicado. Caso o governo americano conclua que h\u00e1 pr\u00e1ticas comerciais desleais, ter\u00e1 respaldo jur\u00eddico para impor novas tarifas sobre produtos europeus.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pequenas e m\u00e9dias empresas europeias enfrentam uma press\u00e3o diferente, mas igualmente concreta. Elas dependem de servi\u00e7os de computa\u00e7\u00e3o em nuvem acess\u00edveis e escal\u00e1veis para competir nos mercados globais e s\u00e3o justamente as menos capazes de absorver pre\u00e7os mais elevados, migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de dados e a perda de funcionalidades das quais passaram a depender. As consequ\u00eancias acumulam-se silenciosamente: menos inova\u00e7\u00e3o, crescimento mais lento e menor capacidade de competir com empresas americanas e asi\u00e1ticas que operam sem essas restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A verdadeira soberania tecnol\u00f3gica \u00e9 constru\u00edda pela remo\u00e7\u00e3o de barreiras ao com\u00e9rcio, pela redu\u00e7\u00e3o da carga regulat\u00f3ria, pela atra\u00e7\u00e3o de talentos e capitais globais e pela liberdade de os consumidores \u2014 e n\u00e3o os burocratas \u2014 decidirem quais tecnologias melhor atendem \u00e0s suas necessidades. Quando o Estado substitui essa escolha pela sua pr\u00f3pria, o que se perde n\u00e3o \u00e9 apenas efici\u00eancia. Perde-se o pr\u00f3prio princ\u00edpio de que os mercados existem para servir \u00e0s pessoas, e n\u00e3o para serem administrados em nome delas.<\/p>\n<p><em><strong>Cl\u00e1udia Ascens\u00e3o Nunes<\/strong>\u00a0\u00e9 uma escritora e comentarista pol\u00edtica portuguesa. Ela \u00e9 presidente da Ladies of Liberty Alliance \u2013 Portugal<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026<em>\u00a0Foudation for Economic Education<\/em>. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas:<\/strong> <em><a href=\"https:\/\/fee.org\/articles\/europes-digital-protectionism\/\"><strong>Europe&#8217;s Digital Protectionism<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um governo concede um monop\u00f3lio em determinados setores, est\u00e1 protegendo a si mesmo da concorr\u00eancia que n\u00e3o consegue controlar.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":506875,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-506874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/506874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=506874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/506874\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/506875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=506874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=506874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=506874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}