{"id":505501,"date":"2026-06-20T13:00:00","date_gmt":"2026-06-20T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=505501"},"modified":"2026-06-20T13:00:00","modified_gmt":"2026-06-20T17:00:00","slug":"lula-diz-que-nao-e-de-esquerda-e-se-revela-um-homem-sem-qualidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=505501","title":{"rendered":"Lula diz que n\u00e3o \u00e9 de esquerda e se revela um homem sem qualidades"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/19170804\/lula-entrevista-g7.jpg.webp\" \/><span>O presidente Lula durante entrevista coletiva em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a. (Foto: Ricardo Stuckert\/Presid\u00eancia da Rep\u00fablica)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Chamou a aten\u00e7\u00e3o, nesta semana, um \u00e1udio vazado de uma conversa particular de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/lula\/\">Lula <\/a>com seus pares e assessores num dos corredores do G7. O \u00e1udio mostra o presidente do Brasil declarando que o mundo n\u00e3o \u00e9 de esquerda, e que ele pr\u00f3prio nunca foi esquerdista. A frase n\u00e3o foi arrancada sob press\u00e3o, nem consistiu em mais uma \u201cgafe\u201d com microfone aberto: ela foi dita com a fluidez e a naturalidade de quem estava \u00e0 vontade com a pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que, tendo passado d\u00e9cadas inteiras habitando simultaneamente discursos incompat\u00edveis, j\u00e1 nem percebe o abismo entre eles.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Para entender o que esse momento revela, \u00e9 preciso primeiro entender com que tipo de personagem estamos lidando \u2013 e a literatura, que sempre descobre as verdades antes da pol\u00edtica, oferece os retratos mais precisos e, ao mesmo tempo, impiedosos. Robert Musil criou Ulrich, o protagonista de <em>O Homem sem Qualidades<\/em>, como um ser de pura potencialidade: inteligente o suficiente para ver todos os lados de todas as quest\u00f5es, capaz de habitar qualquer posi\u00e7\u00e3o com compet\u00eancia e at\u00e9 com convic\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea, mas comprometido com nada de forma permanente \u2013 um homem para quem a identidade \u00e9 sempre uma possibilidade entre outras, nunca uma escolha definitiva que exclui as demais. Ulrich n\u00e3o \u00e9 hip\u00f3crita no sentido vulgar: ele simplesmente nunca encontrou, nem procurou com demasiada seriedade, o n\u00facleo duro que faria de suas opini\u00f5es algo mais do que varia\u00e7\u00f5es inteligentes sobre temas em aberto.<\/p>\n<p>Woody Allen imaginou Zelig de maneira diferente, mas igualmente reveladora: o camale\u00e3o humano que se transforma literalmente para se parecer com quem est\u00e1 ao seu lado \u2013 judeu entre judeus, nazista entre nazistas, revolucion\u00e1rio entre revolucion\u00e1rios, aristocrata entre aristocratas \u2013, n\u00e3o por hipocrisia calculada nem por convic\u00e7\u00e3o alguma, mas por uma necessidade visceral e quase patol\u00f3gica de aprova\u00e7\u00e3o que anula qualquer identidade est\u00e1vel antes que ela possa se formar. Zelig n\u00e3o escolhe ser camale\u00e3o: ele simplesmente n\u00e3o sabe ser outra coisa, porque ser outra coisa exigiria um eu que, em algum momento da forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se constituiu.<\/p>\n<p>E M\u00e1rio de Andrade nos deu Macuna\u00edma, o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter: n\u00e3o no sentido moral da palavra, mas no sentido ontol\u00f3gico e quase metaf\u00edsico \u2013 um ser sem forma pr\u00f3pria, que muda de pele conforme o ambiente e a conveni\u00eancia, que \u00e9 simultaneamente \u00edndio e europeu, pregui\u00e7oso e astuto, crian\u00e7a e adulto, her\u00f3i e buf\u00e3o, que pertence a todas as tradi\u00e7\u00f5es e, precisamente por isso, a nenhuma delas, cuja \u00fanica const\u00e2ncia identific\u00e1vel \u00e9 a aus\u00eancia absoluta de const\u00e2ncia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O talento camale\u00f4nico de Lula n\u00e3o nasceu do nada, nem \u00e9 puramente individual: foi cultivado e refinado dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o antecede<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nosso Descondenado-em-chefe \u00e9 os tr\u00eas ao mesmo tempo \u2013 com a diferen\u00e7a decisiva e n\u00e3o irrelevante de que os personagens liter\u00e1rios existem no papel e ele existe no Pal\u00e1cio do Planalto, com acesso ao Tesouro Nacional, ao aparato de seguran\u00e7a do Estado e ao poder de ditar a pol\u00edtica externa de uma das dez maiores economias do mundo.<\/p>\n<p>Diante de sindicalistas, ele \u00e9 o l\u00edder oper\u00e1rio que nunca abandonou a f\u00e1brica, o homem do povo que cheira a graxa e fala palavr\u00e3o, que perdeu o dedo numa prensa e sabe o que \u00e9 trabalhar com o corpo; diante de empres\u00e1rios do setor financeiro, \u00e9 o moderado pragm\u00e1tico, o gestor respons\u00e1vel que garantiu a estabilidade e fez o pa\u00eds crescer sem sustos desnecess\u00e1rios; diante de estadistas europeus, \u00e9 o conciliador do Sul Global, o democrata tropical de voca\u00e7\u00e3o multilateral, preocupado com o meio ambiente, a desigualdade sist\u00eamica e os direitos humanos; diante da milit\u00e2ncia mais radical, \u00e9 o companheiro hist\u00f3rico que nunca esqueceu de onde veio e jamais traiu os que o puseram onde est\u00e1; e diante dos l\u00edderes do G7, ao que parece, \u00e9 simplesmente algu\u00e9m que nunca foi esquerdista \u2013 um pragm\u00e1tico razo\u00e1vel, um homem sem ideologia r\u00edgida, aberto ao di\u00e1logo e \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Cada vers\u00e3o \u00e9 convincente nos seus pr\u00f3prios termos. Cada vers\u00e3o \u00e9, para a audi\u00eancia a que se destina, irretoc\u00e1vel. E nenhuma delas \u00e9 Lula, porque Lula \u00e9 precisamente a capacidade de ser todas elas sem custo aparente e sem a fric\u00e7\u00e3o interna que a identidade normalmente imp\u00f5e a quem de fato a possui \u2013 a fric\u00e7\u00e3o de ter de recusar alguma coisa, de ter de dizer n\u00e3o a alguma plateia, de ter de pagar o pre\u00e7o da coer\u00eancia. O custo, enfim, de ter car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Mas esse seu talento camale\u00f4nico n\u00e3o nasceu do nada, nem \u00e9 puramente individual: foi cultivado e refinado dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o antecede e que lhe forneceu n\u00e3o apenas a gram\u00e1tica, mas a justificativa te\u00f3rica. Os intelectuais marxistas que ajudaram a fundar o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/pt\/\">PT <\/a>e que formaram politicamente Lula compreendiam, como Lenin antes deles e como Gramsci de maneira ainda mais sofisticada, que a linguagem \u00e9 instrumento de poder antes de ser meio de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 que o que se diz ao advers\u00e1rio, ao aliado e \u00e0 plateia internacional s\u00e3o tr\u00eas discursos distintos e funcionalmente incompat\u00edveis, cada um calibrado para produzir o efeito correto no receptor correto, e que a habilidade de transitar entre eles sem deixar rastros vis\u00edveis \u00e9 uma das compet\u00eancias centrais do pol\u00edtico revolucion\u00e1rio bem-sucedido.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Arthur Koestler, que viveu por dentro a inicia\u00e7\u00e3o no Partido Comunista Alem\u00e3o nos anos 1930 e descreveu o processo com a precis\u00e3o cl\u00ednica de quem o atravessou e sobreviveu para cont\u00e1-lo, explicou como o vocabul\u00e1rio do militante \u00e9 inteiramente recondicionado desde o in\u00edcio: as palavras perdem seus referentes habituais, o que parece comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 na pr\u00e1tica comando disfar\u00e7ado de conversa, e o praticante experiente aprende a transitar entre os registros \u2013 o p\u00fablico e o reservado, o externo e o interno \u2013 com a naturalidade de quem troca de roupa ao entrar em casa, sem pensar, sem esfor\u00e7o, sem a menor percep\u00e7\u00e3o do quanto essa naturalidade \u00e9, em si mesma, um produto de forma\u00e7\u00e3o e disciplina longamente exercitadas.<\/p>\n<p>O precedente hist\u00f3rico mais instrutivo, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 europeu: \u00e9 latino-americano, e est\u00e1 a uma dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica e temporal bem menor do que gostar\u00edamos. Seus maiores expoentes foram os camaradas que, ao lado de Lula, fundaram o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/foro-de-sao-paulo\/\">Foro de S\u00e3o Paulo<\/a>. Quando Fidel Castro desembarcou em Havana em janeiro de 1959, ap\u00f3s a fuga de Batista, tratou imediatamente de tranquilizar Washington e a imprensa internacional: n\u00e3o era comunista, nunca havia sido, o que fizera era uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e humanista, uma luta pela soberania nacional contra a corrup\u00e7\u00e3o de um regime servil, nada mais. Meses depois, estava nacionalizando empresas americanas e expropriando propriedades. Dois anos depois, declarava <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cuba\/\">Cuba <\/a>rep\u00fablica <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/socialismo\/\">socialista <\/a>e anunciava, com uma candura que beirava o descaro, que sempre havia sido marxista-leninista \u2013 apenas n\u00e3o havia dito antes porque, nas suas pr\u00f3prias palavras, \u201co povo n\u00e3o estava preparado para entender\u201d.<\/p>\n<p>Hugo Ch\u00e1vez operou com varia\u00e7\u00e3o ainda mais refinada do mesmo m\u00e9todo: antes de vencer as elei\u00e7\u00f5es venezuelanas de 1998, apresentava-se consistentemente como um nacionalista bolivariano, um militar reformista com voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, nada mais; o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comunismo\/\">comunismo <\/a>chegou depois, gradualmente, embrulhado em eufemismos cuidadosamente calibrados \u2013 \u201csocialismo do s\u00e9culo 21\u201d \u2013 para n\u00e3o assustar antes da hora certa. Mas a hora, em ambos os casos, sempre chegou. A m\u00e1scara sempre caiu, mas n\u00e3o antes que o poder estivesse suficientemente consolidado para dispens\u00e1-la.<\/p>\n<p>Lula, naturalmente, dir\u00e1 que \u00e9 diferente \u2013 e seus admiradores internacionais, que o conhecem apenas pelo discurso de corredor do G7, concordar\u00e3o com entusiasmo. Mas basta olhar para o que foi constru\u00eddo nos \u00faltimos anos para perceber que a diferen\u00e7a \u00e9 menos de natureza do que de velocidade e m\u00e9todo. O Brasil de 2026 tem um ministro do Supremo Tribunal Federal que acumula as fun\u00e7\u00f5es de investigador, acusador, juiz e executor nos mesmos processos \u2013 e cujo nome aparece em decis\u00f5es de cortes italianas, espanholas e norte-americanas como sin\u00f4nimo de parcialidade sist\u00eamica&#8230; Tem uma Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica cujo titular jantou com investigados e cuja independ\u00eancia funcional \u00e9, na pr\u00e1tica, uma fic\u00e7\u00e3o administrativa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A identidade real de Lula n\u00e3o ser\u00e1 encontrada em nenhum de seus discursos, porque nenhum deles foi feito para revelar, mas para funcionar politicamente<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O mecanismo psicol\u00f3gico e ret\u00f3rico de Lula \u00e9 o mesmo de Castro e Ch\u00e1vez \u2013 mas o produto institucional que esse mecanismo foi gerando, silenciosamente, enquanto o mundo ouvia o discurso de corredor do G7, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o longe assim. Cuba e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/venezuela\/\">Venezuela <\/a>n\u00e3o foram constru\u00eddas num dia. Foram constru\u00eddas exatamente assim: tijolo por tijolo, decreto por decreto, nomea\u00e7\u00e3o por nomea\u00e7\u00e3o \u2013 enquanto o l\u00edder garantia, com seu melhor sorriso, que nunca foi um esquerdista, muito menos um esquerdista revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 houve, ali\u00e1s, outros momentos em que o microfone estava aberto sem que Lula soubesse. Numa ocasi\u00e3o que ficou c\u00e9lebre entre os que acompanham sua trajet\u00f3ria, ele confessou a companheiros de milit\u00e2ncia que, quando estava na oposi\u00e7\u00e3o, adorava viajar o mundo \u201cfalando mal do Brasil\u201d e \u201cinventando n\u00fameros\u201d negativos para desgastar o governo da situa\u00e7\u00e3o. A confiss\u00e3o foi recebida com risos c\u00famplices. Fazia parte da l\u00f3gica do jogo \u2013 e o jogo, como sempre, tem regras que s\u00f3 os iniciados conheciam plenamente.<\/p>\n<p>A identidade real de Lula, portanto, n\u00e3o ser\u00e1 encontrada em nenhum de seus discursos, porque nenhum deles foi feito para revelar, mas para funcionar politicamente. Ela s\u00f3 ser\u00e1 encontrada nas escolhas concretas, nas alian\u00e7as mantidas, nas omiss\u00f5es estrat\u00e9gicas, nos sil\u00eancios calculados. A atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ao contr\u00e1rio das palavras, n\u00e3o se reconfigura conforme a audi\u00eancia. O homem que nunca foi esquerdista quando conversa com l\u00edderes do G7 \u00e9 o mesmo que governa com o Foro de S\u00e3o Paulo, que lamenta que \u201cnossos criminosos\u201d tenham sido designados organiza\u00e7\u00f5es terroristas pelos Estados Unidos, que identifica na pol\u00edcia \u2013 e n\u00e3o no crime organizado \u2013 o principal perigo para as comunidades pobres, e que construiu sua carreira inteira sobre uma rede de lealdades cujas linhas de for\u00e7a a imprensa independente ainda est\u00e1, pacientemente, mapeando.<\/p>\n<p>Macuna\u00edma pode trocar de pele quantas vezes quiser. Zelig pode se transformar em quem estiver ao seu lado. Ulrich pode habitar todas as posi\u00e7\u00f5es sem escolher nenhuma. O rastro que cada um deles deixa no ch\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 sempre o mesmo \u2013 e \u00e9 nesse rastro, n\u00e3o no discurso, que se encontra a \u00fanica identidade que de fato importa.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Lula durante entrevista coletiva em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a. 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