{"id":504758,"date":"2026-06-20T05:01:00","date_gmt":"2026-06-20T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=504758"},"modified":"2026-06-20T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-20T09:01:00","slug":"carmen-navas-a-tragica-historia-da-mae-de-um-preso-politico-da-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=504758","title":{"rendered":"Carmen Navas: a tr\u00e1gica hist\u00f3ria da m\u00e3e de um preso pol\u00edtico da Venezuela"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Tem hist\u00f3rias que, por si s\u00f3, explicam a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia institucional que vive um pa\u00eds. N\u00e3o porque sejam excepcionais, mas justamente porque revelam aquilo que se tornou cotidiano em um regime pol\u00edtico como o venezuelano. A hist\u00f3ria de Victor Hugo Quero Navas e de sua m\u00e3e, Carmen Navas, \u00e9 uma dessas hist\u00f3rias. No \u00faltimo m\u00eas, poucas not\u00edcias causaram tanto impacto humano na Venezuela quanto esta. N\u00e3o apenas pela morte de um preso pol\u00edtico sob cust\u00f3dia do Estado \u2013 algo que, infelizmente, j\u00e1 n\u00e3o surpreende muitos venezuelanos \u2013, mas pela crueldade silenciosa de tudo o que aconteceu depois.<\/p>\n<p>Porque esta n\u00e3o \u00e9 apenas a hist\u00f3ria de um homem preso. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma m\u00e3e idosa que passou meses procurando um filho que as autoridades j\u00e1 sabiam estar morto.<\/p>\n<p>Victor Hugo Quero Navas era pai vi\u00favo e comerciante. Segundo familiares e pessoas pr\u00f3ximas, n\u00e3o tinha milit\u00e2ncia pol\u00edtica nem participa\u00e7\u00e3o ativa em organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Ainda assim, no dia 3 de janeiro de 2025, foi preso sob acusa\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria, conspira\u00e7\u00e3o e terrorismo e, desde ent\u00e3o, passou meses desaparecido dentro do sistema repressivo venezuelano. Sua fam\u00edlia n\u00e3o sabia ao certo onde Victor Hugo estava, n\u00e3o conseguiu manter contato com ele e desconhecia suas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Tampouco havia informa\u00e7\u00f5es claras e consistentes sobre sua situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ou mesmo sobre o centro de deten\u00e7\u00e3o em que se encontrava.<\/p>\n<p>Desde sua deten\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia passou a navegar por um labirinto de informa\u00e7\u00f5es desencontradas, negativas, vers\u00f5es contradit\u00f3rias e sil\u00eancio institucional. Em alguns momentos, autoridades indicavam um paradeiro; em outros, nada podia ser confirmado. Nunca houve certeza sobre onde Victor Hugo estava, em que condi\u00e7\u00f5es se encontrava ou o que efetivamente acontecia com ele. Foi ent\u00e3o que come\u00e7ou a longa peregrina\u00e7\u00e3o de Carmen Navas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Segundo cifras da organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos Provea, Victor Hugo tornou-se o 27\u00ba preso pol\u00edtico a morrer sob cust\u00f3dia do Estado venezuelano desde 2024. Vinte e sete vidas foram interrompidas enquanto estavam sob responsabilidade direta do Estado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Com 81 anos, a senhora Carmen fez aquilo que qualquer m\u00e3e faria: recusou-se a aceitar o sil\u00eancio. Percorreu centros de deten\u00e7\u00e3o em Caracas, insistiu diante de autoridades, buscou respostas onde quer que algu\u00e9m estivesse disposto, ou fingisse estar disposto, a ouvi-la. Passou por pris\u00f5es como El Rodeo I, bateu em portas, fez den\u00fancias p\u00fablicas, falou com jornalistas e pediu ajuda a organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil.<\/p>\n<p>Em troca, recebeu evasivas, indiferen\u00e7a e, segundo den\u00fancias p\u00fablicas, at\u00e9 intimida\u00e7\u00f5es por parte de grupos coletivos \u2013 grupos de choque, alguns armados, criados pelo chavismo para defender seu projeto pol\u00edtico e exercer o controle social de bairros populares da Venezuela.<\/p>\n<p>\u201cAqui ele n\u00e3o est\u00e1.\u201d \u201cPor que continua insistindo?\u201d Imagine, por um instante, o que significa ouvir isso repetidamente enquanto se procura um filho preso. Agora imagine algo ainda pior: fazer tudo isso sem saber que o Estado j\u00e1 conhecia a resposta.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 7 de maio, um comunicado oficial do Minist\u00e9rio de Assuntos Penitenci\u00e1rios revelou que Victor Hugo Quero havia morrido em 23 de julho de 2025, ou seja, quase dez meses antes da notifica\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, e que tinha sido enterrado em um cemit\u00e9rio nas proximidades de Caracas.<\/p>\n<p>A justificativa oficial beira o inacredit\u00e1vel: Victor Hugo n\u00e3o teria informado adequadamente dados sobre sua filia\u00e7\u00e3o. Uma explica\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de sustentar diante da notoriedade p\u00fablica que o caso adquiriu ao longo de meses gra\u00e7as \u00e0 luta incans\u00e1vel de Carmen, com o apoio da imprensa independente e de organiza\u00e7\u00f5es defensoras dos direitos humanos.<\/p>\n<p>E existe um detalhe ainda mais perturbador nessa hist\u00f3ria. Semanas antes da confirma\u00e7\u00e3o da morte, a senhora Carmen solicitou que o filho fosse beneficiado pela chamada Lei de Anistia para a Conviv\u00eancia Democr\u00e1tica, aprovada pelo Parlamento chavista em fevereiro. O pedido foi negado porque, segundo as autoridades, Victor Hugo n\u00e3o se enquadrava nos crit\u00e9rios legais. Naquele momento, por\u00e9m, segundo a pr\u00f3pria cronologia oficial divulgada depois, o Estado j\u00e1 sabia que ele estava morto.<\/p>\n<p>Como explicar isso a uma m\u00e3e? Como justificar institucionalmente que algu\u00e9m negue um pedido de anistia para uma pessoa j\u00e1 falecida, enquanto a fam\u00edlia continua desesperadamente procurando respostas?<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de inefici\u00eancia estatal. N\u00e3o \u00e9 mera burocracia. O que essa hist\u00f3ria revela \u00e9 algo muito mais profundo: a deteriora\u00e7\u00e3o moral das institui\u00e7\u00f5es venezuelanas. Porque h\u00e1 algo particularmente devastador quando um Estado deixa de tratar cidad\u00e3os como seres humanos e passa a administr\u00e1-los por meio do sil\u00eancio, da opacidade e do medo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Que a mem\u00f3ria de Carmen Navas sirva n\u00e3o apenas como den\u00fancia da crueldade que marcou os \u00faltimos anos da Venezuela, mas tamb\u00e9m como inspira\u00e7\u00e3o para reconstruir um pa\u00eds onde nunca mais seja necess\u00e1rio tanto sofrimento para exigir justi\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E ent\u00e3o veio o desfecho ainda mais doloroso. No dia 17 de maio, dez dias ap\u00f3s o an\u00fancio da morte de Victor Hugo, os venezuelanos se depararam com a not\u00edcia do falecimento da senhora Carmen Navas. Familiares relatam que n\u00e3o havia, inicialmente, nenhuma condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica particularmente grave. Mas aqueles que acompanharam sua trajet\u00f3ria dizem que, depois do segundo enterro de Victor Hugo, a senhora Carmen foi se apagando aos poucos.<\/p>\n<p>O caso de Victor Hugo Quero n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado. Tampouco uma exce\u00e7\u00e3o dentro do sistema repressivo venezuelano. \u00c9, na realidade, a ponta de um iceberg muito mais profundo, sombrio e doloroso. Segundo cifras da organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos Provea, Victor Hugo tornou-se o 27\u00ba preso pol\u00edtico a morrer sob cust\u00f3dia do Estado venezuelano desde 2024. Vinte e sete vidas foram interrompidas enquanto estavam sob responsabilidade direta do Estado. Vinte e sete fam\u00edlias marcadas pela dor, pela impunidade e pela aus\u00eancia de respostas.<\/p>\n<p>E, assim como Carmen Navas, existem hoje muitas fam\u00edlias venezuelanas que continuam procurando not\u00edcias sobre seus familiares detidos, profundamente alarmadas diante da possibilidade de que a hist\u00f3ria de Victor Hugo n\u00e3o seja uma exce\u00e7\u00e3o, mas um press\u00e1gio.<\/p>\n<p>De acordo com dados da organiza\u00e7\u00e3o Foro Penal, desde 2014 mais de 14 mil pessoas foram detidas na Venezuela por raz\u00f5es pol\u00edticas. Desse total, at\u00e9 19 de maio, pelo menos 429 ainda permaneciam presas.<\/p>\n<p>Trata-se de pessoas envolvidas pela incerteza de saber se conseguir\u00e3o sair dos centros de deten\u00e7\u00e3o, apesar dos recorrentes an\u00fancios feitos nos \u00faltimos dias pela ditadora interina, Delcy Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>Essa incerteza \u00e9 produto de um sistema de Justi\u00e7a que, h\u00e1 d\u00e9cadas, vem sendo minado pelo regime chavista e instrumentalizado para submeter, torturar e, em muitos casos, eliminar cidad\u00e3os inocentes. Um sistema no qual o destino dos presos pol\u00edticos, dependendo de sua relev\u00e2ncia p\u00fablica, passou a ficar sob o controle de alguns hierarcas do chavismo. Diversos familiares t\u00eam evitado fazer den\u00fancias p\u00fablicas ou procurar apoio de organiza\u00e7\u00f5es defensoras de direitos humanos por medo de repres\u00e1lias.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar daquelas pessoas que n\u00e3o t\u00eam familiares que, como a senhora Carmen, possam tornar p\u00fablica sua situa\u00e7\u00e3o. Pessoas que pereceram em pris\u00f5es colapsadas pela superlota\u00e7\u00e3o, pela insalubridade, pelas doen\u00e7as e pela fome.<\/p>\n<p>E essa incerteza persiste inclusive diante das contradi\u00e7\u00f5es no comportamento das lideran\u00e7as chavistas. Enquanto continuam sendo utilizados aparatos de seguran\u00e7a do Estado para conter protestos de idosos, estudantes e trabalhadores, jornalistas seguem sendo intimidados. Paralelamente, importantes figuras do chavismo continuam expressando publicamente sua convic\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia no poder, mesmo diante da crescente deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, institucional e social do pa\u00eds. Tudo isso ocorre diante dos olhos da comunidade internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil saber quantas pessoas ainda se lembrar\u00e3o do nome de Carmen Navas daqui a alguns meses. Mas acredito que os venezuelanos n\u00e3o deveriam esquec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Porque sua hist\u00f3ria diz muito sobre o pa\u00eds em que a Venezuela se transformou: um lugar onde uma m\u00e3e de 81 anos precisou converter os \u00faltimos meses de sua vida em uma peregrina\u00e7\u00e3o desesperada em busca de um filho, sem saber que ele j\u00e1 n\u00e3o estava entre os vivos.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria de Carmen Navas e Victor Hugo Quero tamb\u00e9m nos deixa um outro lembrete, talvez o mais importante em tempos t\u00e3o dif\u00edceis: o de que a coragem e o amor seguem tendo um extraordin\u00e1rio poder mobilizador na luta contra a injusti\u00e7a, mesmo quando partem das pessoas mais indefesas.<\/p>\n<p>A senhora Carmen n\u00e3o se resignou ao sil\u00eancio. N\u00e3o aceitou a indiferen\u00e7a. N\u00e3o desistiu de procurar respostas quando tantos j\u00e1 teriam perdido as for\u00e7as. Sua voz tornou-se, ainda que involuntariamente, a voz de muitas outras pessoas na Venezuela que seguem buscando seus filhos, sua verdade e sua dignidade.<\/p>\n<p>Que a mem\u00f3ria de Carmen Navas sirva n\u00e3o apenas como den\u00fancia da crueldade que marcou os \u00faltimos anos da Venezuela, mas tamb\u00e9m como inspira\u00e7\u00e3o para reconstruir um pa\u00eds onde nunca mais seja necess\u00e1rio tanto sofrimento para exigir justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Porque a Venezuela precisar\u00e1 de mais pessoas como Carmen Navas: pessoas com a coragem de enfrentar o medo, insistir na verdade e lutar pela Justi\u00e7a e pela democracia, mesmo quando tudo parece imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><em><strong>William Clavijo<\/strong> \u00e9 cientista pol\u00edtico venezuelano, mestre e doutor em Pol\u00edticas P\u00fablicas pela UFRJ. \u00c9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o Venezuela Global e <\/em><em>fellow<\/em> do Instituto Amplifica.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem hist\u00f3rias que, por si s\u00f3, explicam a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia institucional que vive um pa\u00eds. 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