{"id":503288,"date":"2026-06-19T16:54:12","date_gmt":"2026-06-19T20:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=503288"},"modified":"2026-06-19T16:54:12","modified_gmt":"2026-06-19T20:54:12","slug":"no-brasil-os-impostos-sao-uma-forma-de-dizimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=503288","title":{"rendered":"No Brasil, os impostos s\u00e3o uma forma de d\u00edzimo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/19171200\/gazeta-dizimo.jpg.webp\" \/><span>A complexidade tribut\u00e1ria nacional virou um mecanismo de intimida\u00e7\u00e3o permanente. (Foto: Stevepb\/Pixabay)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Conclu\u00ed meu \u00faltimo artigo,<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/luciano-trigo\/fuga-para-o-paraguai-um-brasil-que-expulsa-as-proprias-industrias\/\">\u201cFuga para o Paraguai\u201d<\/a>, citando o \u201cd\u00edzimo\u201d da carga tribut\u00e1ria, e a imagem ficou na minha cabe\u00e7a. Ela merece mais reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe uma diferen\u00e7a entre pagar impostos em pa\u00edses desenvolvidos e pagar impostos no Brasil. Em pa\u00edses onde o Estado entrega seguran\u00e7a, infraestrutura eficiente, sa\u00fade p\u00fablica e outros servi\u00e7os de qualidade compat\u00edvel com o valor arrecadado, os impostos fazem parte de um pacto social. O cidad\u00e3o entrega uma parcela de sua renda e recebe algo concreto em troca.\u00a0<\/p>\n<p>No Brasil a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. Aqui, os impostos se parecem menos com um contrato entre o contribuinte e o Estado e mais com uma esp\u00e9cie de d\u00edzimo obrigat\u00f3rio \u2013 um tributo quase religioso pago a uma estrutura gigantesca, opaca e insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com o d\u00edzimo n\u00e3o \u00e9 exagero ret\u00f3rico. A l\u00f3gica do nosso sistema tribut\u00e1rio \u00e9 profundamente baseada na f\u00e9. O brasileiro deve crer na promessa de que os recursos ser\u00e3o bem utilizados, de que os servi\u00e7os p\u00fablicos ir\u00e3o melhorar, de que o sacrif\u00edcio financeiro individual \u00e9 necess\u00e1rio para financiar o bem comum. Mas a experi\u00eancia cotidiana desmente diariamente essa cren\u00e7a.<\/p>\n<blockquote>\n<p>No Brasil, os impostos se parecem menos com um contrato entre o contribuinte e o Estado e mais com uma esp\u00e9cie de d\u00edzimo obrigat\u00f3rio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O trabalhador brasileiro paga impostos quando recebe sal\u00e1rio, quando consome, quando investe, quando abastece seu carro, quando abre uma empresa, quando herda patrim\u00f4nio e at\u00e9 quando morre. Em muitos casos, o consumidor nem sequer sabe exatamente quanto est\u00e1 entregando ao governo, porque o sistema foi desenhado para esconder o custo do Estado dentro dos pre\u00e7os. O cidad\u00e3o compra um celular, um carro ou um pacote de arroz sem perceber que uma parte enorme daquele valor n\u00e3o remunera produ\u00e7\u00e3o, log\u00edstica ou lucro, mas a m\u00e1quina p\u00fablica.<\/p>\n<p>Mesmo com uma carga tribut\u00e1ria em torno de 33% do PIB, patamar superior ao de muitos pa\u00edses ricos, o cidad\u00e3o convive com escolas p\u00fablicas prec\u00e1rias, hospitais superlotados, estradas deterioradas e \u00edndices alarmantes de viol\u00eancia urbana. Quem tem condi\u00e7\u00f5es acaba pagando duas vezes: primeiro ao Estado e depois ao setor privado, quando precisa contratar plano de sa\u00fade, escola particular ou seguran\u00e7a privada.<\/p>\n<p>Mas o debate tribut\u00e1rio no Brasil adquiriu um tom quase sacerdotal. Pol\u00edticos e burocratas falam da arrecada\u00e7\u00e3o como l\u00edderes religiosos falam de oferendas. Sempre falta dinheiro. Sempre existe uma nova emerg\u00eancia justificando mais arrecada\u00e7\u00e3o. Raramente se questiona o tamanho, o desperd\u00edcio ou a baixa produtividade do pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p>Na verdade, o t\u00edtulo deste artigo \u00e9 bastante injusto. Os impostos brasileiros s\u00e3o muito mais pesados do que o d\u00edzimo religioso que inspira a compara\u00e7\u00e3o. Como o pr\u00f3prio nome indica, o d\u00edzimo corresponde a 10% da renda do fiel. E muitas igrejas oferecem em troca um senso concreto de comunidade, acolhimento, apoio emocional e pertencimento. Para milh\u00f5es de pessoas, a percep\u00e7\u00e3o subjetiva de retorno \u00e9 real.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 o trabalhador v\u00ea quase 30% do sal\u00e1rio desaparecer em impostos diretos e indiretos antes mesmo de conseguir consumir ou poupar, sem experimentar qualquer sensa\u00e7\u00e3o equivalente de benef\u00edcio concreto. Pelo contr\u00e1rio: continua enfrentando inseguran\u00e7a, servi\u00e7os prec\u00e1rios e infraestrutura deteriorada.\u00a0<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma mentalidade em que o cidad\u00e3o deixa de se enxergar como contribuinte racional cobrando efici\u00eancia e passa a agir como devoto involunt\u00e1rio, obrigado a praticar sua f\u00e9 no Estado redentor. Enquanto isso, o empreendedor brasileiro n\u00e3o teme apenas o mercado ou a concorr\u00eancia; teme o fisco. A complexidade tribut\u00e1ria nacional virou um mecanismo de intimida\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses onde o contribuinte percebe retorno concreto, pagar impostos pode gerar sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento c\u00edvico. No Brasil, gera ressentimento. O cidad\u00e3o sente que sustenta uma estrutura distante, hostil e frequentemente corrupta, j\u00e1 que esc\u00e2ndalos bilion\u00e1rios se sucedem h\u00e1 d\u00e9cadas sem produzir mudan\u00e7as profundas. A impress\u00e3o dominante \u00e9 que o dinheiro arrecadado desaparece em privil\u00e9gios, desperd\u00edcios e corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n<p>O fiel entrega parte de sua renda esperando b\u00ean\u00e7\u00e3os futuras. O brasileiro entrega parte expressiva de sua renda esperando servi\u00e7os que chegam de forma prec\u00e1ria, quando chegam. E, assim como em certas igrejas, a culpa por qualquer fracasso nunca recai sobre a administra\u00e7\u00e3o do sistema, mas sobre a insufici\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A complexidade tribut\u00e1ria nacional virou um mecanismo de intimida\u00e7\u00e3o permanente. 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