{"id":500443,"date":"2026-06-18T14:22:08","date_gmt":"2026-06-18T18:22:08","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=500443"},"modified":"2026-06-18T14:22:08","modified_gmt":"2026-06-18T18:22:08","slug":"a-fraude-comeca-antes-da-urna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=500443","title":{"rendered":"A fraude come\u00e7a antes da urna"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/16135754\/Jose-Cruz-Agencia-Brasil.jpg.webp\" \/><span>O voto \u00e9 apenas o cap\u00edtulo final de um processo que come\u00e7a meses antes. (Foto: Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A obsess\u00e3o com m\u00e1quinas de vota\u00e7\u00e3o ou c\u00e9dulas de papel nas urnas banaliza as den\u00fancias e esconde a verdadeira vulnerabilidade das democracias <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/leonardo-coutinho\/colombia-um-pais-envenenado\/\">latino-americanas<\/a>: o controle das candidaturas, da informa\u00e7\u00e3o, da log\u00edstica e das regras do jogo. Por causa disso, quase que na totalidade das vezes, o grito de fraude eleitoral virou palavra de perdedor.<\/p>\n<p>Basta perder uma elei\u00e7\u00e3o para que algum candidato, partido ou influenciador descubra, subitamente, que as urnas eram suspeitas, o sistema estava programado e uma conspira\u00e7\u00e3o internacional havia escolhido o vencedor com anteced\u00eancia. N\u00e3o importa se o pa\u00eds usa c\u00e9dulas de papel, m\u00e1quinas eletr\u00f4nicas ou uma combina\u00e7\u00e3o dos dois. A derrota passou a ser tratada como prova do crime.<\/p>\n<p>A direita faz isso. A esquerda tamb\u00e9m. Em comum, ambas produzem o mesmo estrago: transformam uma acusa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima em uma ret\u00f3rica que esvazia o problema real. Quando tudo \u00e9 fraude, nada mais \u00e9 fraude. E para que ent\u00e3o elei\u00e7\u00e3o se elas n\u00e3o servem para nada? Isso \u00e9 uma capitula\u00e7\u00e3o que faz mal a um dos pilares da democracia. Pilar esse que est\u00e1, sim, sob amea\u00e7a, mas n\u00e3o pela maneira que muitos querem que pensemos que esteja.<\/p>\n<p>A banaliza\u00e7\u00e3o esvazia o debate p\u00fablico, alimenta a ind\u00fastria digital da indigna\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o e destr\u00f3i a capacidade de distinguir uma elei\u00e7\u00e3o apertada de uma elei\u00e7\u00e3o manipulada. O derrotado ganha uma desculpa. O vencedor perde legitimidade. E os verdadeiros fraudadores recebem o melhor dos presentes: uma cortina de fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Tenho observado o caos eleitoral da Am\u00e9rica Latina e tenho uma sensa\u00e7\u00e3o de que o erro est\u00e1 em imaginar que uma elei\u00e7\u00e3o se resume aos minutos passados diante da urna. O voto \u00e9 apenas o cap\u00edtulo final de um processo que come\u00e7a meses antes. A integridade eleitoral depende de quem pode concorrer, de quem pode falar, das regras impostas \u00e0s campanhas, da liberdade da imprensa, da log\u00edstica dos locais de vota\u00e7\u00e3o, da fiscaliza\u00e7\u00e3o, da cadeia de cust\u00f3dia das atas e da transpar\u00eancia da apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou convencido que \u00e9 justamente no processo que se encontra a fraude moderna.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nem toda derrota \u00e9 roubo. Nem todo sistema oficialmente auditado \u00e9 necessariamente justo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A caricatura da fraude eleitoral ainda \u00e9 a de um sujeito trocando c\u00e9dulas durante a madrugada ou a de um hacker misterioso reprogramando m\u00e1quinas de vota\u00e7\u00e3o. Essas coisas podem acontecer. Mas os autocratas e engenheiros pol\u00edticos mais eficientes j\u00e1 compreenderam que n\u00e3o precisam alterar votos depois que eles s\u00e3o depositados. \u00c9 muito mais seguro controlar as condi\u00e7\u00f5es sob as quais ser\u00e3o depositados. Assim, o resultado na urna pode estar limpo dentro de um processo sujo.<\/p>\n<p>A Venezuela oferece o exemplo mais completo. Nicol\u00e1s Maduro n\u00e3o precisou lan\u00e7ar m\u00e3o de feiti\u00e7aria eletr\u00f4nica para tentar permanecer no poder depois da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2024. As pr\u00f3prias m\u00e1quinas emitiram comprovantes impressos com os resultados de cada se\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o organizou uma opera\u00e7\u00e3o nacional para recolher essas atas e publicou a contabilidade que o regime pretendia esconder.<\/p>\n<p>O sistema de vota\u00e7\u00e3o registrou o que aconteceu e da\u00ed? Quem se recusou a reconhecer o resultado foi o regime. Os votos muito bem registrados (exemplarmente diga-se) s\u00e3o uma alegoria em um sistema no qual a elei\u00e7\u00e3o \u00e9 verniz para acalmar os cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Mas muito antes desse ato extremo de declarar um resultado irreal, o chavismo j\u00e1 havia definido um modelo de fraude pr\u00e9-eleitoral espetacular, no sentido mais s\u00f3brio poss\u00edvel. Perseguiu dirigentes, impediu candidaturas, controlou institui\u00e7\u00f5es, restringiu a imprensa e usou a m\u00e1quina estatal contra a oposi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso usou suas mil\u00edcias e grupos paramilitares para coagir e levar os funcion\u00e1rios, p\u00fablicos, benefici\u00e1rios de programas sociais e moradores de \u00e1reas sob controle do crime organizado a votar pelo regime. Na Venezuela, o voto n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio e o povo n\u00e3o acredita no sigilo do voto. Esse medo se transformou em arma que Hugo Ch\u00e1vez e depois maduro usaram por anos para for\u00e7ar o voto neles.<\/p>\n<p>As urnas eram auditadas e sempre mostravam vit\u00f3rias s\u00f3lidas. \u201cN\u00e3o havia fraude\u201d. Claro que n\u00e3o, pois a forma de roubar as elei\u00e7\u00f5es se dava antes de o eleitor chegar para votar.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, em 2019, Evo Morales tamb\u00e9m demonstrou que a prepara\u00e7\u00e3o do terreno \u00e9 mais importante do que a opera\u00e7\u00e3o no dia da vota\u00e7\u00e3o. Antes de disputar seu quarto mandato consecutivo, Morales ignorou o resultado de um plebiscito no qual os bolivianos haviam rejeitado uma nova reelei\u00e7\u00e3o. O obst\u00e1culo constitucional foi removido por um tribunal alinhado ao governo, sob o argumento criativo de que concorrer indefinidamente seria um direito humano. Isso \u00e9 fraude e a idoneidade da elei\u00e7\u00e3o come\u00e7ou comprometida antes que o primeiro voto fosse depositado.<\/p>\n<p>O Peru de 2026 revelou outra dimens\u00e3o do problema: a log\u00edstica. No primeiro turno, dezenas de milhares de eleitores foram impedidos de votar porque centenas de mesas n\u00e3o foram instaladas em locais de vota\u00e7\u00e3o, sobretudo em Lima. Um problema inexplic\u00e1vel, pois, a capital \u00e9 o local mais f\u00e1cil de operar e n\u00e3o haveria raz\u00e3o alguma para o problema log\u00edstico. Mas Lima era o cora\u00e7\u00e3o eleitoral de Rafael L\u00f3pez Aliaga, o candidato direitista que liderava as pesquisas.<\/p>\n<p>As autoridades eleitorais estenderam o direito de voto por um dia, mas o efeito foi devastador. Com a apura\u00e7\u00e3o em curso, muitos eleitores simplesmente desistiram de comparecer ou votaram condicionados por uma apura\u00e7\u00e3o em curso. Em uma sociedade extremamente polarizada que via o risco do ultrarradical de esquerda Roberto S\u00e1nchez chegar ao segundo turno, pode ter preferido votar em Keiko Fujimori, que acabou se beneficiando de toda a trapa\u00e7a que sabe Deus porque foi engendrada.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/leonardo-coutinho\/a-escolha-deliberada-do-brasil-pela-irrelevancia\/\">Brasil<\/a>, o debate sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2022 foi sequestrado pela obsess\u00e3o com a urna eletr\u00f4nica. Jair Bolsonaro e seus apoiadores passaram anos levantando suspeitas. Concordo que o voto impresso seria um <em>upgrade<\/em> e tanto para nossa integridade eleitoral. Mas sejamos sinceros. Com as regras vigentes e com a imparcialidade judicial teria feito alguma diferen\u00e7a de fato?<\/p>\n<p>Durante a campanha, sob o argumento de proteger a Democracia, o Tribunal Superior Eleitoral determinou remo\u00e7\u00f5es de conte\u00fados, concedeu direitos de resposta em ritmo acelerado e assumiu um papel cada vez mais ativo na administra\u00e7\u00e3o do discurso pol\u00edtico. Mas apenas de um dos lados da disputa.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o de fraude n\u00e3o deve se concentrar apenas na integridade dos votos, mas no processo acima de tudo. Examinar se as regras foram aplicadas de forma sim\u00e9trica, se institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas atuaram dentro de seus limites e se todos os eleitores e candidatos receberam o mesmo tratamento.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que gritar \u201cfraude\u201d diante de qualquer derrota n\u00e3o protege a democracia. Ao contr\u00e1rio, ajuda a destru\u00ed-la. O candidato que recorre a esse recurso de den\u00fancia sem provas, como as apresentadas pelos opositores venezuelanos, desmoraliza as den\u00fancias verdadeiras. Faz com que a sociedade pare de ouvir justamente quando deveria prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A defesa da integridade eleitoral exige abandonar tanto a ingenuidade quanto a paranoia. Nem toda derrota \u00e9 roubo. Nem todo sistema oficialmente auditado \u00e9 necessariamente justo. Nem toda fraude tem escala para alterar o resultado. Mas nenhuma democracia deve ser avaliada apenas pela m\u00e1quina que soma os votos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso auditar o processo inteiro: o acesso \u00e0s candidaturas, a independ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, a liberdade de express\u00e3o, o uso da m\u00e1quina p\u00fablica, a log\u00edstica, a fiscaliza\u00e7\u00e3o, as atas e a publica\u00e7\u00e3o dos resultados. O Brasil ia mais ou menos bem nisso, mas se perdeu no caminho.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O voto \u00e9 apenas o cap\u00edtulo final de um processo que come\u00e7a meses antes. 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