{"id":499358,"date":"2026-06-18T06:26:04","date_gmt":"2026-06-18T10:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=499358"},"modified":"2026-06-18T06:26:04","modified_gmt":"2026-06-18T10:26:04","slug":"o-avanco-da-censura-nas-redes-esta-transformando-a-guerra-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=499358","title":{"rendered":"O avan\u00e7o da censura nas redes est\u00e1 transformando a guerra cultural"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A guerra cultural brasileira, que nos acostumamos a assistir (e viver) como um embate ruidoso e quase espont\u00e2neo de narrativas morais e est\u00e9ticas nas pra\u00e7as p\u00fablicas digitais, vem mudando de patamar e de natureza.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 acompanhando o desfecho do julgamento do Marco Civil da Internet no Supremo Tribunal Federal, em simbiose com a nada sutil ofensiva regulat\u00f3ria do Poder Executivo, percebe que estamos indo muito al\u00e9m de um rearranjo jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Est\u00e1 se lavrando a certid\u00e3o de \u00f3bito de uma era.<\/p>\n<h2>Um breve hist\u00f3rico<\/h2>\n<p>Para entender o presente e tentar vislumbrar o futuro, \u00e9 preciso antes conhecer melhor o passado.<\/p>\n<p>O conceito de <em>Kulturkampf<\/em> \u2014 a luta cultural \u2014 ganhou corpo no s\u00e9culo XIX com a tentativa de Bismarck, o famoso \u201cchanceler de ferro\u201d alem\u00e3o, de submeter a Igreja Cat\u00f3lica ao controle do Estado prussiano, uma investida que usava a burocracia para asfixiar a dissid\u00eancia espiritual.<\/p>\n<p>Quase um s\u00e9culo depois, nos anos 1990, o soci\u00f3logo americano James Davison Hunter resgatou e americanizou o termo para descrever as fraturas morais que dividiam o seu pa\u00eds em temas como aborto e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a internet e, mais especificamente, com as redes sociais no s\u00e9culo XXI, uma mudan\u00e7a crucial ocorreu. Pela primeira vez, a velha m\u00eddia e o <em>establishment<\/em> intelectual perderam o monop\u00f3lio da narrativa. A princ\u00edpio, houve um entusiasmo ing\u00eanuo de quem enxergava nisso a democratiza\u00e7\u00e3o real do debate p\u00fablico, ainda que ao custo de a guerra cultural contaminar tudo e a todos.<\/p>\n<p>Mas o sonho de ver\u00e3o libert\u00e1rio, uma aparente quebra de hegemonia que parecia descentralizar o poder cultural de forma irrevers\u00edvel, n\u00e3o durou muito. O momento em que o topo pol\u00edtico e burocr\u00e1tico percebeu que havia perdido o controle do fluxo de informa\u00e7\u00f5es foi tamb\u00e9m o instante em que a contraofensiva come\u00e7ou a ser desenhada.<\/p>\n<p>Sob o pretexto virtuoso de combater a desinforma\u00e7\u00e3o e proteger as institui\u00e7\u00f5es dos excessos desse novo mundo, iniciou-se um movimento de rea\u00e7\u00e3o que gerou verdadeiros fiscais de alf\u00e2ndega do pensamento. O debate tosco foi substitu\u00eddo pelo policiamento moral feito por algoritmos e \u201cidiotas denunciantes \u00fateis\u201d.<\/p>\n<p>O que antes funcionava, por ser livre, como uma arena ca\u00f3tica de persuas\u00e3o, degenerou em um tribunal permanente de denuncismo. N\u00e3o se busca mais convencer ningu\u00e9m, mas carimbar no advers\u00e1rio o r\u00f3tulo que o tornar\u00e1 um p\u00e1ria digital.<\/p>\n<p>Criou-se uma engrenagem na qual o cidad\u00e3o comum, apavorado pela possibilidade de ver sua reputa\u00e7\u00e3o ou sustento triturados por um deslize interpretativo, prefere o recolhimento. \u00c9 o triunfo da espiral do sil\u00eancio com roupagem tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<h2>O presente \u00e9 <em>dark social<\/em><\/h2>\n<p>Neste cen\u00e1rio, a quantas anda a guerra cultural?<\/p>\n<p>Se o diagn\u00f3stico depender das apar\u00eancias oficiais, parece caminhar para uma calmaria burocr\u00e1tica, domesticada pela engenharia estatal que se iniciou no continente europeu por meio de legisla\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/brasil-e-a-unica-democracia-onde-regulacao-controle-das-redes-sociais-partiu-do-judiciario-censura-stf\/\">como a <em>NetzDG<\/em> alem\u00e3 e o <em>Digital Services Act<\/em> da Uni\u00e3o Europeia<\/a>, precursores universais da terceiriza\u00e7\u00e3o do arb\u00edtrio que o STF implantar\u00e1 no Brasil, obrigando as plataformas a censurarem antes e perguntar depois.<\/p>\n<p>Ou seja, a guerra cultural vem sendo estatizada e convertida em ferramenta de gest\u00e3o pol\u00edtica. Mas esse policiamento institucionalizado produziu uma ilus\u00e3o de \u00f3tica. Ao olharem para as grandes plataformas e enxergarem um ambiente potencialmente pacificado pela censura, higienizado pelos filtros de modera\u00e7\u00e3o e pelo medo generalizado do cancelamento, os burocratas enxergam a vit\u00f3ria da suposta civilidade sobre o caos.<\/p>\n<p>Entretanto, por tr\u00e1s da fachada de um debate p\u00fablico artificialmente higienizado e vigiado, o que vai se cultivando \u00e9 um estado cr\u00f4nico de exaust\u00e3o democr\u00e1tica e indiferen\u00e7a c\u00ednica. Sentindo-se vigiado, o \u201cinternauta\u201d vem intensificando uma verdadeira di\u00e1spora digital. O \u00eaxodo em massa das redes abertas para ecossistemas fechados de canais de transmiss\u00e3o e grupos restritos \u00e9 um fen\u00f4meno demonstr\u00e1vel e n\u00e3o \u00e9 marginal.<\/p>\n<p>O Telegram, por exemplo, mais do que duplicou seu n\u00famero de usu\u00e1rios entre 2020 e atualmente, passando de 200 milh\u00f5es para 1 bilh\u00e3o. O WhatsApp, por sua vez, \u00e9 hoje habitado por mais de 3,3 bilh\u00f5es de pessoas, sendo 148 milh\u00f5es no Brasil. Ambos se tornaram centrais de distribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica invis\u00edvel, onde, s\u00f3 no WhatsApp, mais de 1,5 bilh\u00e3o de usu\u00e1rios utilizam diariamente grupos e abas privadas de canais para se informar.<\/p>\n<p>Em outras palavras: longe dos olhos dos algoritmos censores e dos denunciantes de plant\u00e3o, o usu\u00e1rio constr\u00f3i suas pr\u00f3prias realidades paralelas no que est\u00e1 sendo chamado de <em>dark social<\/em>.<\/p>\n<p>O resultado pr\u00e1tico, portanto, de a\u00e7\u00f5es como as tomadas pelo STF no \u00e2mbito do chamado inqu\u00e9rito das fake news ou na atual decis\u00e3o sobre o Marco Civil da Internet, n\u00e3o ser\u00e1 a modera\u00e7\u00e3o que os engenheiros sociais travestidos de ministros pretendem implantar, mas a fragmenta\u00e7\u00e3o absoluta da sociedade em bolhas intranspon\u00edveis, onde o \u00f3dio n\u00e3o se dissipa, apenas se acumula em sil\u00eancio ressentido.<\/p>\n<p>Ao transformar a dissid\u00eancia leg\u00edtima em amea\u00e7a e o debate livre em risco civil, os arquitetos do &#8220;novo normal&#8221; podem at\u00e9 conseguir silenciar a pra\u00e7a p\u00fablica digital, mas o pre\u00e7o cobrado pelo monitoramento constante das consci\u00eancias custar\u00e1 muito mais caro do que a farsa de uma paz social inexistente.<\/p>\n<p>Se a guerra cultural de meados da d\u00e9cada passada pecou pelo excesso de ru\u00eddo e pela ilus\u00e3o de que as redes salvariam a democracia, o cen\u00e1rio atual prenuncia um futuro sombrio. Como imaginar diferente diante de uma sociedade dividida e descrente (os \u00edndices de absten\u00e7\u00e3o eleitoral v\u00eam crescendo elei\u00e7\u00e3o a elei\u00e7\u00e3o), perigosamente indiferente ao destino da pr\u00f3pria liberdade e cultivando ressentimentos?<\/p>\n<h2>De volta para o passado<\/h2>\n<p>Voltemos ao chanceler de ferro prussiano. Durante anos, padres foram presos, semin\u00e1rios fechados, bispos exilados. A m\u00e1quina burocr\u00e1tica parecia ter domado a dissid\u00eancia. Bismarck acreditava ter vencido sua <em>Kulturkampf<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha. A Igreja resistiu no sil\u00eancio das par\u00f3quias e nas consci\u00eancias que nenhum decreto alcan\u00e7a. Em quatro anos, os cat\u00f3licos alem\u00e3es, longe de se dissolverem, dobraram sua bancada parlamentar, obrigando o chanceler de ferro a recuar humilhado, for\u00e7ado a buscar alian\u00e7a com os mesmos que tentara esmagar.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas li\u00e7\u00f5es a\u00ed, tanto para os arquitetos do novo normal brasileiro quanto para os que resistem ao arb\u00edtrio. Uma delas: censurar o debate p\u00fablico e controlar o que as pessoas pensam s\u00e3o duas coisas inteiramente diferentes. Outra: Bismarck n\u00e3o perdeu o Kulturkampf para quem gritava. Perdeu para quem ficou quieto. E n\u00e3o desistiu.\u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra cultural brasileira, que nos acostumamos a assistir (e viver) como um embate ruidoso e quase espont\u00e2neo de narrativas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":499359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-499358","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=499358"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499358\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/499359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=499358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=499358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=499358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}