{"id":499261,"date":"2026-06-18T05:02:00","date_gmt":"2026-06-18T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=499261"},"modified":"2026-06-18T05:02:00","modified_gmt":"2026-06-18T09:02:00","slug":"vivemos-numa-democracia-de-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=499261","title":{"rendered":"Vivemos numa democracia de verdade?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\">\n<div class=\"postMainImage_post-main-image-info__AaDnR\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/17164726\/democracia-4.jpg.webp\" \/><span>Nenhuma democracia sobrevive apenas da repeti\u00e7\u00e3o da palavra \u201cdemocracia\u201d, enquanto liberdade, confian\u00e7a p\u00fablica e coes\u00e3o nacional se deterioram silenciosamente. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span><\/div>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Democracias n\u00e3o se sustentam apenas por elei\u00e7\u00f5es, mas pela capacidade de preservar liberdade, confian\u00e7a social e senso de pertencimento comum. \u201cSabor\u201d virou express\u00e3o comum na internet para definir algo que preserva a apar\u00eancia de determinada coisa, mas cuja experi\u00eancia concreta j\u00e1 n\u00e3o corresponde inteiramente ao que promete. \u00c9 um meme \u2013 mas memes s\u00f3 se espalham porque conseguem condensar percep\u00e7\u00f5es coletivas dif\u00edceis de traduzir de outro modo. Talvez seja justamente esse o desconforto silencioso que come\u00e7a a crescer no Brasil.<\/p>\n<p>Vivemos um tempo em que a palavra \u201cdemocracia\u201d \u00e9 repetida de forma quase lit\u00fargica por institui\u00e7\u00f5es, autoridades, partidos e setores da imprensa. Nunca se falou tanto sobre sua defesa. Ainda assim, cresce entre as pessoas uma sensa\u00e7\u00e3o difusa de inseguran\u00e7a, desconfian\u00e7a e distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias estruturas encarregadas de preserv\u00e1-la.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 um ponto delicado: democracias n\u00e3o deixam de existir apenas quando acabam as elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas. Elas tamb\u00e9m come\u00e7am a se deteriorar quando passam a sobreviver mais como discurso oficial do que como experi\u00eancia concreta de liberdade, previsibilidade e pertencimento comum.<\/p>\n<p>Porque democracias dependem de algo muito mais dif\u00edcil de construir \u2013 e infinitamente mais f\u00e1cil de perder: confian\u00e7a p\u00fablica, autoconten\u00e7\u00e3o institucional e percep\u00e7\u00e3o coletiva de que existe um mesmo conjunto de regras v\u00e1lido para todos. Quando essa percep\u00e7\u00e3o come\u00e7a a desaparecer, o problema deixa de ser apenas pol\u00edtico. Passa a ser civilizacional.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>O problema das sociedades nunca come\u00e7a apenas quando perdem prosperidade. Come\u00e7a quando perdem a capacidade de distinguir entre liberdade real e sua mera apar\u00eancia. E nenhum povo deveria se contentar apenas com sabor democracia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O Brasil atravessa hoje uma eros\u00e3o lenta desse sentimento de pertencimento nacional. A polariza\u00e7\u00e3o permanente transformou advers\u00e1rios em inimigos morais; institui\u00e7\u00f5es deixaram de reconhecer seus pr\u00f3prios excessos; decis\u00f5es relevantes passaram a produzir perplexidade p\u00fablica crescente; e a sociedade, anestesiada pelo excesso de conflito e informa\u00e7\u00e3o, reage muitas vezes com humor, ironia ou resigna\u00e7\u00e3o ao que, em circunst\u00e2ncias normais, provocaria espanto e mobiliza\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O mais preocupante \u00e9 que tudo isso ocorre enquanto ainda se insiste na preserva\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia de normalidade. Como se bastasse repetir determinadas palavras para restaurar automaticamente a legitimidade que elas deveriam representar.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria hist\u00f3ria demonstra que nem sempre o nome formal de um regime corresponde integralmente \u00e0 experi\u00eancia concreta vivida pela popula\u00e7\u00e3o \u2013 como ocorre em pa\u00edses que carregam o adjetivo \u201cdemocr\u00e1tico\u201d em sua denomina\u00e7\u00e3o oficial, embora sua realidade cotidiana frequentemente se aproxime muito mais de estruturas r\u00edgidas de controle e exce\u00e7\u00e3o. Mas legitimidade n\u00e3o nasce de slogans. Nasce de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>E confian\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o se sustenta apenas na legalidade formal das institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m na percep\u00e7\u00e3o de coer\u00eancia moral, autoconten\u00e7\u00e3o e responsabilidade diante do pa\u00eds real. Quando autoridades parecem incapazes de reconhecer o impacto de seus pr\u00f3prios excessos, ou quando epis\u00f3dios que produzem perplexidade p\u00fablica passam a ser tratados com naturalidade burocr\u00e1tica, a dist\u00e2ncia entre povo e institui\u00e7\u00f5es inevitavelmente aumenta.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, a sociedade come\u00e7a lentamente a perder algo ainda mais importante do que consensos pol\u00edticos: a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de pertencimento comum. E nenhum pa\u00eds permanece funcional por muito tempo quando seus cidad\u00e3os deixam de se reconhecer como parte de um mesmo povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de direita ou esquerda. Nem de negar a import\u00e2ncia da democracia. Trata-se de compreender que nenhuma democracia sobrevive apenas da repeti\u00e7\u00e3o da palavra \u201cdemocracia\u201d, enquanto liberdade, confian\u00e7a p\u00fablica e coes\u00e3o nacional se deterioram silenciosamente.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica pode sobreviver ao conflito. O que nenhuma na\u00e7\u00e3o suporta indefinidamente \u00e9 a eros\u00e3o simult\u00e2nea da confian\u00e7a, da liberdade e da ideia de destino coletivo. Por isso, talvez o desafio brasileiro j\u00e1 n\u00e3o seja apenas pacificar. Talvez seja repactuar. Repactuar limites, responsabilidades, autoconten\u00e7\u00e3o e, principalmente, a capacidade de voltar a enxergar o Brasil como algo maior do que fac\u00e7\u00f5es em disputa permanente.<\/p>\n<p>Ronald Reagan afirmou, em discurso ao Parlamento brit\u00e2nico, em 1982, que \u201ca liberdade n\u00e3o \u00e9 prerrogativa exclusiva de poucos afortunados, mas direito universal de todos os seres humanos\u201d.<\/p>\n<p>A frase permanece atual porque o problema das sociedades nunca come\u00e7a apenas quando perdem prosperidade. Come\u00e7a quando perdem a capacidade de distinguir entre liberdade real e sua mera apar\u00eancia. E nenhum povo deveria se contentar apenas com sabor democracia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em><strong>Hudson Alves da Silva Lima<\/strong>, advogado, \u00e9 p\u00f3s-graduado em Processo Civil.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nenhuma democracia sobrevive apenas da repeti\u00e7\u00e3o da palavra \u201cdemocracia\u201d, enquanto liberdade, confian\u00e7a p\u00fablica e coes\u00e3o nacional se deterioram silenciosamente. (Foto:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":499262,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-499261","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=499261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/499261\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/499262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=499261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=499261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=499261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}