{"id":497471,"date":"2026-06-16T20:20:00","date_gmt":"2026-06-17T00:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=497471"},"modified":"2026-06-16T20:20:00","modified_gmt":"2026-06-17T00:20:00","slug":"o-que-faz-eua-e-brasil-brigarem-tanto-por-causa-do-etanol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=497471","title":{"rendered":"O que faz EUA e Brasil brigarem tanto por causa do etanol"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Biocombust\u00edvel mais produzido e consumido mundialmente, o etanol gera uma disputa entre Brasil e Estados Unidos que atravessa d\u00e9cadas e transcende governos.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/tarifa-eua-brasil-secao-301-censura-corrupcao\/\">Se\u00e7\u00e3o 301<\/a> \u2013 mecanismo da legisla\u00e7\u00e3o comercial americana que permite ao governo investigar pr\u00e1ticas consideradas injustas contra empresas do pa\u00eds \u2013, que gerou a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/orgao-governo-trump-sugere-tarifaco-sobre-produtos-brasil\/\">amea\u00e7a de tarifa de 25%<\/a> pelos Estados Unidos, \u00e9 o cap\u00edtulo mais recente desse embate.<\/p>\n<p>Um dos pontos da investiga\u00e7\u00e3o trata especificamente do etanol. O Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos EUA (USTR) acusa o Brasil de dificultar a entrada do biocombust\u00edvel americano no mercado brasileiro ao impor uma taxa de 18%.<\/p>\n<p>J\u00e1 a ind\u00fastria sucroalcooleira nacional considera a press\u00e3o descabida, lembrando que a atual taxa\u00e7\u00e3o brasileira segue a Tarifa Externa Comum (TEC) e que os EUA fazem o mesmo contra o a\u00e7\u00facar brasileiro.<\/p>\n<p>A briga em torno do etanol, que se acentuou a partir de 2017, vai muito al\u00e9m de uma disputa comercial entre dois grandes produtores e afeta uma cadeia estrat\u00e9gica para o agro brasileiro, influenciando investimentos, exporta\u00e7\u00f5es e a oferta de combust\u00edveis renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>O embate, no entanto, ultrapassa o com\u00e9rcio ao envolver interesses pol\u00edticos, poderosos lobbies industriais e at\u00e9 uma guerra de narrativas acad\u00eamicas.<\/p>\n<h2>As origens distintas das cadeias de etanol no Brasil e nos EUA<\/h2>\n<p>Daniel Vargas, professor de Economia e Direito da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), ressalta que o mercado de biocombust\u00edveis n\u00e3o surgiu espontaneamente, mas foi uma \u201ccria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, para diversificar matrizes energ\u00e9ticas e fomentar a agricultura em ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>No Brasil, o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/agronegocio\/biocombustiveis-agro-crise-petroleo\/\">etanol ganhou protagonismo<\/a> a partir de 1975 com o Pro\u00e1lcool, considerado o maior esfor\u00e7o mundial de substitui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Rea\u00e7\u00e3o ao choque do petr\u00f3leo de 1973, o programa visava substituir a gasolina aproveitando a voca\u00e7\u00e3o natural do pa\u00eds para a cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Nos EUA, o impulso inicial do setor n\u00e3o foi substituir derivados de petr\u00f3leo, mas melhorar a qualidade do ar, o que se somou a um forte lobby agr\u00edcola.<\/p>\n<p>A demanda surgiu a partir do Clean Air Act (Lei do Ar Limpo), de 1970. Com a revis\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o em 1990, refinarias americanas passaram a incorporar aditivos oxigenantes \u00e0 gasolina para reduzir emiss\u00f5es, abrindo espa\u00e7o para a expans\u00e3o do etanol de milho.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o da ind\u00fastria americana, no entanto, se deu a partir de 2005, com a aprova\u00e7\u00e3o do programa Renewable Fuel Standard (RFS), que tornou obrigat\u00f3ria a mistura de volumes crescentes de energia renov\u00e1vel na matriz de transportes a cada ano.<\/p>\n<p>Assim, a produ\u00e7\u00e3o de etanol escalou rapidamente, impulsionada por pesados subs\u00eddios governamentais a fazendeiros do chamado Cintur\u00e3o do Milho, no Centro-Oeste americano.<\/p>\n<p>Em 2006, o Brasil, que historicamente ocupava o posto de maior produtor global de etanol, foi superado pelos EUA, que mant\u00eam a lideran\u00e7a at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O protecionismo americano de US$ 0,54<\/h2>\n<p>Desde os anos 1980, quem sempre manteve barreiras comerciais protecionistas foram os Estados Unidos. O governo impunha um subs\u00eddio, fixado a partir de 1990 em US$ 0,54 por gal\u00e3o, como incentivo para as refinarias misturarem etanol \u00e0 gasolina. Para evitar que produtores estrangeiros se aproveitassem do benef\u00edcio, criou-se uma tarifa id\u00eantica sobre o biocombust\u00edvel importado.<\/p>\n<p>\u201cIncentivava-se internamente, mas para proteger o mercado estabelecia-se uma esp\u00e9cie de puni\u00e7\u00e3o para o mercado externo, em particular o Brasil\u201d, explica Vargas.<\/p>\n<p>Os US$ 0,54 viraram s\u00edmbolo da barreira americana contra o etanol de cana brasileiro. A pol\u00edtica come\u00e7ou a ser reduzida a partir dos anos 2000 at\u00e9 ser extinta no final de 2011.<\/p>\n<p>\u201cHouve muita rea\u00e7\u00e3o por l\u00e1, porque o mercado nasceu misturado com interesses p\u00fablicos e lobbies setoriais\u201d, conta o professor da FGV. \u201cA entrada externa soava como se estivesse corrompendo o objetivo da pol\u00edtica, como se o governo financiasse um produto importado.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 uma tarifa m\u00ednima de 2,5%, mas o etanol brasileiro ainda enfrenta barreiras por causa do sistema de cr\u00e9ditos de carbono americanos.<\/p>\n<p>Para entrar nos EUA sem taxa adicional, o produto precisa ser classificado pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (EPA) como \u201cbiocombust\u00edvel avan\u00e7ado\u201d, mas o processo de certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 complexo e burocr\u00e1tico, servindo como desest\u00edmulo.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o se qualificar para os benef\u00edcios do RFS, ou n\u00e3o atender a crit\u00e9rios espec\u00edficos de mistura, na pr\u00e1tica o etanol brasileiro enfrenta barreiras alfandeg\u00e1rias que, somadas, chegam a representar em m\u00e9dia 12,5% sobre o valor do produto nos EUA.<\/p>\n<h2>O in\u00edcio da taxa\u00e7\u00e3o brasileira em 2017<\/h2>\n<p>At\u00e9 meados de 2017, o etanol de milho americano entrava livremente no Brasil. Mas um excesso de safra nos EUA naquele ano resultou em uma \u201cdesova\u201d do excedente no mercado brasileiro a pre\u00e7os muito abaixo do praticado nacionalmente.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do governo brasileiro foi criar uma cota: 600 milh\u00f5es de litros por ano sem imposto. Qualquer volume adicional passaria a ser taxado em 20%.<\/p>\n<p>\u00c9 a imposi\u00e7\u00e3o dessa cota em 2017 que os americanos usam como fundamento para recomendar a tarifa retaliat\u00f3ria na investiga\u00e7\u00e3o do USTR. A alega\u00e7\u00e3o \u00e9 de que naquele momento o Brasil rompeu unilateralmente as regras do jogo.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, a fun\u00e7\u00e3o do etanol americano no mercado brasileiro tamb\u00e9m mudou, explica Vargas. Antes, ele servia como um complemento, que supria a demanda durante a entressafra da cana, equilibrando os pre\u00e7os do biocombust\u00edvel frente \u00e0 gasolina.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, o Brasil viveu o que o pesquisador chama de \u201cminirrevolu\u00e7\u00e3o do etanol de milho\u201d local, que hoje j\u00e1 representa 28% da produ\u00e7\u00e3o nacional do biocombust\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o precisamos mais do etanol de milho americano como tamp\u00e3o. Temos excedente de produ\u00e7\u00e3o interna com a expans\u00e3o do etanol de milho a pre\u00e7os cada vez mais competitivos\u201d, diz.<\/p>\n<h2>Brasil e EUA s\u00e3o tamb\u00e9m maiores mercados consumidores de etanol<\/h2>\n<p>O que torna a disputa ainda mais acirrada \u00e9 que, al\u00e9m de primeiro e segundo maiores produtores de etanol, Estados Unidos e Brasil tamb\u00e9m lideram o ranking de consumidores, o que faz com que ambos dependam do mercado um do outro.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu tenho excesso de safra, tenho que vender para os Estados Unidos, enquanto eles querem vender para a gente\u201d, explica o pesquisador da FGV, que chama a aten\u00e7\u00e3o ainda para o poder do lobby setorial em ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u201cOs dois mercados s\u00e3o regulados, t\u00eam incentivo p\u00fablico, t\u00eam uma esp\u00e9cie de espa\u00e7o cativo de prote\u00e7\u00e3o, t\u00eam lobby corporativo altamente poderoso. H\u00e1 essa liga\u00e7\u00e3o muito estreita do mercado com a pol\u00edtica comercial no Brasil e nos Estados Unidos\u201d, diz.<\/p>\n<p>O lobby do Cintur\u00e3o do Milho j\u00e1 demonstrou diversas vezes sua capacidade de ditar os rumos da diplomacia americana. Al\u00e9m de maiores produtores mundiais de etanol de milho, estados como Iowa, Illinois e Nebraska comp\u00f5em uma base eleitoral decisiva do governo de Donald Trump, que enfrenta neste ano as elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato.<\/p>\n<p>A press\u00e3o dos produtores \u00e9 uma das raz\u00f5es para a Casa Branca considerar o acesso ao mercado brasileiro de etanol uma prioridade de Estado.<\/p>\n<p>No Brasil, o programa Combust\u00edvel do Futuro tamb\u00e9m atende a demandas do setor. Em ambos os pa\u00edses h\u00e1, neste momento, discuss\u00f5es sobre o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/governo-pretende-aumentar-novamente-mistura-etanol-gasolina\/\">aumento da mistura de etanol na gasolina.<\/a><\/p>\n<h2>Corrida pelo combust\u00edvel do futuro e a &#8220;guerra verde&#8221;<\/h2>\n<p>Como ambos os pa\u00edses t\u00eam produzido excedentes cada vez maiores, h\u00e1 uma press\u00e3o agora para abrir novos mercados internacionais. Tanto Brasil quanto EUA buscam convencer economias como \u00cdndia e Jap\u00e3o, al\u00e9m de pa\u00edses europeus e africanos, a adotarem o etanol n\u00e3o s\u00f3 para autom\u00f3veis, mas tamb\u00e9m para a avia\u00e7\u00e3o (SAF) e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/agronegocio\/vitoria-do-agro-como-o-brasil-superou-a-resistencia-europeia-em-nova-regra-ambiental\/\">o transporte mar\u00edtimo<\/a>, o que abriria uma demanda sem precedentes para a ind\u00fastria sucroalcooleira.<\/p>\n<p>A disputa usa ainda a ci\u00eancia e o meio ambiente como arena. O principal campo de batalha t\u00e9cnico ocorre na \u00e1rea da chamada <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/agronegocio\/biocombustiveis-producao-alimentos-brasil\/\">mudan\u00e7a indireta do uso da terra<\/a>.<\/p>\n<p>Pesquisadores americanos frequentemente acusam o Brasil de expandir a fronteira agr\u00edcola sobre biomas sens\u00edveis, enquanto o Brasil aponta o alto uso de energia f\u00f3ssil e fertilizantes qu\u00edmicos na produ\u00e7\u00e3o de milho nos EUA.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Ind\u00fastria de etanol brasileira contesta investiga\u00e7\u00e3o americana<\/h2>\n<p>A Uni\u00e3o da Ind\u00fastria de Cana-de-A\u00e7\u00facar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil contestam as alega\u00e7\u00f5es do USTR.<\/p>\n<p>As entidades afirmam que a tarifa aplicada pelo Brasil ao etanol importado segue a TEC do Mercosul e \u201cn\u00e3o constitui uma medida direcionada especificamente aos Estados Unidos\u201d.<\/p>\n<p>O texto destaca que os Estados Unidos mant\u00eam h\u00e1 d\u00e9cadas pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o ao a\u00e7\u00facar \u201cpor meio de um sistema de tarifas proibitivas e cotas que limitam as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para o mercado norte-americano a um volume que representa menos de 1% das exporta\u00e7\u00f5es totais do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Por serem extra\u00eddos da cana, barreiras e tarifas que recaem tanto sobre o a\u00e7\u00facar quanto sobre o etanol afetam basicamente a mesma cadeia produtiva local.<\/p>\n<p>\u201cO etanol brasileiro \u00e9 reconhecido internacionalmente como uma das solu\u00e7\u00f5es mais eficientes para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos transportes, combinando baixa intensidade de carbono, crit\u00e9rios robustos e audit\u00e1veis de sustentabilidade e contribui\u00e7\u00e3o efetiva para a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa\u201d, dizem as entidades.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biocombust\u00edvel mais produzido e consumido mundialmente, o etanol gera uma disputa entre Brasil e Estados Unidos que atravessa d\u00e9cadas e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":495472,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-497471","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/497471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=497471"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/497471\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/495472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=497471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=497471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=497471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}