{"id":497204,"date":"2026-06-17T12:30:00","date_gmt":"2026-06-17T16:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=497204"},"modified":"2026-06-17T12:30:00","modified_gmt":"2026-06-17T16:30:00","slug":"a-literatura-vencera-a-inteligencia-artificial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=497204","title":{"rendered":"A literatura vencer\u00e1 a intelig\u00eancia artificial"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><em>\u201cO impulso de criar uma obra de arte \u00e9 percebido quando em determinadas pessoas a rever\u00eancia passiva causada por entes ou eventos sagrados \u00e9 transformada em desejo de expressar tal rever\u00eancia atrav\u00e9s de um rito de adora\u00e7\u00e3o ou homenagem e, para ser uma homenagem condigna, esse rito deve ser belo.\u201d<\/em> (W.H. Auden)<\/p>\n<p>Caso o leitor n\u00e3o saiba, tenho um Clube do Livro. Uma vez a cada seis meses escolho quatro obras liter\u00e1rias \u2013 somente <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/literatura-e-formacao-do-imaginario-ou-por-que-ler\/\">literatura<\/a>, entre romances, novelas, contos e pe\u00e7as teatrais \u2013, abro inscri\u00e7\u00f5es e aqueles que desejam me acompanhar nesse percurso, de ler e refletir sobre grandes obras e escritores, n\u00e3o se arrependem. E digo isso sem parecer pretensioso, mas provo o que digo pelo fato de 80% das pessoas que hoje fazem parte do Clube estarem comigo desde a primeira turma; e estamos indo para a nona.<\/p>\n<p>Na escolha das obras sempre busco pela diversidade. Quero dizer com isso que procuro autores e obras de lugares e com caracter\u00edsticas bastante distintas, a fim de termos uma amplitude de vis\u00f5es e estilos que enrique\u00e7am a nossa experi\u00eancia ao m\u00e1ximo. Um romance russo \u00e9 bastante diferente de uma poema \u00e9pico; h\u00e1 um abismo entre uma pe\u00e7a do teatro elisabetano e uma prosa po\u00e9tica contempor\u00e2nea. Mas todas elas t\u00eam em comum o labor do g\u00eanio criativo, do labor vocacional dos grandes escritores. Como bem nos exp\u00f5e Unamuno, em <em>Como escrever um romance<\/em>, diante do desafio maior de um escritor:<\/p>\n<p><em>\u201cEis-me aqui diante das folhas em branco \u2013 brancas como o negro futuro: brancura terr\u00edvel! \u2013 procurando parar o tempo que passa, fixar o hoje fugidio, eternizar-me ou imortalizar-me, enfim \u2013 embora eternidade e imortalidade n\u00e3o sejam uma s\u00f3 e mesma coisa. Eis-me aqui diante destas folhas em branco, meu futuro, procurando derramar minha vida, arrancar a mim mesmo da morte de cada instante. Procuro, ao mesmo tempo, me consolar de meu desterro, do desterro de minha eternidade, deste desterro que prefiro chamar de meu des-c\u00e9u.\u201d<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>A intelig\u00eancia artificial seria \u2013 e ser\u00e1 \u2013 capaz de emular sensa\u00e7\u00f5es expostas poeticamente por um escritor, mas n\u00e3o ser\u00e1 capaz de senti-las; e isso faz toda a diferen\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00d3bvio que um ente computacional, dotado de um moderno mecanismo de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/inteligencia-artificial\/\">intelig\u00eancia artificial<\/a> (IA), seria \u2013 e ser\u00e1 \u2013 capaz de emular as sensa\u00e7\u00f5es expostas t\u00e3o poeticamente por Unamuno, mas n\u00e3o ser\u00e1 capaz de senti-las; e isso, no fim das contas, faz toda a diferen\u00e7a, porque, diante de um escritor real, sentimo-nos irmanados \u00e0 sua dor, solid\u00e1rios ao seu esfor\u00e7o, part\u00edcipes de sua solid\u00e3o criativa. A humanidade nos une.<\/p>\n<p>Nas palavras de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/toni-morrison-alice-walker-maya-angelou-escritoras-negras\/\">Toni Morrison<\/a> \u2013 em seu brilhante ensaio \u201cLiteratura e vida p\u00fablica\u201d \u2013, \u201ca <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/literatura\/\">literatura <\/a>ficcional pode ser (e eu acredito que seja) a \u00faltima e \u00fanica via para a recorda\u00e7\u00e3o, a \u00faltima barreira no processo de esvaziamento da consci\u00eancia e da mem\u00f3ria\u201d. E aqui <em>consci\u00eancia<\/em> n\u00e3o pode ser separado de <em>mem\u00f3ria<\/em>, pois um ente computacional pode ter mem\u00f3ria, mas jamais ter\u00e1 consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Voltando ao meu Clube do Livro, esse semestre lemos <em>Sula<\/em>, de Toni Morrison; <em>Tr\u00eas Anos<\/em>, de Anton Tchekhov; <em>Os Mortos<\/em>, de James Joyce; e <em>A obscena senhora D.<\/em>, da poetisa brasileira Hilda Hilst. Como todas as obras, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de <em>Sula<\/em>, s\u00e3o contos longos, inseri a pe\u00e7a <em>Assass\u00ednio na Catedral<\/em>, de T.S. Eliot, para fecharmos o semestre. Dificilmente uma lista ser\u00e1 mais diversa que essa. Mas quero me ater por um momento \u00e0 obra que lemos recentemente, a prosa-po\u00e9tica de Hilda Hilst, cujo encontro on-line de an\u00e1lise ocorreu no \u00faltimo fim de semana.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Hilda Hilst foi uma das escritoras mais originais da literatura brasileira do s\u00e9culo 20. Nascida em Ja\u00fa (SP) e falecida em Campinas (SP), formou-se em Direito pela Universidade de S\u00e3o Paulo, mas dedicou praticamente toda a sua vida \u00e0 literatura. Sua obra abrange diversos g\u00eaneros \u2013 poesia, teatro, fic\u00e7\u00e3o experimental e textos de forte teor er\u00f3tico \u2013 e \u00e9 marcada pela investiga\u00e7\u00e3o de temas como a morte, Deus, o desejo, a loucura e os limites da linguagem. Embora tenha recebido alguns dos mais importantes pr\u00eamios liter\u00e1rios do pa\u00eds, permaneceu relativamente distante do grande p\u00fablico, mas sua obra tem sido cultuada desde sempre, sobretudo, pelos amantes de poesia.<\/p>\n<p>Publicado em 1982, <em>A obscena senhora D.<\/em> \u00e9 uma das obras centrais da maturidade liter\u00e1ria de Hilda Hilst. Trata-se de uma narrativa breve (um conto longo ou uma novela curta), por\u00e9m extremamente densa. Nela acompanhamos Hill\u00e9, a \u201cSenhora D.\u201d \u2013 de <em>Derris\u00e3o<\/em>, segundo a pr\u00f3pria \u2013, uma mulher que passa a morar embaixo da escada de sua casa e, ap\u00f3s a morte do marido, Ehud, passa a confrontar obsessivamente quest\u00f5es relacionadas \u00e0 morte, \u00e0 identidade, ao envelhecimento, a Deus, \u00e0 mem\u00f3ria e aos limites da linguagem. \u00c9 uma obra constru\u00edda de forma fragment\u00e1ria e marcada pela fus\u00e3o entre prosa, poesia e reflex\u00e3o filos\u00f3fica. Hilst abandona a narrativa tradicional para acompanhar o fluxo de uma consci\u00eancia de uma pessoa que parece buscar compreender aquilo que escapa a toda compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nosso encontro sobre a obra foi riqu\u00edssimo. Nele mergulhamos n\u00e3o s\u00f3 nas profundas reflex\u00f5es dessa complexa personagem, mas tamb\u00e9m na forma, na escrita bel\u00edssima de Hilda Hilst, que consegue transformar verdadeiros del\u00edrios emocionais em catarse po\u00e9tica de alt\u00edssimo n\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 par\u00e1grafos nem pontua\u00e7\u00e3o lineares, de modo que precisamos penetrar nesse mar revolto que s\u00e3o as palavras da Senhora D. O in\u00edcio da obra \u00e9 uma esp\u00e9cie de sinopse do que nos aguarda:<\/p>\n<p><em>\u201cVi-me afastada do centro de alguma coisa que n\u00e3o sei dar nome, nem porisso irei \u00e0 sacristia, te\u00f3faga incestuosa, isso n\u00e3o, eu Hill\u00e9 tamb\u00e9m chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ningu\u00e9m, eu \u00e0 procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos \u00e0 procura do sentido das coisas. Derreli\u00e7\u00e3o Ehud me dizia, Derreli\u00e7\u00e3o \u2013 pela \u00faltima vez Hill\u00e9, Derreli\u00e7\u00e3o quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e n\u00e3o ret\u00e9ns, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derreli\u00e7\u00e3o, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas tor\u00e7uras, no fundo das cal\u00e7as, nos n\u00f3s, nos vis\u00edveis cotidianos, no \u00ednfimo absurdo, nos m\u00ednimos, um dia a luz, o entender de n\u00f3s todos o destino, um dia vou compreender, Ehud<\/em><em>compreender o qu\u00ea?<\/em><em>isso de vida e morte, esses porqu\u00eas\u201d<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma pseudointelig\u00eancia jamais escrever\u00e1, de fato, um romance ou um poema. O que ela far\u00e1 \u00e9 emular tecnicamente nosso legado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Novamente: uma IA poder\u00e1 emular o estilo de Hilda Hilst e escrever t\u00e3o bem quando ela. Mas jamais ser\u00e1 capaz de compreender o que, de fato, est\u00e1 ocorrendo na personagem \u2013 e o que ocorre conosco \u2013 diante de uma confiss\u00e3o como essa:<\/p>\n<p><em>\u201cTens uma m\u00e1scara, amor, violenta e l\u00edvida, te olhar \u00e9 adentrar-se na vertigem do nada, iremos juntos num todo lacunoso se o teu sil\u00eancio se fizer o meu, porisso falo falo, para te exorcizar, porisso trabalho com as palavras, tamb\u00e9m para me exorcizar a mim, quebram-se os duros dos abismos, um nasc\u00edvel irrompe nessa molhadura de fonemas, s\u00edlabas, um nasc\u00edvel de luz, ausente de ang\u00fastia<\/em><em>melhor calar quando teu nome \u00e9 paix\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n<p>Uma m\u00e1quina jamais saber\u00e1 como \u00e9 lutar contra nossas contradi\u00e7\u00f5es e imperfei\u00e7\u00f5es. Uma pseudointelig\u00eancia jamais escrever\u00e1, de fato, um romance ou um poema. O que ela far\u00e1 \u00e9 emular tecnicamente nosso legado, transform\u00e1-lo em zeros e uns, reconstru\u00ed-lo com suas possibilidades infinitas de combina\u00e7\u00e3o, e nos devolver o que n\u00f3s mesmos lhe fornecemos, s\u00f3 que sem o mais importante: o drama existencial do processo criativo.<\/p>\n<p>Volto a Toni Morrison e encerro, desejando que essa frase final ecoe como uma ora\u00e7\u00e3o em sua consci\u00eancia, nobre e resistente leitor: \u201cA literatura nos permite \u2013 mais do que isso, nos exige \u2013 a experi\u00eancia de sermos pessoas multidimensionais. E, por isso, se torna mais necess\u00e1ria do que jamais foi\u201d.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO impulso de criar uma obra de arte \u00e9 percebido quando em determinadas pessoas a rever\u00eancia passiva causada por entes&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":497205,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-497204","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/497204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=497204"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/497204\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/497205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=497204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=497204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=497204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}