{"id":496381,"date":"2026-06-17T05:01:00","date_gmt":"2026-06-17T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=496381"},"modified":"2026-06-17T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-17T09:01:00","slug":"o-brasil-esta-envelhecendo-e-precisamos-aprender-a-lidar-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=496381","title":{"rendered":"O Brasil est\u00e1 envelhecendo e precisamos aprender a lidar com isso"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cBrasil lidera o envelhecimento na Am\u00e9rica Latina\u201d. Essa \u00e9 a manchete dos jornais ultimamente, informando que 15,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira tem mais de 60 anos, enquanto a m\u00e9dia da regi\u00e3o \u00e9 de 13,4%, segundo estudo do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/ibge-instituto-brasileiro-de-geografia-e-estatistica\/\">IBGE<\/a>. O tema vem sendo amplamente repercutido por diferentes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, quase sempre acompanhado de um tom de alerta e preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora os dados sejam relevantes, a chamada da reportagem merece reflex\u00e3o. O Brasil \u00e9 o maior pa\u00eds da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/america-latina\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>, concentrando cerca de 47% do territ\u00f3rio da Am\u00e9rica do Sul e uma popula\u00e7\u00e3o significativamente superior \u00e0 de pa\u00edses como Argentina, M\u00e9xico e Chile. Nesse contexto, n\u00e3o surpreende que o pa\u00eds apresente n\u00fameros absolutos e at\u00e9 percentuais elevados em indicadores demogr\u00e1ficos. A quest\u00e3o central, portanto, talvez n\u00e3o seja liderar o envelhecimento, mas compreender como estamos envelhecendo e o que fazemos com essa realidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil est\u00e1, sim, envelhecendo. A pergunta que permanece \u00e9: vamos tratar isso apenas como um problema ou teremos coragem de enxergar o envelhecimento como parte de uma sociedade mais diversa, longeva e, por que n\u00e3o, mais humana?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Segundo o IBGE, a popula\u00e7\u00e3o com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em pouco mais de uma d\u00e9cada, enquanto as faixas et\u00e1rias mais jovens encolheram. Em 2022, o grupo mais numeroso da popula\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 estava entre 35 e 39 anos, evidenciando a invers\u00e3o da pir\u00e2mide et\u00e1ria. O pa\u00eds envelhece mais r\u00e1pido do que se tornou rico, e essa \u00e9 a raiz do problema.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que o aumento da popula\u00e7\u00e3o acima de 60 anos imp\u00f5e desafios importantes ao poder p\u00fablico, sobretudo nas \u00e1reas de sa\u00fade, previd\u00eancia e assist\u00eancia social. Com fam\u00edlias cada vez menores e uma pir\u00e2mide et\u00e1ria que se inverte rapidamente, parte do cuidado que antes era compartilhado no \u00e2mbito familiar passa a recair sobre o Estado. Al\u00e9m disso, a redu\u00e7\u00e3o da taxa de natalidade e o envelhecimento acelerado indicam o fim do chamado b\u00f4nus demogr\u00e1fico, fazendo com que uma base menor de jovens precise sustentar uma popula\u00e7\u00e3o mais longeva.<\/p>\n<p>Da\u00ed emergem duas reflex\u00f5es. A primeira diz respeito \u00e0 responsabilidade das novas gera\u00e7\u00f5es, que arcar\u00e3o com os custos econ\u00f4micos e sociais do envelhecimento, seja por meio de impostos, seja pela necessidade de garantir o funcionamento de sistemas p\u00fablicos pressionados por essa nova configura\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. Ignorar esse cen\u00e1rio \u00e9 comprometer o futuro.<\/p>\n<p>A segunda reflex\u00e3o \u00e9 ainda mais profunda e, talvez, mais urgente: ser\u00e1 que 60 anos ainda definem algu\u00e9m como idoso? Ao estabelecer um marco et\u00e1rio r\u00edgido para a velhice, a sociedade corre o risco de reduzir o indiv\u00edduo a um r\u00f3tulo que, muitas vezes, limita sua participa\u00e7\u00e3o social, produtiva e simb\u00f3lica. Em um contexto em que as pessoas vivem mais, com melhor sa\u00fade e maior acesso \u00e0 tecnologia, esse enquadramento parece cada vez mais inadequado.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Ainda nesse ponto, surge na sociedade o conceito de NOLT (<em>New Older Living Trend<\/em>), uma nova tend\u00eancia de as pessoas viverem a maturidade, rejeitando os estere\u00f3tipos tradicionais da velhice, mantendo um estilo de vida ativo, conectado, curioso e protagonista. S\u00e3o indiv\u00edduos que continuam aprendendo, trabalhando, empreendendo e fazendo planos, longe da ideia de improdutividade ou isolamento.<\/p>\n<p>Diante dessa realidade, talvez o maior desafio n\u00e3o seja o envelhecimento em si, mas a forma como a sociedade escolhe lidar com ele. Cabe repensar pol\u00edticas p\u00fablicas, pr\u00e1ticas organizacionais e, sobretudo, mentalidades. Envelhecer n\u00e3o pode ser sin\u00f4nimo de exclus\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio: aproveitar o conhecimento, a experi\u00eancia e os talentos de uma popula\u00e7\u00e3o mais madura pode ser uma das maiores oportunidades sociais e econ\u00f4micas do nosso tempo.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1, sim, envelhecendo. A pergunta que permanece \u00e9: vamos tratar isso apenas como um problema ou teremos coragem de enxergar o envelhecimento como parte de uma sociedade mais diversa, longeva e, por que n\u00e3o, mais humana?<\/p>\n<p><em><strong>Aline Mara Gumz Eberspacher<\/strong> \u00e9 doutora em Sociologia pela Universit\u00e9 Paul Val\u00e9ry (Montpellier III \u2013 Fran\u00e7a) e coordenadora dos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Centro Universit\u00e1rio Internacional Uninter.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBrasil lidera o envelhecimento na Am\u00e9rica Latina\u201d. 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