{"id":493090,"date":"2026-06-15T21:04:21","date_gmt":"2026-06-16T01:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=493090"},"modified":"2026-06-15T21:04:21","modified_gmt":"2026-06-16T01:04:21","slug":"treinamento-de-guerra-coreia-do-norte-usa-o-futebol-feminino-como-maquina-de-propaganda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=493090","title":{"rendered":"Treinamento de \u201cguerra\u201d: Coreia do Norte usa o futebol feminino como m\u00e1quina de propaganda"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O regime da Coreia do Norte encontrou no futebol feminino uma de suas principais vitrines de propaganda internacional. Tanto no \u00e2mbito de clubes quanto na sele\u00e7\u00e3o nacional, as norte-coreanas t\u00eam alcan\u00e7ado diversos \u00eaxitos em competi\u00e7\u00f5es recentes pelo mundo, o que tem sido usado por Pyongyang para projetar unidade no exterior e refor\u00e7ar a propaganda interna do regime.<\/p>\n<p>Circulou nas \u00faltimas semanas <a href=\"https:\/\/x.com\/clashreport\/status\/2062086390192419245\">nas redes sociais um v\u00eddeo onde jogadoras<\/a> do Naegohyang Women&#8217;s FC, clube de futebol feminino de Pyongyang, e atletas da sele\u00e7\u00e3o norte-coreana sub-17 aparecem chorando e visivelmente emocionadas ao serem cumprimentadas, uma a uma, pelo ditador Kim Jong-un. O tipo de recep\u00e7\u00e3o costuma ser reservado a generais e altos dirigentes do Partido dos Trabalhadores da Coreia, legenda que controla o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O fato ocorreu durante uma partida amistosa realizada na capital norte-coreana entre o Naegohyang Women&#8217;s FC, que foi campe\u00e3o da Liga dos Campe\u00f5es Feminina da \u00c1sia em maio, e a sele\u00e7\u00e3o sub-17 do pa\u00eds, que conquistou tamb\u00e9m no mesmo m\u00eas a Copa da \u00c1sia da categoria ao golear o Jap\u00e3o por 5 a 1. Ap\u00f3s a partida amistosa, Kim Jong-un cumprimentou individualmente as atletas das duas equipes, que reagiram com emo\u00e7\u00e3o diante do l\u00edder norte-coreano.<\/p>\n<p>Segundo a ag\u00eancia estatal de not\u00edcias norte-coreana <em>KCNA<\/em>, as jogadoras foram saudadas como &#8220;mulheres confi\u00e1veis&#8221; e &#8220;filhas orgulhosas da p\u00e1tria&#8221;, e teriam afirmado que &#8220;o carinho e a benevol\u00eancia do respeitado camarada Kim Jong-un&#8221; as encorajavam a &#8220;\u00eaxitos esportivos ainda mais not\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, clubes e sele\u00e7\u00f5es de futebol feminino da Coreia do Norte t\u00eam alcan\u00e7ado resultados expressivos em competi\u00e7\u00f5es internacionais. A conquista do Naegohyang em maio teve um peso hist\u00f3rico: foi a primeira vez que um clube norte-coreano venceu a Liga dos Campe\u00f5es Feminina da \u00c1sia, principal torneio de clubes do continente. Na final da competi\u00e7\u00e3o, disputada na cidade de Suwon, na Coreia do Sul, o Naegohyang derrotou o Tokyo Verdy Beleza, clube de futebol do Jap\u00e3o, por 1 a 0, com gol da capit\u00e3 Kim Kyong Yong, de 24 anos, que foi eleita a melhor jogadora da competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do ineditismo, o Naegohyang tamb\u00e9m foi a primeira equipe esportiva norte-coreana a visitar a Coreia do Sul em oito anos, em meio a um dos piores momentos das rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses. Recentemente, Pyongyang abandonou formalmente a meta de reunifica\u00e7\u00e3o e passou a classificar o vizinho ao sul como seu &#8220;Estado mais hostil&#8221;. Na semifinal daquela competi\u00e7\u00e3o, o time eliminou justamente um clube feminino sul-coreano, o Suwon FC Women, por 2 a 1. Ap\u00f3s a final contra o Tokyo Verdy, as jogadoras ergueram a bandeira norte-coreana no gramado do est\u00e1dio em Suwon, em uma cena sens\u00edvel para Seul: a exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica do s\u00edmbolo do regime de Pyongyang \u00e9 proibida na Coreia do Sul pela Lei de Seguran\u00e7a Nacional.<\/p>\n<p>Por sua vez, al\u00e9m da vit\u00f3ria continental, a sele\u00e7\u00e3o sub-17 da Coreia do Norte tamb\u00e9m conquistou em novembro do ano passado o bicampeonato consecutivo da Copa do Mundo da categoria, ao golear a Holanda por 3 a 0 na final, realizada no Marrocos. Esse foi o quarto t\u00edtulo mundial sub-17 do pa\u00eds, um recorde. As norte-coreanas tamb\u00e9m s\u00e3o as atuais campe\u00e3s mundiais sub-20, t\u00edtulo conquistado em 2024, e venceram neste ano a Copa da \u00c1sia sub-17. O retrospecto faz da Coreia do Norte a sele\u00e7\u00e3o mais vitoriosa da hist\u00f3ria dos torneios mundiais de base no futebol feminino, com 14 t\u00edtulos.<\/p>\n<h2>O que est\u00e1 por tr\u00e1s?<\/h2>\n<p>A resposta mais precisa seria investimento e propaganda. A Coreia do Norte come\u00e7ou a investir no futebol feminino no final da d\u00e9cada de 1980, quando a Fifa anunciou a cria\u00e7\u00e3o da primeira Copa do Mundo Feminina. Segundo relatou o jornal <em>The Guardian<\/em>, a decis\u00e3o levou o regime a enxergar a modalidade como uma oportunidade para ampliar a proje\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A partir disso, o ent\u00e3o l\u00edder Kim Jong-il, pai do atual ditador Kim Jong-un, transformou o futebol feminino em uma prioridade de Estado, inserindo a modalidade nos curr\u00edculos escolares e criando equipes ligadas \u00e0s For\u00e7as Armadas, onde as atletas treinavam em regime integral e recebiam sal\u00e1rio para jogar.<\/p>\n<p>Em 2013, j\u00e1 sob o comando do ditador Kim Jong-un, o regime inaugurou a Escola Internacional de Futebol de Pyongyang. A institui\u00e7\u00e3o seleciona meninas e meninos a partir dos sete anos, vindos de diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, e oferece forma\u00e7\u00e3o esportiva e acad\u00eamica at\u00e9 os 17. As primeiras gera\u00e7\u00f5es de meninas formadas ali est\u00e3o hoje, segundo informa\u00e7\u00f5es, na base dos t\u00edtulos mundiais sub-17 e sub-20. Da\u00ed o resultado de um investimento planejado por mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Treinadores que passaram pela Coreia do Norte descreveram \u00e0 imprensa internacional que os meninos e meninas que participam do programa de forma\u00e7\u00e3o no pa\u00eds t\u00eam uma rotina de exig\u00eancia extrema. Stephen Constantine, cidad\u00e3o brit\u00e2nico que foi convidado pela Fifa em 2018 para capacitar t\u00e9cnicos na Coreia do Norte, disse \u00e0 emissora <em>CNN<\/em> ter visto jovens atletas tendo que cruzar um campo em velocidade carregando outros colegas nas costas. \u201cEra insano\u201d, afirmou. Colin Bell, ex-t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o feminina da Coreia do Sul, disse \u00e0 emissora americana que o futebol norte-coreano \u00e9 baseado em repeti\u00e7\u00e3o e disciplina desde a inf\u00e2ncia. \u201c\u00c9 treino, treino, treino desde muito cedo\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Jeong Haneul, ex-jogador norte-coreano que fugiu para a Coreia do Sul em 2012, disse ao <em>Wall Street Journal<\/em> que os treinadores norte-coreanos tratam o futebol como uma guerra. Segundo ele, um chute ao gol \u00e9 comparado a uma \u201cbala do inimigo\u201d, e uma falha defensiva era descrita como uma invas\u00e3o de Pyongyang.<\/p>\n<p>\u201cComo atleta, voc\u00ea sempre recebe a mensagem de que est\u00e1 travando uma guerra de velocidade, habilidade e determina\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>De acordo com Jung Woo Lee, professor de pol\u00edtica esportiva da Universidade de Edimburgo, as conquistas recentes da Coreia do Norte no futebol feminino s\u00e3o exploradas pelo regime como propaganda. Em entrevista \u00e0 Deutsche Welle, ele afirmou que Pyongyang usa as vit\u00f3rias para apresentar, dentro e fora do pa\u00eds, uma narrativa de suposta superioridade do socialismo sobre o capitalismo.<\/p>\n<p>Segundo Lee, a narrativa oficial tenta associar o sucesso das atletas nas competi\u00e7\u00f5es \u00e0 disciplina ideol\u00f3gica e \u00e0 lealdade ao Estado. Para o analista, essa mensagem \u00e9 difundida internamente para refor\u00e7ar a imagem de Kim Jong-un e do Partido dos Trabalhadores da Coreia.<\/p>\n<p>As jogadoras norte-coreanas t\u00eam incentivos para vencer as competi\u00e7\u00f5es. Segundo analistas e cidad\u00e3os norte-coreanos que conseguiram escapar do pa\u00eds ouvidos pela imprensa internacional, atletas bem-sucedidas na Coreia do Norte podem receber apartamentos em Pyongyang, por\u00e7\u00f5es extras de alimentos e at\u00e9 filia\u00e7\u00e3o ao Partido dos Trabalhadores, medidas que s\u00e3o consideradas parte de um privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>\u201c[Ganhar as competi\u00e7\u00f5es] \u00e9 uma forma de mudar de vida. \u00c9 como ganhar na loteria\u201d, disse Jung Woo Lee \u00e0 <em>DW<\/em>.<\/p>\n<p>A principal recompensa, por\u00e9m, parece ser a simb\u00f3lica: encontrar Kim Jong-un. \u00c0 <em>CNN<\/em>, Brigitte Weich, diretora de cinema que acompanhou a sele\u00e7\u00e3o feminina norte-coreana por cinco anos para produzir um document\u00e1rio, afirmou que atletas que vencem competi\u00e7\u00f5es internacionais pelo pa\u00eds ganham a \u201coportunidade\u201d de conhecer o l\u00edder. Foi o que ocorreu com as campe\u00e3s do Naegohyang e da sele\u00e7\u00e3o sub-17.<\/p>\n<h2>Esc\u00e2ndalo, puni\u00e7\u00e3o e retorno<\/h2>\n<p>O futebol feminino norte-coreano tamb\u00e9m teve uma fase de queda. Em 2011, durante a Copa do Mundo Feminina realizada na Alemanha, cinco jogadoras da sele\u00e7\u00e3o norte-coreana foram flagradas em exame antidoping por uso de uma subst\u00e2ncia proibida. A federa\u00e7\u00e3o da Coreia do Norte alegou \u00e0 Fifa que as atletas haviam ingerido uma subst\u00e2ncia natural como tratamento ap\u00f3s terem sido atingidas por um raio. A justificativa foi rejeitada, e a sele\u00e7\u00e3o acabou banida de competi\u00e7\u00f5es por quatro anos.<\/p>\n<p>A puni\u00e7\u00e3o tirou a Coreia do Norte da Copa do Mundo feminina de 2015. Posteriormente, a sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o se classificou para a Copa da \u00c1sia de 2018 nem para o Mundial feminino de 2019, e decidiu n\u00e3o disputar torneios em 2022 e 2023, alegando restri\u00e7\u00f5es da pandemia. Na pr\u00e1tica, a sele\u00e7\u00e3o principal passou mais de uma d\u00e9cada longe das grandes competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O retorno veio aos poucos. A equipe voltou \u00e0 Copa da \u00c1sia Feminina realizada em mar\u00e7o deste ano na Austr\u00e1lia, e chegou \u00e0s quartas de final da competi\u00e7\u00e3o, quando foi eliminada pelas donas da casa. Agora, a sele\u00e7\u00e3o est\u00e1 classificada para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que vai ser realizada no Brasil. Ser\u00e1 a primeira participa\u00e7\u00e3o norte-coreana no torneio em 16 anos, e uma nova chance para Pyongyang transformar desempenho esportivo em propaganda internacional.<\/p>\n<h2>Mais do que futebol<\/h2>\n<p>O uso pol\u00edtico do futebol pelo regime norte-coreano ficou evidente no evento em que Kim Jong-un recebeu as jogadoras campe\u00e3s do Naegohyang e da sele\u00e7\u00e3o sub-17. Segundo a imprensa estatal, o ditador aproveitou a ocasi\u00e3o para cobrar mais forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos jovens do Partido dos Trabalhadores da Coreia e alertar contra o que chamou de \u201cdeslizamento ideol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, as atletas tamb\u00e9m foram usadas como exemplo de lealdade ao regime. Em declara\u00e7\u00f5es ao jornal sul-coreano <em>Kyunghyang Shinmun<\/em> Yang Moo-jin, professor da Universidade de Estudos Norte-Coreanos, em Seul, disse que o regime norte-coreano usa as conquistas esportivas das atletas para associar o sucesso delas \u00e0 lideran\u00e7a de Kim Jong-un e refor\u00e7ar a fidelidade ao Partido.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O regime da Coreia do Norte encontrou no futebol feminino uma de suas principais vitrines de propaganda internacional. 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