{"id":490656,"date":"2026-06-14T17:00:00","date_gmt":"2026-06-14T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490656"},"modified":"2026-06-14T17:00:00","modified_gmt":"2026-06-14T21:00:00","slug":"a-patrulha-bufalo-lembrancas-do-meu-tempo-de-escoteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490656","title":{"rendered":"A Patrulha B\u00fafalo: lembran\u00e7as do meu tempo de escoteiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/10171103\/escoteiro2.jpg.webp\" \/><span>(Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Fui escoteiro. Quer dizer: primeiro fui <em>lobinho<\/em>, a categoria inicial do escotismo. Minha m\u00e3e me levou a uma loja no centro de Salvador para comprar a farda azul escura, o chap\u00e9u e o len\u00e7o que us\u00e1vamos em volta do pesco\u00e7o. Ainda sinto o cheiro daquela farda: cheiro de aventura. Nossa Akel\u00e1 \u2013 a l\u00edder do grupamento de lobinhos \u2013 era uma jovem senhora, bonita, alta, de cabelos negros e sobrancelhas grossas. No in\u00edcio de nossas reuni\u00f5es cant\u00e1vamos o hino nacional e haste\u00e1vamos a bandeira.<\/p>\n<p>Quando virei escoteiro, tudo mudou: mudamos para um uniforme cinza e passei a fazer parte da Patrulha B\u00fafalo. Nosso grito de guerra era \u201cB\u00fafalo, B\u00fafalo, hurra !\u201d. Nosso quartel-general era uma esp\u00e9cie de dep\u00f3sito que ficava no meio de uma encosta, do lado de fora do campo de futebol do Col\u00e9gio Padre Ant\u00f4nio Vieira.<\/p>\n<p>Ali faz\u00edamos reuni\u00f5es e receb\u00edamos instru\u00e7\u00f5es sobre as coisas que um escoteiro deve saber, como fazer uma fogueira, dar n\u00f3s e sinalizar no c\u00f3digo das bandeiras. O l\u00edder da Patrulha B\u00fafalo era Kelsen, um rapaz gentil, forte e decidido, que provocava suspiros nas meninas. Seu auxiliar \u2013 n\u00e3o sei qual era a designa\u00e7\u00e3o oficial do cargo \u2013 era Papagaio que, como todo melhor amigo de her\u00f3i, desempenhava um papel c\u00f4mico.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>Era 1971, dois anos antes de nos mudarmos para o Rio. Eu ainda estava descobrindo o mundo e come\u00e7ando a transi\u00e7\u00e3o para a adolesc\u00eancia. O Brasil estava em convuls\u00e3o &#8211; como quase sempre est\u00e1 &#8211; mas nada daquilo afetava a minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar de crime<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nosso primeiro e \u00fanico acampamento foi em uma fazenda abandonada em Buraquinho, no litoral norte de Salvador. Achamos um local no meio de um descampado, limpamos o ch\u00e3o, montamos as barracas e esticamos os sacos de dormir. Quando escureceu, sa\u00edmos andando pelo terreno da fazenda; eu, que tinha medo de fantasmas, fui contaminado pela coragem dos meus companheiros.<\/p>\n<p>A \u00fanica luz vinha da lua. No meio da caminhada, quando j\u00e1 retorn\u00e1vamos \u00e0s barracas, encontramos uma casa abandonada, fechada e toda escura \u2013 talvez a antiga sede da fazenda. Liderada por Kelsen, a tropa se aproximou da casa e subiu na varanda. Alguns se sentaram, outros se deitaram. De repente, sem qualquer aviso, Kelsen come\u00e7ou a cantar. \u201cQue falta eu sinto de um bem\u201d, ecoou sua voz na noite. No segundo verso outras vozes se juntaram \u00e0 dele: \u201cque falta me faz um xod\u00f3\u201d. Era uma m\u00fasica do sanfoneiro Dominguinhos, um sucesso da \u00e9poca. Eu cantei junto. Depois cantamos outras m\u00fasicas. Eu n\u00e3o sabia que escoteiros cantavam; eu n\u00e3o sabia que homem cantava; eu n\u00e3o sabia que eu cantava. Meu Deus, que felicidade.<\/p>\n<p>Era 1971, dois anos antes de nos mudarmos para o Rio. Eu ainda estava descobrindo o mundo e come\u00e7ando a transi\u00e7\u00e3o para a adolesc\u00eancia. O Brasil estava em convuls\u00e3o &#8211; como quase sempre est\u00e1 &#8211; mas nada daquilo afetava a minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar de crime. Eu s\u00f3 tinha medo de fantasmas e dos cachorros que uivavam ao longe nas madrugadas do bairro da Pituba. Nossa casa, no Boulevard Paulo VI, n\u00famero 373, era r\u00fastica para os padr\u00f5es modernos. O quintal era de terra e a porta da sala vivia suja da lama que traz\u00edamos das excurs\u00f5es pelos terrenos do outro lado da rua.\u00a0<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Quando acabou a cantoria, a Patrulha B\u00fafalo voltou em fila indiana, nosso l\u00edder \u00e0 frente, rumo \u00e0s barracas e ao sono debaixo da lua.<\/p>\n<p>No dia seguinte, caminhamos por uma estrada de terra at\u00e9 chegar a uma praia de \u00e1guas clar\u00edssimas e cheia de gente. Ali, dentro da \u00e1gua, a Patrulha B\u00fafalo organizou o que, segundo me disseram, era uma brincadeira tradicional dos escoteiros. Um de n\u00f3s era escolhido para se afastar do grupo levando consigo a ponta de uma corda. A outra ponta era segurada pelo resto da patrulha.<\/p>\n<p>Quando o escolhido chegava a uns 20 metros de dist\u00e2ncia ele segurava firme na corda e mergulhava. Esse era o sinal para que o resto da patrulha puxasse a corda com toda a for\u00e7a. O escoteiro sortudo atravessava a \u00e1gua em alta velocidade at\u00e9 chegar ao grupo. Era uma esp\u00e9cie de jet ski submarino que durava apenas alguns segundos.<\/p>\n<p>Em 1973 nos mudamos para o Rio e a Patrulha B\u00fafalo ficou para tr\u00e1s. Kelsen e Papagaio, onde quer que voc\u00ea estejam, espero que a vida os tenha tratado t\u00e3o bem como voc\u00eas nos trataram.<\/p>\n<p>B\u00fafalo, B\u00fafalo, hurra!<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<h2>Voc\u00ea pode se interessar<\/h2>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Foto: Imagem criada utilizando Open AI\/Gazeta do Povo) Ou\u00e7a este conte\u00fado Fui escoteiro. 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