{"id":490558,"date":"2026-06-14T15:59:19","date_gmt":"2026-06-14T19:59:19","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490558"},"modified":"2026-06-14T15:59:19","modified_gmt":"2026-06-14T19:59:19","slug":"raio-x-da-corrupcao-como-os-governadores-levaram-o-rio-ao-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490558","title":{"rendered":"Raio-X da corrup\u00e7\u00e3o: como os governadores levaram o Rio ao colapso"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Francisco Negr\u00e3o de Lima deixou o governo da Guanabara em mar\u00e7o de 1971. Quatro anos depois, o estado que ele administrou deixaria de existir, incorporado ao Rio de Janeiro. Em 2026, seu nome ainda mant\u00e9m uma marca rara na pol\u00edtica fluminense: Negr\u00e3o de Lima foi o \u00faltimo governador eleito a concluir o mandato sem ser alvo de den\u00fancias, investiga\u00e7\u00f5es ou processos por corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, foram 55 anos, o regime militar, a j\u00e1 citada fus\u00e3o dos dois estados e a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo, o Pal\u00e1cio Guanabara teve 13 ocupantes, entre governadores escolhidos nas urnas e interinos.<\/p>\n<p>Tr\u00eas deles \u2014 Nilo Batista, Benedita da Silva e Francisco Dornelles \u2014 passaram pelo cargo como vices que assumiram temporariamente. Todos os demais acabaram atingidos, em maior ou menor grau, por den\u00fancias, investiga\u00e7\u00f5es, pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, <em>impeachment<\/em> ou processos ligados ao exerc\u00edcio do cargo.<\/p>\n<p>A crise sucess\u00f3ria de 2026 \u00e9 o cap\u00edtulo mais recente dessa hist\u00f3ria. Cl\u00e1udio Castro renunciou ao governo no \u00faltimo 23 de mar\u00e7o e, no dia seguinte, foi declarado ineleg\u00edvel por oito anos pelo TSE por abuso de poder.<\/p>\n<p>Seu vice, Thiago Pampolha, j\u00e1 havia deixado o cargo para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado. O presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, que passou a ser o primeiro na linha de sucess\u00e3o, acabou preso e cassado sob a acusa\u00e7\u00e3o de vazar informa\u00e7\u00f5es sigilosas para integrantes do Comando Vermelho.<\/p>\n<p>Sem nenhum pol\u00edtico eleito dispon\u00edvel para assumir o comando do estado, o governo acabou nas m\u00e3os do desembargador Ricardo Couto, o quarto na ordem sucess\u00f3ria. Enquanto isso, o STF decide se o substituto definitivo ser\u00e1 escolhido pelo voto popular ou pela pr\u00f3pria Assembleia.<\/p>\n<p>A seguir, resgatamos as trajet\u00f3rias de todos os governadores eleitos desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o \u2014 e o que cada uma delas explica sobre como o Rio chegou at\u00e9 aqui.<\/p>\n<h2><strong>Leonel Brizola (PDT, 1983\u20131987 e 1991\u20131994)<\/strong><\/h2>\n<p>Brizola foi o primeiro a ocupar o Pal\u00e1cio Guanabara por voto direto depois do regime militar e o \u00fanico, ao lado de Marcello Alencar, que passou pelo governo sem pris\u00f5es ou condena\u00e7\u00f5es criminais. Sua trajet\u00f3ria, no entanto, n\u00e3o foi totalmente livre de questionamentos.<\/p>\n<p>No seu segundo mandato, o Minist\u00e9rio P\u00fablico investigou o pagamento de uma suposta mesada de US$ 10 mil por bicheiros \u00e0 c\u00fapula da Pol\u00edcia Civil para evitar a\u00e7\u00f5es contra a contraven\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, Brizola declarava publicamente que combater o jogo do bicho n\u00e3o era uma prioridade de seu governo.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, delatores da Odebrecht citaram irregularidades em contratos do Samb\u00f3dromo e dos CIEPs, mas o STF arquivou o pedido de inqu\u00e9rito em 2017 por falta de provas materiais. Brizola morreu em 2004 sem condena\u00e7\u00f5es criminais.<\/p>\n<h2><strong>Moreira Franco (PMDB, 1987\u20131991)<\/strong><\/h2>\n<p>Moreira Franco deixou o governo do Rio em 1991. Quase tr\u00eas d\u00e9cadas depois, voltou ao notici\u00e1rio ao ser preso durante a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<\/p>\n<p>Sua carreira na vida p\u00fablica \u00e9 marcada por dois epis\u00f3dios controversos. O primeiro ocorreu em 1982, no caso Proconsult, uma tentativa de manipula\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica da elei\u00e7\u00e3o que beneficiaria sua candidatura contra Brizola e acabou sendo descoberta pela imprensa.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2019, Moreira foi detido preventivamente por quatro dias no \u00e2mbito da Lava Jato, acusado de negociar R$ 1 milh\u00e3o em propinas com a empreiteira Engevix nas obras da usina nuclear Angra 3. O caso resultou em absolvi\u00e7\u00e3o na 11\u00aa Vara Federal do Rio: a decis\u00e3o considerou que o Minist\u00e9rio P\u00fablico construiu a acusa\u00e7\u00e3o sobre suposi\u00e7\u00f5es sem respaldo em provas materiais.<\/p>\n<p>Na esfera civil, por\u00e9m, h\u00e1 uma condena\u00e7\u00e3o em seu hist\u00f3rico. Em 2017, a Justi\u00e7a obrigou o ex-governador a devolver R$ 2 milh\u00f5es por irregularidades no uso de verbas da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>Marcello Alencar (PSDB, 1995\u20131998)<\/strong><\/h2>\n<p>Alencar chegou ao governo como representante da ascens\u00e3o tucana dos anos 1990 e saiu sem maiores consequ\u00eancias judiciais \u2014 mas acabou enfrentando investiga\u00e7\u00f5es sobre sua passagem pelo poder.<\/p>\n<p>Em 2006, o Minist\u00e9rio P\u00fablico o denunciou, junto com seu filho Marco Aur\u00e9lio, ent\u00e3o secret\u00e1rio de Fazenda, por peculato e corrup\u00e7\u00e3o passiva. A acusa\u00e7\u00e3o? O desvio de R$ 7,2 milh\u00f5es em verbas de publicidade institucional para a empresa do marqueteiro Duda Mendon\u00e7a, respons\u00e1vel pela campanha do PSDB em 1997.<\/p>\n<p>Segundo a den\u00fancia aceita pela 23\u00aa Vara Criminal, o esquema obrigava as ag\u00eancias que atendiam o governo estadual a contratar a empresa de Mendon\u00e7a. Alencar foi apontado como o mentor da opera\u00e7\u00e3o, mas sempre negou as irregularidades. Ele morreu em junho de 2014 sem ter sido condenado em definitivo.<\/p>\n<h2><strong>Anthony Garotinho (PDT\/PSB, 1999\u20132002)<\/strong><\/h2>\n<p>Garotinho renunciou ao mandato em 2002 para disputar a presid\u00eancia e terminou em terceiro lugar. Mas uma conta chegou anos depois: entre 2016 e 2019, ele foi alvo de cinco mandados de pris\u00e3o preventiva.<\/p>\n<p>Na Opera\u00e7\u00e3o Chequinho, o Minist\u00e9rio P\u00fablico o acusou de comandar um esquema de compra de votos por meio do programa social Cheque Cidad\u00e3o, na prefeitura de Campos dos Goytacazes, com condena\u00e7\u00e3o pelo TSE por corrup\u00e7\u00e3o eleitoral e coa\u00e7\u00e3o de testemunhas. J\u00e1 na Opera\u00e7\u00e3o Caixa d&#8217;\u00c1gua, Garotinho respondeu por acusa\u00e7\u00f5es de extors\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o criminosa para arrecadar recursos de campanha de forma ilegal junto a empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Garotinho sempre atribuiu as a\u00e7\u00f5es a retalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por den\u00fancias que fez contra advers\u00e1rios e membros do Judici\u00e1rio. Diversos processos que embasaram suas pris\u00f5es preventivas foram posteriormente anulados por cortes superiores.<\/p>\n<p>Em 2018, ele teve a candidatura ao governo do estado barrada pela Justi\u00e7a Eleitoral com base em uma condena\u00e7\u00e3o por improbidade administrativa.<\/p>\n<h2><strong>Rosinha Garotinho (PSB\/PMDB, 2003\u20132006)<\/strong><\/h2>\n<p>Rosinha sucedeu o marido no Pal\u00e1cio Guanabara e manteve Campos dos Goytacazes, reduto eleitoral da fam\u00edlia, como base da pol\u00edtica fluminense. Ela concluiu o mandato e exerceu dois per\u00edodos como prefeita munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Sua carreira ap\u00f3s o governo acumulou tr\u00eas ordens de pris\u00e3o preventiva entre 2017 e 2019. Na Opera\u00e7\u00e3o Caixa d&#8217;\u00c1gua, Rosinha foi acusada de integrar uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que arrecadava recursos il\u00edcitos de empres\u00e1rios, inclusive por extors\u00e3o, para financiar campanhas eleitorais.<\/p>\n<p>Outras investiga\u00e7\u00f5es miraram sua gest\u00e3o na prefeitura de Campos, com acusa\u00e7\u00f5es de crimes eleitorais e superfaturamento em contratos com a Odebrecht. Sua defesa classificou as pris\u00f5es como ilegais e politicamente motivadas. As a\u00e7\u00f5es penais que motivaram as deten\u00e7\u00f5es foram posteriormente anuladas pelas inst\u00e2ncias superiores.<\/p>\n<p>A ex-governadora hoje responde aos processos em liberdade, e os casos que motivaram suas pris\u00f5es n\u00e3o resultaram em condena\u00e7\u00f5es definitivas.<\/p>\n<h2><strong>S\u00e9rgio Cabral (PMDB, 2007\u20132014)<\/strong><\/h2>\n<p>Ele governou o Rio no per\u00edodo de maior entrada de recursos da hist\u00f3ria do estado \u2014 royalties do pr\u00e9-sal, Copa de 2014 e Olimp\u00edadas de 2016. E foi preso em novembro de 2016, acusado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal de chefiar uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que transformou em regra a cobran\u00e7a de 5% de propina sobre os grandes contratos de seu governo.<\/p>\n<p>O esquema atingiu a reforma do Maracan\u00e3, o PAC das Favelas e a usina Angra 3 (obra em que admitiu na Justi\u00e7a o desvio de R$ 224 milh\u00f5es). A &#8220;Farra dos Guardanapos&#8221;, epis\u00f3dio de gastos em Paris com recursos p\u00fablicos, tornou-se a imagem mais conhecida daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Cabral recebeu 23 condena\u00e7\u00f5es, com penas que somaram mais de 430 anos de pris\u00e3o. Um acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada com a Pol\u00edcia Federal foi anulado pelo STF em 2021.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s seis anos e um m\u00eas em regime fechado, ele obteve a liberdade com monitoramento eletr\u00f4nico em dezembro de 2022, quando o STF considerou ilegal manter sua pris\u00e3o preventiva sem condena\u00e7\u00e3o definitiva. O ex-governador atualmente responde a mais de 30 a\u00e7\u00f5es penais.<\/p>\n<h2><strong>Luiz Fernando Pez\u00e3o (MDB, 2014\u20132018)<\/strong><\/h2>\n<p>Pez\u00e3o assumiu o governo ap\u00f3s a ren\u00fancia de S\u00e9rgio Cabral, de quem havia sido secret\u00e1rio de Obras e vice-governador. E teve de administrar o colapso fiscal do estado \u2014 atrasos salariais, calamidade financeira, interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em novembro de 2018, ele foi preso dentro do Pal\u00e1cio Laranjeiras, a 32 dias do fim do mandato, no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Boca de Lobo. O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal o acusou de integrar a organiza\u00e7\u00e3o criminosa de Cabral e receber uma mesada de R$ 150 mil em propinas de contratos p\u00fablicos. Pez\u00e3o ficou detido por cerca de um ano.<\/p>\n<p>O juiz Marcelo Bretas o condenou em primeira inst\u00e2ncia a 98 anos e 11 meses de pris\u00e3o. Em abril de 2023, o TRF-2 o absolveu por unanimidade ao concluir que n\u00e3o havia provas suficientes para confirmar as acusa\u00e7\u00f5es feitas pelos delatores. Reabilitado politicamente, ele foi eleito prefeito de Pira\u00ed em 2024.<\/p>\n<h2><strong>Wilson Witzel (PSC, 2019\u20132020)<\/strong><\/h2>\n<p>Ex-juiz federal eleito em 2018 com um discurso de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, Witzel foi o primeiro governador a sofrer <em>impeachment<\/em> desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Em agosto de 2020, o STJ determinou seu afastamento preventivo por suspeita de propinas e fraudes em contratos de sa\u00fade durante a pandemia (ventiladores pulmonares, hospitais de campanha, organiza\u00e7\u00f5es sociais).<\/p>\n<p>Em abril de 2021, Witzel perdeu definitivamente o mandato e recebeu cinco anos de inelegibilidade. Quatro a\u00e7\u00f5es penais derivadas das mesmas investiga\u00e7\u00f5es seguem em curso na Justi\u00e7a Federal. At\u00e9 agora, nenhuma delas terminou em condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Wilson Witzel declarou ter sido v\u00edtima de um \u201cgolpe\u201d e comparou o tribunal ao \u201cEstado Isl\u00e2mico\u201d. Cinco anos depois de deixar o governo, voltou \u00e0 cena pol\u00edtica e foi lan\u00e7ado pelo Partido Democrata como pr\u00e9-candidato ao governo do Rio nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>Cl\u00e1udio Castro (PSC\/PL, 2020\u20132026)<\/strong><\/h2>\n<p>Quando o STJ afastou Wilson Witzel, coube ao vice Cl\u00e1udio Castro assumir o Pal\u00e1cio Guanabara. E ele se reelegeu em 2022.<\/p>\n<p>Em julho de 2024, a Pol\u00edcia Federal o apontou como suspeito de corrup\u00e7\u00e3o e desvio de dinheiro p\u00fablico em contratos de assist\u00eancia social firmados entre 2017 e 2020. Dois anos depois, sua casa foi alvo de buscas em duas opera\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas.<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Sem Refino investigava favorecimento \u00e0 refinaria Refit por meio de benef\u00edcios fiscais e oculta\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio. J\u00e1 a Compliance Zero apurava o uso irregular de R$ 3 bilh\u00f5es do Rioprevid\u00eancia, fundo que paga as aposentadorias dos servidores estaduais, em aplica\u00e7\u00f5es de alto risco no Banco Master.<\/p>\n<p>O que acelerou sua sa\u00edda do cargo, por\u00e9m, foi outro esquema. O TSE concluiu que Castro montou 27 mil contrata\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias fantasmas na Funda\u00e7\u00e3o Ceperj e na Uerj (institui\u00e7\u00f5es estaduais de pesquisa e ensino) para remunerar cabos eleitorais com dinheiro p\u00fablico \u2014 as chamadas \u201cfolhas de pagamento secretas\u201d. Por isso, ele teve os direitos pol\u00edticos suspensos por oito anos.<\/p>\n<p>Castro renunciou na v\u00e9spera da senten\u00e7a, com a inten\u00e7\u00e3o de concorrer ao Senado. Mas a estrat\u00e9gia come\u00e7ou a fracassar ap\u00f3s duas opera\u00e7\u00f5es da PF que resultaram em buscas em sua casa e outros endere\u00e7os ligados a investigados. No \u00faltimo dia 28 de maio, ele anunciou a desist\u00eancia.<\/p>\n<p>Sua defesa sustenta que as investiga\u00e7\u00f5es carecem de provas e que Castro nunca foi ouvido antes de ser formalmente acusado. Ele n\u00e3o tem condena\u00e7\u00e3o criminal definitiva.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Negr\u00e3o de Lima deixou o governo da Guanabara em mar\u00e7o de 1971. 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