{"id":490433,"date":"2026-06-14T13:56:59","date_gmt":"2026-06-14T17:56:59","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490433"},"modified":"2026-06-14T13:56:59","modified_gmt":"2026-06-14T17:56:59","slug":"obra-inedita-de-tolkien-e-descoberta-em-biblioteca-de-oxford","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=490433","title":{"rendered":"Obra in\u00e9dita de Tolkien \u00e9 descoberta em biblioteca de Oxford"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O pesquisador Andoni Cossio procurava outra coisa quando se aventurou numa pilha de pap\u00e9is na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Professor da Universidade do Pa\u00eds Basco, estudava o lado acad\u00eamico de Tolkien para uma obra de refer\u00eancia da editora da pr\u00f3pria Universidade de Oxford, o <em>Oxford Handbook of J.R.R. Tolkien<\/em>, que re\u00fane ensaios de v\u00e1rios especialistas sobre o autor. Trabalhava ao lado de Nelson Goering, da Universidade de Oslo, quando encontrou um datiloscrito (texto datilografado) de dez p\u00e1ginas que ningu\u00e9m jamais descrevera. Cada folha trazia corre\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o. No alto, na caligrafia caprichada que Tolkien reservava ao que levava a s\u00e9rio, lia-se o t\u00edtulo dado por ele: <em>Soul&#8217;s Ward<\/em>.<\/p>\n<p>Cossio disse ao jornal <em>The Telegraph<\/em> que mal acreditou no que via. Os manuscritos de Tolkien costumam ser fragment\u00e1rios e cobertos de revis\u00f5es. Este era um datiloscrito limpo, com emendas em letra mi\u00fada e leg\u00edvel, que passara despercebido por d\u00e9cadas porque fora catalogado entre outros pap\u00e9is, longe de onde algu\u00e9m o procuraria.<\/p>\n<h2>O que estava escrito<\/h2>\n<p><em>Soul&#8217;s Ward<\/em> (A Guarda da Alma) \u00e9 a vers\u00e3o que Tolkien deu a <em>Sawles Warde<\/em>, uma homilia em prosa do in\u00edcio do s\u00e9culo XIII, que ele datava por volta de 1210. O texto \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o livre de uma obra latina, o <em>De custodia interioris hominis<\/em>, feita para anacoretas e freiras de clausura. Pertence ao chamado Grupo de Katherine, um conjunto de escritos devocionais reunidos num manuscrito da pr\u00f3pria Bodleiana.<\/p>\n<p>A homilia \u00e9 uma alegoria. O corpo aparece como uma casa onde a alma imortal est\u00e1 guardada, sob cerco dos v\u00edcios que o Diabo comanda. A Raz\u00e3o \u00e9 o senhor da casa, e a Vontade, a esposa indisciplinada que ele precisa repreender. Os cinco sentidos s\u00e3o os criados, e as filhas do senhor, as quatro virtudes cardeais. \u00c0 Prud\u00eancia cabe a porta: decide quem entra e quem fica do lado de fora.<\/p>\n<p>Boa parte do texto \u00e9 di\u00e1logo. Batem dois mensageiros. O Medo, que anuncia a Morte e diz ter visto o inferno, descreve um lugar sem fundo e sem medida, mais quente do que qualquer fogo da terra. Depois vem o Amor-da-Vida, mensageiro da alegria, que viu o c\u00e9u e fala da vis\u00e3o de Deus. A Prud\u00eancia interroga os dois. Tolkien afirmava detestar alegorias na literatura criativa, mas dedicou incont\u00e1veis horas ao longo de d\u00e9cadas estudando e traduzindo esta.<\/p>\n<h2>O medievalista<\/h2>\n<p>Quem conhece o autor pelos hobbits raramente encontra esse Tolkien. Antes da fama mundial, ele foi um dos maiores estudiosos de l\u00edngua e literatura medievais do s\u00e9culo XX. Sua especialidade era um dialeto do in\u00edcio do ingl\u00eas m\u00e9dio, escrito nas West Midlands inglesas, que ele batizou de l\u00edngua AB, nome derivado dos manuscritos conhecidos como A e B, nos quais identificou caracter\u00edsticas lingu\u00edsticas comuns. .<\/p>\n<p>Em 1929, num ensaio que os medievalistas ainda citam, defendeu que aqueles textos apontavam para uma l\u00edngua liter\u00e1ria j\u00e1 padronizada na regi\u00e3o no come\u00e7o do s\u00e9culo XIII. Cresceu nessas mesmas terras, cujas paisagens em torno de Birmingham depois alimentariam a Terra-m\u00e9dia. Suas tradu\u00e7\u00f5es de poemas medievais, como o Beowulf e Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, j\u00e1 serviram a muitos leitores de porta de entrada para textos que de outro modo ficariam restritos aos especialistas. No Brasil, chegaram a circular pela Martins Fontes e hoje est\u00e3o fora de cat\u00e1logo. Cossio aposta que Soul&#8217;s Ward pode cumprir o mesmo papel.<\/p>\n<h2>Como ele traduziu<\/h2>\n<p>Os pesquisadores datam o trabalho de 1955 ou 1956. Numa folha de rosto do rascunho, Tolkien rabiscou &#8220;maio de 1956&#8221;. S\u00e3o os anos em que <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>chegava \u00e0s livrarias e come\u00e7ava a torn\u00e1-lo conhecido fora da universidade. Enquanto o p\u00fablico descobria o Anel, ele passava o tempo livre vertendo para o ingl\u00eas moderno uma homilia de mais de setecentos anos.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o foi por uma tradu\u00e7\u00e3o literal, num ingl\u00eas fluente de tom levemente arcaico, com direito ao pronome thou. Tolkien n\u00e3o tentou reproduzir a densa alitera\u00e7\u00e3o do original, e preferiu a clareza do sentido ao efeito sonoro. Onde o texto medieval trazia &#8220;ase liun iburst&#8221;, ele escreveu &#8220;as a lion with bristling mane&#8221; (como um le\u00e3o de juba eri\u00e7ada). A juba \u00e9 acr\u00e9scimo dele: o original falava apenas de um le\u00e3o eri\u00e7ado.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o tenha publicado a tradu\u00e7\u00e3o diz pouco sobre o que pensava dela. Tolkien publicava pouqu\u00edssimo do que escrevia, a ponto de um colega lamentar, no obitu\u00e1rio, que tanta coisa excelente nunca tivesse chegado \u00e0s m\u00e3os de ningu\u00e9m. A primeira vers\u00e3o de sua tradu\u00e7\u00e3o de Sir Gawain levou cerca de trinta anos para ficar pronta.<\/p>\n<h2>Outra gaveta, em Dublin<\/h2>\n<p>O caminho do datiloscrito at\u00e9 a Bodleiana passou por uma gaveta em Dublin. Em meados dos anos 1950, Tolkien enviou uma c\u00f3pia da tradu\u00e7\u00e3o a Thomas Patrick Dunning, padre cat\u00f3lico, medievalista e seu ex-aluno, especialista justamente em homilias, o que fazia dele um juiz ideal para o trabalho. N\u00e3o se sabe se Dunning chegou a dar sua opini\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 cartas sobre o assunto, e o datiloscrito n\u00e3o tem uma s\u00f3 anota\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Dunning morreu em 1973 e a tradu\u00e7\u00e3o continuou guardada. Dez anos depois, Alan Bliss, que ocupara o antigo posto de <em>Dunning na University College Dublin<\/em>, fazia uma faxina na sala quando achou numa gaveta um envelope com a letra do antecessor: &#8220;Tolkien, Soul&#8217;s Ward&#8221;. Bliss escreveu a Christopher Tolkien, filho e executor liter\u00e1rio do escritor. Christopher nunca tinha ouvido falar daquilo. Numa nota de 1985, registrou que o texto fora datilografado pelo pai e que, pela apar\u00eancia, parecia dos anos 1950.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o assinada por Cossio e Goering saiu nesta semana na revista <a href=\"https:\/\/watermark02.silverchair.com\/hgag038.pdf?token=AQECAHi208BE49Ooan9kkhW_Ercy7Dm3ZL_9Cf3qfKAc485ysgAAA18wggNbBgkqhkiG9w0BBwagggNMMIIDSAIBADCCA0EGCSqGSIb3DQEHATAeBglghkgBZQMEAS4wEQQMUc70foBEYzrctl96AgEQgIIDErp7iFJZ0cFR2p2g418eye_iA4XXsRcBDGPLhOBvxKl6ZxloLEQEl7GVMuLq4sSidIQPYpPtXZACUUz8SNWmcGZuzJcC2dCIsTwy91K-73ajEV3Hxmv9hZIiKmn9aUK1tkcnzuzk_qkA9nnFME6uetsUNb2R7f9SmHBNBAXid3l_nnhbzVKmOyWXiPK6NRqy1fJCqinXq3legrSXcW2N1ezJEPxCatPnKVb571DxwRWw3FkMzE2p-OfWegaHNKfEB3CA6FwEsm845Vmg6F4dTDmgxTWHBcntM4O2zXDl45VmsIN_ITPEv7SfCRqKDdGboP6qdaSHgUDFHOknz3fMqHcD5Sf51o9z6MEtd_d-zBvnWtYQK7SR4L90myiYEr8CexpXkXASXjnGTMALk63WClnlYx8vdQ3comiv38L-1X0sI-WMF7dcnxAK1goBrTK3nFNdx6KTEAvpPKsrdPVhQ6avWvHxdz_ozSCstaZwfNEPqcMSTs5XiLaO2BjV3mZLpVMxPY-wINwnkEHNH3gsenoaojffDUduWRZ6WWLuy70vJ875_rphzIaro9VczyRUF3Bn6sfiVxKVC-WsfO4vDonz-5AV4-U5Z6-Ob28kBbHJB7fmGFwWSs3bjaGn1xtDD5OKfXBv-gGQZKI39FbfGltUjvkHVQ3yRVcCMPKAM0SQp1AwIlcy9tnCbmk1YNfzsUXV6WKg3POTuL6u-9UsR0TWwxco9KYBOBLSmEcdSAP2zdSMGie-PnPn5nqIiDCrcE_8zrBbencN4qik5RghhJY8dDv-cbrpv1to6dC02hEUqpHNuFIgOSzSpUFtfBPH1AVYOivCy06KSZkEUO_MSrVlsjlsZjrq7PYuUfrOiCW4Nzd23VlucIELbrczNlxp50eubBHFP0v5ZxN5Pzb3FZ-TtAsykfdIE_kQHv7w_oRcd8fq345-r0h-M1U-ouyN9rT9HlGB7107GNWRWTrX1DPm8REgsSJUAoIQ-wzApgtZAzps-sAWg4LpDO8SKoxRvUP8263JMY_tEEPpqteAis4gmw\"><em>The Review of English Studies<\/em><\/a>, da Oxford University Press, em acesso aberto. A descoberta mostra que, mesmo meio s\u00e9culo ap\u00f3s sua morte, Tolkien continua produzindo in\u00e9ditos, seja como o criador da Terra-m\u00e9dia ou o fil\u00f3logo que passou a vida mergulhado nos textos medievais que ajudaram a moldar sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pesquisador Andoni Cossio procurava outra coisa quando se aventurou numa pilha de pap\u00e9is na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. 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