{"id":489986,"date":"2026-06-14T05:01:00","date_gmt":"2026-06-14T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=489986"},"modified":"2026-06-14T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-14T09:01:00","slug":"democracia-totalitaria-como-perdemos-o-poder-de-decidir-sobre-temas-importantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=489986","title":{"rendered":"Democracia totalit\u00e1ria: como perdemos o poder de decidir sobre temas importantes"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Existe um equ\u00edvoco que persiste no modo como diagnosticamos a crise do debate p\u00fablico. O problema, repete-se como um mantra, n\u00e3o \u00e9 a estrutura, \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o: pessoas acreditando em fake news porque n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 verdade. O rem\u00e9dio para tal seria mais educa\u00e7\u00e3o, melhores plataformas, <em>fact-checking <\/em>mais eficiente, talvez uma ag\u00eancia reguladora com certos poderes para distinguir o verdadeiro do falso e proteger a democracia de si mesma.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um diagn\u00f3stico reconfortante porque localiza o problema inteiramente do lado de fora: nos outros, nos desinformados, nos que ainda n\u00e3o chegaram ao n\u00edvel de sofistica\u00e7\u00e3o intelectual necess\u00e1rio para participar do debate com a devida responsabilidade. Tenho minhas reservas sobre essa vers\u00e3o da hist\u00f3ria e suspeito que quem a formula raramente precisa test\u00e1-la na pr\u00f3pria pele.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia politicamente relevante em nosso tempo n\u00e3o \u00e9 d\u00e9ficit cognitivo. \u00c9 d\u00e9ficit de consequ\u00eancia. \u00c9 o que pretendo argumentar aqui. Como costumo dizer aos meus alunos do ensino b\u00e1sico quando a situa\u00e7\u00e3o exige ir direto ao ponto: \u201cVoc\u00ea apronta e n\u00e3o d\u00e1 em nada at\u00e9 o dia em que come\u00e7ar a arcar com as consequ\u00eancias das suas a\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a velha distin\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica entre saber o certo e fazer o certo. Nem sempre ambas andam juntas. A distin\u00e7\u00e3o aqui importa porque muda inteiramente o que se est\u00e1 diagnosticando e, por extens\u00e3o, o que se estaria em condi\u00e7\u00e3o de remediar \u2013 se \u00e9 que se est\u00e1 em condi\u00e7\u00e3o de remediar alguma coisa.<\/p>\n<p>Em <em>Ignorance and Bliss: On Wanting Not to Know<\/em> (2024), <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/mark-lilla\/\">Mark Lilla<\/a> observa que os interlocutores de S\u00f3crates raramente recusavam o argumento por n\u00e3o entend\u00ea-lo. Recusavam-no porque entend\u00ea-lo custava algo: expunha contradi\u00e7\u00f5es investidas de identidade e prest\u00edgio, humilhava publicamente, obrigava \u00e0 revis\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 haviam se tornado parte de quem se era.<\/p>\n<p>A misologia \u2013 o \u00f3dio ao argumento que S\u00f3crates diagnostica no <em>F\u00e9don<\/em> \u2013 n\u00e3o nasce da estupidez ou tolice. Nasce da decep\u00e7\u00e3o de quem confiou em argumentos v\u00e1rias e v\u00e1rias vezes, foi tra\u00eddo por eles e concluiu que a trai\u00e7\u00e3o era da natureza do argumento, n\u00e3o das circunst\u00e2ncias. \u00c9 uma forma de autodefesa intelectual. E, como toda autodefesa levada longe demais, paralisa aquilo que pretendia proteger. \u00c9 o aluno que perde o interesse pelo debate porque descobriu que, ali, naquela circunst\u00e2ncia, n\u00e3o est\u00e1 em jogo a verdade, mas a habilidade de vencer.<\/p>\n<p>Mas isso ainda \u00e9 o diagn\u00f3stico de uma patologia individual, ou, no m\u00e1ximo, intersubjetiva. O que a pol\u00edtica brasileira de 2026 exibe, com uma clareza que dispensa sofistica\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica para ser percebida, \u00e9 uma vers\u00e3o mais grave e mais interessante: uma ignor\u00e2ncia que n\u00e3o \u00e9 fraqueza psicol\u00f3gica, mas propriedade funcional de estruturas institucionais. N\u00e3o o indiv\u00edduo que recusa saber, mas o sistema que o protege de ter de saber e que, ao proteg\u00ea-lo, o recompensa.<\/p>\n<p>O exemplo mais revelador n\u00e3o \u00e9 o do pol\u00edtico individualmente corrupto, mas o das estruturas que tornam a corrup\u00e7\u00e3o da verdade sist\u00eamica. Quando inqu\u00e9ritos de natureza excepcional se tornam permanentes e de escopo indefinidamente expans\u00edvel, quando a condu\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00f5es se dissocia de qualquer horizonte de encerramento ou de presta\u00e7\u00e3o de contas sim\u00e9trica, o que emerge n\u00e3o \u00e9 simplesmente abuso de poder no sentido cl\u00e1ssico.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao dissolver progressivamente as estruturas intermedi\u00e1rias que mediavam a rela\u00e7\u00e3o entre a pessoa e a autoridade \u2013 fam\u00edlia extensa, comunidade, corpora\u00e7\u00e3o profissional, igreja local, associa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u2013, o Estado moderno n\u00e3o encontrou um indiv\u00edduo aut\u00f4nomo esperando para florescer<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 algo mais sofisticado e mais dif\u00edcil de nomear: uma arquitetura institucional em que quem toma decis\u00f5es excepcionais est\u00e1 estruturalmente protegido de viver sob as consequ\u00eancias dessas decis\u00f5es, enquanto os investigados, os jornalistas, os cr\u00edticos e os cidad\u00e3os comuns precisam navegar, em tempo real, pelas consequ\u00eancias de cada ato de quem decide. O poder que conduz n\u00e3o presta contas ao mesmo ritmo em que o poder que conduz cobra contas. Essa assimetria n\u00e3o \u00e9 acidente. \u00c9 estrutura.<\/p>\n<p><em>The Pitt<\/em>, a s\u00e9rie m\u00e9dica vencedora do Emmy de 2025, constr\u00f3i sua for\u00e7a dram\u00e1tica exatamente sobre essa distin\u00e7\u00e3o. Cada epis\u00f3dio \u00e9 uma hora de plant\u00e3o em tempo real no pronto-socorro de Pittsburgh: sem cortes, sem a miseric\u00f3rdia do salto temporal, sem o al\u00edvio da c\u00e2mera que desvia quando as coisas ficam dif\u00edceis demais.<\/p>\n<p>O Dr. Robby e seus ac\u00f3litos decidem, e a decis\u00e3o tem consequ\u00eancias imediatas, vis\u00edveis e irrevers\u00edveis no corpo do paciente \u00e0 sua frente, na fadiga da equipe que partilha o mesmo corredor estreito, na conta que se paga ali, naquele turno, sem apela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que a s\u00e9rie torna visceralmente claro \u00e9 o contraste com as decis\u00f5es que chegam de fora: os cortes or\u00e7ament\u00e1rios, os protocolos administrativos, as metas de efici\u00eancia definidas por gestores que nunca precisaram explicar a um familiar por que n\u00e3o havia leito dispon\u00edvel. A dist\u00e2ncia entre quem decide e quem vive com o decidido n\u00e3o \u00e9 apenas burocr\u00e1tica. \u00c9 moral, no sentido mais elementar do termo.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 necess\u00e1rio um par\u00eantese que n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rico e que me custa mais do que eu gostaria de admitir. Soljen\u00edtsin escreveu em <em>Arquip\u00e9lago Gulag<\/em> que a linha divis\u00f3ria entre o bem e o mal n\u00e3o separa pessoas: corta o cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s. E perguntou quem estaria disposto a destruir um peda\u00e7o do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o para extirpar o mal.<\/p>\n<p>Dirijo essa pergunta ao leitor com a mesma honestidade com que a dirijo a mim mesmo: qualquer an\u00e1lise que localize o d\u00e9ficit de consequ\u00eancia inteiramente nos outros \u2013 nas elites, nos t\u00e9cnicos, nos ministros, nos gestores de plataforma \u2013 j\u00e1 cometeu, na sua pr\u00f3pria forma, o erro que pretende denunciar. Enquadra-se em um tipo de contradi\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica.<\/p>\n<p>O professor que critica a escola terap\u00eautica sem examinar o quanto ele pr\u00f3prio cedeu \u00e0s suas l\u00f3gicas. O ensa\u00edsta que diagnostica a ignor\u00e2ncia alheia a partir de um lugar de relativa seguran\u00e7a. Todos habitamos, em graus diferentes, a mesma estrutura que estamos descrevendo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o invalida o diagn\u00f3stico. Mas nos obriga a faz\u00ea-lo com uma dose de sarcasmo e ironia voltada tamb\u00e9m para dentro, o que \u00e9 desconfort\u00e1vel e, pelo mesmo motivo, necess\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O pai que disciplina o filho, o mestre que corrige o aprendiz, o p\u00e1roco que admoesta o paroquiano exercem autoridade porque est\u00e3o acoplados \u00e0s consequ\u00eancias do que fazem. Se erram, pagam o pre\u00e7o dentro da mesma rela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 aqui que os arranjos institucionais revelam sua import\u00e2ncia. Massimo Cacciari desenvolveu, a partir de uma leitura da Segunda Ep\u00edstola de S\u00e3o Paulo aos Tessalonicenses, a no\u00e7\u00e3o de <em>Katechon<\/em>: o poder que freia, a for\u00e7a que retarda, que cont\u00e9m, que impede a manifesta\u00e7\u00e3o plena do que viria destruir a ordem. N\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a que resolve o problema. N\u00e3o \u00e9 reden\u00e7\u00e3o nem solu\u00e7\u00e3o: \u00e9 conten\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, o que segura para que tudo n\u00e3o vire caos.<\/p>\n<p>Certas institui\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias \u2013 fam\u00edlia, comunidade local, corpora\u00e7\u00e3o profissional, tradi\u00e7\u00e3o religiosa viva \u2013 funcionaram historicamente como <em>katechon<\/em> epist\u00eamico: for\u00e7avam o contato entre quem julgava e quem vivia com o julgamento, criavam fric\u00e7\u00e3o suficiente para que as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o passassem despercebidas e sem custo.<\/p>\n<p>Quando essas estruturas se dissolvem, o que resta n\u00e3o \u00e9 liberdade, \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o direta do indiv\u00edduo a formas de poder que n\u00e3o precisam mais responder \u00e0 experi\u00eancia concreta de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Robert Nisbet publicou <em>The Quest for Community<\/em> em 1953 \u2013 obra finalmente disponibilizada ao leitor brasileiro em tradu\u00e7\u00e3o portuguesa \u2013 com uma tese que parecia, naquele momento, ir na contram\u00e3o: a modernidade n\u00e3o havia libertado o indiv\u00edduo. Havia apenas mudado o nome de sua depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao dissolver progressivamente as estruturas intermedi\u00e1rias que mediavam a rela\u00e7\u00e3o entre a pessoa e a autoridade \u2013 fam\u00edlia extensa, comunidade, corpora\u00e7\u00e3o profissional, igreja local, associa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u2013, o Estado moderno n\u00e3o encontrou um indiv\u00edduo aut\u00f4nomo esperando para florescer. Encontrou um indiv\u00edduo desamparado, ansioso por pertencimento e, portanto, dispon\u00edvel para formas de lealdade muito mais totalizantes do que as que as comunidades tradicionais jamais exigiram.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o que Nisbet elabora entre autoridade e poder n\u00e3o \u00e9 evidente, mas \u00e9 cir\u00fargica \u2013 e \u00e9 desse insight que farei uso aqui. Autoridade \u00e9 a forma de orienta\u00e7\u00e3o que emerge organicamente de dentro de uma associa\u00e7\u00e3o: ela \u00e9 consentida, enraizada nos v\u00ednculos, na maior parte das vezes volunt\u00e1rios, entre pessoas que t\u00eam interesse direto nas consequ\u00eancias de quem manda e de quem obedece.<\/p>\n<p>O pai que disciplina o filho, o mestre que corrige o aprendiz, o p\u00e1roco que admoesta o paroquiano exercem autoridade porque est\u00e3o acoplados \u00e0s consequ\u00eancias do que fazem. Se erram, pagam o pre\u00e7o dentro da mesma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder, por contraste, \u00e9 externo, imposto por for\u00e7a ou por depend\u00eancia criada artificialmente, e tende \u00e0 expans\u00e3o precisamente porque n\u00e3o est\u00e1 acoplado ao custo de seus erros da mesma forma. A \u201cditadura da toga\u201d \u00e9 um dos exemplos mais escrachados na pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Quando as estruturas de autoridade se dissolvem, o espa\u00e7o n\u00e3o permanece vazio. Nunca permanece. O v\u00e1cuo \u00e9 preenchido pelo poder; e o poder, liberto da fric\u00e7\u00e3o que a autoridade intermedi\u00e1ria impunha, tende a ocupar fun\u00e7\u00f5es que antes n\u00e3o lhe pertenciam: fornece identidade, oferece pertencimento, promete sentido.<\/p>\n<p>Nisbet chamou esse processo de absor\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da comunidade pelo Estado. A na\u00e7\u00e3o substitui a comunidade local; o partido substitui a irmandade; o l\u00edder carism\u00e1tico substitui o anci\u00e3o reconhecido pela estrutura comunit\u00e1ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Poder, por contraste, \u00e9 externo, imposto por for\u00e7a ou por depend\u00eancia criada artificialmente, e tende \u00e0 expans\u00e3o precisamente porque n\u00e3o est\u00e1 acoplado ao custo de seus erros da mesma forma. A &#8216;ditadura da toga&#8217; \u00e9 um dos exemplos mais escrachados na pol\u00edtica brasileira<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A forma \u00e9 semelhante. A subst\u00e2ncia \u00e9 radicalmente diferente, porque o Estado n\u00e3o precisa viver com voc\u00ea para lhe oferecer pertencimento imaginado \u2013 e \u00e9 exatamente por isso que o pertencimento que oferece \u00e9 irrespons\u00e1vel no sentido literal: sem possibilidade de resposta, sem mecanismo de corre\u00e7\u00e3o, sem o peso da consequ\u00eancia compartilhada.<\/p>\n<p>A escola \u2013 e aqui falo com a experi\u00eancia de quem trabalha com estudantes do ensino b\u00e1sico \u2013 \u00e9 um dos lugares em que esse processo se torna mais vis\u00edvel e mais dif\u00edcil de nomear sem pagar um pre\u00e7o social. A pedagogia contempor\u00e2nea incorporou, com entusiasmo e boas inten\u00e7\u00f5es, uma l\u00f3gica terap\u00eautica que Rieff havia diagnosticado d\u00e9cadas antes: o professor deixou de ser guardi\u00e3o de uma heran\u00e7a que antecede e obriga para tornar-se facilitador de experi\u00eancias emocionais.<\/p>\n<p>O conte\u00fado cede ao acolhimento. A exig\u00eancia vira viol\u00eancia simb\u00f3lica. A nota baixa convoca uma reuni\u00e3o com a coordena\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia e, n\u00e3o raro, um conjunto de diagn\u00f3sticos formulados sem o concurso de nenhum especialista que tenha visto o estudante por mais de uma hora.<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m diz, mas todo professor do ensino b\u00e1sico sabe, \u00e9 que essa l\u00f3gica n\u00e3o protege o estudante. Priva-o da fric\u00e7\u00e3o que o tornaria capaz de habitar o mundo real \u2013 aquele que, na maior parte das vezes, n\u00e3o acolhe, n\u00e3o valida e n\u00e3o ajusta suas exig\u00eancias ao humor de quem o enfrenta. Em outras palavras: o mundo que resiste aos nossos caprichos.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 preciso: quanto mais a escola tenta proteger a psique do aluno de qualquer forma de desconforto, mais fr\u00e1gil ele se torna diante do desconforto que a vida inevitavelmente imp\u00f5e. A gera\u00e7\u00e3o formada para n\u00e3o suportar a nota vermelha tamb\u00e9m n\u00e3o sabe o que fazer com o emprego perdido, o relacionamento que termina, o projeto que fracassa. A escola terap\u00eautica n\u00e3o preparou ningu\u00e9m para <em>The Pitt<\/em>; preparou para a sala de espera de um hospital que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>O que Nisbet n\u00e3o p\u00f4de antecipar \u2013 ele escrevia em 1953, quando o computador ainda ocupava salas inteiras \u2013 \u00e9 que o processo que descreveu n\u00e3o se limitaria ao Estado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O cidad\u00e3o vota, opina, compartilha, comenta. Mas as decis\u00f5es que estruturam sua vida \u2013 sobre o valor do seu trabalho, sobre o conte\u00fado que seus filhos encontram nas telas, sobre quais ind\u00fastrias existir\u00e3o na sua cidade daqui a dez anos \u2013 s\u00e3o tomadas por estruturas que ele n\u00e3o escolheu<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O v\u00e1cuo deixado pela dissolu\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria pode ser preenchido por qualquer estrutura de poder suficientemente grande e suficientemente h\u00e1bil em simular pertencimento. As plataformas digitais fizeram isso com uma efici\u00eancia que nenhum Estado burocr\u00e1tico jamais alcan\u00e7ou: oferecem identidade instant\u00e2nea, comunidade sem fric\u00e7\u00e3o, pertencimento sem obriga\u00e7\u00e3o, reconhecimento sem o custo de ser conhecido de verdade.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios que desenvolvem intelig\u00eancia artificial geral s\u00e3o o caso mais avan\u00e7ado e mais revelador do fen\u00f4meno. S\u00e3o pequenas comunidades \u2013 algumas centenas de pesquisadores, no m\u00e1ximo \u2013 tomando decis\u00f5es com potencial de consequ\u00eancia civilizacional dentro de um ambiente social homog\u00eaneo que confirma suas premissas, protegidos por acordos de confidencialidade e pela dificuldade real de imaginar trajet\u00f3rias profissionais alternativas. O que produzem n\u00e3o \u00e9 necessariamente m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o, mas a propriedade emergente de uma estrutura que separa sistematicamente as a\u00e7\u00f5es das consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma genealogia que Dostoi\u00e9vski, de todos os lugares improv\u00e1veis, havia mapeado com precis\u00e3o desconcertante. Em <em>Os Dem\u00f4nios<\/em>, Stepan Trofimovitch representa o liberal bem-intencionado: acredita no progresso, no esclarecimento, na raz\u00e3o individual libertada das restri\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o cren\u00e7as ruins. Elas animaram muito do que havia de melhor no s\u00e9culo XIX. O problema \u00e9 que esse liberalismo n\u00e3o tem teoria do mal. Pressup\u00f5e que os seres humanos, libertos de restri\u00e7\u00f5es irracionais, naturalmente escolher\u00e3o o bem. Saber o certo, fazer o certo? N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o conceitual para a possibilidade de que pessoas racionais e livres possam usar sua liberdade para destruir o que o liberal valorizava.<\/p>\n<p>Pyotr, o filho, \u00e9 a conclus\u00e3o l\u00f3gica dessa premissa: calcula cuidadosamente, planeja estrategicamente, manipula com base em avalia\u00e7\u00f5es precisas das fraquezas alheias e, no fim, incendeia tudo. N\u00e3o por desvio ou ignor\u00e2ncia, mas por coer\u00eancia.<\/p>\n<p>O movimento do altru\u00edsmo eficaz, para usar um exemplo contempor\u00e2neo, \u00e9 esse mesmo liberalismo aplicado \u00e0 \u00e9tica: pressup\u00f5e que um racioc\u00ednio cuidadoso sobre como fazer o bem levar\u00e1 inevitavelmente a fazer o bem. N\u00e3o tem teoria sobre como esse racioc\u00ednio pode ser capturado, pode servir de cobertura, pode tornar-se motor de dano.<\/p>\n<p>H\u00e1 um detalhe nessa din\u00e2mica que Rieff ajuda a precisar. As culturas existem primariamente como sistemas de interdi\u00e7\u00f5es: os \u201cn\u00e3o far\u00e1s\u201d que delimitam o que \u00e9 permitido e o que \u00e9 proibido, o que pode ser dito e o que deve permanecer em sil\u00eancio. Esses tabus n\u00e3o s\u00e3o arca\u00edsmos irracionais: s\u00e3o a forma condensada pela qual uma comunidade transmite o aprendizado acumulado sobre o que destr\u00f3i a vida em comum.<\/p>\n<p>Quando a elite progressista, em suas v\u00e1rias vertentes \u2013 seja ela enraizada no STF ou numa Big Tech \u2013, dissolve os tabus, e o faz porque os tabus s\u00e3o marcadores da velha ordem que veio substituir, n\u00e3o dissolve apenas normas. Dissolve os mecanismos pelos quais o custo da transgress\u00e3o era distribu\u00eddo e reconhecido dentro de uma comunidade.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O tabu protegia especialmente quem n\u00e3o tinha outro recurso al\u00e9m dele. Sua dissolu\u00e7\u00e3o liberta a elite, que tem recursos alternativos. Abandona as classes que n\u00e3o os t\u00eam. E forma, nas escolas, uma gera\u00e7\u00e3o que nunca aprendeu que certas coisas t\u00eam peso, porque o peso foi sistematicamente removido de tudo o que lhe foi apresentado.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 o que Nisbet chamou de democracia totalit\u00e1ria \u2013 e o termo merece ser levado a s\u00e9rio, n\u00e3o como hip\u00e9rbole ret\u00f3rica, mas como descri\u00e7\u00e3o de um regime em que a participa\u00e7\u00e3o formal coexiste com a depend\u00eancia real.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o vota, opina, compartilha, comenta. Mas as decis\u00f5es que estruturam sua vida \u2013 sobre o valor do seu trabalho, sobre o conte\u00fado que seus filhos encontram nas telas, sobre quais ind\u00fastrias existir\u00e3o na sua cidade daqui a dez anos \u2013 s\u00e3o tomadas por estruturas que ele n\u00e3o escolheu, n\u00e3o controla e frequentemente n\u00e3o consegue sequer nomear.<\/p>\n<p>A democracia totalit\u00e1ria n\u00e3o suprime a voz. Torna a voz irrelevante enquanto mant\u00e9m sua apar\u00eancia. A tenta\u00e7\u00e3o diante desse diagn\u00f3stico \u00e9 pol\u00edtica e imediata: se o problema \u00e9 o poder que absorveu as fun\u00e7\u00f5es de autoridade da comunidade, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzi-lo e esperar que a comunidade retorne.<\/p>\n<p>Mas as estruturas intermedi\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o vegeta\u00e7\u00e3o que brota espontaneamente quando se remove a sombra do Estado. S\u00e3o culturas que requerem tempo, pr\u00e1ticas transmitidas, h\u00e1bitos formados por gera\u00e7\u00f5es de coabita\u00e7\u00e3o concreta. Onde foram destru\u00eddas, n\u00e3o retornam por decreto nem por desregula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E a resposta p\u00f3s-liberal n\u00e3o pode ser simplesmente a restaura\u00e7\u00e3o do que existia. A linha de Soljen\u00edtsin reaparece aqui por outra via: o mal que a dissolu\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria produziu n\u00e3o estava apenas nas estruturas que a modernidade destruiu. Estava tamb\u00e9m dentro delas. Fam\u00edlias que oprimiam. Igrejas que encobertavam.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 glorificar o que se perdeu, mas perguntar se essa destrui\u00e7\u00e3o era de fato inevit\u00e1vel ou se foi, em parte, uma escolha de uma classe que tinha mais a ganhar com o v\u00e1cuo do que com a reforma \u2013 uma pergunta que essa classe prefere, compreensivelmente, n\u00e3o fazer. O que foi perdido n\u00e3o \u00e9, primariamente, uma institui\u00e7\u00e3o ou um conjunto de normas. \u00c9, como argumentei ao longo deste ensaio, um tipo de fric\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As comunidades intermedi\u00e1rias que Nisbet descreve n\u00e3o eram incubadoras de virtude espont\u00e2nea. Eram espa\u00e7os em que o julgamento equivocado encontrava resist\u00eancia antes de se tornar consequ\u00eancia irrevers\u00edvel. O pai que julgava mal o filho ouvia sobre isso da m\u00e3e, dos av\u00f3s, dos parentes, do pastor \u2013 todos com interesse direto no resultado. O patr\u00e3o que explorava seus funcion\u00e1rios enfrentava a press\u00e3o de uma reputa\u00e7\u00e3o que precisava sustentar entre pessoas que n\u00e3o poderia simplesmente deslogar. N\u00e3o era bondade. Era estrutura.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p><em>The Pitt<\/em> representa exatamente esse tipo de fric\u00e7\u00e3o em forma dram\u00e1tica. Cada decis\u00e3o do Dr. Robby \u00e9 imediatamente testada pelo paciente que responde ou n\u00e3o responde, pela equipe que est\u00e1 ali para ver, pelo corredor que n\u00e3o tem onde esconder o erro. N\u00e3o h\u00e1 relat\u00f3rio de impacto que substitua o rosto \u2013 e o rosto \u00e9 o que for\u00e7a a aten\u00e7\u00e3o justa \u00e0 realidade do outro, o que impede que o outro seja reduzido a uma vari\u00e1vel num modelo de otimiza\u00e7\u00e3o neste tempo de intelig\u00eancias artificiais.<\/p>\n<p>As democracias s\u00e3o julgadas por seus frutos antes de serem julgadas por seus princ\u00edpios. A experi\u00eancia que o diagn\u00f3stico aqui tentou descrever \u00e9 a de uma crescente parcela da popula\u00e7\u00e3o que vive sob decis\u00f5es que n\u00e3o toma, produzidas por pessoas que n\u00e3o precisar\u00e3o viver com elas, legitimadas por procedimentos que n\u00e3o consegue influenciar.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia n\u00e3o produz cidad\u00e3os mais sofisticados epistemicamente. Produz mis\u00f3logos: pessoas que desistiram do argumento porque o argumento nunca chegou a custar nada a quem o fazia.<\/p>\n<p>O populismo contempor\u00e2neo, nos seus aspectos mais preocupantes, \u00e9, em parte, o produto dessa desist\u00eancia. \u00c9 a resposta de quem aprendeu, por experi\u00eancia repetida, que as formas dispon\u00edveis de participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o produzem consequ\u00eancias reais para quem det\u00e9m o poder de decidir.<\/p>\n<p>Diante disso, a sedu\u00e7\u00e3o de uma figura que pelo menos promete consequ\u00eancias \u2013 que pelo menos encena a possibilidade de que algu\u00e9m, em algum lugar, pague um pre\u00e7o \u2013 \u00e9 compreens\u00edvel. \u00c9 a misologia convertida em pol\u00edtica. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda limpa desse impasse. O que h\u00e1 s\u00e3o apostas parciais, cada uma com custos que precisam ser nomeados honestamente.<\/p>\n<p>A aposta nas comunidades intermedi\u00e1rias reconstitui fric\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o garante que a fric\u00e7\u00e3o seja justa. A aposta na regula\u00e7\u00e3o estatal substitui um poder por outro pior. A aposta na renova\u00e7\u00e3o cultural depende de uma gera\u00e7\u00e3o disposta a pagar o custo de habitar institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o entregam imediatamente o que prometem \u2013 uma disposi\u00e7\u00e3o que as condi\u00e7\u00f5es que estamos descrevendo tornam cada vez mais rara.<\/p>\n<p>O que parece certo \u00e9 que qualquer tentativa de resposta que n\u00e3o leve a s\u00e9rio a necessidade de recriar estruturas em que as a\u00e7\u00f5es e as consequ\u00eancias voltem a se encontrar est\u00e1 trabalhando contra si mesma. O m\u00ednimo para sustentar uma democracia minimamente saud\u00e1vel seria cultivar o que chamei aqui de pequenas fric\u00e7\u00f5es: dist\u00e2ncias menores entre quem decide e quem vive com o decidido.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 reden\u00e7\u00e3o. O <em>Katechon<\/em> \u2013 essa for\u00e7a que retarda, que cont\u00e9m, que impede que o pior se manifeste na sua velocidade natural \u2013 n\u00e3o salva. Freia. E a prud\u00eancia, que os antigos consideravam a virtude mais necess\u00e1ria \u00e0 vida pol\u00edtica justamente porque n\u00e3o promete mais do que pode cumprir, talvez seja o nome mais honesto para o que at\u00e9 aqui foi descrito.<\/p>\n<p>Uma nova pol\u00edtica da prud\u00eancia n\u00e3o tem programa. Tem resist\u00eancia. N\u00e3o resolve o problema do poder sem consequ\u00eancia; resiste, dia ap\u00f3s dia, \u00e0 velocidade com que esse poder avan\u00e7a. Segura. E, \u00e0s vezes, segurar \u00e9 o m\u00e1ximo que honestamente se pode prometer.<\/p>\n<p><em><strong>Natan Fantin<\/strong> \u00e9 escritor, tradutor e professor do Ensino B\u00e1sico, graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um equ\u00edvoco que persiste no modo como diagnosticamos a crise do debate p\u00fablico. 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