{"id":489984,"date":"2026-06-14T05:02:00","date_gmt":"2026-06-14T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=489984"},"modified":"2026-06-14T05:02:00","modified_gmt":"2026-06-14T09:02:00","slug":"cotas-nao-consertam-o-que-o-ensino-basico-quebrou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=489984","title":{"rendered":"Cotas n\u00e3o consertam o que o ensino b\u00e1sico quebrou"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A desigualdade no Brasil n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Segundo o coeficiente de Gini, o pa\u00eds ocupa a sexta posi\u00e7\u00e3o entre aqueles com maior disparidade na distribui\u00e7\u00e3o de renda, ao lado de pa\u00edses africanos marcados por profundas desigualdades socioecon\u00f4micas. As cotas raciais surgem como uma alternativa para reduzir essa disparidade, mas, para os mais atentos, funcionam como um paliativo que est\u00e1 longe de resolver o problema.<\/p>\n<p>Na obra <em>Por que o Brasil cresce pouco?<\/em>, o economista Marcos Mendes relaciona a hist\u00f3rica desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda brasileira \u00e0 democracia irrestrita instaurada a partir de 1985. Segundo o autor, &#8220;grupos econ\u00f4micos fortes e indiv\u00edduos de alta renda t\u00eam acesso privilegiado ao poder pol\u00edtico e s\u00e3o capazes de moldar as institui\u00e7\u00f5es a seu favor&#8221;.<\/p>\n<p>O patrimonialismo brasileiro continua sendo um problema relevante e est\u00e1 longe de ser superado. Para Raymundo Faoro, o Brasil \u00e9 um Estado patrimonial, no qual o patrim\u00f4nio pessoal dos donos do poder se confunde com o patrim\u00f4nio estatal, e os recursos p\u00fablicos s\u00e3o frequentemente utilizados para atender interesses particulares e perpetuar grupos privilegiados nas estruturas de poder.<\/p>\n<p>O problema do patrimonialismo brasileiro \u00e9 amplamente conhecido e dificulta a ascens\u00e3o das classes menos favorecidas, impedidas de progredir social e economicamente por estruturas historicamente dominadas por elites. N\u00e3o por acaso, o Brasil ocupa uma das piores posi\u00e7\u00f5es em mobilidade social, segundo o \u00edndice de elasticidade intergeracional de renda da OCDE.<\/p>\n<blockquote>\n<p> Em vez de atacar as causas da desigualdade educacional, a pol\u00edtica de cotas atua sobre seus efeitos, ampliando o acesso \u00e0 universidade sem corrigir as defici\u00eancias acumuladas durante anos de forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Apenas 7% dos indiv\u00edduos pertencentes aos 20% mais pobres conseguem alcan\u00e7ar os 20% mais ricos. Al\u00e9m disso, 31% dos filhos que crescem entre os 20% mais pobres permanecem nesse grupo ao longo da vida. Em outras palavras: pai pobre, filho pobre. Esse fen\u00f4meno ficou conhecido como &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221;, express\u00e3o que descreve a dificuldade de ascens\u00e3o social enfrentada pelas camadas mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios da OCDE evidenciam que a educa\u00e7\u00e3o de qualidade \u00e9 um dos principais fatores de promo\u00e7\u00e3o da mobilidade social. Por outro lado, uma educa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria limita as oportunidades dos jovens no mercado de trabalho e fortalece o &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221;, mantendo os filhos dos mais pobres presos \u00e0 mesma condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica de seus pais. Segundo Stefano Scarpetta, diretor de Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais da OCDE, o Brasil tamb\u00e9m convive com o chamado &#8220;teto pegajoso&#8221;, fen\u00f4meno pelo qual os filhos das fam\u00edlias mais ricas tendem a permanecer no topo da pir\u00e2mide social.<\/p>\n<p>Poucos exemplos ilustram t\u00e3o bem a desigualdade brasileira quanto o abismo existente entre a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a educa\u00e7\u00e3o privada. A m\u00e9dia geral das escolas brasileiras \u00e9 de 525 pontos, mas 91% das escolas p\u00fablicas est\u00e3o abaixo dessa m\u00e9dia. Trata-se do &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221; operando na pr\u00e1tica e limitando as oportunidades futuras dos filhos das fam\u00edlias mais pobres.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do Pisa aponta que o Brasil est\u00e1 entre os 20 piores pa\u00edses em educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para estudantes de at\u00e9 15 anos. Os alunos brasileiros ficaram abaixo da m\u00e9dia da OCDE em matem\u00e1tica, ci\u00eancias e leitura. Apenas 27% atingiram o n\u00edvel m\u00ednimo de profici\u00eancia em matem\u00e1tica, contra 69% na m\u00e9dia da OCDE. Somente 1% alcan\u00e7ou os n\u00edveis 5 ou 6 na disciplina, enquanto a m\u00e9dia da OCDE foi de 9%. Em leitura, o percentual foi de 50%, contra 74% dos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio relat\u00f3rio \u00e9 claro ao afirmar que &#8220;n\u00e3o \u00e9 apenas o volume de recursos que importa, mas como os recursos s\u00e3o utilizados, especialmente na qualidade dos professores, na gest\u00e3o escolar e no apoio aos alunos vulner\u00e1veis&#8221;. Al\u00e9m disso, destaca a necessidade de direcionar recursos \u00e0s escolas mais carentes, justamente para romper o &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221; que perpetua a desigualdade educacional.<\/p>\n<p>Os economistas James Heckman e Alan Krueger, na obra <em>Inequality in America: What Role for Human Capital Policies?<\/em> (<em>Desigualdade na Am\u00e9rica: qual o papel das pol\u00edticas de capital humano?<\/em>), concluem que um dos melhores investimentos que o Estado pode realizar \u00e9 o investimento em capital humano, especialmente na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica voltada \u00e0s comunidades mais vulner\u00e1veis. Para os autores, esse \u00e9 o caminho mais eficaz para romper o ciclo da pobreza e ampliar a mobilidade social.<\/p>\n<p>O aumento da qualidade e da efici\u00eancia da gest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica produz &#8220;efeitos duradouros sobre desempenho escolar, escolaridade, emprego e resultados sociais, como redu\u00e7\u00e3o da criminalidade e da gravidez na adolesc\u00eancia&#8221;. A melhoria da qualidade do ensino p\u00fablico reduz a dist\u00e2ncia entre crian\u00e7as pobres e ricas, diminuindo a desigualdade social desde a primeira inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias apresentadas por Heckman e Krueger demonstram que o investimento em capital humano na primeira inf\u00e2ncia e no ensino b\u00e1sico produz retornos sociais e econ\u00f4micos superiores aos investimentos tardios concentrados apenas no ensino superior. Em outras palavras, atacar a desigualdade na base tende a ser mais eficaz do que tentar corrigi-la apenas na etapa final do processo educacional por meio de cotas.<\/p>\n<p>O governo brasileiro, em vez de tratar o &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221; por meio da melhoria da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, optou por ampliar as pol\u00edticas de reserva de vagas raciais e sociais em concursos p\u00fablicos, universidades federais e institutos federais. O governo Lula promoveu uma ampla revis\u00e3o e expans\u00e3o das a\u00e7\u00f5es afirmativas, com destaque para a san\u00e7\u00e3o da Lei 15.142\/2025, que elevou de 20% para 30% a reserva de vagas para pessoas pretas, pardas, ind\u00edgenas e quilombolas nos concursos p\u00fablicos federais, al\u00e9m de estender a pol\u00edtica \u00e0s contrata\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. J\u00e1 nas universidades e institutos federais, 50% das matr\u00edculas s\u00e3o destinadas a estudantes que cursaram integralmente o ensino m\u00e9dio em escolas p\u00fablicas, sendo as vagas distribu\u00eddas proporcionalmente \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de pretos, pardos, ind\u00edgenas e quilombolas na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ocorre que o sistema de cotas n\u00e3o resolve a origem do problema. Na pr\u00e1tica, funciona como um paliativo: n\u00e3o melhora a qualidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e busca compensar, no momento do ingresso ao ensino superior, desigualdades constru\u00eddas ao longo de toda a trajet\u00f3ria escolar. Em vez de atacar as causas da desigualdade educacional, a pol\u00edtica de cotas atua sobre seus efeitos, ampliando o acesso \u00e0 universidade sem corrigir as defici\u00eancias acumuladas durante anos de forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Portanto, embora as cotas raciais possam ampliar o acesso ao ensino superior e oferecer oportunidades a grupos historicamente exclu\u00eddos \u2013 conforme dados do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior, 35,83% dos universit\u00e1rios eram negros em 2018, comparado com 5,5% em 2005 \u2013, elas n\u00e3o atacam a principal causa da desigualdade educacional brasileira. Enquanto milh\u00f5es de crian\u00e7as permanecerem presas a um sistema de ensino b\u00e1sico de baixa qualidade, marcado por defici\u00eancias de gest\u00e3o, aprendizado insuficiente e profundas disparidades entre escolas p\u00fablicas e privadas, o &#8220;ch\u00e3o pegajoso&#8221; continuar\u00e1 limitando a mobilidade social.<\/p>\n<p>A verdadeira solu\u00e7\u00e3o para a desigualdade n\u00e3o est\u00e1 em corrigir suas consequ\u00eancias na universidade, mas em impedir que ela se forme desde a inf\u00e2ncia. Sem uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, as cotas continuar\u00e3o sendo uma medida compensat\u00f3ria necess\u00e1ria, por\u00e9m incapaz de romper, por si s\u00f3, o ciclo de pobreza, privil\u00e9gio e desigualdade que h\u00e1 s\u00e9culos caracteriza a sociedade brasileira.<\/p>\n<p><em><strong>Samuel Bonna <\/strong>\u00e9 coordenador do Instituto Atlantos, empreendedor e investidor.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desigualdade no Brasil n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. 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