{"id":488415,"date":"2026-06-13T05:01:00","date_gmt":"2026-06-13T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=488415"},"modified":"2026-06-13T05:01:00","modified_gmt":"2026-06-13T09:01:00","slug":"a-lacracao-no-cinema-virou-a-onda-do-momento-para-azar-do-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=488415","title":{"rendered":"A lacra\u00e7\u00e3o no cinema virou a onda do momento \u2013 para azar do p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O termo da moda \u00e9 lacra\u00e7\u00e3o, que, por sua vez, deriva do verbo lacrar, transitivo direto, que significa \u201caplicar lacre em; selar ou fechar com lacre\u201d. Como g\u00edria, ampla e vulgarmente utilizada no Brasil, lacra\u00e7\u00e3o foi concebida na internet, nas mais diversas redes sociais, para \u201cdescrever algu\u00e9m que se destacou, teve sucesso\/arrasou em alguma argumenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Com o transcurso de breve tempo, tendo em vista a brutal velocidade de \u201cmatura\u00e7\u00e3o\u201d, frequentemente duvidosa, de assuntos, temas e conceitos no mundo virtual, o termo lacra\u00e7\u00e3o passou a ter uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, destinada a pessoas que utilizam um determinado tema ou fato para se promover de alguma maneira.<\/p>\n<p>Pois bem. Busco evitar o uso desses termos, \u00e0 medida que o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua complexa e rica, com um vasto repert\u00f3rio que dispensa a necessidade da ado\u00e7\u00e3o de \u201cmodismos\u201d e, em certa medida, at\u00e9 inibe a inova\u00e7\u00e3o, estimulando o conhecimento mais profundo do idioma e de seus vern\u00e1culos.<\/p>\n<p>O caso em tela \u00e9 justamente um exemplo atual da lacra\u00e7\u00e3o, um movimento esdr\u00faxulo destinado a causar esp\u00e9cie e, de certa maneira, ferir a cultura e subverter os fatos, com base na inclus\u00e3o \u00e0s avessas. E, por meio desse pretexto, pode-se imaginar, ou at\u00e9 esperar, efeito contr\u00e1rio ao combate ao racismo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Independentemente de quem imita quem, a arte deve cumprir o seu papel: estimular a reflex\u00e3o e promover a compreens\u00e3o do mundo, sendo sempre fiel aos fatos, sem espa\u00e7o para &#8216;lacra\u00e7\u00e3o&#8217;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O presente texto foi inspirado no maravilhoso artigo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/thiago-braga\/nolan-e-sua-helena-de-troia\/\">Nolan e sua Helena de Troia<\/a>, escrito por Thiago Braga e publicado na <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, que aborda o filme <em>Odisseia<\/em>, do diretor brit\u00e2nico Christopher Nolan, como uma \u201cmaneira gananciosa\u201d para conquistar a estatueta do \u00d3scar.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o de <em>Odisseia<\/em>, dirigida por Nolan, escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong\u2019o. Antes que algum leitor apressado tente imaginar qualquer inten\u00e7\u00e3o diferente, ou at\u00e9 me acuse de racista, j\u00e1 deixo claro que se trata de uma bel\u00edssima atriz negra.<\/p>\n<p>O que nos leva a um lugar comum, entre o meu texto e o artigo de Thiago Braga, \u00e9 justamente a necessidade de causar impacto para se conquistar um pr\u00eamio, da forma mais maquiav\u00e9lica poss\u00edvel. O \u00d3scar deveria ser uma premia\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 arte, sem interfer\u00eancia de movimentos pol\u00edticos, como o da cultura woke.<\/p>\n<p>Por meio da cultura woke, com forte ades\u00e3o em Hollywood, a escolha de uma atriz negra para o papel de Helena refor\u00e7a a suspeita de que os fins justificam os meios. Ou seja, contrariando o objetivo de Fernando Pessoa, \u201ctudo vale a pena, se a alma n\u00e3o \u00e9 pequena\u201d. Nesse bel\u00edssimo poema, \u201cMar Portugu\u00eas\u201d, Pessoa enaltece os sacrif\u00edcios, os esfor\u00e7os e a bravura dos navegadores portugueses. E foi al\u00e9m, com poesia, para nos ensinar:<\/p>\n<p>\u201cQuem quer passar al\u00e9m do Bojador<\/p>\n<p>tem que passar al\u00e9m da dor.<\/p>\n<p>Deus ao mar o perigo e o abismo deu,<\/p>\n<p>mas nele \u00e9 que espelhou o c\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente com esse prop\u00f3sito que concordo com Thiago Braga. A vers\u00e3o de <em>Odisseia<\/em>, ao tentar emplacar uma atriz negra, n\u00e3o combate o racismo, nem \u00e9 inclusiva. \u00c9 apenas uma forma de chocar a plateia com o objetivo claro de conquistar o \u00d3scar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 criando um roteiro primoroso, rico em detalhes, com fundo musical estudado. Pode at\u00e9 ter tudo isso. Mas nos parece que busca o pr\u00eamio n\u00e3o pelo esfor\u00e7o em criar arte, mas pela ruptura dos padr\u00f5es \u00e9tnicos, travestida de inclus\u00e3o. Em \u00faltimo caso, sugere que tenta passar o Bojador sem dor.<\/p>\n<p><em>Odisseia<\/em> \u00e9 um poema grego que trata da epopeia do retorno de Odisseu, o her\u00f3i grego tamb\u00e9m conhecido por Ulisses, \u00e0 sua casa, na Ilha de \u00cdtaca, ap\u00f3s dez anos lutando na Guerra de Troia. Por sua vez, Helena, personagem mitol\u00f3gica grega, esposa de Menelau, era filha de Zeus e de Leda. Era notoriamente reconhecida por ser a mulher mais bela do mundo. Sua beleza era atribu\u00edda a uma heran\u00e7a divina, quase sobrenatural. Seu sequestro motivou a Guerra de Troia.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo de Helena, sendo fiel \u00e0 mitologia, aponta para uma mulher de porte alto, de faces rosadas, de \u201cbra\u00e7os brancos\u201d e \u201cbelas tran\u00e7as\u201d, como Homero a descrevia na <em>Il\u00edada<\/em>, em refer\u00eancia aos seus cabelos loiros. O filme de Nolan, ao escalar Lupita Nyong\u2019o para o papel de Helena, atende indiscutivelmente ao requisito de beleza. Mas rompe com os padr\u00f5es de etnia, subvertendo os fatos n\u00e3o em prol da luta contra o racismo.<\/p>\n<p>De maneira an\u00e1loga, seria o mesmo que escalar o ator Leonardo DiCaprio para representar Martin Luther King, ou Sharon Stone para fazer o papel de Gladys West, matem\u00e1tica negra americana considerada a m\u00e3e do GPS, cujo legado revolucionou a navega\u00e7\u00e3o global. N\u00e3o se trata de padr\u00f5es predefinidos de beleza. A cr\u00edtica diz respeito ao interesse escuso, utilizando como pano de fundo uma causa nobre: a luta contra o racismo.<\/p>\n<p>Refor\u00e7o a tese com alguns exemplos de not\u00f3rias mulheres negras que deixaram um legado para a humanidade, entre elas Wangari Maathai, professora do Qu\u00eania e primeira mulher africana a receber o Pr\u00eamio Nobel da Paz; Bessie Blount Griffin, respons\u00e1vel pelo desenvolvimento de pr\u00f3teses e de equipamentos para amputados no p\u00f3s-guerra; e Toni Morrison, primeira mulher negra americana vencedora do Pr\u00eamio Nobel de Literatura.<\/p>\n<p>O Brasil seria um terreno f\u00e9rtil para apresentar outros bons exemplos, sobretudo na m\u00fasica. Imaginem Pixinguinha sendo representado por Rodrigo Hilbert. Ou Dona Ivone Lara, a nossa eterna dama do samba, por Luana Piovani. Imaginem o que seria, para essas pessoas, um diretor usar seus legados para emplacar um filme e elevar o seu patrim\u00f4nio pessoal, subvertendo os fatos, com o simples e raso prop\u00f3sito financeiro. Pois bem, a cr\u00edtica tem in\u00edcio e fim nesse aspecto.<\/p>\n<p>\u201cA arte imita a vida\u201d, na vis\u00e3o de Arist\u00f3teles. \u201cA vida imita a arte\u201d, na vis\u00e3o de Oscar Wilde. Independentemente de quem imita quem, a arte deve cumprir o seu papel: estimular a reflex\u00e3o e promover a compreens\u00e3o do mundo, sendo sempre fiel aos fatos, sem espa\u00e7o para \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>Eurico Pincovsky <\/strong>\u00e9 economista, engenheiro mec\u00e2nico, p\u00f3s-graduado em Gerenciamento de Projetos, mestre e doutorando em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo da moda \u00e9 lacra\u00e7\u00e3o, que, por sua vez, deriva do verbo lacrar, transitivo direto, que significa \u201caplicar lacre&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":488416,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-488415","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/488415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=488415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/488415\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/488416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=488415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=488415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=488415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}