{"id":487433,"date":"2026-06-12T18:44:32","date_gmt":"2026-06-12T22:44:32","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=487433"},"modified":"2026-06-12T18:44:32","modified_gmt":"2026-06-12T22:44:32","slug":"rupturas-no-chavismo-fragilizam-regime-da-venezuela-e-podem-dar-folego-a-oposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=487433","title":{"rendered":"Rupturas no chavismo fragilizam regime da Venezuela e podem dar f\u00f4lego \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Cinco meses depois da captura do ditador Nicol\u00e1s Maduro pelos Estados Unidos, o chavismo enfrenta uma crise interna. A turbul\u00eancia atual tem sido alimentada por cr\u00edticas de representantes do movimento contra a l\u00edder interina Delcy Rodr\u00edguez, que vem sendo acusada por essas figuras de ceder demais diante da press\u00e3o constante de Washington. Essa crise ficou ainda mais exposta ap\u00f3s o exerc\u00edcio militar de 23 de maio, quando os EUA realizaram uma \u201csimula\u00e7\u00e3o de resposta militar\u201d em Caracas, com aeronaves do Corpo de Fuzileiros Navais pousando na sede da embaixada americana com aval do pr\u00f3prio regime interino de Delcy.<\/p>\n<p>Para analistas, a perda de unidade no chavismo pode tirar do regime venezuelano sua principal blindagem contra crises e abrir uma janela importante para que a oposi\u00e7\u00e3o pressione por elei\u00e7\u00f5es livres, embora tamb\u00e9m aumente o risco de rebeli\u00e3o por parte de grupos ainda leais ao madurismo.<\/p>\n<h2>O exerc\u00edcio militar<\/h2>\n<p>No \u00faltimo dia 23 de maio, for\u00e7as americanas realizaram em Caracas um amplo exerc\u00edcio militar que incluiu o sobrevoo da capital venezuelana por duas aeronaves MV-22 Osprey do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e o pouso delas na sede da embaixada americana. O exerc\u00edcio foi autorizado pelo regime interino de Delcy, mas foi fortemente criticado pela base chavista, que chegou a realizar protestos contra a atividade.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio contou com a presen\u00e7a do general Francis Donovan, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom), que acompanhou as manobras nessa que foi sua segunda visita oficial \u00e0 Venezuela desde 3 de janeiro, quando os EUA realizaram a opera\u00e7\u00e3o militar que capturou Maduro, hoje preso em Nova York e aguardando julgamento.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio militar foi o estopim de uma insatisfa\u00e7\u00e3o contra Delcy que j\u00e1 vinha crescendo no chavismo desde a queda de Maduro. Depois da atividade americana em Caracas, militantes e l\u00edderes do movimento decidiram romper o sil\u00eancio e passaram a criticar abertamente a lideran\u00e7a da ditadora interina. Alguns at\u00e9 chegaram a sugerir que a captura de Maduro s\u00f3 teria sido poss\u00edvel por uma suposta trai\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio regime.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o mais dura contra Delcy partiu da deputada Iris Varela, ex-ministra dos regimes de Hugo Ch\u00e1vez e Nicol\u00e1s Maduro. Em publica\u00e7\u00e3o na rede social X, ela criticou os Estados Unidos e rejeitou qualquer aproxima\u00e7\u00e3o da Venezuela com Washington. Em entrevista a um podcast citada pela ag\u00eancia <em>Associated Press (AP),<\/em> Varela tamb\u00e9m endossou a tese de trai\u00e7\u00e3o interna na captura de Maduro, recorrendo a uma analogia b\u00edblica: \u201cTodo Cristo tem um Judas\u201d.<\/p>\n<p>A chavista e ex-ministra de Ch\u00e1vez Mary Pili Hern\u00e1ndez tamb\u00e9m criticou a autoriza\u00e7\u00e3o de Delcy para a opera\u00e7\u00e3o americana. De acordo com o jornal venezuelano <em>El Nacional<\/em>, ela afirmou que nem nos per\u00edodos de melhor rela\u00e7\u00e3o entre Caracas e Washington um governo venezuelano havia permitido a presen\u00e7a de aeronaves militares dos EUA no territ\u00f3rio nacional. Em seguida, questionou se o pr\u00f3ximo passo seria aceitar uma base militar americana no pa\u00eds.<\/p>\n<h2>Aproxima\u00e7\u00e3o de Delcy com os EUA irrita os chavistas<\/h2>\n<p>Desde que assumiu como l\u00edder interina, Delcy Rodr\u00edguez viabilizou algumas mudan\u00e7as na Venezuela. Ela reabriu a ind\u00fastria petrol\u00edfera para o capital privado, com receitas sendo supervisionadas pelo governo do presidente Donald Trump, reatou la\u00e7os da Venezuela com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), promulgou uma anistia que libertou parte dos presos pol\u00edticos (embora a medida tenha sido criticada por \u00f3rg\u00e3os de direitos humanos por seu alcance limitado) e entregou aos Estados Unidos, em maio, o empres\u00e1rio Alex Saab, aliado pr\u00f3ximo de Maduro, que agora responde em territ\u00f3rio ameircano a investiga\u00e7\u00f5es criminais.<\/p>\n<p>Sob Delcy, as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre os EUA e a Venezuela, que ficaram rompidas por sete anos, tamb\u00e9m foram restabelecidas em mar\u00e7o e, em abril, voltaram os voos diretos entre Miami e Caracas. Os americanos tamb\u00e9m reabriram a embaixada em Caracas e diversos representantes da Casa Branca j\u00e1 visitaram o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para Marco Aurelio da Silva, professor de Com\u00e9rcio Exterior do Centro Universit\u00e1rio da Serra Ga\u00facha (FSG), as decis\u00f5es tomadas por Delcy nos \u00faltimos meses, que aproximaram a Venezuela dos EUA, atingiram o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d da identidade chavista.<\/p>\n<p>&#8220;O antiamericanismo e a ret\u00f3rica do inimigo externo foram o cimento ideol\u00f3gico do chavismo por mais de duas d\u00e9cadas. Ao autorizar exerc\u00edcios militares americanos em territ\u00f3rio venezuelano e chancelar a deporta\u00e7\u00e3o de Alex Saab para Miami, Delcy quebrou um tabu hist\u00f3rico&#8221;, disse o analista \u00e0 <strong>Gazeta do Povo.<\/strong><\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Marco Aurelio da Silva, para as bases mais radicais e os setores ideol\u00f3gicos do chavismo, as concess\u00f5es que j\u00e1 foram feitas por Delcy aos EUA &#8220;ultrapassam o pragmatismo e beiram a capitula\u00e7\u00e3o&#8221;. Isso, segundo ele, est\u00e1 rachando a unidade que sustentou o regime chavista nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>\u00a0\u201cA narrativa oficial tenta reconfigurar a sobreviv\u00eancia do regime por meio da estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas a perda da coes\u00e3o interna retira do regime a sua principal blindagem contra crises&#8221;, explica o analista.<\/p>\n<p>Andr\u00e9s Izarra, ex-ministro da Comunica\u00e7\u00e3o no regime de Ch\u00e1vez e do Turismo no de Maduro, atualmente rompido com o chavismo e exilado, afirmou ao portal argentino <em>Infobae<\/em> que as atuais divis\u00f5es internas no movimento n\u00e3o s\u00e3o motivadas apenas por diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas entre os participantes, mas por disputas de poder. Segundo ele, o chavismo perdeu seu projeto pol\u00edtico ap\u00f3s a morte de Ch\u00e1vez, em 2013, e passou a ser marcado apenas por uma disputa por cargos, influ\u00eancia e recursos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 simplesmente uma luta por poder, dinheiro, posi\u00e7\u00f5es e sobreviv\u00eancia\u201d, declarou.<\/p>\n<h2>Janela para a oposi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>\u00c9 justamente essa perda de coes\u00e3o dentro do chavismo que pode abrir uma rara oportunidade para a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana pressionar ainda mais por mudan\u00e7as concretas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cRegimes h\u00edbridos ou autorit\u00e1rios tornam-se altamente vulner\u00e1veis quando sua elite racha\u201d, lembra Marco Aurelio da Silva.<\/p>\n<p>Segundo o professor, se setores chavistas come\u00e7arem a abandonar de vez o regime interino, Delcy Rodr\u00edguez ter\u00e1 duas sa\u00eddas: buscar novas bases de apoio ou fazer concess\u00f5es para se manter no poder. Nesse cen\u00e1rio, afirma o analista, as for\u00e7as democr\u00e1ticas da oposi\u00e7\u00e3o podem ganhar espa\u00e7o para cobrar medidas como o fim das inelegibilidades pol\u00edticas e a reestrutura\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), base para a realiza\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n<p>A l\u00edder opositora Mar\u00eda Corina Machado, vencedora do Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2025, tem classificado o regime interino de Delcy Rodr\u00edguez como \u201cinsustent\u00e1vel\u201d e se colocado como a principal interlocutora da oposi\u00e7\u00e3o nas negocia\u00e7\u00f5es por uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na Venezuela.<\/p>\n<p>Para Marco Aurelio da Silva, a oposi\u00e7\u00e3o ainda depende de press\u00e3o externa para transformar a crise chavista em mudan\u00e7as concretas no pa\u00eds. Ele lembra que a anistia promulgada por Delcy devolveu alguma capacidade de articula\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as democr\u00e1ticas venezuelanas, mas ressalta que o Judici\u00e1rio e a engrenagem eleitoral continuam sob controle do chavismo.<\/p>\n<p>\u201cSem uma vigil\u00e2ncia estrita e san\u00e7\u00f5es condicionais mantidas por Washington e pela comunidade internacional, a oposi\u00e7\u00e3o corre o risco de ser usada apenas como um figurante leg\u00edtimo em um processo eleitoral desenhado para manter o novo arranjo governante no poder\u201d, alerta.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste m\u00eas, o secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em audi\u00eancia na C\u00e2mara dos Deputados que o governo Trump gostaria de ver elei\u00e7\u00f5es na Venezuela \u201co quanto antes\u201d, mas defendeu antes a cria\u00e7\u00e3o de uma nova comiss\u00e3o eleitoral, espa\u00e7o para os partidos se organizarem e imprensa independente para que o processo seja \u201cmultipartid\u00e1rio, livre e justo\u201d.<\/p>\n<h2>Divis\u00e3o no chavismo eleva risco de rebeli\u00e3o <\/h2>\n<p>Para Marco Aurelio da Silva, o \u201cracha\u201d no chavismo tamb\u00e9m eleva o risco de rea\u00e7\u00e3o interna contra Delcy, especialmente entre grupos que enriqueceram sob o regime de Maduro e podem se sentir amea\u00e7ados pelas concess\u00f5es feitas pela l\u00edder interina a Washington.<\/p>\n<p>Delcy reformulou, logo ap\u00f3s a queda de Maduro, o Minist\u00e9rio da Defesa da Venezuela e tamb\u00e9m mexeu no alto comando militar para reduzir os espa\u00e7os de influ\u00eancia dos setores ainda leais ao antigo ditador, segundo explica o analista. Mesmo assim, ainda existe um risco \u201clatente e elevado\u201d de rea\u00e7\u00e3o entre esses quadros, sobretudo militares que se sustentavam por meio de economias il\u00edcitas, de se voltarem contra a l\u00edder interina.<\/p>\n<p>\u201cSe esses setores perceberem que sua pr\u00f3pria imunidade ou sobreviv\u00eancia financeira est\u00e1 em risco devido \u00e0s concess\u00f5es de Delcy [aos EUA], tentativas de contragolpe ou motins localizados n\u00e3o podem ser descartados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No curto prazo, analistas avaliam que a crise em curso pode terminar em um rearranjo interno de poder. Em vez de uma ruptura imediata, a c\u00fapula do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o partido chavista, tentaria substituir figuras de lideran\u00e7a, conter os grupos descontentes e vender ao exterior a imagem de um chavismo mais moderado.<\/p>\n<p>Contudo, Marco Aurelio da Silva avalia que a tentativa de reorganizar o chavismo por dentro pode ter efeito contr\u00e1rio. Se a insatisfa\u00e7\u00e3o das bases chavistas e de militares de m\u00e9dio escal\u00e3o se converter em uma rebeli\u00e3o aberta contra Delcy, a crise deixaria de ser apenas uma disputa interna e poderia abrir uma brecha inesperada para a oposi\u00e7\u00e3o pressionar por uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinco meses depois da captura do ditador Nicol\u00e1s Maduro pelos Estados Unidos, o chavismo enfrenta uma crise interna. 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